Desejo
Tópicos de uma compilação de fragmentos sobre o desejo na obra de Simone Weil
1. Quem desce ao próprio interior descobre possuir exatamente aquilo que deseja.
2. Não há propriamente desapego, mas mudança do objeto do apego, de modo que o caminho consiste em apegar-se a tudo.
3. Embora as sensações não sejam escolhidas, é possível escolher, mediante aprendizado, aquilo que se sente através delas, o que abre uma ampla margem de liberdade.
4. A libertação efetiva do corpo encontra sua chave no bastão do cego, que prolonga a sensibilidade até o mundo, como indica a fórmula de Spinoza sobre aquele cujo corpo é apto a muitas coisas.
5. Os desejos limitados estão em harmonia com o mundo, ao passo que os desejos que contêm o infinito não o estão.
6. O desejo legítimo é aquele limitado que pode conciliar-se com os demais desejos próprios e com os desejos limitados dos outros homens.
7. Desejar a vida de um ser humano equivale a impor um limite a si mesmo, e esse desejo é bom desde que não seja incondicional.
8. Desejar a morte de um ser humano encerra quase sempre o ilimitado.
9. Pelo desejo erótico, o cofre de Harpagon converte-se num prolongamento do corpo do avaro.
10. O desejo é insaciável em si mesmo, residindo sua verdade na impossibilidade de satisfazê-lo e sua falsidade na esperança de saciá-lo, de modo que a não satisfação essencial, sentida diante das coisas belas, constitui um contato com outra realidade e uma posse de outra ordem.
11. Todo desejo, satisfeito relativamente ou não, torna-se caminho para a não satisfação quando se lhe presta atenção.
12. Os imensos clamores de todos os seres e de todos os desejos expressam a amplitude cósmica do desejo.
13. A referência ao Isha Upanishad situa na tradição hindu a reflexão sobre o desejo e as trevas da ignorância.
14. Apegar-se ao que não é deste mundo e julgar pensar algo sem lê-lo no mundo constitui uma noite ainda mais profunda do que a ignorância comum.
15. O desejo é ilimitado por natureza e, por isso mesmo, contrário à natureza, já que no mundo manifesto dos objetos desejáveis não existe infinito, e é nessa limitação que o bem e o verdadeiro se encontram, como ensina a igualdade geométrica.
16. Assim como um homem pode tirar outro da ignorância pelo ensino, pode também propagar a ignorância, como fazem os que provocam prazer, dor ou estupor.
17. A relação é a negação do absoluto, e o desejo lança o pensamento ao absoluto como se este fosse o ilimitado.
18. O desejo é mau e enganoso, mas sem ele não se buscaria o verdadeiro absoluto, razão pela qual é preciso atravessá-lo, e infelizes são aqueles a quem o cansaço priva da energia suplementar que é a fonte do desejo.
19. Infelizes são também aqueles a quem o desejo cega.
20. O desejo deve ser atrelado ao eixo dos polos.
21. O medo, que está para o desejo como o prazer para a dor, contém igualmente um falso absoluto, pois se o desejo encerra uma ilusão de onipotência, o medo encerra uma ilusão de impotência radical, surge quando o desejo encontra seu limite e domina sobretudo os escravos, desaparecendo quando a energia interior se reúne de novo.
22. Como o desejo é limitado de antemão pelo cansaço, convém atrelá-lo ao que não se cansa, isto é, ao motor imóvel, ao eixo dos polos, ao céu das estrelas fixas e ao seu análogo no homem, em torno do qual os desejos errantes devem girar como os planetas.
23. Segundo a lição de Santo Tomás sobre o sofrimento de Cristo, na desgraça não se deve buscar não sofrer ou sofrer menos, mas impedir que o sofrimento altere o ser.
24. O desejo, sendo cíclico, só pode ficar suspenso ao que não se cansa por meio do ritmo, que transfere o valor para a alternância entre desejo e satisfação, de modo que cada atividade é limitada, mas a sucessão das atividades não o é.
25. O ritmo prolonga o esforço e reduz o cansaço, e define-se não pela regularidade, como o tique-taque de um relógio, mas pelas pausas.
