User Tools

Site Tools


starobinski:1982:5.2

5.2 Serviços

STAROBINSKI, Jean. Montaigne en mouvement. Paris: Gallimard, 1982 (Coleção Bibliothèque des Idées).

DIZER O AMOR

OS SERVIÇOS RECÍPROCOS

1. Montaigne com sua época distingue o casamento e o comércio amoroso, pois ninguém se casa só por seu prazer e vontade e casamo-nos também senão mais por causa da família e da posteridade.

2. Ele nos confiará então de maneira ao mesmo tempo precisa e indeterminada o que foi o seu comportamento nas duas circunstâncias, e em ambos os casos é fácil reconhecer um esquema ternário em que intervêm sucessivamente a abrupta vontade de autonomia, depois a autonomia perdida, o arrebatamento involuntário e enfim a relação com outrem na qual o indivíduo se reencontra ao aceitar os laços que o obrigam a um dever exterior.

3. A definição que Montaigne dá de um bom casamento vai direto à conclusão, pois deve ser uma agradável associação de duas vidas cheia de constância, confiança, serviços recíprocos e obrigações comuns.

4. Mas falando de sua própria vida Montaigne insiste inicialmente em sua inaptidão para se comprometer no estado de casamento, pois os temperamentos desregrados como o seu, rebeldes a quaisquer ligações e obrigações, não se adaptam muito bem ao matrimônio.

5. Terá sido preciso que a isso Montaigne se deixasse conduzir de maneira inteiramente passiva, e por inclinação natural teria preferido fugir a desposar a sabedoria em pessoa, mas os usos e costumes nos amarram e condicionam.

6. Seus atos em sua maioria decorreram sempre dos exemplos que teve à sua frente muito mais que de suas preferências, e ao do casamento em particular não se dobrou voluntariamente, foi impelido a ele por circunstâncias estranhas.

7. Foi levado ao casamento bem menos preparado então e contrariado do que o seria hoje após o haver conhecido de perto, mas não lhe ocorreu ao espírito como a alguns que reprova desprezar as leis do matrimônio e retomar sua liberdade.

8. E por mais livre e desregrado que o considerem, observou severamente as leis do matrimônio bem melhor do que prometera e esperava fazê-lo, pois não cabe mostrar-nos recalcitrantes quando concordamos em nos amarrar.

9. Devemos procurar não nos comprometer imprudentemente mas se aceitamos a obrigação cumpre-nos observar as leis comuns ou pelo menos esforçarmo-nos por observá-las, e os que se prestam à realização desse ato com ódio e desprezo agem de modo injusto, pois é uma traição contrair matrimônio sem atender às obrigações conjugais.

10. A situação final marca uma dupla superação, pois contrariamente ao seu humor Montaigne aceitou as ligações e obrigações mas essa ligação exprimindo-se na relação reflexiva e recíproca do desposar-se supera igualmente a passividade implicada no fato de ser amarrado, impelido e levado, em que se confessava a incapacidade de resistir às circunstâncias estranhas.

11. Quando se sabe o que Montaigne pensa da amizade, da qual nos diz a propósito de La Boétie que pode superar os prazeres do amor, não se lhe criticará falar de maneira condescendente do casamento o qual separa do amor e aproxima da amizade, pois um bom casamento se é que existe recusa-se ao amor e deve antes visar a uma boa amizade.

12. No momento em que falará do amor Montaigne modificará apenas muito levemente as diferentes etapas do esquema ternário que acabamos de destacar, e o texto se torna mais exuberante, mais nuançado e mais audacioso.

13. Reencontraremos a vontade de autonomia, pois demais nessas questões não se entregava completamente, buscava o prazer mas não se esquecia, conservava intato no interesse da companheira momentânea como no seu próprio o pouco de razão e discernimento que a natureza lhe outorgou.

14. Ora o leitor acaba de ser informado no ensaio Da companhia dos homens, das mulheres e dos livros de que Montaigne foi presa em sua juventude dos arrebatamentos amorosos, e a passividade e o deixar-se levar foram anteriores, e foi pela viva lição que deles guardou que lhe vieram sua reserva e sua vontade de independência.

15. Mas trata-se de um comércio que deve praticar com cuidado quem como ele tem apetites sexuais muito vivos, e as experiências de sua juventude escaldaram-no pois sofreu todos os tormentos que os poetas afirmam se agregarem ao gozo desregrado, e é verdade que a lição valeu.

