COSMOS DE BAUDELAIRE (1) (Hermès)
Cahiers d'Hermès, publiés sous la direction de Rolland de Renéville. Paris : La Colombe, Éditions du Vieux Colombier, 1947
Há meio século, as diversas confissões e filosofias disputam a obra de Charles Baudelaire não menos avidamente que as capelas literárias que se sucederam desde Arthur Rimbaud. Embora o espetáculo de suas inquietações morais e religiosas devesse levar os críticos a uma absoluta sinceridade, a uma impiedosa objetividade, o impulso das ideias e, mais ainda, o fervor religioso e a paixão filosófica os levaram a estender a toda a obra baudelairiana conclusões que por vezes só se aplicavam a uma de suas partes. M. Blin foi o primeiro a reagir contra essa atitude intolerante. E embora não se possa crer que o poeta das Flores do Mal tenha sido o receptáculo de todas as influências, não se pode negar que ele sofreu influências muito diversas e inconciliáveis. Não foi com a frivolidade do esteta que nele se quis reconhecer, mas com o escrúpulo e o ceticismo de um espírito sedento de saber e de exatidão — justamente em um domínio onde ambos nos são proibidos — que ele tentou, por sua vez, os caminhos mais diversos, retrocedendo ou mudando subitamente de direção. O católico que ele é por nascimento nunca morreu inteiramente nele; e não se crê que se possa interpretar saudavelmente um poema como Bênção sem situá-lo no quadro de um cristianismo puro de toda heresia.
Não se deve hesitar, creio, se não se quer recair na confusão, em fazer essa primeira distinção na obra e no pensamento de Charles Baudelaire, entre momentos — raros e breves, é verdade — de impulso para a fé católica de sua mãe, e as longas e inquietas meditações sobre uma gênese esotérica e fins gnósticos. Mesmo feita essa distinção, estamos longe de encontrar uma perfeita uniformidade nas ideias do poeta. Sabemos, por suas leituras, que ele estudou sobretudo a escola platônica e Swedenborg: da primeira para o segundo, a passagem é quase impossível fora de uma crença na redenção pela intermediação de um divino Mediador; mas essa ideia de redenção quase sempre falta na obra baudelairiana. Disse alhures [^O Deus de Baudelaire (Éd. Savel, 19/17). Só posso remeter a esse livro para o desenvolvimento da maioria dos pontos que mencionarei nestas páginas, especialmente para a questão da irreversibilidade, ponto de partida da metafísica baudelairiana] por que a ideia da irreversibilidade da falta que Baudelaire proclama, longe de manter um mal-estar e levar a um impasse, como sustenta M. Blin, implica uma atitude corajosa, recomendada por certas filosofias antigas e orientais. O “resgate” das faltas não significava nada, aliás, para o poeta, pois ele tinha do pecado original uma concepção heterodoxa que creio ter elucidado com base na famosa carta a Toussenel e nas meditações de Baudelaire sobre a queda, pedra angular, talvez, de todo seu sistema metafísico.
Pois quando Baudelaire pergunta, em Mon cœur mis à nu:
O que é a queda? Se é a unidade tornada dualidade, é Deus que caiu. Em outras palavras, a Criação não seria a queda de Deus?
ele situa a ideia de pecado original — e suas consequências: a origem e os fins últimos da humanidade — em um plano não-cristão e muito próximo das doutrinas pitagóricas. Ao contrário de um Vigny, por exemplo, ele tende assim, como veremos, a um monismo absoluto onde “Deus profere o mundo como uma complexa e indivisível totalidade”, fórmula cujas múltiplas e profundas ressonâncias encontraremos em breve.
Pois, o que é Satanás para o autor de O Alquimista? Ele é exterior ao homem, como poderia sugerir esta pergunta do poeta: “Entregar-se a Satanás, o que é isso?” Satanás, para ele, paralisa a vontade do homem, reduz sua “escolha”. “Em nossos cérebros farreia um povo de Demônios” que nos fazem cumprir, sem o sabermos, suas vontades mais absurdas. Nossa vontade é “vaporizada” por Satanás; é ele, “é o Diabo que segura os fios que nos movem”, e que “embala longamente nosso espírito encantado”. Somos de certa forma atravessados pelo influxo do mal, durante toda a vida terrestre.
