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vattimo:2011:1.1

1.1 Violência da verdade

VATTIMO, Gianni; ZABALA, Santiago. Hermeneutic communism: from Heidegger to Marx. New York: Columbia university press, 2011.

1. A filosofia contemporânea divide-se não apenas entre concepções realistas e antirrealistas da verdade, mas sobretudo entre os que disputam esse dualismo e os que procuram evitar a querela metafísica, como mostrou Rorty no debate com Pascal Engel, pois realistas e antirrealistas pertencem igualmente à política das descrições, já que até o antirrealista impõe sua descrição da inexistência da verdade, ao passo que os que superam o dualismo pertencem a uma cultura pós-metafísica e a uma política da interpretação, e o mais significativo são as consequências políticas violentas da política das descrições, razão pela qual Rorty, em Solidariedade ou objetividade?, apontou a tradição ocidental centrada na busca da Verdade, dos gregos ao Iluminismo, como o exemplo mais claro da tentativa de encontrar sentido na existência afastando-se da solidariedade em direção à objetividade.

2. A verdade, tema central da tradição, não é apenas violenta por afastar-se da solidariedade, mas é violência, porque facilmente se converte em imposição sobre a própria existência, implicando uma descrição imposta cuja aceitação se presume, e a violência é seu sentido político porque a verdade sempre implica uma constrição conclusiva, seja no Evangelho, em Hegel ou em Baudrillard, definições que, mesmo visando ao bem-estar, pretendem impor-se independentemente das diferenças religiosas, existenciais ou sociais e, como as filosofias metafísicas, pretendem manter e justificar a ordem social em que se encontram confortáveis.

3. A verdade como reflexo de uma ordem objetiva sempre inspirou ideais éticos e morais dependentes de sua unidade, unidade das opiniões no verdadeiro que hoje se tornou realidade com o sistema político global da democracia enquadrada, mas nem por isso deixa de ser violenta, pois reivindicações de verdade são também reivindicações de poder político, violência que se exerce sobretudo pelo diálogo como moralização da política, aparente troca pacífica de opiniões que, como nos diálogos de Platão, conduz um interlocutor a reconhecer a verdade que o outro já possuía, de modo que, sendo a violência o silenciamento do outro mediante um diálogo aparente, verdade e violência tornam-se intercambiáveis, e somente o reconhecimento dessa violência permite perceber o perigo das políticas fundadas na verdade, que fixam o pensamento numa ordem moralizada e conservadora onde só é democrático o que entra legalmente na ordem estabelecida pela metafísica.

4. As definições mais bem-sucedidas da verdade nas filosofias analítica e continental continuam a ser a teoria fenomenológica de Husserl e a filosofia da linguagem de Tarski, que desenvolveu a teoria aristotélica da correspondência, e ambas compartilham uma implicação metafísica, pois as aspas no princípio de Tarski segundo o qual “p” é verdadeiro se e somente se p são essenciais por indicarem sua essência pragmática, isto é, para quem a verdade é significativa, já que o p fora das aspas é sempre afirmado e sustentado por alguém interessado em impô-lo, e embora os metafísicos aleguem que essa oposição é necessária para distinguir afirmações e compartilhar experiências comuns, resta a possibilidade de um grupo satisfeito com “p” sem qualquer interesse no aparente p real.

5. Essa oposição tornou-se evidente graças à análise heideggeriana da verdade em Ser e tempo, que distinguiu a abordagem metafísica de Husserl de uma abordagem hermenêutica, pois para Husserl a verdade depende da diferença entre a mera intenção e a coisa mesma, de modo que, como na oposição tarskiana, uma proposição seria verdadeira apenas se se referisse às coisas permitindo vê-las como são em si mesmas, referência que não difere muito da imposição pragmática, por visar ainda explicar como algo se revela (verdadeiro) em oposição a seu ocultamento (falso).

6. Todo enunciado, verdadeiro ou falso, válido ou inválido, bom ou mau, é derivado, porque o “como” apofântico só é possível dentro do “como” hermenêutico, já que não há apreensão sem pressupostos de algo que pudesse ser objetivado por modalidades predicativas, possuindo os seres humanos, antes de todo conhecimento predicativo, uma compreensão pré-ontológica do Ser das coisas, razão pela qual, segundo Ser e tempo, o enunciado não é o lugar primário da verdade, mas, ao contrário, funda-se na abertura do Dasein, que constitui a verdade mais originária e a condição ontológica de possibilidade de enunciados verdadeiros ou falsos.

