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9 Argumento ontológico

TILLIETTE, Xavier. L’absolu et la philosophie: essais sur Schelling. Paris: PUF, 1987.

1. Dedicando-se D. Henrich, em seu exame severo da ontoteologia schellingiana, quase exclusivamente ao texto, de fato o mais explícito, da VIII Conferência da Einleitung in die Philosophie der Offenbarung, apresentando essa exposição tardia, porém, o balanço e o desfecho de reflexão inaugurada uns cinquenta anos antes. Sendo o problema de Deus, como observa Zeltner, espelho que se pode passear ao longo de todo o itinerário de Schelling, constituindo o chamado argumento ontológico (das sogenannte ontologische Argument) um dos marcos maiores de sua evolução filosófica.

2. Não sendo, a bem dizer, para contradizer Henrich que se retoma brevemente a investigação aquém da última filosofia, mas para completá-la, tendo esse autor visto muito bem que, ao remendar ou revestir a indefensável objeção lógica, Schelling obedecia a motivações profundas.

  • não tendo Schelling proibido a passagem do pensamento à existência (da ideia de Deus a sua existência real), mesmo no caso do Ser supremo, senão em nome de uma concepção de Deus, a fim de evidenciar a superação do “Deus dos filósofos” e abrir por outra via o acesso ao Deus efetivo, imprevisível e livre, ao “Senhor do Ser”
  • não se elevando o exercício autônomo da razão senão a um Deus em ideia, não diferindo porém fundamentalmente seu uso diante do objeto suprassensível — Deus, o existente infinito — de seu emprego no mundo empírico: devendo aqui fiar-se na autoridade dos sentidos, e ali na da crença, da “revelação”
  • invertendo-se, porém, o percurso: diante do mundo sensível, precedendo o conceito e desenhando a atestação da existência, ao passo que, quanto ao Ser transcendente, sendo o conceito apenas consequência, sendo a razão, em ambas as situações, verificadora
  • limitando, por outro lado, o redobramento que exprime a objeção lógica — sendo Deus necessariamente o Ser necessário, ou: sendo Deus o Ser necessário, se Ele é — por seu aspecto negativo, o alcance do conhecimento racional, garantindo porém positivamente a ligação da essência à existência, do Was ao Dass, e a inclusão mútua das duas filosofias
  • fornecendo assim, por sua própria radicalidade, o meio de reativar, de reanimar a razão “interdita” e, estando esta bem assegurada de seu fundamento transcendente, de reconduzi-la à imanência e prospectar as vias do Espírito absoluto
  • revestindo, evidentemente, os termos como existência, necessidade, potência, sentido próprio de Schelling, dependendo, intimamente inseridos na trama de sua especulação e notadamente da Potenzenlehre, diretamente de seu desenvolvimento e de suas leituras filosóficas

3. Reprovando Henrich a Schelling não ter-se atolado na objeção lógica, mas tê-la utilizado mal, e não ter marcado nitidamente a distinção entre um emprego legítimo da prova — na filosofia positiva — e um emprego ilícito — na filosofia negativa.

  • estando, na realidade, essa dupla face, avesso e direito, do argumento ontológico subentendida e mesmo claramente tematizada, querendo porém Schelling evitar a aparência de contradição
  • não permanecendo o argumento tal e qual formalmente na marcha regressiva e na marcha progressiva, operando-se sobre ele ou nele a transferência, a inversão dos correlatos: primeiro do ser perfeito à existência necessária, depois da existência necessária ao ser perfeito
  • falando por isso, em contraste com a prova clássica denunciada por Kant, de “prova ontológica reendireitada”, sendo o argumento reintroduzido como hipótese diretriz, sendo o Beweis antes um Erweis, uma prova desdobrada que se apoia numa constatação de fato e de experiência

4. Podendo sintetizar-se assim a forma schellingiana do argumento ontológico: não podendo Deus existir senão necessariamente; devendo portanto o que existe necessariamente ser Deus, sendo isso o que se trata de mostrar, e sendo isso tarefa da razão retornada a seu fundamento originário.

  • sendo Deus, porém, mais e outro que o existente necessário, sendo a razão capaz de transcender seu conteúdo imediato, dizendo respeito a grande dificuldade desse procedimento, além da noção de existente necessário, à mola da conversão da razão e à natureza de seu percurso positivo

5. Tendo a atitude de Schelling diante do argumento ontológico origens distantes, tendo sempre alternado a crítica e a valorização, a restituição, distinguindo um sentido incorreto e um sentido válido, tendo, ao longo de sua longa carreira, ampliando seus conhecimentos como o alburno aumenta seus círculos, renovado constantemente interpretação em partida dupla. Mostrando-o um rápido percurso por suas explicações sucessivas.

