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abellio:se-69-81-les-deux-attitudes-de-lesoterisme-moderne

DUAS ATITUDES DO ESOTERISMO MODERNO

Ensaio de Raymond Abellio, no livro de Paul Serant, « Au seuil de l'ésotérisme ». Grasset, 1955. ORIGINAL

  • A revolução husserliana representa para o Ocidente uma renovação radical no estudo dos fundamentos científicos e no exercício das potências do espírito, comparável em importância à revolução cartesiana e galileana, cujo sentido ela ao mesmo tempo consuma e subverte.
    • A fenomenologia husserliana recusa inscrição linear na sequência das ciências e filosofias europeias, apresentando-se como retorno reflexivo sobre elas, à maneira de uma ciência das ciências e filosofia das filosofias.
    • Ao contrário de Descartes, que aceitava a evidência da experiência natural, Husserl a recusa, exigindo uma ascese intelectual mais extensa e tornando seus efeitos mais lentos.
    • O esoterismo contemporâneo, impulsionado por René Guenon, ainda não se deixou penetrar pelos métodos da fenomenologia transcendental e mantém em relação a toda filosofia ocidental uma desconfiança injustificada.
  • Há profunda convergência entre os ensinamentos da Tradição e os resultados da fenomenologia husserliana, especialmente na relação entre o Eu transcendental, o homem interior de são Paulo e o Atman dos vedantistas.
    • A fenomenologia, ao conferir à estrutura da visão absoluta valor de fundamento ontológico único, ilumina por dentro dogmas tradicionais como o dos seis dias e estruturas como as dos tarós de Hermes e do alfabeto hebraico.
    • As demonstrações necessárias a esse respeito constituem objeto da coleção Correspondances, não cabendo desenvolvê-las na introdução.
  • O espírito em que são conduzidas as pesquisas esotéricas reclama revisão estrita, pois o esoterismo dito tradicional, a despeito das boas intenções declaradas, apresenta-se publicamente sobretudo como um requisitório contra o mundo e a ciência modernos.
    • René Guenon, já no prefácio de O Reino da Quantidade e os Sinais dos Tempos, reconhece que tudo na manifestação pertence ao plano de Deus e possui sentido positivo, princípio que o próprio esoterismo tradicional não aplica.
    • Em vez de elucidar o sentido de todas as coisas, inclusive as aparentemente aberrantes, o esoterismo guénoniano transforma-se em longo panfleto e emite sobre o Ocidente e suas doutrinas um anátema puro e simples.
    • Ao criar adversários e combatê-los em seu próprio terreno, o esoterismo deixa crer que pode ter adversários, renunciando ao campo que lhe é próprio, onde todo polo de estrutura torna-se aliado na interdependência universal.
    • A razão profunda dessa atitude polêmica reside na não conversão do objetivismo ingênuo e na incapacidade de tratar a intersubjetividade como fundamento real.
  • A polêmica sobre o sentido da polêmica exige autocrítica, mas essa precaução torna-se progressivamente supérflua à medida que os poderes interiores transfiguram todo instrumento exterior e a doutrina da transfiguração passa a ser vivida e encarnada.
    • Em Guenon, como em todo esoterista, impõe-se distinguir negatividade e positividade, tarefa de longa duração que não comporta execução abrupta.
    • O ensaio de Paul Sérant, que segue a introdução, é de inspiração muito mais guénoniana do que husserliana, apresentando-se como testemunho de um estado provisório da consciência moderna diante de um esoterismo em pleno movimento.
    • Sérant opõe sociedades tradicionais e sociedade moderna de modo linear, sem considerar que os vícios e as coerções da sociedade atual são condição necessária de uma tomada de consciência mais alta da própria Tradição.
    • Guenon mantém a iniciação prisioneira de um formalismo ritualista e o discute formalmente, sem examinar sua substância; Sérant deixa o problema aberto, mas não eleva a contemplação ao paroxismo da meditação, o que impede que o conhecimento comunique seus poderes e que o diálogo com o não-esoterista se estabeleça.
