User Tools

Site Tools


bleicher:hermeneutica:hermeneutica-materialista

Hermenêutica Materialista

BLEICHER, Josef. Contemporary hermeneutics: hermeneutics as method, philosophy and critique. London: Routledge, 1990.

  • A base idealista da hermenêutica tradicional provocou duas formas de resposta dos teóricos marxistas: o desenvolvimento de uma hermenêutica crítica, que reconhece a necessidade de considerar as intenções subjetivas dentro de uma totalidade da existência social caracterizada pelo nível de desenvolvimento econômico e pelas formas de dominação política, e uma segunda vertente que incluiria a hermenêutica crítica sob a rubrica de 'idealismo' e 'ideologia burguesa'.
  • Para a hermenêutica crítica, a autoconcepção idealista de uma troca irrestrita de significado é, na melhor das hipóteses, a antecipação de um verdadeiro estado da existência humana ainda a ser realizado, e a suposição de que esse estado já prevalece, que fundamenta as metodologias objetivista-idealistas, é, em qualquer caso, ideologicamente suspeita.
  • Sandkuhler, um marxista-leninista, procura 'alternativas reais como já são realizadas nas sociedades socializadas' para concretizar a utopia da comunicação livre de dominação, e o que ele encontra como modelo dessa utopia é a psicanálise.
  • Sandkuhler rejeita o esquema a-histórico de Freud de uma estrutura pulsional imutável e, com ele, a psicanálise como terapia, que ele vê como tendo o objetivo de reintegrar o paciente na sociedade doente que é a causa de sua queixa, enquanto Lorenzer se moveu em direção à formulação da psicanálise como uma teoria materialista da socialização que empregaria uma hermenêutica 'materialista' como seu método.