16. No intervalo entre o deixar-se levar juvenil e a atitude ponderada em que Montaigne já não se entregava completamente intervém uma vontade de recompor-se, a qual Montaigne menciona mais explicitamente em outro ensaio, pois na sua juventude combatia o amor quando o julgava exagerado e procurava torná-lo menos agradável a fim de que não acabasse por o dominar inteiramente.

17. Mas o domínio estudado e calculado mais conforme aos modelos da autarcia filosófica não é o último termo da experiência amorosa, e esse último termo se apresenta no ensaio A propósito de Virgílio como um dos mais belos exemplos da relação dominada.

18. Entre o arrebatamento passivo que nos entrega a um furor estranho e a dominação refletida em que o indivíduo se entrincheira atrás da muralha inviolável de sua identidade há uma solução mediana e um equilíbrio difícil a que Montaigne se apegou e do qual diz ter encontrado poucos exemplos em sua época.

19. Em um primeiro sentido trata-se de uma regulação interna entre o excesso da tensão e o excesso do abandono, pois Montaigne detesta igualmente uma ociosidade entorpecente e sonolenta e uma atividade árdua e penosa, agita-o esta e embrutece-o aquela.

20. Tanto lhe desagradam os ferimentos como as machucaduras e tanto os golpes que penetram como os que não ferem, e assim conseguiu nessas questões um justo equilíbrio entre os extremos, pois o amor é uma agitação viva e alegre que não o perturbava nem afligia mas o animava tão-somente e ele sabia poupar suas forças.

21. Cumpre fazê-lo pois é nocivo aos loucos, e ferimentos e machucaduras são as imagens que Montaigne emprega, recomendando nesse mesmo ensaio o uso do jargão de nossas guerras e caçadas para dar mais caráter e energia à língua francesa.

22. Em seguida é à linguagem da troca comercial, em uma época em que a palavra comércio tem uma acepção mais extensa do que hoje, que ele recorre para metaforizar a equidade amorosa, e essa metáfora lhe serve para figurar a reciprocidade da transação erótica e de maneira nenhuma sua reificação ou sua transformação em valor mercantil.

23. É para Montaigne uma convenção voluntária em que o amante não tem direito a nenhuma usurpação de autoridade, e o amor em sua materialidade corporal não lhe é imaginável como uma posse unilateral, pois possuir um corpo sem sua afeição consentida não lhe parece muito diferente do fetichismo e da necrofilia.

24. É esta vontade que se procura conquistar e com razão, mas isso só se consegue mediante gentileza, e a ideia de possuir um corpo sem afeição horroriza Montaigne e parece-lhe um ato absurdo de superexcitação como o daquele rapaz que se masturbava por amor à estátua de Vênus esculpida por Praxíteles ou o daquele egípcio louco conspurcando o cadáver de uma morta que lhe cumpria embalsamar, pois amamos um corpo sem alma quando amamos sem que nos deseje e o queira.

25. Por certo ao menos uma vez descobre-se uma atitude de Montaigne em relação ao amor na qual a mulher não serve senão de pretexto para um fim todo pessoal que não lhe diz respeito, pois depois da morte de La Boétie procurou no comércio amoroso a diversão enérgica que lhe era necessária e com esse fim apaixonou-se por cálculo e ao mesmo tempo para se dedicar a um estudo desse sentimento.

26. Essa confidência simultaneamente discreta e precisa deixa adivinhar uma aventura em que predominava de modo consciente a vontade de substituir uma lembrança dolorosa por um objeto presente e um comércio espiritual por uma ligação carnal, e a aplicação em conquistar uma mulher fazia parte do trabalho de luto pelo amigo desaparecido.

27. Não sem que essa distração voluntária tenha acarretado talvez alguma secreta reprovação, pois o cálculo e o estudo em um compromisso muito mais satisfatório iriam depois se reportar ao livro, imagem do eu para um olhar interior no qual sobrevive o amigo perdido, e em uma aventura amorosa em que buscava um impossível esquecimento representava a comédia para curar-se de outra dor, e ele não nos diz como faz em outras ocasiões que os sentimentos fingidos se tornaram progressivamente sentimentos verdadeiros.

