Atenção
COMTE-SPONVILLE, André. Dictionnaire Amoureux de Montaigne. 1st ed ed. Québec: Librairie Plon, 2020.
1. A resposta de Swami Prajnanpad a uma religiosa católica, segundo a qual rezar sem cessar significa permanecer presente ao que é, evoca Simone Weil, para quem a atenção absolutamente sem mistura é oração, e sobretudo o zazen dos mestres zen, exercício de atenção pura sem juízos de valor, interpretação, cobiça, discurso nem expectativa, raro nas orações comuns, cheias de palavras, súplicas, esperanças e temores, mas próximo da oração de quietude cristã, com a diferença de que os cristãos a dirigem a Deus e os mestres zen a qualquer coisa, pois, como diz Bobin, uma onça de real puro basta a quem sabe ver.
2. A observação de Claude Capelier de que, enquanto a maioria dos filósofos precisa de desvios para atingir o real, Montaigne suprime os desvios para ficar em contato direto com a vida tal como é, não sendo especulativo, descritivo nem prescritivo, mas simplesmente atento, justifica uma entrada sobre a atenção, ausente do Dicionário de Michel de Montaigne, palavra nem rara nem frequente nos Ensaios, mas que caracteriza talvez a parte mais singular de sua empresa.
3. A longa atenção que Montaigne emprega em considerar-se é o projeto mesmo dos Ensaios, mas a mais sadia atenção dirige-se também aos fatos singulares sem ideias preconcebidas, às objeções, que despertam sua atenção e não sua cólera, e a qualquer ação, por mais fútil, que se queira fazer bem e com prazer, como mostra o louvor a Epaminondas, que dançava, cantava e tocava com atenção sem que isso diminuísse a honra de suas vitórias.
4. Quando dança, Montaigne dança, quando dorme, dorme, e, passeando sozinho num belo pomar, se os pensamentos se distraem com outras coisas, reconduz-los ao passeio, ao pomar, à doçura da solidão e a si mesmo.
5. Trata-se de uma sabedoria da atenção livre, aberta e disponível, sabedoria da ação e em ato, para a qual filosofar é pensar a própria vida, mas não necessariamente viver o próprio pensamento, pois a vida é mais preciosa, verdadeira e imprevisível que o pensamento, sendo absurdo concebê-la antes de vivê-la, e as doutrinas devem servir apenas de alimento à curiosidade, já que os sistemas são falsos, vãos e mentirosos, e ter sempre uma ideia de antemão é apenas um preconceito, ainda que caseiro.
6. As ideias não são inúteis nem dispensáveis, mas é muito mais interessante descobrir as que surgem dia a dia ao acaso de uma leitura ou conversa, segui-las, testá-las e ensaiá-las, pensando ao natural como o pintor, improvisando aos saltos como o músico, conferenciando, exercício mais frutuoso do espírito, ou viajando e passeando por prazer e em breves etapas, sem certezas nem grandes esperanças.
7. As ideias não passam de desvios que não podem substituir o real, a vida e o devir que as contêm e que elas visam, pois todo nome é comum, até o próprio, já que os indivíduos não cessam de mudar, enquanto todo real e todo acontecimento são singulares e dessemelhantes, prova de que o discurso, a razão e o logos não são tudo nem o essencial.
8. Isso faz de Montaigne, que preferia o passeio a cavalo à meditação imóvel, uma espécie de mestre zen no Ocidente, que escolheu meditar a vida em vez de proteger-se dela com conceitos e sistemas, recusando tomar por moeda corrente as Ideias de Platão, os Números de Pitágoras ou os Átomos de Epicuro e preferindo examinar, confrontar, discutir, experimentar, viajar e observar, ser atento em vez de crer, filósofo mais impremeditado, espontâneo, vivo, livre e autêntico, verdadeiro à maneira de uma existência e não de uma ideia.