6. Não estando presente de saída em seu espírito, é verdade, a chamada objeção lógica, recusando em bloco os primeiríssimos escritos a vã “tagarelice” das provas da “existência” de Deus, não tendo Deus existência objetiva, Dasein, tendo apenas um Sein.

  • sendo a prova ontológica entendida como visando um objeto conceito contraditório, esbarrando a filosofia teórica em beco sem saída, sendo em contrapartida a ideia de uma prova ontológica (“se há um Deus… sua existência e sua essência são necessariamente idênticas”) a verdade simples e inteligível
  • enunciando essa evidência de que a única prova possível de Deus não é uma prova, sendo a “proposição sem fundamento”: há um Deus, simétrica ou igual ao “Eu sou”, princípio do idealismo
  • emanando por isso a prova de uma intuição; não sendo ilusão puramente artificial, mas de todo natural, como a ilusão de Espinosa, podendo, se por impossível se pudesse determinar Deus como “Eu”, ser Ele o fundamento real de meu saber
  • sendo por medo — antecipado — do espinosismo que se desfigurou a natureza da prova, introduzindo-se nela a noção empírica de um ser que só é absoluto porque não se lhe conhece superior

7. Não modificando fundamentalmente a filosofia da Identidade, já em germe nos primeiros ensaios, a posição de Schelling diante do argumento, tendo porém, tendo o Eu enquanto princípio absoluto se dissipado, após ter servido de veículo provisório à “Ciência superior”, a crítica da prova deixado de participar da crítica do dogmatismo, ficando englobada na rejeição ou no mau desvio dos “sistemas da reflexão” que entravam o acesso ao conhecimento absoluto.

  • reinando o Absoluto ou o Eterno em sua pureza, sem partilha, acima do contraste do infinito e do finito, sendo, como estava no começo na intuição intelectual, reencontrado no termo no conhecimento absoluto ou na especulação filosófica, desdobramento pacífico da intuição intelectual e cumprimento do espírito
  • tratando-se, portanto, de elevar-se, pela contemplação e pela arte, ao conhecimento absoluto, alcançando somente esse modo de conhecimento a Identidade, sendo erro dos sistemas reflexivos — Descartes, Malebranche, Fichte — ter desviado de seu sentido originário “o ponto da suprema evidência filosófica”
  • sendo perfeita sua ideia do Absoluto, sendo defeituoso o modo de conhecimento, levantando-se em Deus a contrariedade, mas não no conhecimento, já que o ser de Deus era derivado do pensamento do filósofo
  • não se podendo mais admitir, desde o criticismo, que da simples ideia do Absoluto se siga sua realidade, tanto quanto da ideia de uma montanha de ouro ou de cem táleros
  • interpretando Schelling aqui, nos Fernere Darstellungen (1802), a objeção empirista (sendo a existência simples posição, ausente das notas do conceito) como objeção lógica (passagem da ideia de uma realidade à própria realidade)
  • sendo a ignorância do modo absoluto de conhecimento o que obriga a reflexão a fixar o Absoluto como absoluto, a objetivá-lo, não tendo a ideia defeito, repita-se, mas sendo o método falho
  • caindo a reflexão na mesma armadilha e no mesmo pecado que a afirmação dogmática, embora por via mais sutil, consistindo o erro de Descartes em bloquear o movimento, deter-se na prova ontológica, “esse resto de autêntica filosofia”
  • sendo dissociar, ainda que para depois ligá-los, o ideal e o real, dito de outro modo o percurso do argumento, desertar a intuição intelectual e, por conseguinte, perder o que se queria captar, não nascendo Deus de mistura, de ligação do Ideal e do Real, mas sendo cada um por si e cada um por inteiro

8. Situando-se a virada maior da meditação ininterrupta de Schelling, como se sabe, durante os primeiros anos da estada em Munique, representando a filosofia da Identidade um ponto de suspensão, uma Auflösung der Dissonanzen.

