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starobinski:1982:3.6

3.6 Agrupamento

STAROBINSKI, Jean. Montaigne en mouvement. Paris: Gallimard, 1982 (Coleção Bibliothèque des Idées).

“A RELAÇÃO COM OUTREM”

NOTA SOBRE O AGRUPAMENTO TERNÁRIO

1. Montaigne ama as tríades, pois seu livro que comporta de início duas partes terá finalmente três e três edições principais, e a organização ternária se anuncia no próprio título de certos capítulos.

2. A disposição triádica não serve apenas para agrupar exemplos estáticos, pois a vemos animar-se no movimento da argumentação dialética segundo o modelo herdado da disputatio medieval: quod sic, quod non, sed contra.

3. O leitor atento localizará o dispositivo ternário sob a aparente desordem de um discurso fervilhante, e ele muitas vezes ajuda Montaigne a determinar o lugar em que se classifica e a posição em que se encontra fixado por oposição a dois contrários que recusa.

4. Freqüentemente depois de haver oposto duas atitudes que constituem dilema Montaigne introduz uma terceira possibilidade que recebe sua adesão, e é o procedimento utilizado no quadro da filosofia que constitui o objeto de uma longa exposição na Apologia de Raimond Sebond.

5. A uma filosofia afirmativa e dogmática que se crê dona do saber Montaigne opõe o não-saber professado pelos acadêmicos, mas a ignorância dos acadêmicos se enuncia ainda com demasiada segurança, e a terceira possibilidade sobrevém sob a forma do pirronismo e de sua suspensão interrogativa.

6. Quem procura alguma coisa acaba por declarar ou que a encontrou ou que não a pôde descobrir ou que continua a busca, e toda a filosofia tende a uma dessas três conclusões, e os pirrônicos são aqueles que se deixam guiar e atentam tão-somente para a ordem estabelecida neste mundo, sendo esse o partido que para Montaigne tem a mais incontestável utilidade.

7. Na arquitetura de conjunto da Apologia é fácil reconhecer uma arquitetura tripartida graduada segundo as etapas de um acirramento polêmico, pois primeiro Montaigne responde às objeções da fé contra o método racional de Sebond, depois critica aqueles que atacam a validade científica dos argumentos avançados pelo autor da Teologia natural, e a essas duas réplicas se acrescenta em terceiro lugar o método de discussão em que desenvolve plenamente as consequências do pirronismo até reencontrar os argumentos da fé que de início combatera.

8. Ele cristianiza in extremis a dúvida cética, pois não é afinal pela ordem do mundo mas por Deus que o homem deve deixar-se dirigir e guiar, e essa solução renuncia a toda pretensão de domínio racional assim como a toda certeza no não-saber, sendo a terceira fórmula de Montaigne um meio-termo entre a atividade e a docilidade passiva em relação a uma intervenção externa.

9. No capítulo anterior Da crueldade Montaigne se comprazera igualmente em classificar por ordem de mérito e de beleza três tipos de virtude, e a mais alta supõe o hábito virtuoso tão bem incorporado à natureza que a alma não experimenta em si mesma nenhum combate.

10. A segunda ao contrário implica o conflito interno e o acirramento da luta, sendo a virtude militante que precisa de lutas contra as paixões contrárias, e a última não passa de uma impotência para fazer o mal.

11. É mais belo impedir as tentações de nascerem e edificar a virtude abafando o vício em embrião do que se esforçar por detê-lo em sua evolução e contra ele triunfar após se ter entregue às suas primeiras seduções, e esta segunda maneira de se conduzir é por sua vez mais meritória do que ser senhor de um temperamento bondoso e fácil por natureza alheio ao vício.

12. Nesta terceira e última hipótese o homem pode permanecer inocente mas não será virtuoso, pois não faz o mal mas não tem energia suficiente para fazer o bem, e isso constitui uma condição vizinha da imperfeição e da fraqueza cujos limites são tão difíceis de estabelecer.

13. Montaigne definindo seu próprio lugar reconhece que não pode classificar-se nem na primeira nem na segunda categoria, pois não é capaz da resolução que atestaria a divina superioridade da alma sobre qualquer emoção viciosa nem possui a altiva facilidade e a soberana alegria de Catão ou de Sócrates.

14. Não é muito capaz igualmente de batalhar contra o tumulto das tentações e não poderia sustentar a tensão do combate, e não lhe resta senão a terceira categoria, isto é, o pequeno mérito de uma natural inclinação para a bondade.

15. Está tão longe daquele grau de perfeição em que a virtude se torna hábito que nunca deu provas de haver sequer alcançado o grau precedente, não se tendo nunca esforçado de fato para conter os seus desejos, e sua virtude não passa de inocência ou melhor é acidental e fortuita.