26. A mecânica humana consiste num equilíbrio de forças.
27. É perigoso dar a um ser ou a uma causa mais do que se pode dar naturalmente e sem esforço, porque o excesso gera ódio e dependência, convertendo o beneficiário num tirano de quem se espera em vão um equivalente.
28. Esse limite nunca deve ser ultrapassado, mas deve ser ampliado por um trabalho sobre si mesmo.
29. Coloca-se então a questão de como realizar esse alargamento do limite interior.
30. A resposta reside na lei do trabalho indireto sobre si mesmo.
31. Persiste sempre a necessidade de receber, de uma forma ou de outra, o equivalente daquilo que se gastou.
32. Há duas maneiras de renunciar aos bens materiais.
33. A primeira consiste em privar-se deles em favor de um bem espiritual.
34. A segunda consiste em renunciar a eles mesmo reconhecendo-os como condições dos bens espirituais, já que a fome, o cansaço e a humilhação obscurecem a inteligência e dificultam a meditação.
35. Somente esse segundo tipo de renúncia constitui verdadeira nudez espiritual.
36. Os bens materiais quase não seriam perigosos se aparecessem isolados e não ligados aos bens espirituais.
37. Cumpre renunciar a tudo o que não seja a graça, sem sequer desejar a graça.
38. Quando se encontra satisfação em ações boas em si mesmas, como dar ou conter-se, convém suspendê-las até nova ordem.
39. O estado místico torna-se objeto de descrição a partir de um texto da tradição hindu.
40. O estado místico situa-se além de todo desejo e de todo temor, abolindo o mal, e nele o espírito, nos braços do atman, nada mais conhece de fora nem de dentro, como o amante nos braços da amada, encontrando-se fora do sofrimento.
41. Nesse estado desaparecem todas as determinações, pai, mãe, mundos, deuses, Vedas, ladrão e asceta, e nem o bem nem o mal o acompanham, achando-se ele além de todos os sofrimentos do coração.
42. A pergunta sobre qual será o sofrimento dentro de um mês ou de um ano relativiza a dor presente.
43. O desejo é um impulso do pensamento rumo ao futuro, e um futuro que nada encerre de desejável é impossível.
44. O desejo de fazer os outros sofrerem exatamente o que se sofreu explica por que, salvo em momentos de instabilidade social, os rancores dos infelizes se voltam contra seus semelhantes.
45. O desejo é uma força incontível lançada ao futuro que, quando barrada, muda de direção e, em destinos estreitos voltados para objetivos ínfimos, encolhe a alma.
46. O negativo não é objeto de busca.
47. A ausência de dor, salvo para os verdadeiros epicuristas, não constitui objeto de desejo.
48. Somente o esforço sem desejo, desvinculado de qualquer objeto, encerra infalivelmente uma recompensa, como a do Pai que vê no segredo.
49. Para os taoístas, como no exemplo do piolo, certa qualidade de atenção está ligada a movimentos eficazes, realizados sem esforço nem desejo.
50. O pensamento de um ser humano particular provoca reações, enquanto Deus é aquilo que não suscita atos reflexos.
51. O caráter interessado das ações costuma ser reconhecido nas dos outros, e não nas próprias.
52. Quando uma força externa suprime certos motivos, os que restam ocupam o lugar deixado vago, a menos que surjam outros novos.
53. A supressão de um motivo equivale ao desaparecimento de um objeto ao qual se dirigiam esforços e energia, a qual deve então voltar-se para outro objeto, e a desgraça engrandece quem a retém.
54. O desacordo entre palavras e conduta provém de uma convicção forte o bastante para fornecer energia ao ato de falar, mas não para realizar ou evitar certas ações.
55. Quando o obstáculo interior supera a energia da inclinação, essa energia, incapaz de efeito útil, dissipa-se em palavras como a energia cinética em calor, como no esnobismo de Legrandin em Proust.
56. A energia de um desejo reprimido pode ser requalificada pela privação, sobretudo quando a satisfação é impedida por uma força exterior, mas perde-se se o pensamento se volta constantemente para a satisfação imaginária do desejo impossível ou proibido.
57. O avaro a quem roubam o tesoro enterrado perde a energia acumulada em todas as fadigas e privações, e a energia antes orientada para o aumento do tesouro invade-lhe a alma em desordem e produz uma angústia horrível.