  • estando, no nível da Indiferença, todos os contrastes superados e reconciliados, mas por sua neutralização, dissipando o recurso à intuição intelectual, embora não mencionada no “Sistema” fragmentário de 1801, as obscuridades reais no clareamento de uma luz igual
  • não sendo aqui o lugar de analisar a transformação profunda ocorrida nesses anos de maior renome de Schelling, tendo porém a fase da Identidade sucumbido ela mesma ao defeito que pretendia combater
  • saída de ardente campanha contra o saber inerte e morto, freando ela mesma tanto o movimento do pensamento quanto o devir pessoal que a suscitara, não podendo a paralisação do tempo que instituía senão ser um tempo de paralisação
  • enganando-se, porém, quanto ao temperamento de Schelling e sua concepção da filosofia, quem cresse ter ele pura e simplesmente rejeitado essa época de seu pensamento, dispensado-a bruscamente e sem recurso
  • voltando antes, com que intensidade!, ao finito e aos problemas a ele ligados, guardando presentes os resultados da Identidade; e, sem ainda tematizar explicitamente a ideia filosófica que resume a pesquisa de sua juventude, reordenando-a em função das questões prementes do homem e do mundo real, da liberdade, da história, do mal, da religião
  • destacando-se sempre sobre o fundo uniforme, monocromo, da Indiferença a exposição de uma filosofia histórica de grande envergadura, refletindo-se o eclipse da Identidade serena em excesso de insatisfação e vontade construtiva

9. Realizando Schelling, com os Weltalter, começados por volta de 1810, a “arrancada” (Durchbruch) rumo à filosofia que qualificará de positiva, tendo a intuição intelectual, como órgão capaz de alcançar o Absoluto, declinado definitivamente.

  • modificando profundamente a preocupação antropológica dominante e o partido antropomórfico as abordagens do problema de Deus, não podendo a razão, o sentimento, o querer, contentar-se com um Deus repousando em sua aseidade
  • exigindo o Deus real, o Deus que fez o homem à sua imagem e pôs nele a necessidade incoercível de conhecê-Lo tal como Ele é

10. Interpretando Schelling agora, nessa medida ou escala ampliada, a teologia natural, recolocando-se a crítica da prova ontológica no seio do movimento que coordena a gênese efetiva de Deus e a irresistível aspiração da consciência humana.

  • não sendo mais o nervo da prova uma intuição indiscutível pervertida pela fixação reflexiva, não estando o argumento ontológico isolado dos outros argumentos, só o atingindo a crítica para abri-lo e desenvolvê-lo
  • mostrando Schelling, ao final da primeira versão inacabada dos Weltalter, refazendo ao contrário o caminho de Kant, o engendramento mútuo e o processo interno das três provas racionais
  • desvelando uma filosofia dinâmica o que um pensamento mecânico, operando sobre conceitos abstratos e rígidos, não pode evidenciar, a saber a unidade do feixe da tripla prova, e as relações verdadeiras
  • manifestando ela a ligação originária e viva das três provas como os momentos distintos de um só e mesmo Ser, sendo essas provas os elos de uma corrente, os membros de um organismo, concorrendo juntas para formar a representação do Deus buscado
  • não bastando nenhuma tomada separadamente, valendo as três em grupo e escalonando a ideia completa de Deus: a prova ontológica = a Limpidez primitiva, a pura divindade reclusa e absorvida em si, a eternidade sem mistura de tempo; a prova cosmológica = o Deus real, existente, fundamento e alicerce do momento precedente; a prova físico-teológica = o Ser consciente de si, inteligente, livre, pessoal, mas que requer, para ser criador do mundo, a base e o pressuposto do necessário

11. Retomando brevemente a versão mais tardia publicada na edição das Obras Completas, em outro lugar, a mesma argumentação, igualando-se, sob a pressão da razão e do sentimento, a filosofia à religião, esgotando o conceito do Deus vivo.

  • notando-se essas belas fórmulas paradoxais: não se satisfazendo nem a ciência nem o sentimento com um Deus que não é porque é o Ser, não vivo porque é a Vida, não consciente porque é pura consciência, postulando um Deus que exista diferentemente de sua essência, que saiba, que aja; não bastando o argumento ontológico, reclamando razão e sentimento a uma só voz um Deus que não seja puro “isso” (Es), mas que seja “ele” (Er)
  • apresentando as Stuttgarter Privatvorlesungen, contemporâneas dos rascunhos dos Weltalter, a filosofia como o programa de um “teísmo explicativo”: sendo toda a filosofia prova progressiva do Absoluto, mostração contínua de Deus, isto é, do Urwesen, ser dos seres e ser individual

12. Constituindo, se nos reportarmos à filosofia da Identidade, o desenvolvimento iniciado ruptura e alargamento, não estando ainda tematizada a cisão de duas filosofias, mas estando implicitamente efetuada.