16. Se tivesse vindo ao mundo com um temperamento mais desordenado creio que seus sofrimentos houveram sido grandes, pois quase nunca sabe opor uma vontade firme ao assalto das paixões e por pouco violentas que se tivessem mostrado houvera-se rendido, não sabendo alimentar querelas e conflitos dentro de si.

17. O termo próprio retido por Montaigne é inocência, e esta marcada pelo prefixo de negação designa simplesmente uma inaptidão para o mal, e em relação àqueles que têm direito ao título da virtude Montaigne difere segundo declara por uma disposição inteiramente passiva resultado do acidente e do acaso.

18. Para isso foi preciso que seu temperamento, isto é, a mistura mais ou menos estável de seus humores, entrasse em composição com a Fortuna, esse princípio de variabilidade e de imprevisibilidade que partilha com a natureza o governo do mundo.

19. Por aborrecer os vícios teve apenas de aceitar como vinham as influências mais diversas, os exemplos de sua família e a boa educação que recebeu na infância, e ao contrário as boas qualidades que tem deve-as à boa estrela que presidiu ao seu nascimento, não as obtendo por decreto, preceitos nem aprendizado, pois sua inocência é inata e ingênua e tem pouca vontade e pouca malícia.

20. Desprovido de força e não possuindo essa malícia que La Boétie desejava inculcar-lhe, Montaigne só pode prevalecer-se da moderação nativa de suas paixões, devendo-a tão-somente a seu nascimento.

21. Significa dizer que não tem aí nenhuma participação, mas por certo pela maneira como emprega esse conceito é evidente que o nascimento não é desprovido de ambigüidade, pois de um lado é um dado contingente determinado pelo acaso da procriação e do outro é o que define melhor a constituição natural do indivíduo na qual se impõe uma necessidade mais forte que tudo que aí poderiam acrescentar o aprendizado e o estudo.

22. Invocar o nascimento é recorrer a uma terceira possibilidade entre o que se deveria apenas aos outros e o que o exagero autárquico de si se julgaria dever apenas a si.

23. Resta uma oposição fundamental, pois as duas primeiras categorias são marcadas pela posse de uma qualidade eminente, hábito virtuoso ou força combativa, e a categoria em que se classifica Montaigne é caracterizada apenas pela ausência completamente involuntária de certos defeitos.

24. Pelo instinto e impressão que diz remontar aos seus primeiros anos acontece de Montaigne não exibir muitos vícios, mas tem alguns e não pode evitar ceder à sua inclinação que por sorte não é demasiado violenta.

25. Viu-se incitado a alguns desregramentos e não os combateu, e no máximo evitou que chegassem a perturbar seu discernimento, reprovando-os mesmo mais acerbamente em si do que em outrem.

26. É tudo porém, pois lhes opõe resistência diminuta e deixa-se levar facilmente por eles, conquanto saiba evitar abusos e impedir que degenerem em excessos, porque se não tomamos cuidado novos vícios nascem dos vícios antigos.

27. Tomando a precaução de isolar cada um de seus vícios e evitando deixá-los atuar simultaneamente, não lhe foi preciso muito esforço para escapar aos mais graves perigos, e essa terceira condição não é desonrosa já que dela o mal está excluído, mas ela exclui igualmente a glória ligada ao vigor moral.

28. Se assim se atribui uma posição inferior Montaigne pode mencionar uma compensação não desprezível, pois detesta a crueldade e é compassivo, e não receia confessar francamente esses sentimentos que a tradição clássica não associa à força de alma.

29. Eles têm um objetivo que tende à salvaguarda da vida dos outros ao passo que os dois tipos superiores de virtude têm em vista apenas a constância do indivíduo diante de sua própria morte, e portanto a diferença entre os três tipos de virtude não reside apenas em seu grau de força mas em seu objeto.

30. Sócrates e Catão, figuras emblemáticas da mais elevada virtude, deixaram a imagem de uma defrontação soberana da morte, e a virtude do segundo tipo, aquela que luta contra um inimigo interior sempre ameaçador, trava o combate da febre, da vergonha, da pobreza, da morte e das prisões.

31. Mais uma vez aqui na luta ativa a atenção se fixa no mal que o indivíduo deve superar em seu próprio corpo, e uma atitude deve ser mantida a qualquer preço sob o assalto da dor e da cólica, e no sentido em que é força e posse de si a virtude repele o perigo que ameaça o indivíduo em seu próprio ser, mas os dois tipos de virtude superior consideram a intervenção de outrem apenas no papel do agressor.

32. Em compensação a terceira categoria em que Montaigne reconhece o seu lugar é ilustrada por exemplos bem diferentes, e a relação com outrem aí adquire uma importância que não tinha nas formas mais exaltantes de virtude, mais altivas também e mais desdenhosas.

33. Entre os vícios um há que Montaigne detesta particularmente, a crueldade, e por instinto e por reflexão considera-o o pior de todos, chegando mesmo à fraqueza de não poder ver matarem um frango sem que lhe seja desagradável nem pode ouvir uma lebre gemer nos dentes dos cães apesar de adorar a caça.