58. A lembrança das penas passadas torna-se então insuportável, convertendo-se em obstáculo em vez de estímulo.
59. A energia necessária para tomar uma resolução é muito menor do que a exigida para executá-la, e a energia de toda resolução não executada degrada-se.
60. Um mesmo esforço realiza-se mais facilmente por um motivo baixo do que por um elevado, porque os motivos baixos não exigem atenção e resistem ao cansaço, enquanto este, paralisando a atenção, faz desaparecer os motivos elevados, como a justiça e a imaginação que levam a socorrer um desconhecido, e fabrica sofismas.
61. Quando um homem precisa de esforço violento para adotar a atitude que de fora se supõe natural nele e a opinião e a coação o impedem de adotar outra, o resultado inevitável é o vazio e uma alteração interior.
62. Liberdade, segurança, saúde e conhecimento, coisas negativas, só parecem positivas na privação e voltam a ser negativas assim que recuperadas, porque no sofrimento falta liberdade de espírito para contemplá-lo e o sofrimento imaginado não recebe atenção suficiente, sendo preciso sofrer e não sofrer ao mesmo tempo.
63. A divisa de Scève serve de referência a essa exigência paradoxal de sofrer e não sofrer simultaneamente.
64. Saber exatamente o que perdeu o avaro roubado ensinaria muito.
65. Perdoar as dívidas aos devedores significa, perante homens e coisas, não vincular a eles a energia gasta, inclusive a que permitiu suportar o sofrimento.
66. O desejo de vingança assemelha-se ao apego do avaro ao seu tesouro.
67. Ignorar e não aceitar a impossibilidade humana de criar é fonte de muitos erros, pois o ato criador só pode ser imitado de duas maneiras, uma real, conservar, e outra aparente, destruir.
68. Não há vestígio do eu na conservação, mas há na destruição, pela qual o eu deixa sua marca no mundo.
69. A energia deve ser acumulada em Deus, no que não existe, ou no universo inteiro, ocultando o universo no universo.
70. A energia deve ser acumulada em algo distinto dos objetos particulares, isto é, no universal.
71. O desejo de ser diferente do que se é faz voltar-se para o exterior.
72. Em situações de desequilíbrio e impossibilidade, quando a imaginação compensadora não consegue preencher os vazios, surgem movimentos da alma sem objeto, um vazio imposto que, prolongado, leva ao esgotamento e à morte de certas partes da alma.
73. O apego do avaro é uma loucura erótica, mas é também pelo eros que a salvação se torna possível.
74. Descer à fonte dos desejos permite extrair a energia de seu objeto, pois os desejos são verdadeiros enquanto energia e falsos quanto ao objeto, e a separação entre desejo e objeto produz um dilaceramento indescritível que é condição da verdade.
75. Os primeiros movimentos da alma só são conhecidos quando não obedecidos e assumidos como coisas externas.
76. Na desgraça extrema, o instinto vital sobrevive aos apegos rompidos e agarra-se cegamente a qualquer apoio, desaparecendo a energia suplementar do livre-arbítrio, a gratidão e a justiça, de modo que o único apego que resta, o da sobrevivência, aparece nu e sem objeto, como um inferno.
77. Permanece a questão de como curar desse passado um ser humano que atravessou tal estado e a quem se restitui alguma prosperidade.
78. Por esse mecanismo, nada parece mais doce ao infeliz do que a vida, mesmo quando ela não é preferível à morte.
79. Deus presente na sensibilidade continua sendo um apego, razão pela qual é preciso passar pelo abandono expresso no grito de Cristo, e quando a desgraça extrema afasta Deus da sensibilidade, aceitar a morte torna-se a plenitude do desapego.
80. A miséria humana, e não o prazer, contém o segredo da sabedoria divina, pois toda busca de prazer persegue um paraíso artificial que apenas revela sua vaidade, enquanto só a contemplação dos próprios limites eleva ao plano superior.
81. O sofrimento físico e as privações, em vez de servirem como prova de resistência para os valentes, devem ser vividos passivamente como testemunho sensível da miséria humana, cujo conhecimento é a porta para toda sabedoria.
82. Também o prazer, a felicidade e a alegria, reconhecidos como vindos de fora, dão testemunho da miséria humana e devem ser aproveitados nesse sentido.