28. Mas não gosta da mentira e o faz saber sem rodeios, e se teme o comprometimento excessivo e a servidão amorosa Montaigne se mostra ainda mais severo com aqueles que se contentam em simular a paixão.

29. É loucura concentrar todos os seus pensamentos em uma afeição apaixonada, e por outro lado entregar-se a isso sem amor como comediantes desempenhar sem escrúpulo o papel que todos desempenham nessa idade é por certo velar pela própria segurança mas de um modo covarde, como se de medo do perigo abandonássemos a honra ou renunciássemos a um prazer, e os que assim agem nada podem esperar suscetível de satisfazer uma bela alma.

30. A dissimulação acaba por trazer prejuízo ao próprio enganador, e se os homens não são leais deverão contar com as traições e a coqueteria das mulheres, e antes que o mito de Don Juan tenha tomado forma Montaigne sabe que o burlador ao término de sua representação não será menos enganado do que suas vítimas.

31. Mas a atitude dos homens de nossa época faz como o demonstram os fatos que as mulheres se unam para nos escapar ou imitando-nos representem igualmente e se prestem à comédia das relações íntimas sem paixão nem ternura, e ademais a trapaça volta-se contra o trapaceiro e se não lhe custa muito tampouco lhe rende bastante, e a perda da relação se define em termos econômicos como um mercado nulo.

32. Ora o mercado amoroso consiste na troca do desejo, o que implica o franco reconhecimento do desejo feminino ao passo que uma ficção hipócrita nega-lhe a existência, e a recusa de tudo que entrava a reciprocidade da troca, pois ao se reservar o direito de estabelecer sozinhos as regras desse jogo os homens induziram as mulheres à astúcia e à desconfiança, e a distância entre nós e elas parece então separar adversários em luta.

33. Montaigne por sua parte não admite aí comprometer sua consciência ao ponto de chegar à ingratidão, à traição, à maldade e à crueldade, e adotou uma regra de veracidade.

34. Neste século é preciso mais temeridade do que tem essa temeridade que os jovens atribuem ao entusiasmo da idade mas que se a olharmos de perto não passa na realidade de desprezo pela virtude das mulheres que assediam, e não ofendê-las é para ele verdadeira superstição e leva-o a respeitar o que ama.

35. Demais independentemente do fato de que em tais circunstâncias a falta de respeito amesquinha a preferência concedida, em seu tempo observou dentro das limitações naturais a orientação que defende e agiu com alguma justiça e conscienciosamente nas questões dessa ordem.

36. Só disse de sua afeição às mulheres na medida em que realmente a sentiu e com inteira franqueza mostrou o nascimento, o apogeu e a decadência da inclinação bem como seus entusiasmos e desinteresses, pois nem sempre estamos bem-dispostos.

37. A tal ponto evitou desmandar-se em promessas que sem dúvida cumpriu muito mais do que prometeu e mesmo do que devia, e se lhes deu motivo de queixa foi talvez por as ter amado de uma maneira incomum e possivelmente tola porque demasiado conscienciosa para o nosso tempo, pois cumpriu sua palavra em coisas em que talvez o dispensassem.

38. Se há um ponto comum em Montaigne entre o casamento e o amor é que nas duas ordens de relação ele manteve a palavra, e lembremo-nos do que já lemos a propósito do casamento, pois observou severamente as leis do matrimônio bem melhor do que prometera e esperava fazê-lo.

39. Montaigne se vangloria em sua relação com as mulheres de jamais ter deixado a palavra exceder a conduta ou o sentimento, e nesse mercado portanto não cometeu nenhuma fraude, pois se comunicou a cada instante tal como era sem dissimulação nem exagero verbal.

40. O fazer ou a realização como Montaigne gosta de chamá-lo nele prevaleceu sobre a promessa, generosidade que equivale a uma espécie de sobrepaga, e é o que ama nos poetas quando suas palavras significam mais do que dizem.

41. Seria exagero ver ternura onde Montaigne fala apenas de benevolência ou acreditá-lo atento em não causar sofrimento quando sua aversão em romper consiste em uma consideração que concerne apenas a ele.

42. Nunca rompeu com elas enquanto lhes dedicou alguma ternura por insignificante que fosse, e jamais se separou delas com rancor ou desprezo embora pudesse ter razões para tanto, pois sempre considerou que tais intimidades ainda que alcançadas à custa de combinações vergonhosas merecem alguma gratidão de nossa parte.