Lorenzer: hermenêutica 'materialista' e psicanálise

  • Lorenzer, como Habermas, usa a psicanálise como um modelo para uma 'teoria crítica do sujeito', mas enquanto este último se baseia na metafísica freudiana ortodoxa como um passo em direção a uma teoria da comunicação, Lorenzer pretende injetar uma dimensão histórica na psicanálise, que é assim transformada em uma 'teoria materialista da socialização'.
  • Como teoria da interação, a psicanálise se ocupa especificamente de estruturas de interação que são distorcidas e, consequentemente, geram sofrimento nos indivíduos afetados, e Habermas já delineou o método da 'compreensão cênica' usado para a reintrodução do significado privatizado na linguagem pública.
  • A concepção do surgimento das neuroses subjacente a essa visão contém o argumento de que o processo de socialização é dialético, e entre os dois polos representados pela 'natureza interna' da criança e a satisfação que sua mãe pode oferecer, desenvolvem-se certas formas de interação que são inicialmente estabelecidas inconscientemente.
  • Quando a criança adquire a capacidade de usar a linguagem, ela pode atribuir predicados a certas interações, e em condições ideais existirá uma congruência entre as necessidades da criança que encontraram satisfação em determinadas formas de interação e a maneira como ela as comunica.
  • Se surgirem conflitos insolúveis devido a barreiras externas, como o sistema societal de normas, o único caminho pode ser a retirada do símbolo linguístico que representa a interação socialmente indesejada, o que permite que a forma de interação retorne a um estado pré-linguístico, mas sem perder sua força motivadora e adquirindo o caráter compulsivo de reações não reflexivas.
  • A linguagem pública pode ser adequada para camuflar a área que antes era ocupada pela representação simbólica banida, o que é chamado de 'racionalização', mas a persistência e a atualização intermitente da forma de interação 'dessimbolizada' podem entrar em conflito com a nova definição publicamente aceitável a ponto de causar o sofrimento conhecido como 'neurose'.
  • É tarefa do psicanalista reintroduzir a forma de interação excomungada na linguagem pública, e no curso desse processo, no qual o analista ganha acesso à estrutura de interação através da 'compreensão cênica', o analisando pode aceitar a forma de interação interpretada como um fragmento perdido de sua própria história de vida e reconhecer conscientemente seu significado pretendido e a gênese de sua repressão original inconsciente.
  • No que diz respeito à hermenêutica 'materialista' de Lorenzer, as estruturas subjetivas são produtos do processo prático-dialético de socialização, uma dialética que medeia a 'natureza interna' da criança com a 'natureza externa' de seu ambiente, e a interação entre mãe e criança que emerge nessa relação dialética necessariamente carregará traços das contradições sociais que entram na estrutura subjetiva da criança através das práticas socializantes da mãe.
  • A psicanálise pode ser considerada uma hermenêutica 'materialista' na medida em que o significado objetivado em formas incompreensíveis de comportamento não é visto como uma emanação de uma consciência autônoma, mas como o resultado de uma forma de interação na qual as necessidades materiais de um corpo em desenvolvimento e o metabolismo sócio-prático material do homem e da natureza em sua forma histórico-concreta encontram expressão.
  • As estruturas subjetivas de um indivíduo, objeto da psicanálise, não são algo determinado a-historicamente, mas são o resultado de um processo histórico, e teorias definitivamente formuladas da personalidade levam à reificação de processos dialéticos.
  • A psicanálise, concebida como uma teoria da interação, analisa a ocorrência de formas distorcidas de interação e, como uma forma materialista de interpretação crítico-hermenêutica, é dirigida a estruturas relacionais objetivamente determinadas, que são o produto do processo dialético de socialização.
  • Lorenzer desenvolve convincentemente a psicanálise como uma ciência social partindo da visão de Freud de que o tipo de doença com que ela lida deve ser visto como um conflito entre a natureza e as normas sociais, e a base materialista-naturalista de tal ciência é garantida por sua ênfase na estrutura pulsional.
  • Lorenzer não tenta uma nova síntese de Marx e Freud, mas meramente esclarecer o status de uma 'teoria crítica do sujeito' dentro de uma crítica dirigida à totalidade da vida social, e o ponto onde ambos os quadros teóricos se intersectam é definido pelos respectivos conceitos de 'forma de intercâmbio social' e 'forma determinada de interação'.
  • É um pré-requisito para uma relação frutífera entre a psicanálise e o materialismo histórico que a primeira abandone sua abordagem 'subjetivista' que abstrai da totalidade histórica e rompa o véu da teoria reificada da personalidade por meio da categoria de 'forma de interação', enquanto a teorização marxista seria igualmente obrigada a abandonar as tendências objetivistas aparentes em desenvolvimentos recentes.
  • Lorenzer insiste que apenas no conceito de sujeito a dialética entre indivíduo e sociedade pode ser pensada concretamente, e a subjetividade do estruturalismo está na base de sua a-historicidade e remove o ponto em que o indivíduo é concretamente mediado com esta sociedade.
  • As observações de Lorenzer fornecem uma ponte conveniente para sua crítica ao 'subjetivismo' de Habermas, que não se refere ao conceito de 'reflexão', mas sim à concepção de Habermas da metafísica como uma teoria da subjetividade na qual o sujeito é mantido no nível de estruturas reificadas.
  • É a falta do momento da 'objetividade - ou concreticidade histórico-material representada pela dialética prática entre a natureza interna e externa' que leva Lorenzer a chamar essa abordagem de 'subjetivista', e essa dependência de um subestrato a-histórico na constituição de um indivíduo é evidente mesmo no que pareceria ser o momento objetivo-materialista no esquema de Habermas.
  • Lorenzer considera a fusão de trabalho, linguagem e dominação mantida por um conceito de subjetividade que mantém um vínculo abstrato com a base material, e a separação entre trabalho e interação é duvidosa, pois nenhuma atividade humana pode ser concebida senão como um 'processamento produtivo' dentro do contexto das relações sociais.
  • Lorenzer considera igualmente inaceitável a fusão de interação e comunicação, pois isso separa a interação do conceito de práxis e bloqueia a visão do mecanismo da constituição prática das estruturas subjetivas no campo de tensão da interação histórico-concreta entre a natureza externa e interna.