  • não sendo mais a “Razão absoluta” o lugar da unidade e da totalidade, não estando o conceito de Deus cercado pelo conhecimento racional, sendo Deus maior que a razão

13. Tendo as conferências de História da Filosofia Moderna dadas em Munique em 1827 fornecido a Schelling a ocasião de voltar, numa perspectiva histórica, ao argumento ontológico e à interpretação da “antiga metafísica” pré-criticista.

  • assegurando ele que a filosofia ainda está desembaraçando os mal-entendidos a que esse argumento deu lugar, não tendo Kant detectado seu vício ao contestar, contra Descartes, ser a existência uma perfeição
  • visando a ponta da prova cartesiana não a existência em si, mas o modo da existência: precária, contingente — ou necessária, eterna, tendo porém Descartes, por sua vez, cometido um paralogismo, pois na conclusão acrescenta às premissas, que apenas enunciam: repugnar à natureza do Ser perfeito existir de modo contingente, não podermos conceber o Ser perfeito senão como necessário
  • sendo a conclusão óbvia e lícita, não que Deus exista, mas que Ele não pode existir senão necessariamente: existindo Ele, existe necessariamente, sendo evidentemente uma tautologia dizer que o Existente necessário existe
  • sendo essa afirmação, porém, estéril, não dando o sentido da prova, sendo, uma vez posta a Existência necessária, a existência de Deus ainda hipotética, pois Deus não se reduz de modo algum à existência necessária, não esgotando a “ideia” do Existente necessário a noção de Deus
  • reconhecendo Schelling ser desculpável a falta lógica, havendo apenas fraca margem entre as duas formulações: sendo Deus o ser necessário, e sendo Deus necessariamente o Ser necessário (a única conclusão válida e lícita)
  • fazendo, porém, com isso, deslizar a necessidade ontológica sob a necessidade lógica, retendo ou suspendendo a afirmação ontológica, estando obnubilado, embora já entreveja o papel do silogismo retificado na filosofia positiva, pela existência necessária como modo de existência, determinação qualitativa
  • restando-lhe esclarecer e precisar o que entende pelo Existente necessário, estando, em todo caso, as peças do tabuleiro dispostas, não fazendo as apresentações ulteriores senão variar a disposição

14. Não tendo, porém, esgotado o conteúdo das Lições de Munique, concentrando-se a atenção no simples existente, no absolutamente necessário. Como defini-lo?

  • sendo, na metafísica clássica, portanto na meditação anselmiana e cartesiana, cujo termo constitui, o ipsum Ens, o Ser mesmo; sendo, para Espinosa, a pura substância imóvel, imemorial, a absoluta substância ou a natureza de Deus
  • precisando Schelling ainda ser o puro Ser potenzlos, Fim e não Princípio, igualando-se assim, se o conceito de Deus, que emana da consciência universal anterior à filosofia, à noção de existência necessária, esgotando-se com Descartes o “mais” ou o excedente que há no conceito de Deus
  • chegando-se com Espinosa a um Deus inerte e morto, exigindo porém a consciência de Deus que seja livre, e livre absolutamente, estando por isso amplamente justificadas as reticências dos Escolásticos contra o argumento ontológico

15. Sendo, porém, por outro lado, o Ipsum Ens, o αύτὸ τὸ ὂν, “o que é”, o puro começo, o conceito racional absoluto, impossível que não seja, sendo como o ser necessário, o ser cego.

  • sendo-lhe por conseguinte, se lhe é impossível não ser, não possível ser (ser real), pois, para lhe ser possível ser, precisaria ser-lhe possível não ser, estando a razão em beco sem saída
  • sendo essa uma das versões (lógica) do êxtase ou da vertigem, não levando o conceito racional absoluto senão a esse beco sem saída do ser necessário, despojado de toda liberdade, e que rouba ao pensamento sua liberdade
  • não chegando ao conceito de Deus, mesmo partindo, ao contrário, do conceito de Deus, encontrando-se o mesmo beco sem saída, pois não se pode evitar dizer que Deus é “o que é”, a essência de todo ser, recaindo-se na mesma contradição entre o resultado do pensamento e o desejo do querer
  • não havendo, porém, meio de largar o autêntico conceito originário, sob pena de perder o ponto de partida sólido do pensamento

16. Sendo a antinomia aparentemente insolúvel a da razão e do querer, refletindo porém antinomia mais profunda no próprio conceito de Deus tal como fornecido pela tradição, a religião, a crença universal: a antinomia entre a natureza de Deus e sua existência, sua necessidade e sua liberdade.