43. Aliás com a maior franqueza é na troca do prazer que Montaigne faz consistir o mercado amoroso, e toda a sua argumentação visa estabelecer-lhe o reconhecimento e em troca desarmar aqueles que com isso se chocariam.

44. Cada uma de suas peças é igualmente sua e nenhuma mais do que essa o torna mais essencialmente homem, e trata-se do sexo, e na troca física e na reciprocidade do prazer a relação amorosa consumando-se se torna relação dominada, dom que aliena e presença para si que é ao mesmo tempo presença para o outro.

45. O comércio amoroso exige equilíbrio e correspondência, e podemos pagar os outros prazeres com recompensas de diversos tipos mas este só com a mesma moeda, e na realidade o prazer que damos é-nos mais doce, intenso e generoso do que o que recebemos, e nada tem de generoso aquele que pode receber prazer sem o dar.

46. Sem dúvida em parte alguma mais do que nesse ensaio Montaigne desenvolveu tão amplamente o elogio dos serviços recíprocos, e não faz deles tão-somente em graus diversos o propósito essencial do bom casamento e do comércio amoroso.

47. O amor por sua vez em quem a ele se entrega implica uma reciprocidade de serviços entre o corpo e a alma, e podemos dizer que enquanto permanecemos nesta prisão terrestre nada nos afeta exclusivamente a alma ou o corpo, e que com uma tal distinção desmembramos o homem em vida, e que é tão normal sentirmos o prazer quanto o sofrimento.

48. No texto de 1588 Montaigne citara muito curiosamente o exemplo dos santos e a maneira pela qual treinavam o corpo no exercício da penitência, pois graças ao espírito de penitência que os dominava a dor causada pelos pecados era sentida pelos santos com uma intensidade que os levava à perfeição.

49. Em virtude da íntima união existente entre a alma e o corpo o sofrimento atingia também este embora não estivesse diretamente ligado à causa mesma do tormento, mas os santos não se contentavam com o fato de o corpo acompanhar a alma nas suas desgraças e infligiam-lhe ainda torturas atrozes a fim de que ambos os mergulhassem em um estado de sofrimento que julgavam tanto mais salutar quanto mais agudo.

50. Uma importante adição de 1595 inverte essa relação masoquista, pois ao passo que nos santos o sofrimento do corpo assistia a alma penitente a experiência do prazer deve ser para a alma a oportunidade de por sua vez assistir o corpo.

51. Não haverá injustiça no caso dos prazeres sensuais em fazer com que a alma se alheie ou deles participe como que por obrigação, pois a seu ver cabe-lhe ao contrário buscar e fomentar esses prazeres e orientá-los, como também lhe compete quando se trata de prazeres que lhe são peculiares comunicá-los ao corpo e esforçar-se por que lhe sejam agradáveis e úteis.

52. Pois se é razoável dizer que o corpo não deve procurar sua satisfação em detrimento da alma tampouco seria justificável que esta se deleitasse com prejuízo daquele, e nos serviços recíprocos do comércio amoroso ou daquele que marca a aliança do corpo e da alma Montaigne nos faz perceber um laço análogo àquele que na mais alta poesia une a coisa e a palavra, o sentido e a expressão, o pensar e o dizer.

53. Como vimos os exemplos que escolhe em Virgílio e Lucrécio não são apenas emblemas no plano do referente da união conjugal ou dos prazeres adúlteros, mas também lhe oferecem o modelo profano no plano da escrita de uma compenetração feliz da carne e do verbo, e a poesia por essência metaforiza o amor e a união substancial da alma e do corpo.

54. Tal é o modelo de reciprocidade que Montaigne desejaria fazer prevalecer na ordem erótica e linguística e que se compraz em crer que a própria Natureza o prescreve, no entanto é-lhe forçoso constatar desde o início do ensaio que doravante a idade lhe proíbe uma satisfação fácil de seus sonhos amorosos, e deverão permanecer sonhos e fantasias.

55. Contrariamente a La Boétie jamais foi poeta, tentou-o e nisso foi pueril, e tem da poesia apenas uma experiência de leitor, e no final do ensaio ele o dirá mais precisamente, pois o verdadeiro amor sob o signo de Vênus pode ter por objeto apenas um ser dotado de todas as graças da juventude, e ora o que resta por esperar para um velho de cinquenta e três anos e a tão louvada reciprocidade lhe é permitida.