7. A verdade dos enunciados é derivada não por ser errônea, mas porque suas raízes remetem à abertura da compreensão que determina toda adequação linguística ou pré-linguística, o que implica a prioridade do pensamento sobre o conhecimento, do Ser sobre os entes e do “como” hermenêutico sobre o apofântico, nível em que não há verdade nem erro, pois a proposição não é o lugar da verdade, mas a verdade é o lugar da proposição, de modo que Heidegger expõe a concepção metafísica da verdade não por ser falsa, mas por sua superficialidade, já que, ao se ocupar da correspondência entre sujeito e objeto, perde-se de vista o mundo no qual todas as coisas são dadas e o próprio engajamento como entes.

8. A verdade, em Aristóteles, Tarski ou Husserl, compartilha a estrutura metafísica que está na origem de toda a lógica ocidental, na qual o Ser é interpretado apenas como presença do presente, e a relação entre sujeito e predicado representa não só a estrutura lógica e verbal, mas também sua imposição, razão pela qual a diferença ontológica entre a relação com os entes e a compreensão do Ser permite reconhecer que na tradição metafísica Ser e verdade são cooriginários, sendo a verdade justificação do Ser entendido como presença objetiva, e por isso indagar a alétheia não é o mesmo que indagar a verdade, de modo que a objeção de Tugendhat, Habermas e Apel, segundo a qual a verdade como evento de desocultamento renuncia à distinção entre asserções verdadeiras e falsas e entre ações boas e más, confirma a oposição de Heidegger à verdade como imposição violenta, numa democracia enquadrada em que toda proposição ou ética fora do âmbito do verdadeiro e do falso é tida como perturbação a silenciar, e a hermenêutica, acusada de relativismo, niilismo e anarquismo, é o único pensamento não teórico capaz de fazer justiça a esses eventos que resistem às pretensões de verdade absoluta.

9. Para afastar-se da neutralidade pacífica da metafísica é preciso abandonar a verdade, pois o fim da verdade é o início da democracia, e se assim não fosse as leis objetivas da economia ou os resultados dos diálogos políticos impediriam as crises constantes, que, ao contrário, são frequentemente sustentadas por essas mesmas leis e diálogos dependentes da justificação metafísica das descrições objetivas, tornando-se o diálogo o melhor meio de moralizar a política e de conservar os interesses e a imunidade da democracia enquadrada, razão pela qual os diálogos de Platão, exemplo paradigmático da moralidade política, revelam como reivindicações de verdade são também reivindicações de poder.

10. Os escravos da alegoria da caverna correspondem hoje aos fracos, às culturas, cidadãos e Estados oprimidos constantemente convocados a aderir à civilização ocidental, ao Consenso de Washington, ao FMI ou às Nações Unidas, pois, como Platão, o Ocidente julga possuir a verdade capaz de guiar o interesse de todos, e o fato de Platão considerar necessário arrastar à força o escravo para a luz do sol caso não fosse convencido pelo diálogo revela que servia a outros interesses, os interesses da verdade, que pertencem aos que a entendem, conhecem e talvez a criaram para justificar suas presenças objetivas, razão pela qual nos diálogos platônicos a verdade não é resultado, mas sempre pressuposto de quem interroga.

11. O escravo do Mênon só compreende a verdade geométrica ao submeter-se à interrogação de Platão, assim como a filosofia deve admitir uma resolução científica, ambos exemplos de imposições opressivas da metafísica que exigem uma correspondência sem a qual nem diálogo nem filosofia podem ocorrer, de modo que os diálogos platônicos, como a ciência, são prelúdio da submissão à verdade, isto é, à violência, servindo a uma sociedade de domínio, e a alegoria mostra ainda as consequências perigosas de conhecer a verdade, pois o escravo que retorna é ridicularizado e ameaçado de morte por quem teme a jornada, e a verdade torna-se violência tanto para os que recusam sair da caverna quanto para os que voltam, agora filósofos segundo o modelo do rei-filósofo, compelidos a ordenar a cidade, os particulares e a si mesmos, governando não pelo que é belo, mas pelo que é necessário.

12. O filósofo platônico deve sustentar o establishment, sem poder repensar o Ser para um paradigma diferente nem propor outras possibilidades, mas apenas ordenar, isto é, impor o necessário, de modo que a proibição da arte mimética na República equivale à restrição da filosofia ao necessário, necessidade que não passa do silenciamento do outro pelo diálogo, ato de violência em prol da conservação da verdade, e daí a diferença entre diálogo e conversação, pois a conversação, como o evento de desocultamento heideggeriano, rompe a ordem que o diálogo protege, já que nela a verdade não é pressuposta, mas descartada desde o início, sendo um evento não anunciado no qual se é envolvido e, por isso, o maior inimigo da ordem dialógica, indicando a possível passagem do diálogo, da política das descrições e da democracia enquadrada, ao comunismo hermenêutico, pois o conflito inevitável da conversação remete a um anarquismo latente, ao relativismo e à fraqueza do pensamento, ao passo que as imposições do diálogo exigem um realismo capaz de conservar a ordem política.

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