  • não estando a filosofia obrigada a apoderar-se do conceito de Deus, que lhe é exterior, a abordar o problema de Deus, fazendo-o, porém, devendo empenhar-se em resolver a antinomia; sendo essa sua tarefa

17. Sendo a solução que Schelling esboça, no capítulo dedicado a Kant — virando o desenvolvimento sobre Descartes de lado após o enunciado do problema —, em substância a dos Weltalter, isto é, o encadeamento progressivo das três provas e sua interpretação significante.

  • sendo assim o querer — não determinado como um querer da razão — que retoma nos bastidores o mecanismo da ontoteologia, sendo a mola e o motor de uma filosofia serva da teologia

18. Não fazendo, porém, essa solução senão paliar a dificuldade, não bastando explicar por que se passa de uma determinação a outra, sendo preciso ainda mostrar como se articulam e ligam, “na própria coisa”, os momentos sucessivos.

  • sendo além disso perigoso e um pouco surpreendente deixar, ao menos hipoteticamente, o conceito de Deus fora do campo da filosofia, e não ligar expressamente a exigência originária do querer e o percurso originário da razão

19. Sendo o intervalo relativamente breve que separa as Lições de Munique das de Berlim marcado por amadurecimento da pesquisa, que desabrocha na distinção das duas filosofias, permanecendo intactas as grandes linhas da orientação geral, tendo porém mudado o quadro, ganhando os dados e a solução do problema em precisão, sem talvez, porém, satisfazer plenamente.

20. Não sendo explícita senão nos últimos cursos berlinenses a cisão da filosofia em filosofia negativa e filosofia positiva, latente nos escritos anteriores, consagrando Schelling, ao tematizá-la, ruptura antiga, mas, longe de agravar a separação, buscando ao contrário justificá-la, torná-la plausível.

  • fazendo, desse “escândalo”, o aguilhão de uma restauração compreensiva da filosofia no singular, consistindo todo seu trabalho de septuagenário diminuído mas não abatido em aproximar as bordas do corte e preencher o intervalo
  • podendo dizer-se que de uma filosofia rompida em dois passou a duas filosofias em uma, não sendo aqui o lugar de detalhar o processo

21. Colocando-se assim um novo exame do argumento ontológico no quadro das duas filosofias, que esclarece todas as antinomias, ou antes situando-se exatamente na charneira, o que destaca sua importância sem igual, sendo com efeito o ponto nevrálgico a passagem da filosofia negativa à filosofia positiva, sendo a crítica da prova ontológica lugar de eleição, e mesmo o protótipo, dessa passagem.

22. Tendo-se já indicado, ao começar, o essencial do texto que serviu de base a Dieter Henrich, tendo o autor seguido, e tido razão em seguir, as sugestões de Walter Schulz, nesse ponto dificilmente vulneráveis, tendo porém esbatido peça-mestra do raciocínio, a saber que a filosofia positiva pode começar sozinha, sem o socorro da negativa.

23. Sendo o elemento novo e capital que aparece nas Lições de Berlim, com seu emprego e localização específicos, a reviravolta extática da Razão, sendo o êxtase da razão, já descrito outrora nos Erlanger Vorträge, o ponto de partida da filosofia positiva.

  • ao passo que em Erlangen era descrito como decisão de tábula rasa e marcha ao deserto, como ato de nascimento do filosofar sem mais, apresentando-se aqui, não apenas como esboço de um movimento, mas como consequência de um percurso anterior
  • sendo o êxtase — sendo a palavra apenas uma imagem — fenômeno ambíguo, uma conversão, que supõe o que suprime, não se reconquistando a razão senão se ela se perdeu

24. Tratando-se em suma de mostrar que o golpe de parada do êxtase é a condição necessária do impulso do querer transcendente, sendo, em relação à “prova” de Deus, a reviravolta extática a transição inelutável, sendo o problema reencontrar depois o Deus real.