83. É preciso ser nada para ocupar o próprio lugar no todo.
84. O segredo da miséria humana está em que as coisas entram e saem do ser, como no alimento e no apego.
85. A energia dos desejos pode ser subtraída retirando-lhes sua orientação no tempo.
86. Deus não deseja o sofrimento do santo como meio para seu progresso, mas deseja o sofrimento, o progresso e a relação entre ambos, ao lado de uma infinidade de outras relações.
87. Não se deve desejar o desaparecimento de nenhuma das próprias misérias, mas a graça que as transfigura.
88. O desapego pode exercitar-se pela inteligência, já que ninguém se apega ao que não existe.
89. É o apego que produz a falsa realidade, a realidade substituta, do mundo exterior.
90. É necessário abolir em si a realidade substituta para alcançar a realidade verdadeira.
91. A desgraça extrema, como em Jó e na cruz, realiza essa abolição talvez melhor do que todas as práticas.
92. A ausência de remorso pelas más ações e de satisfação pelas boas deve ser entendida como insensibilidade localizada, tal como Cristo mantinha a parte sobrenatural da alma fora do sofrimento deixando sofrer a sensibilidade, de modo que apenas um ponto da alma deve olhar com indiferença o bem e o mal praticados.
93. A realidade do mundo é feita do próprio apego, como transferência da realidade do eu para as coisas, e a realidade exterior só se torna perceptível pelo desapego total, pois um único fio já é apego.
94. O belo é realidade sem apego.
95. O apego constrói ilusões, e quem deseja o real deve desapegar-se.
96. Um símbolo não opera transformação nem faz transpor um limite, pois está na alma, e é preciso algo exterior a ela para puxá-la.
97. O belo é uma atração carnal mantida à distância, que implica renúncia, inclusive da imaginação, sendo aquilo que se deseja sem querer devorar, desejando apenas que exista.
98. O desejo que une sujeito e objeto é energia, a alma, e o espírito é também energia, a energia superior, razão pela qual os estoicos o identificavam ao fogo.
99. Nada se possui no mundo, pois o acaso pode tudo tirar, salvo o poder de dizer eu, que deve ser dado a Deus, isto é, destruído, sendo essa destruição do eu o único ato livre permitido.
100. A desgraça destrói o eu tanto mais depressa quanto mais fraco é o caráter, pois cada ser tem um limite situado mais ou menos longe, abaixo do qual o sofrimento muda a alma sem atingir o eu, e no qual começa a desgraça extrema, idêntica à que está além.
101. Deixar algo de lado sem sabê-lo, ou por um ato de vontade furtivo perante si mesmo, é perigoso, embora esse fenômeno inverso da inspiração seja útil para coisas encaradas de frente por tempo suficiente e que se sente dever afastar.
102. O apego não passa de insuficiência na percepção da realidade, pois se crê que a coisa deixará de existir quando não mais possuída, como a mulher que julgava inexistente o peixe que sua família não comeria, e muitos não sentem a diferença radical entre a aniquilação de uma cidade e o exílio irremediável dela.
103. A vulnerabilidade das coisas preciosas é bela porque é sinal de existência.
104. Na busca do significado do koan chega-se a um ponto de parada em que a distinção entre sujeito e objeto se apaga, buscador e buscado se fundem, e ao despertar dessa identificação sobrevém o satori que traz a paz.
105. A busca apasionada produz por si mesma uma concentração na qual se perde a noção do corpo e do tempo, mas esse é apenas o ponto médio do satori, que exige um último esforço até que o vazio se rompa e todas as coisas se apresentem em perfeita igualdade e objetividade.
106. Nesse estado revela-se que Nirvana e Samsara, pureza e impureza, são mera tagarelice, que nada requer explicação e que o espírito não pertence à consciência empírica nem é objeto da compreensão mental.
107. Por uma lei misteriosa, quem toca Deus torna-se belo de ver, assim como o que dele procede nesse estado, e o amor carnal é a atração da carne para o divino, tão preciosa que não deve ser satisfeita, como pressentem as crianças que hesitam em comer uma guloseima, pois o belo excita de modo vazio os sentidos que não o captam.