A 'hermenêutica materialista' de Sandkuhler

  • A concepção de Lorenzer de uma hermenêutica 'materialista' permaneceu dentro do quadro de uma teoria da interpretação do significado simbólico e, portanto, no nível da comunicação e interação linguística, sendo tornada 'materialista' por uma reformulação da metafísica freudiana, enquanto para Sandkuhler, a eficácia das contradições sociais no processo de criação intelectual é o ponto de partida de sua análise.
  • Sandkuhler afirma que hermenêutica e marxismo são conceitos de níveis classificatórios diferentes, que a hermenêutica como metodologia das Geisteswissenschaften exclui a 'totalidade social' a priori, e que o marxismo é ex definitione também uma teoria da experiência individual, e sua 'hermenêutica materialista' não pretende levar à revisão de elementos teóricos essenciais do marxismo.
  • Sandkuhler considera a 'hermenêutica materialista' como um subsistema científico da dialética materialista, cujo objeto é a 'reprodução intelectual da práxis histórica', e como modelo para essa ciência ele se refere à Crítica da Economia Política de Marx.
  • A hermenêutica materialista atende à reflexão intelectual da história real encontrada em fontes históricas e as 'interpreta' reconstruindo o processo de sua criação, não sendo mais sua tarefa repensar o que foi pensado antes, pois está ciente da não identidade do objeto e do sujeito.
  • A existência da 'falsa consciência' requer uma explicação sobre as condições materiais de seu surgimento, e como parte do instrumentário da crítica da ideologia, a hermenêutica materialista não visa a investigação da formulação categórica do conhecimento sócio-histórico, mas tem como objeto a análise da gênese do conhecimento a partir da existência social.
  • Teoria da reflexão do conhecimento como suporte epistemológico da hermenêutica materialista: Sandkuhler responde à questão de como a não identidade do intérprete e do objeto pode ser superada referindo-se ao uso da 'análise histórico-lógica da legalidade do processo de cognição dentro do processo da práxis', ou seja, a compreensão hermenêutica ocorre como a reconstrução dialética da gênese de seu objeto.
  • A hermenêutica materialista explicita o conteúdo de documentos escritos de acordo com 'a gênese histórico-material da linguagem como uma função da apropriação da realidade', baseando-se nos resultados da economia política, da epistemologia dialética, do historicismo materialista e da crítica da ideologia.
  • Sandkuhler adere à teoria da 'reflexão' ou 'cópia' do conhecimento de Lenin, que considera o conteúdo da consciência como copiando uma realidade que existe independentemente dela, uma epistemologia enfaticamente materialista que afirma a primazia da 'matéria' sobre o 'espírito'.
  • Embora essa epistemologia se oponha à concepção idealista de uma imanência 'puramente mental' na relação entre sujeito e objeto, é difícil ver em que sentido ela consegue superar a 'mecanização indialética' das concepções deterministas.
  • Sandkuhler está agudamente ciente do perigo do reducionismo simplista e deposita grandes esperanças em uma teoria da personalidade que faça justiça à estrutura complexa da determinação da reflexão como a transformação de algo material em algo intelectual, citando o trabalho de Lucien Seve.
  • A distinção entre a forma histórica da individualidade e a personalidade concreta, biológica e psicologicamente concreta, permitiria, na visão de Sandkuhler, investigar essa personalidade em sua dinâmica específica, que é o último passo necessário na reconstrução dos determinantes da reflexão.
  • A concepção da hermenêutica materialista como 'uma ciência empírica do texto que transfere o método do materialismo histórico e dialético para seu campo de estudo' não ajuda a resolver as questões em torno da interpretação do significado.
  • O reconhecimento de que, como um 'órgão' da crítica dos elementos superestruturais, a hermenêutica materialista está ela própria sujeita 'às leis da formação de ideologias' poderia ser visto como um desenvolvimento do insight sobre a 'estrutura pré-julgadora da compreensão', mas nela qualquer revisão dos próprios 'preconceitos' no curso da compreensão de um texto não é considerada necessária.
  • A hermenêutica materialista formulada por Sandkuhler como uma 'prolegômena' ainda tem que alcançar a formulação do problema da interpretação de Dilthey e pode, em última análise, estar fadada ao fracasso, como todas as 'sínteses' não idealistas em que um corpo de conhecimento é meramente sobreposto a outro.
bleicher/hermeneutica/hermeneutica-materialista.txt · Last modified: by 127.0.0.1

Except where otherwise noted, content on this wiki is licensed under the following license: Public Domain
Public Domain Donate Powered by PHP Valid HTML5 Valid CSS Driven by DokuWiki