  • suscitando o êxtase a apercepção ou o encontro do existente necessário, potenzlos, do puro existente, chamando-lhe Schelling agora de bom grado o indubitável existencial (das unzweifelhaft Existirende)
  • sendo o indubitável existencial o “abismo da razão” de Kant, à beira do qual ela vacila, tomada de vertigem, podendo pensar-se que a estupefação da razão emana da dúvida universal
  • transpassando, porém, muito diferentemente a razão o que permanece inabalável no fundo da dúvida, referindo-se Schelling, ao declarar que a filosofia positiva pode começar sem preparativos, à dúvida arrancada que é o princípio dessa filosofia
  • inscrevendo-se assim a modalidade extática na moção, no impulso que conduz ao Sobre-ser, ao Senhor do Ser, sendo o existente necessário, ideia fundamental da filosofia positiva, o Prius de Deus (isto é, de seu ser divino, de sua divindade), o ato que permite a sua potência universal desdobrar-se
  • sendo a Potenz o único fundamento de toda dúvida, não se tendo contestado a Espinosa o direito de partir ex abrupto do existente necessário, tendo sido seu erro não desprender-se dele
  • sendo, porém, irrefutável esse ponto de partida “extático”, podendo a filosofia positiva dispensar a negativa, dispensar a prévia pesquisa racional

25. Nessas condições, à luz da distinção das duas filosofias, e da absoluta prioridade da filosofia positiva, que se torna o argumento ontológico? Sendo, em sua forma clássica, radicalmente dispensado, devendo a filosofia positiva largar, “deixar cair” mesmo o conceito de Deus.

  • devendo porém, bem compreendido, ter conduzido ao limiar da filosofia positiva

26. Sendo a descoberta da filosofia positiva — da ciência que tem Deus por princípio — o que torna negativa a filosofia racional, sendo preciso reinterpretá-la em função daquela, ou, o que dá no mesmo, desprender o começo da filosofia positiva a partir da filosofia negativa, da pura ciência racional.

27. Partindo a metafísica anterior, e singularmente o argumento ontológico, que é a “cidadela” (arx) da teologia racional, do conceito de Deus para com ele recobrir o puro existente, sendo seu erro ter usurpado a conclusão ao ultrapassar o enunciado das premissas.

  • decorrendo desse argumento “empregado de modo errado” apenas, desde toda a eternidade, que Deus não pode não ser pensado como existente, que só pode ser o ser necessário
  • lembrando Schelling brevemente e criticando as formulações de Leibniz, Anselmo e Descartes, já conhecida sua crítica pelo parágrafo precedente

28. Tendo Kant feito justiça às pretensões da antiga metafísica, não tendo encontrado a verdadeira falha do silogismo ontoteológico, mas superando o balanço positivo de sua refutação o negativo.

  • sendo o resultado positivo que Deus é conteúdo necessário, e não contingente (como pensava de fato a metafísica clássica), da Ideia racional suprema e última
  • sendo o resultado negativo que Deus é apenas Fim, Ideia suprema, regulativa, escapando definitivamente seu Ser real à razão, tendo Kant negado que Deus fosse Princípio, negado a ciência para a qual Ele é Princípio, e por conseguinte a relação com toda religião real, revelada

29. Tratando-se para Schelling de levantar essa interdição sem recair nos paralogismos da teologia racional, devendo, bem compreendida, a prova ontológica ter conduzido ao começo da filosofia positiva.

  • sendo preciso, porém, para isso, riscar ou pôr entre parênteses a hipótese restritiva: se Deus existe, apagando-se então por sua vez, ou antes refluindo com o conceito de Deus, a ideia suprema terminal — um ser cuja essência é existir
  • não subsistindo senão o existente necessário, o indubitável existencial, despojado de toda determinação, sendo essa existência necessária, que reside no fundo do argumento ontológico, o ser em e antes de si, o ser precedendo o Was e a essência, o Prius da divindade, em suma o ato, a pura realidade exclusiva de toda possibilidade
  • podendo bem chamar-se-lhe “seiende Potenz”, “poder-ser erguido”, contanto que se compreenda bem que a potência aqui é o ato, não dizendo respeito à possibilidade do Ser, mas à possibilidade do ser-Deus, da divindade

30. Preservando-se assim intacta a liberdade divina, a potência universal como correlato do ato do puro existir, revelando-se o modo de existência necessária não uma determinação acrescentada depois à existência em geral, mas antes a existência sem modo, pura, infinita e sem fundo.