108. A castidade exige compreender que o eros é a energia suplementar que faz amar os objetos e pode investir qualquer coisa, como mostram as perversões, o amor de Goriot, o tesouro de Harpagon ou a vitória do guerreiro, de modo que as velhas que gastaram o desejo em papagaios ou soalhos encerados não colheram o fruto da castidade porque não foram castas.
109. Não há castidade sem desprendimento, sendo castidade, pobreza e obediência inseparáveis.
110. Casar-se com a pobreza é a mais bela imagem.
111. O amor platônico tem por companheira a privação.
112. O ideal é o desejo sem objeto.
113. O desejo é impossível porque destrói seu objeto, já que os amantes não podem ser um nem Narciso pode ser dois, e como Don Juan e Narciso mostram, sendo impossível desejar algo, não se deve desejar nada.
114. Se o avaro pode, por desejo de seu tesouro, privar-se de tudo e pôr todo o seu bem numa coisa escondida na terra, nada impede pôr esse bem em Deus.
115. Quando Deus se tornar tão pleno de significado quanto o tesouro para o avaro, cumpre repetir com força que ele não existe e sentir que se o ama mesmo assim.
116. É Deus quem, pela noite escura, se retira para não ser amado como o tesouro de um avaro.
117. Deus atravessa a espessura infinita do tempo e do espaço para conquistar a alma que resiste, e quando obtém dela um consentimento puro e completo, abandona-a inteiramente só, para que ela por sua vez atravesse às cegas essa espessura em busca do que ama, e isso é a cruz.
118. A dor física levada ao extremo, acompanhada de absoluta angústia moral e sem consolo, faz a totalidade do tempo e do espaço entrar na mínima extensão do corpo e dilacerar a alma, que assim refaz em sentido inverso a viagem de Deus até ela.
119. O termo grego Τούτο, deixado em suspenso, aponta para esse mesmo movimento de retorno da alma a Deus.
120. Como São Nicolau, que perdeu o encontro com Deus para tirar da lama a carroça de um mujique, o bem feito quase a contragosto é puro, pois todo bem puro escapa à vontade, o bem é transcendente e Deus é o bem.
121. No dia em que nasceu Afrodita, a beleza do mundo, a Miséria humana uniu-se de surpresa a Deus, embriagado de amor por sua criação.
122. Os desejos são infinitos em suas pretensões, mas limitados pela energia de que procedem, e por isso, com a ajuda da graça, podem ser dominados e destruídos pelo uso, desde que a atenção permaneça em contato com essa verdade.
123. O mal é ilimitado, mas esse mal ilimitado é finito.
124. O desejo quer tudo, mas só é algo na medida em que procede do sujeito.
125. Os homens são tonéis sem fundo até compreenderem que têm um fundo.
126. A sede intensa quer beber toda a água do universo, mas é limitada, como o desejo de Midas de que tudo fosse ouro.
127. Quem quer beber tudo acaba bebendo demais e então não quer beber mais nada.
128. A relação das crianças com bolos e doces ilustra essa limitação do desejo.
129. A criança ignora que seu desejo de bombas de creme é limitado.
130. Os desejos são carnais e materiais e, por isso, limitados.
131. A direção do desejo é ilimitada, mas o movimento terá um fim.
132. Tudo o que tem valor, a começar pela própria existência fruto do encontro dos pais, é produto de um encontro e cessa quando o encontrado se separa, pensamento central do budismo e de Heráclito que conduz diretamente a Deus.
133. Nenhum movimento pode ser contemplado sem se pensar numa direção e, portanto, numa força infinita.
134. A ordem do mundo é inteiramente humana, exceto aquele algo sem nome contra o qual o espírito tropeça e que ele cerca de nomes.
135. Esse algo inominável já se manifesta nas matemáticas.
136. O desejo humano é projetado na força, mas é também uma força que se manifesta como desejo no homem.
137. O bode expiatório e a prece aparecem como polos opostos do destino do desejo.
138. O desejo terrestre é uma orientação em linha reta para um objeto particular, como o tesouro para o avaro ou a mulher para o amante, enquanto a criança permanece disponível, orientada para o vazio.