56. Por fraqueza e experiência nosso gosto se faz mais exigente e requintado, e tanto mais queremos selecionar quanto menos possibilidades temos de ser aceitos, e reconhecendo nossos próprios defeitos tornamo-nos mais desconfiados e tímidos, e nada pode assegurar-nos que sejamos amados dadas as condições em que nos achamos e as da juventude entusiasta e viva.

57. Mais de uma vez Montaigne para designar as coisas do sexo aqui a ereção as faz dizer no interior mesmo de sua frase pelos poetas latinos, e nenhuma simetria pode subsistir para um velho na relação erótica, tanto mais que Montaigne recusa a única possibilidade que teria restabelecido a igualdade.

58. Àqueles que lhe prescrevessem dirigir-se às mulheres de sua idade responde de maneira desiludida, pois acha mais voluptuoso simplesmente contemplar um casal de jovens amorosos do que participar de uma união lamentável e monótona.

59. Em um mercado em que a troca se efetua de corpo para corpo qualquer diminuição da integridade corporal compromete a felicidade esperada, e não vos parece impudente apresentar-se alguém com suas imperfeições e fraquezas a quem deseja agradar da boa impressão de si e ser apreciado.

60. Pelo pouco de que é hoje capaz não importunaria alguém de quem gostasse e que não quisesse ofender, pois já não tem forças, e em relação a isso e até nos insucessos de sua antiga carreira amorosa Montaigne que no entanto não hesita em dizer que nenhuma outra paixão poderia excitá-lo agora está pronto a fazer recair a culpa em sua conformação física, isto é, nas dimensões demasiado exíguas de sua mentula como dizem claramente os versos latinos que cita no interior de uma confissão pessoal deles se apropriando.

61. Nunca atribuiu à mulher e à sua indiferença o fato de se ter algum dia aborrecido com suas carícias, e a princípio pensou que devesse acusar a natureza pois deve tê-lo tratado com parcialidade e de maneira pouco amável, foi comigo avarenta, e por certo tinham razão as mulheres de desprezar tão magras aparências, lamentável imperfeição.

62. Enorme e enormíssima a lesão sofrida por Montaigne enquanto as damas são antes da experiência induzidas em erro pelos grafitos que as fazem esperar bem o contrário, órgãos enormes, e que prejuízo moral causam esses desenhos obscenos que as crianças traçam nos muros e nas portas dos edifícios públicos, pois induzem a mulher a um cruel desprezo por nós quando constatam a desproporção da imagem com o objeto.

63. Montaigne se queixa de ter sido maltratado pela natureza, e eis aí inculpada e ligada a um humilhante defeito fálico essa natureza da qual Montaigne tão frequentemente declara que é preciso tomá-la como guia e como norma.

64. Era à arte, era às instituições e ao costume que Montaigne imputava mais comumente o desregramento e a falta de reciprocidade nos serviços recíprocos, e descobre-se aqui que a natureza tão justa em todas as suas operações e tão generosa e maternal em seus dons é também capaz de subtrair, de castrar, de tratar ilegitimamente, de romper o equilíbrio e a bela simetria que parece buscar em todas as ocasiões, e existe aí um mistério de iniquidade.

65. Lesado em seu corpo e diminuído pela idade Montaigne considera-se além disso desfavorecido pelo falar comum no qual escreve, e às confidências que acabamos de citar pode-se acrescentar esta que diz respeito ao órgão verbal de que dispõe um escritor francês, e na confissão de fraqueza o paralelismo é notável.

66. Nossa língua parece-lhe bastante rica mas algo grosseira, e a nossa é assaz abundante mas pouco flexível e vigorosa, e não exprime em geral com felicidade as ideias fortes, e se as queremos exprimir sentimos que o instrumento falha e vacila e temos de apelar para o latim ou o grego.

67. Em todos os níveis em que localizamos a exigência da relação harmoniosa e dos serviços recíprocos impõe-se a constatação de uma falta, de uma limitação e de um defeito material ou energético, e a inferioridade se diz aqui na mesma linguagem carregada de metáforas sexuais que dizia o mérito dos poetas antigos, e a oposição é a da impotência e da potência.