  • não podendo ser predicada do puro existente a existência, que, para todo outro existente, é acidental, pois é seu ser, sua essência, é o sujeito
  • precisando por isso Schelling, corrigindo a fórmula das Lições de Munique, que não se deve dizer: o ser (Wesen) existindo necessariamente, mas simplesmente o existente necessário, o quod incontaminado, isento do quid
  • afastando-se ainda mais nitidamente o procedimento aqui seguido da Steigerung das três provas esboçada nos Weltalter

31. Sendo essa existência completamente despojada inapreensível ao pensamento, sendo o “inconcebível a priori”, detendo-se diante dela, com efeito, como diante de limite inacessível, a razão, interdita e tomada de estupor.

  • quer a aborde pelo viés da filosofia negativa, quer a ela aceda de saída pela mística intelectual, não a alcançando senão na apófase, reduzindo a apercepção do existente necessário a razão ao mutismo, retirando-lhe sua força de propulsão: sendo o êxtase
  • chamando Kant a tal experiência “abismo da razão”, sendo a anterioridade absoluta do ser imemorial o que mergulha o pensamento no pavor e na vertigem, sendo a razão tomada e destomada, posta “fora de si mesma”

32. Assinalando, porém, o êxtase uma reviravolta (Umkehrung), uma inversão possível da situação da razão, sendo já ele mesmo essa reviravolta, sendo o ponto de inflexão.

  • abolindo o caminho percorrido, indicando que é preciso voltar sobre os passos, inverter o percurso, perdendo a segurança, o domínio sobre si mesma e as coisas, recebendo a razão novo impulso, no seio mesmo da insegurança fundamental que lhe entrega o fundo sem fundo de seu ser

33. Mas de onde provém a conversão da razão, seu retorno às coisas existentes? Importando conservar presentes as articulações que arriscam afundar-se e engolfar-se no abismo, pois o existente necessário, o puro Dass, não é capaz de comunicar o impulso à razão que imobiliza e transpassa.

  • sendo porém a descida ao abismo apenas um momento num percurso contínuo, sendo certamente o êxtase descontinuidade radical, supondo porém o começo que institui ao menos virtualmente o trajeto anterior da razão
  • aprendendo a razão, da experiência limítrofe do êxtase, sua dependência fundamental, sua sujeição; sendo, no “antes” e no “depois”, suas atitudes então diferentes, seus modos de afirmação desiguais
  • valendo porém a prova sempre aproximada, aproximativa, da filosofia positiva mais que a segurança da filosofia negativa saldando-se em fracasso final, ultrapassando a majestade pressentida dos “grandes mistérios” a certeza garantida dos “pequenos mistérios”

34. Significando, livre das imagens, a reviravolta da razão que Deus deve poder provar-se, isto é, manifestar-se à razão que tocou em seu âmago a pura realidade originária, não sendo a capacidade da razão afetada, sendo antes dobrada, mudada de sentido.

  • basculando sobre ela o que julgava tirar de seu próprio fundo, revelando-se Deus como a potência universal, tendo a razão por tarefa discerni-lo e localizá-lo, não havendo mais, na filosofia positiva, propriamente falando, provas da existência de Deus, sendo ela toda inteira prova continuada
  • sendo a inspeção do real sob a hipótese e o princípio da iniciativa de Deus, sendo a conversão a Deus ao mesmo tempo retorno aos fenômenos, sendo Deus o “transcendente tornado imanente”

35. Dizendo respeito a questão que comanda a interpretação da “passagem”, e por conseguinte da filosofia positiva, à natureza exata da reviravolta extática. Por que gira a razão sobre si mesma? Por que não permanece fixada no existente inerte e cego?

  • não autorizando nada, no texto em questão, cujo objetivo primeiro é fazer surgir o punctum saliens da filosofia positiva, fazer intervir o elemento voluntário ou existencial, sendo a derrota da razão, com efeito, sua vitória
  • podendo por isso Walter Schulz estabelecer uma linha contínua: tocando-se as duas filosofias lado a lado, atravessando a Fortbestimmung da razão a barreira
  • tendo Schelling, porém, em vez de incluir uma na outra as duas filosofias, muito empenho em separá-las e afastar os conceitos, não sendo o fim da filosofia negativa o começo da positiva

36. Encontrando-se Dieter Henrich, que se inspira em Schulz, fundado por isso a achar complexo o encaixe e frágil a solda das duas filosofias, no exemplo do argumento ontológico, não havendo porém, de fato, nem solda nem lacuna.