Isso significa que o influxo demoníaco tem uma existência própria fora de nós? “Os Satanás têm formas de animais”, afirma ainda Baudelaire. Mas paralelamente ele fala da “ignominiosa coleção de nossos vícios” que certos animais simbolizam. Em sua Mystique de Baudelaire, M. Jean Pommier mostrou em Lavater, Fourier e Toussenel as fontes imediatas dessa emblemática dos vícios. Ele conclui que, no pensamento do poeta, essa especulação era “algo bastante diferente da metempsicose das Contemplações”.
Ora, Baudelaire coloca assim o problema do mal: “A moral se reergueu? Não, é que a energia do mal diminuiu.” A energia do mal, força abstrata e imanente, como uma inervação do ser. Dessa “energia do mal” Baudelaire nos dá, em frontispício às Flores, um sinônimo inesperado: Satanás Trismegisto. O qualificativo, como se pode imaginar, não foi escolhido ao acaso. Sabe-se que ele é indissoluvelmente ligado a Hermes alexandrino. Baudelaire não o ignorava; sua Alquimia da Dor provaria, se necessário, que ele conhecia perfeitamente os atributos de Hermes. Convém, portanto, prestar atenção especial a esta estrofe do aviso ao leitor:
Sobre o travesseiro do mal, é Satanás Trismegisto
Que embala longamente nosso espírito encantado;
E o rico metal de nossa vontade
É todo vaporizado por esse sábio químico.
Hermes, cujas funções de deus da fecundidade cantam os Hinos homéricos, personificação do desejo, recebe como parte, na Odisseia, a vara do mago pela qual encanta o homem vivo e morto. Na Teogonia hesiodiana mais sutil, ele dota Pandora da mensagem sedutora. Na época tardia, ele se tornará o inventor de todas as artes, a personificação da onisciência, e Três Vezes Grande (Trismegisto).
Esse Hermes Trismegisto que opera como “alquimista da dor” em Baudelaire é definido pelos alexandrinos como o logos personificado, portanto o aspecto ativo, atributo não independente do Criador. São Justino, explicando aos gregos a religião de Jesus, dirá: “Chamamos Jesus Cristo de logos; aplicamos a ele a denominação que vocês dão a Hermes.” Ele não tinha, portanto, qualidade demiúrgica, nem existência própria, independente de Deus.
Tudo isso é demasiado conhecido para ter escapado ao poeta das Flores e para não esclarecer o papel que em sua obra ele atribuiu a Satanás. Trismegisto, é a vontade criadora ativa do Ser, o conhecimento do formal, do finito, do real. Por isso tudo o que participa dele se torna insaciavelmente ávido do obscuro e do incerto, como diz Baudelaire em Horror Simpático, torna-se desejo de buscar o mundo formal.
Estamos longe da noção bíblica do Tentador originado de Deus, mas não mais aspecto de Deus, criando o mal, mas estranho à criação do homem; longe também do demônio demiúrgico dos maniqueus coeterno ao Deus bom, portanto independente dele. Nas duas concepções, o demônio é exterior ao homem. Em Baudelaire, ao contrário, Satanás não é heterogêneo, mas consubstancial ao homem. Ele não é propriamente criado, nem causado, nem causa de si; ele é uma qualidade do Ser, é a “postulação para Satanás”, uma qualidade inerente à alma que é afetada por ela desde toda a eternidade na ordem cósmica.
E isso coloca cumulativamente a questão da responsabilidade do homem e a da origem da criação. Queda e criação são duas consequências interdependentes de uma ordem pré-estabelecida. Por isso o valor imutável, inelutável do destino é tão esmagador na obra de Baudelaire. Disse: consequências interdependentes; pois se o homem não tem, na origem, nenhuma revolta a se reprovar (contrariamente à tese martinista), mas se sofre as consequências de uma escolha que lhe foi proposta desde toda a eternidade, sua queda, levando ao nascimento de pelo menos parte do mundo formal, assume um aspecto demiúrgico; ele se torna involuntariamente causa de si. O pretenso maniqueísmo de Baudelaire contribui assim para a elaboração de um monismo absoluto.