68. Não é uma eloqüência efeminada em que nada choca, é nervosa e sólida, antes satisfaz e entusiasma do que agrada e encanta, e a força da imaginação realça e valoriza as palavras, e lamentavelmente essa linguagem erotizada já não tem curso, pois já não nos é dado falar amorosamente nem amar eloqüentemente.

69. Montaigne não se contenta em anotá-lo e experimenta o desejo dos remédios e da reparação, e no que diz respeito à língua as respostas são plurais, pois as citações latinas podem fornecer um suprimento útil no que falha e vacila em francês.

70. Acabamos de ver Montaigne recorrer ao latim para melhor dizer em seu próprio caso o vigor ou o enfraquecimento sexuais, mas o recurso à citação é um ato ambíguo, pois é ostentação de saber sem dúvida e contudo de um saber de empréstimo e por isso confissão de insuficiência.

71. Outro recurso consiste em utilizar de maneira figurada as frases que em França se ouvem nas ruas, e talvez o jargão de nossas guerras e caçadas devesse ser aproveitado nela pois seria filão de bom rendimento, e a exemplo das plantas as formas da língua corrigem-se e se fortalecem com a transplantação.

72. A imagem da transplantação é ela própria uma metáfora para dizer a translação metafórica, e a arte se autoriza aqui com uma analogia vegetal e agrária, isto é, com uma quase-natureza.

73. Mas a transplantação que Montaigne levará a bom termo é a que estabelecerá entre seu livro e ele próprio o campo de serviços recíprocos, pois por mais longe que esteja da perfeição nervosa e sólida dos antigos e por efeminada que seja a língua de que dispõe basta que Montaigne possa dizer que em todo o caso seu livro é seu.

74. No plano de representação e na aceitação mesma da falha e da irregularidade o princípio de reciprocidade expressiva se restabelece, e o quiasma liga o livro e o eu, pois não é assim mesmo que falo habitualmente, não me mostro tal qual sou, e está certo então, cheguei ao que queria pois todos me reconhecem em meu livro e a este em mim.

75. À vista de todos o dizer amoroso se transplanta sinuosamente para a subjetividade, e a relação especular da representação do eu no livro e do livro no eu apresenta-se como o substituto narcísico de todas as relações de reciprocidade irrealizadas ou doravante irrealizáveis.

76. Permite resignar-se às imperfeições da língua a partir do momento em que estas são a réplica idêntica das imperfeições pessoais do escritor e que se restabelece a adequação entre a coisa e a palavra que a justiça da escrita tem a função de assegurar.

77. Com base nisso deve-se chegar a supor que escrever o ensaio A propósito de Virgílio faça as vezes para Montaigne da troca amorosa no momento em que se dissipa o calor corporal tão necessário ao ato erótico, e que desse modo ele se resigna a substituir o prazer carnal pelo prazer de escrever e mais precisamente de se escrever em um sentido no qual predomina a tendência narcísica.

78. De fato se escreve esse capítulo e se quer graças a este penetrar no toucador das damas é para dizer quanto essa resignação lhe é difícil e quanto lhe parece legítimo quando a natureza está enfraquecida recorrer à antinatureza, isto é, à arte, que em tantas outras ocasiões condenara quando podia opor-lhe uma natureza triunfante.

79. No início do ensaio lembrarmo-nos ele não parecia contar com uma vitória da arte e se esperava da arte mais que uma satisfação sonhada, pois só me alegro em pensamento ou sonho mitigando com tais trapaças as tristezas da velhice, e a arte luta contra a natureza.

80. Ora a química hipótese de uma terapêutica de uma arte por e para o amor reaparece no final do ensaio, e a medicina galênica recebe a aprovação que a exceção não faz a regra de Montaigne em uma de suas afirmações fundamentais, pois as discrasias frias devem ser combatidas pelo calor e o verdadeiro remédio deveria ser dispensado por um corpo jovem.

81. É por certo o amor uma ocupação frívola, chocante e vergonhosa, legitimada contudo como o recomenda a passagem a ser útil à saúde capaz de desemperecer o espírito e o corpo, e se fosse médico aconselharia-o como terapêutica a um homem de seu temperamento e condição a fim de despestar-lhe as forças e o manter em forma retardando os efeitos dos anos.