34. Entristecem-no grandemente as misérias alheias, e quando por uma circunstância qualquer se encontra com alguém em lágrimas choraria facilmente junto se alguma coisa lhe arrancasse lágrimas, e nada o comove mais do que ver chorar de verdade ou fingidamente e até em pintura.

35. Não se apiada dos mortos antes os invejaria, mas tem dó e muito dos agonizantes, e os selvagens que assim comem o corpo dos mortos provocam nele uma impressão menos penosa do que os que os atormentam e torturam quando ainda em vida, não podendo sequer assistir calmamente às execuções capitais impostas pela justiça por mais razoáveis que sejam.

36. Para Montaigne aceitar classificar-se na terceira e última categoria é tanto renunciar a se prevalecer de uma excelência moral egocêntrica quanto deslocar para fora de si, na sorte dos outros, homens ou animais, o objeto da bondade de que não quis fazer um mérito seu.

37. Ao invés de saber suportar vitoriosamente a violência infligida ou a tortura oriunda do corpo doente, Montaigne se diz incapaz de aceitar-lhes o espetáculo quando outros as sofrem, e a sublime tensão de Catão e a maravilhosa alegria de Sócrates elevam-se até o prazer na cena mortal, mas esse contentamento imobiliza-se em uma perfeição fechada e recolhe-se em si mesmo, incluindo os outros apenas a título de admiradores.

38. Essa virtude isola o indivíduo elevando-o acima de todos os outros ou destinando-o ao combate incessante contra si mesmo, e ao contrário a inocência de Montaigne contrabalança pela extensão de sua atenção compassiva o que de início se definia como uma falta de energia moral.

39. A fraqueza pela qual Montaigne se reprova é compensada pela abertura de um poder de simpatia que se estende a todo sofrimento, e ao abrir-se para o destino de outrem a passividade do padecer expande-se em ódio da crueldade.

40. Não podendo seguir um modelo de perfeição egocêntrica em que domina o gozo masoquista, Montaigne vê-se conduzido a uma posição exatamente inversa, o reconhecimento de uma natureza imperfeita perturbada pelos comportamentos sádicos universalmente difundidos na época das guerras de religião e das conquistas coloniais.

41. Uma vez mais a relação com outrem vem proporcionar no domínio das relações entre os seres a mais generosa compensação para a carência de ser e de força que Montaigne diz perceber no seio de sua própria existência.

42. Mesmo sistema de compensação mas em sentido inverso na ordem literária está no ensaio Da presunção, em que Montaigne procede novamente a uma tripartição, mas dessa vez o partido ao qual ele se filia não é mais o da fraqueza e é ao contrário o da força.

43. Para quem escrevemos então, pois os sábios que têm por profissão julgar os livros só dão valor ao que concorda com sua doutrina e só admitem as obras de espírito em que encontram arte e ciência, e por outro lado as almas comuns que constituem a massa não percebem a graça de uma obra que trata com leveza um assunto elevado.

44. Essas duas espécies de gente dominam o mundo, e há uma terceira mais preparada para nos compreender, a qual se compõe de espíritos ponderados e lúcidos mas é tão rara que não tem nome nem situação, e é perder tempo esforçar-se por lhe agradar.

45. Praticando um discurso elevado mas não erudito e dotado de leveza mas não comum e popular, Montaigne se classifica em uma terceira espécie que supera as duas outras que constituem a massa, e a compensação será de sinal oposto pois os espíritos ponderados e fortes constituem um grupo numericamente fraco.

46. Contudo essa ínfima minoria de homens de bem é o único lugar possível de uma relação plenamente humana, e a força do espírito é reconhecida apenas em um mundo estreito, sendo aí que podem nascer as mais refinadas ligações de amizade.

47. Um último exemplo de tripartição diz respeito às três partes da existência e à relação que Montaigne manteve com os livros em cada uma delas, pois quando moço estudou para brilhar, mais tarde para alcançar a sabedoria e agora o faz para distrair-se.

48. Por vaidade gastou muito com livros não somente para prover suas necessidades mas ainda para ver aumentar o número de volumes e ampliar-se a sua biblioteca, e há muito que isso não lhe acontece mais.

49. Três estilos de relação se sucedem, pois a uma atitude dominada pela preocupação com a opinião dos outros segue-se uma tentativa de reapropriação interior conforme as normas da sabedoria, e enfim em terceiro lugar desabrocha o livre movimento da alma sem tensão nem coerção e a exemplo da amizade sem finalidade exterior.

50. Doravante já que La Boétie não está mais vivo a vida de Michel de Montaigne pode escoar-se ao sabor do momento, fazendo das Musas e dos livros os mediadores da relação refletida consigo mesmo no passatempo e prazer, e é a terceira condição em que prevalece a relação tranqüila e dominada.

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