139. Todo apego é emissão de energia sobre um objeto que a restitui em parte, e quando o objeto desaparece a energia, mantendo a orientação, perde-se no vazio inferior, o que constitui uma morte parcial.
140. O repouso das coisas e a repetição dos fenômenos são ilusões num mundo em perpétuo movimento, mas essas ilusões são condição da existência humana.
141. Quer-se apenas o bem e não o ouro pelo ouro, mas por ignorância da noção de relação acredita-se o contrário, e o ouro torna-se não bom, mas necessário, confundindo-se o necessário com o bem, como em Harpagon, Arnolphe, Napoleão ou o Estado.
142. A noção de relação é, portanto, necessária à libertação e exige adesão de toda a alma.
143. Os livros VI e VII da República têm por objeto o desapego.
144. Dizer que se quer sempre e apenas o bem é uma verdade gramatical, pois o bem nada mais é que o objeto da vontade, o desejável.
145. O bem define-se como objeto do desejo, e como todos os desejos são desejo, todas as coisas desejáveis são o bem.
146. De uma coisa não se quer tudo, mas apenas o bem que nela há, como o pão querido não por pesar ou queimar, mas por alimentar.
147. As coisas dão mais do que se lhes pede, pois além do bem que contêm oferecem todo o seu ser e todas as suas propriedades, ligadas pela necessidade.
148. As coisas também dão menos do que se lhes pede, porque seu bem se esgota enquanto o apetite de bem não se esgota, e saciada a fome o pão restante já não contém bem algum.
149. O bem não estava no pão, mas na relação de conveniência entre o pão e a fome.
150. Essa relação contém igualmente um bem que se esgota, pois a saciedade, que é a conveniência entre fome e pão, destrói essa conveniência.
151. Apenas o desejo de bem não se esgota, e o bem puro e inesgotável reside nesse próprio desejo, bastando dar-se conta disso.
152. Deve-se desejar incondicionalmente apenas o bem, sem coisa particular alguma, e desejar as coisas particulares, a vida, a morte, a alegria ou a dor, de modo condicional, na consciência de que se ignora o que é o bem.
153. Em todo desejo, além do objeto particular, deve-se querer no vazio e querer o vazio, pois o bem irrepresentável e indefinível é um vazio que vale mais do que todas as plenitudes.
154. Chegado esse ponto, a salvação está assegurada, porque Deus preenche o vazio.
155. Não se trata de um processo intelectual no sentido moderno, pois a inteligência nada tem a buscar, mas apenas a desbravar, sendo boa nas tarefas servis.
156. Só se pode amar no vazio, mas como se necessita de objetos sensíveis, amam-se seres finitos não por serem dignos de amor, mas por serem indignos dele, já que tudo aqui embaixo está sujeito à necessidade e contaminado pela força, e é preciso saber quanto diferem a essência do necessário e a do bem.
157. Este mundo é a porta fechada, ao mesmo tempo barreira e passagem.
158. Quem quer somente o bem absoluto e rejeita como insuficiente todo bem oferecido pelas criaturas, preferindo o nada, recebe com o tempo a revelação de que esse nada é a plenitude suprema e a fonte de toda realidade, e só então se pode realmente dizer que se tem fé em Deus.
159. A dificuldade está em que os bens limitados, hábitos, necessidades materiais, família e amigos, são necessários e fornecem energia vital como alimento, tornando difícil conceber que o necessário não seja por isso bom.
160. Enquanto se vive há desejo, e esse desejo é a plenitude do bem se não for dirigido a lugar algum nem subordinado a um objeto que só fracamente é bem.
161. De fato, o desejo dirige-se sempre ao que é necessário.
162. Considera-se bem tudo o que aumenta a energia, mas não há relação alguma entre ambos, pois a energia é apenas um meio.
163. A exigência espiritual consiste em querer o impossível, pensar o absurdo e amar o mal.
164. Busca-se tudo o que aumenta o poder, que é apenas um meio, e querem-se as coisas para si, mas como ninguém se satisfaz em si mesmo, o desejo faz sair constantemente de si num movimento alternado.
165. O movimento alternado é a imagem do movimento circular.
166. Este mundo, território da necessidade, oferece apenas meios, e o bem relativo é meio, de modo que a vontade é reenviada de um meio a outro como uma bola de bilhar.