82. Enquanto nos aproximamos demasiado da velhice e enquanto nosso pulso bate ainda temos necessidade de ser solicitados por essa sensação que nos agita e estimula, e vede como o amor rejuvenesceu, revigorou e alegrou o sábio Anacreonte, e dizia Sócrates em idade mais avançada do que a minha que uma pessoa pela qual concebia essa estima, com os ombros apoiados no um do outro e os olhares juntos num livro, sentiu repentinamente uma picada como de um inseto e essa impressão de formigamento persistiu durante cinco dias comunicando-se ao seu coração.

83. Assim um contato fortuito bastava para aquecer e perturbar uma alma já amortecida pela idade e que se aproximava da perfeição, e uma lembrança livresca, uma palavra de Sócrates citada por Xenofonte em situação de leitura a dois, vem fornecer o exemplo da medicação viva.

84. O exemplo é de um contato epidérmico fortuito e de um encontro superficial de acaso, e daí resulta mediano e oco profundo que atinge o centro do indivíduo, o coração, um aquecimento que reanima ao mesmo tempo o corpo e a alma, uma alma amortecida, e o que não pode o mais leve toque, o simples roçar da pele, quando a idade está no fim.

85. Falando do sereno dizendo os adeuses ao agonizante à vida, Montaigne teme que o perturbe um aperto de mão, e em outra parte ao contrário deseja ao agonizante uma mão hábil capaz de pensá-lo onde lhe doa.

86. A autoridade de Sócrates no caso justifica o que tantos outros teriam condenado em nome mesmo da filosofia, e por que não Sócrates era homem e não desejava ser nem parecer outra coisa, e Montaigne que no entanto se empenhou com tanta frequência em desacreditar as empresas de medicina reforça por meio de uma comparação mais uma vez extraída da arte de curar seu voto de calor reconquistado.

87. Quanto a um corpo debilitado parece-lhe inútil tentar aquecê-lo e animá-lo mediante processos artificiais ou recorrendo à imaginação a fim de lhe devolver o apetite e a alegria que já não possui.

88. Portanto eis aí a imaginação, a fantasia, mais uma vez encarregada de uma esperança de palingenesia, e por que não se abandonar pelo menos por um instante ao sonho do rejuvenescimento e do recomeço.

89. Devolver-me-ia o amor o cuidado com minha pessoa, a vigilância e a jovialidade, faria com que os tristes sestros da velhice não me desfigurassem, e sem dúvida me induziria a estudos úteis e louváveis que me tornariam mais querido, libertaria meu espírito do desespero e da falta de confiança em seus meios, afastar-me-ia de mil pensamentos aborrecidos e de mil melancólicos desgostos que a ociosidade e a falta de saúde provocam.

90. E pelo menos em sonho aqueceria este sangue que a natureza começa a abandonar, sustentaria esta cabeça que se inclina, distenderia estes nervos e outorgaria um pouco de vigor e alegria de viver a este pobre homem que caminha a grandes passos para a ruína.

91. O fantasma do fogo redescoberto longe de tomar por objeto a figura de uma desconhecida papel que não parece que a srta. de Gournay possa desempenhar manifesta-se na enumeração dos benefícios pessoais que Montaigne poderia tirar de algum último amor, mas ele não se engana, e no final do ensaio vê toda a distância que o separa irreparavelmente do amor.

92. Em suma diria de bom grado que o amor só lhe parece natural na idade mais próxima da infância, mas que não se tome a coisa ao pé da letra, e o mesmo digo da beleza, e é preciso ao mesmo tempo dispensar todas as esperanças ligadas à arte e contemplar de longe os passos do amor cujo cortejo já não é possível acompanhar.

93. Vede como vai cambaleante, trôpego e brincalhão, aprisionamo-lo quando o guiamos com arte e sabedoria, e constrangemos sua divina liberdade quando o submetemos a mãos peludas e calosas.

94. Subsiste um último sonho tomado de empréstimo à utopia platônica ou antes derivado desta, que os privilégios eróticos que Platão atribui aos guerreiros valorosos sejam também outorgados àqueles que adquiriram outros méritos, quimera de uma recompensa carnal reservada aos bem-falantes, àqueles que como Virgílio são poetas, ou na falta disso àqueles que sabem perceber o refinado calor da grande poesia amorosa.