    • O problema do progresso não reclama juízo de valor que implique escolha entre progresso e Tradição, mas situação dos campos respectivos da técnica e da gnose e demonstração de como se integram mutuamente, cada um insubstituível em sua ordem.
  • Duas vias de acesso ao esoterismo se apresentam hoje como possíveis, sendo a primeira a trilhada por Guenon ao recuperar os ensinamentos dos Antigos, especialmente os da Índia, e propô-los aos ocidentais assinalando o caráter não tradicional, perigoso ou ilusório da ciência e da filosofia ocidentais.
    • Guenon fecha os problemas enquanto Husserl os abre; a Bhagavad-Gita permanece obra admirável de prodigioso poder de conversão, e as análises guénonianas trouxeram rigor indispensável ao amontoado ocultista do século XIX, mas isso não basta.
    • Guenon cessou rapidamente de se interessar pelas preocupações fundamentais dos pesquisadores ocidentais, ignorando Husserl, Hilbert e o grande debate moderno sobre intuicionismo e formalismo.
    • Isolado do Ocidente realmente vivo, Guenon tentou convertê-lo de fora, e essa conversão ficou marcada por um literalismo e um ritualismo que contradizem desde Descartes o gênio do Ocidente.
    • A segunda via desenha-se do interior do próprio Ocidente para aqueles que vivem a crise das ciências e das filosofias e a esgotam pelo próprio paroxismo, buscando não contestar os produtos da ciência, mas elucidar positivamente seus fundamentos.
    • Para esses, o conhecimento da Tradição precisa ser fundido na matéria da experiência particular de ocidentais, e tudo anuncia que a Tradição, iluminada por dentro, receberá a expressão nova mais adaptada ao poder de conversão que deve exercer na futura Pentecostes.
  • A mais alta nobreza intelectual consiste em se dedicar à convergência das duas vias numa síntese sem a qual não haverá real reconstituição da Tradição.
    • O que perturba nos Vedas não é seu conteúdo sublime, mas o fato de chegarem como um dado; a aspiração é a de escrever textos sagrados próprios, o que torna insuficiente a pura exegese vedântica.
    • Os seguidores da atitude guénoniana assumem cada vez mais a figura de exegetas, e sua negação do Ocidente os separa progressivamente de uma problemática ocidental que não se reduz à superstição da quantidade.
    • O problema vivido pelos casais europeus modernos, marcado pela virilização rápida das mulheres e pela feminização rápida dos homens e pela inversão dessa inversão, é exemplo de questão especificamente europeia que os textos tântricos aludem sem que os tradicionalistas saibam reconhecê-la como crucificante.
  • A coleção Correspondances coloca-se diante da necessidade de uma síntese de grande dificuldade, que vai da apresentação literal de um texto tradicional até a reconstituição fenomenológica do simbolismo, passando pelo recenseamento e pela organização objetiva das estruturas psicanalíticas.
    • Apresentar uma metodologia do esoterismo que desemboque na demonstração de que é preciso abolir o esoterismo constitui tentativa paradoxal cujo sentido só poderá ser compreendido retrospectivamente, ao cabo da experiência de cada um.
    • Os primeiros volumes, limitados ao recenseamento de estruturas parciais, arriscam-se a parecer excessivamente empiristas, mas correspondem a uma fase necessária do movimento dialético de conjunto.
    • O exame dos problemas de metodologia, que relativiza o alcance dos recenseamentos objetivos, exige do filósofo uma conversão intelectual prévia que ainda separa as duas funções em vez de integrá-las.
    • O esoterismo não pode mais contentar-se em demarcar-se das novas disciplinas como a psicanálise, a astrologia, a parapsicologia e a sociologia, que lhe tomam o vocabulário e apelam à sua interpretação dos ritos e mitos.
    • O esoterismo integrará o método e os resultados fenomenológicos ou será reduzido a puro dogmatismo exegético; se os integrar genuinamente, fornecerá à astrologia, à parapsicologia e às psicanálises os fundamentos que ainda lhes faltam.
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