167. Todos os desejos são contraditórios, como o de comer.
168. O lactente crê que o leite é o bem e não admitiria que um dia deixará de querer mamar.
169. Quem põe a vida na fé em Deus pode perder a fé.
170. Quem põe a vida no próprio Deus jamais a perderá, pois pô-la no que não se pode tocar é impossível, é uma morte, e é exatamente o que se deve fazer.
171. O amor deseja ser correspondido, mas se o amado se entrega totalmente deixa de existir e sobrevém a saciedade, e se não se entrega totalmente não ama o bastante.
172. Querer o bem do amado também é impasse, pois ou se impõe a ele um bem que não deseja, ou se aceita tudo o que ele deseja, e então retornam a respeito do desejo dele as mesmas questões.
173. Pôr todo o desejo de bem numa coisa faz dela uma condição de existência, mas não um bem, porque a existência não é um bem e sempre se quer algo mais do que existir.
174. O desejo de bem que constitui a existência pode ser transferido para qualquer coisa, mas como existência, não como bem.
175. Don Juan crê que a próxima mulher será realmente amada e o avaro e o ambicioso creem que um tesouro maior será realmente um bem, e por isso nunca compreendem nada.
176. O tesouro permite ao avaro existir, mas o avaro quer algo mais do que existir.
177. O avaro deseja existir apenas pelo tesouro, que se tornou sua condição de existência.
178. A finalidade ricocheteia entre o avaro e o tesouro como uma bola entre duas paredes, sem o amortecimento causado pela resistência do ar.
179. Esse amortecimento ocorreria se o tesouro não fosse suscetível de crescer ilimitadamente.
180. A necessidade é a essência da realidade das coisas deste mundo, cuja essência é condicional e consiste justamente em não serem fins nem bens.
181. Assim como Deus é um bem que nada mais é que bem, a matéria nada mais é que um não bem.
182. Confunde-se erroneamente necessidade e desejo, pois a dor violenta torna necessário um alívio sem obrigar a desejá-lo, e o mesmo vale para a necessidade de ser amado ou estimado e para a consideração social.
183. O próprio eu nada mais é que um não bem.
184. Os demais seres humanos também são um não bem.
185. O pecado propaga-se por contágio, como a ira que gera ira ou medo, mas ao tocar um ser perfeitamente puro transmuta-se em sofrimento, sendo essa a função do justo de Isaías e do Cordeiro de Deus, em quem a violência do Império romano se converteu em puro sofrimento, ao passo que os maus transformam o simples sofrimento em pecado.
186. Por natureza busca-se o prazer e foge-se do sofrimento, e só por isso a alegria e a dor servem de imagens do bem e do mal, como no paraíso e no inferno, embora na vida prazer e dor formem um par inseparável.
187. Existem neste mundo dores e prazeres quase infernais, assim como alegrias e sofrimentos quase divinos.
188. A conveniência que satisfaz o desejo é subjetiva sempre que a necessidade não oponha obstáculo intransponível, e só com a atenção fixa na realidade se encontra a conveniência situada fora do desejo.
189. Alcançado o limite da atenção, deve-se fixar nele o olhar da alma com o desejo do que está além, como no umbral da caverna, e a graça fará o resto, elevando e libertando.
190. A atenção liga-se não à vontade, mas ao desejo, ou mais exatamente ao consentimento, razão pela qual está ligada ao bem.
191. Na noite escura, só é alegria pura o que vem de fora, gratuitamente e de surpresa, e do mesmo modo o bem real nunca resulta do esforço próprio, pois ninguém fabrica algo melhor que si mesmo, de modo que o esforço dirigido ao bem deve fracassar até o desespero, quando o dom chega e o vazio divino, destruída a falsa plenitude, se instala no ser.
192. Deus, diante dos homens como dissonâncias no universo, devia aniquilá-los ou redimi-los, e a oposição entre seu poder, que impelia à aniquilação, e seu amor, que produziu a redenção, é nele sofrimento supremo, enquanto a união de ambos é alegria suprema, sendo essa dor e essa alegria uma só coisa.
193. Só se possui aquilo a que se renuncia, e o que não é renunciado escapa, de modo que nada se pode possuir sem passar por Deus.