95. O que esse filósofo considera justo prêmio ao valor militar deveria aplicar-se a outros valores igualmente, e não haverá nenhum que àquele se substitua no gozo desse amor casto, e digo casto porque se nos ocorrer travar a batalha não passa de um fogo de palha em que a chama não tem força nem o furor dá fruto, e em verdade os vícios que se sufocam no pensamento não são os piores.

96. De todo o imaginário do calor reconquistado resta o que Montaigne faz dizer aqui por esses versos admiráveis de Virgílio.

97. Para concluir Montaigne afirma a igualdade dos sexos mas o faz no final de uma frase na qual fala em termos depreciativos do texto que acaba de escrever e em que insinua de passagem seis versos de Catulo.

98. Para acabar com este comentário prolixo que deu azo a um fluxo de palavras pouco comedidas e por vezes inconvenientes, assim cai do seio virgem a maçã presente furtivo do bem-amado, esquecendo que o escondera sob o vestido ergue-se ao ver aproximar-se a mãe e o fruto rola a seus pés, e eis que de rosa se tinge o seu rosto revelando a falta cometida.

99. Para acabar portanto com este comentário direi que machos e fêmeas saem de um mesmo molde e que em bem pouca coisa diferem, e fluxo de palavras pouco comedidas é a expressão que depois de haver insistido ao longo de toda a página anterior em sua condição de velho ele ainda atribui a um defeito de velhice na qual catarrros e fluxões predominam o longo ensaio que se acaba de ler.

100. E a asserção final para dizer a igualdade dos sexos toma toda a distância necessária, pois os dois sexos que saem de um mesmo molde são considerados objetos do ponto de vista do fundidor ou do demiurgo, e a frieza da velhice se traduz pela frieza objetiva que tem dificuldade em fazer caso de uma débil diferença.

101. Mas a citação poética latina opera um singular deslocamento cujo efeito é análogo àquele que Montaigne atribui no decorrer do ensaio aos versos de Virgílio e de Lucrécio, pois o poema citado compensa verbalmente a falta sofrida na existência.

102. A citação aqui introduzida é à primeira vista apenas uma engenhosa comparação que joga com a imagem do que escapa, e o fluxo de palavras que escapou a Montaigne se assemelharia à maçã caída do maleável vestido da jovem, e a analogia diz respeito ao oculto que se torna manifesto.

103. Ora a passagem à poesia latina não apenas faz reviver as imagens da extrema juventude mas também arrebata Montaigne no papel de uma jovem cujo amor é denunciado pela prenda que ela não soube esconder, e não é de certa maneira a confirmação do que Montaigne pretende dizer, a pouca diferença entre os sexos.

104. Mas ao efeito de confirmação acrescenta-se o efeito de inversão, e a força da poesia se manifesta uma última vez, pois é rejuvenescadora, feminizante, evoca o contato de um fruto e de um seio jovem, restitui a vida e o quente rubor, e é retorno ao amor no momento mesmo em que Montaigne em seu próprio texto diz dele estar afastado.

105. Nesse sentido a citação exerce ao distender a frase o efeito reparador da arte, e é mais amorosa do que o próprio amor, e ao mesmo tempo compensa o fluxo de palavras pouco comedidas do ensaio prosaico ao lhe conferir analogicamente e contraditoriamente o valor da prenda de amor.

106. E a afirmação final de aspecto apressado e zombeteiro desemboca em um provérbio que se refere às costumeiras técnicas da lareira, pois é bem mais fácil acusar um sexo do que desculpar o outro, e atente-se para o ditado, o roto ri-se do esfarrapado.

107. O atiçador e a pá estão ambos a serviço de um mesmo fogo mas são ambos igualmente negros, e fora do fogo os dois são feitos do mesmo frio metal, e o atiçador masculino é bem tolo de se rir da pá feminina.

108. A ideia da necessária reciprocidade não desapareceu do espírito de Montaigne, ao contrário, a expressão trivial e popular serve-lhe para lançar o ridículo sobre aqueles que não a aceitam, e o irônico recurso ao provérbio visa causar vergonha em um mundo no qual o homem não consente em encontrar na mulher a sua igual.

starobinski/1982/5.2.txt · Last modified: by 127.0.0.1

Except where otherwise noted, content on this wiki is licensed under the following license: Public Domain
Public Domain Donate Powered by PHP Valid HTML5 Valid CSS Driven by DokuWiki