AS MATEMÁTICAS
O movimento da matemática implica certamente um progresso, nem que seja apenas no poder de abstração, mas trata-se de saber se esse progresso não se situa, afinal, no polo inferior, no elementar, na multiplicidade e, sobretudo, na repetição, como o da menina do cinema, que integra espontaneamente detalhes, mas detalhes muito materiais e dos quais é importante notar que se situam no nível do lugar-comum. Assim, fabricam-se seres de trabalho da quarta casta e não seres de conhecimento da primeira. O que me impede de reconhecer ao movimento da matemática o direito de significar um progresso absoluto é que a matemática continua e continuará sempre sendo uma técnica, necessariamente comprometida, como tal, com o múltiplo e o material, e que a consciência à qual ela apela, como a consciência dessa menina, ainda é a consciência “natural”, e não a consciência “transcendental”. No outro extremo, vejo, por minha parte, modos de comunicação menos democratizados e nada tecnicizados, que implicariam entre você e eu, por exemplo, uma cumplicidade mais seletiva. Mas então o gravador entre nós seria supérfluo. Uma comunicação pelo olhar ou mesmo pela simples presença. Uma certa qualidade do silêncio. Então, realmente, os livros seriam inúteis, e também as imagens…
(Raymond Abellio de la politique à la Gnose. Entretiens avec Marie-Thérèse de Brosses. Paris: Pierre Belfond, 1987)