194. O homem não considera sua existência um bem e quer sempre mais do que existir, mas toma por bem uma condição exterior dessa existência.
195. A ideia de sacrifício implica que as criaturas, o eu e os outros, recusam a finalidade, sendo apenas meios cujo propósito se ignora.
196. O avaro que conserva e aumenta o tesouro preocupa-se apenas com a própria existência, da qual o tesouro se tornou condição, e embora queira mais do que existir, impõe uma condição à existência dada e passa a esforçar-se dia e noite tendo essa existência por fim.
197. O desapego consiste em fazer tudo o que se faz não à espera de um bem, mas por necessidade, tomando o bem apenas como objeto de atenção.
198. O problema do conhecimento não se coloca fora do conhecimento do bem, pois o conhecimento não tem interesse algum fora dele.
199. Ordenar os bens em relação ao desejo exige ligar a plenitude da atenção ao desejo puro e vazio, assim como para escolher a peça de metal mais polida é preciso dirigir a atenção ao plano perfeito.
200. A atenção não pode fixar-se no próprio desejo, assim como não se pode ver a própria visão, mas apenas os objetos iluminados pelo sol.
201. Resta apenas separar o desejo de todos os bens e esperar, e a experiência ensina que essa espera é recompensada.
202. A extinção do desejo budista, o desapego, o amor fati e o desejo do bem absoluto são sempre a mesma coisa, isto é, esvaziar o desejo e a finalidade de todo conteúdo.
203. O valor do belo consiste em ser uma finalidade sem fim.
204. A música perfeita é escutada com uma atenção desprovida de desejo, salvo o desejo contido na própria atenção.
205. O desejo sem anseio é a vaca de todos os desejos.
206. O belo atrai e satisfaz o desejo, mas o deixa insatisfeito o bastante para que não possa voltar-se para outro objeto.
207. A contemplação é o que há de comum entre o enamorado do Fedro e o matemático da República.
208. Querer compreender onde não há nada a compreender equivale a desejar onde não há nada a desejar.
209. Toda destruição e toda separação de contrários liberam energia, que pode degradar-se ou ser recolhida e orientada, e a utilização da energia liberada pela dor é alegria, havendo desperdício se ela não for empregada em algo mais elevado do que o previsto.
210. Vai-se em direção a algo por julgá-lo bom e fica-se acorrentado a ele porque se torna necessário.
211. Basta admitir que, na ordem do valor, ao contrário da ordem da quantidade, o mais não pode sair do menos.
212. Nada neste mundo é verdadeiro objeto do desejo de bem absoluto, mas como o sujeito faz parte do mundo e esse desejo é a base do seu ser, há na realidade algo de valor ao menos igual, do qual se está separado e que só se pode conhecer e esperar, ainda que por anos.
213. Os que servem a uma causa não são os que a amam, mas os que amam a vida, salvo os raros mais puros, porque a ideia de uma causa não fornece a energia necessária para servi-la.
214. O grande animal social depende da inteligência inseparável do indivíduo, o que dá ao homem inteligente o poder de chantageá-lo, sendo a greve a arma natural dos que têm o pensamento por ofício.
215. A igualdade geométrica do Górgias, que é proporção, significa obediência, pela qual o homem se torna semelhante e de certo modo igual a Deus, enquanto a pleonexia, desejo de engrandecer-se, é o pecado original que afasta da proporção.
216. Além do belo não há nada, e só o bem é mais que o belo, não além dele, mas em seu termo, como o ponto em que termina uma reta.
217. A tese de que todo apego e toda paixão seriam desejo sexual já está inteira em Platão, mas não o inverso, pois Freud viu essa realidade sem nada compreender.
218. Para que gerar fosse imitação da criação divina, deveria ser um ato de generosidade e não de desejo, no qual homem e mulher, plenamente castos, renunciassem a uma partícula de energia supravital para que outro pudesse existir.
219. O amor paterno e materno seria então generosidade pura, a gratidão filial teria razão de ser e dar à luz teria sentido.
220. Não sendo assim, há em toda família um pecado original.
221. A ordem do mundo existe para fazer aceitar o sofrimento e estende-se ao desconhecido, pois só serve na medida em que é exterior e indiferente ao homem, como ensina Jó.