  • sendo o existente necessário o eixo imóvel em torno do qual a razão se comporta diversamente, não sendo uma ideia, mas sendo uma ideia invertida, não sendo um ser, mas sendo o puro existente
  • sendo essas fórmulas paradoxais feitas para semear a confusão, e Schelling assim o quis, interessando-lhe a disposição contrastada das duas filosofias, não correspondendo por isso o argumento ontológico “reendireitado” traço a traço a sua imagem no espelho da filosofia negativa:
  • Filosofia negativa: se Deus é, é necessariamente o existente necessário. Filosofia positiva: o existente necessário é efetivamente (faktisch) Deus

37. Lembrando a designação de ser ou de essência (Wesen) que reaparece que o puro existente necessário permanece opaco e impermeável, sendo espécie de terra de ninguém do pensamento, e, assim como Schelling ultrapassou o argumento ontológico da filosofia negativa, pela redução ao existente puro, sobrepondo do mesmo modo à tese na prova positiva.

38. Sendo, porém, intencionais essas transformações, não invalidando a incerteza perturbadora que paira sobre o existente necessário o curso ulterior da filosofia positiva.

  • devendo aliás pôr-se o começo duvidoso da filosofia positiva (pois o existente necessário não é Deus) em sincronismo com outros textos, onde Schelling descreve laboriosamente como a razão potencial rompe a magia, arranca-se ao fascínio da imobilidade, do imemorial

39. Restando que o estatuto da filosofia negativa não está perfeitamente esclarecido, não terminando seu papel com a instauração da filosofia positiva, não estando ultrapassada a verdade do argumento ontológico que recuperou com a inflexão prospectiva do pensamento.

  • sendo a melhor garantia do lugar e da vitalidade persistente da “filosofia puramente racional” que Schelling dedicou o último esforço de sua longa reflexão, numa série de lições das quais apenas algumas foram professadas

40. Passando mais uma vez em revista a história da ontoteologia — sendo sempre histórica a perspectiva do último Schelling —, sendo o velho filósofo de novo levado a explicar-se sobre Descartes.

  • sendo a existência de Deus, tal como Descartes a demonstra, a que é posta no puro pensamento, o puro ser racional, tendo porém Descartes e seu discípulo Malebranche interpolado noção intermediária, a noção de perfeição
  • deixando o silogismo assim formado escapar o objeto “tocado” pela própria razão, não se ocupando depois Descartes mais do mundo e da ciência, cortando cerce, renunciando a compreender o ser duvidoso por causa do qual buscava o ser indubitável

41. Não provando, por outro lado, o argumento ontológico o que pretende provar, dando apenas o ser de Deus incluído na Ideia. “Deus é o Ser” não sendo proposição de existência, mas proposição predicativa.

  • não havendo prova da existência de Deus em geral, porque não há existência de Deus em geral, sendo o resultado verdadeiro o “Deus implícito”, que deve desdobrar-se em “Deus explícito”
  • encontrando-se assim o teísmo explicativo integrado à pura razão, parecendo o momento do ser desnudado mais ou menos relegado

42. Voltando um pouco mais adiante, comentando Aristóteles, o grande mestre de pensamento da última filosofia, Schelling a esse desdobramento da noção e de suas virtualidades, que perfila em pontilhado a filosofia positiva na própria negativa, e talvez torne supérflua a reviravolta extática.

  • tendo os partidários do argumento ontológico assimilado abusivamente ao conceito aristotélico οὖ ἡ οὐσία ἐνέργεια, ou posto sob sua caução
  • estando porém em Aristóteles a essência completamente eliminada em proveito do ato, ao passo que nos Modernos, notadamente em Leibniz, é anteposta à existência
  • consistindo para Aristóteles a essência no ato, sendo o termo de toda prova da existência necessária de Deus, prossegue Schelling, que ele é necessario Existens, existente necessário, ou “ser o que é” (das-Seyende-Seyn, esse ens) necessariamente
  • tratando-se, porém, afinal, de que seja a natura necessaria, sendo-o pela virtude do ser independente de seu esse ens — o ser indubitável que o libera do existente necessário e o reconduz a si

43. Obrigando comentar essas frases a ultrapassar o quadro de um estudo dedicado ao argumento ontológico, querendo Schelling dizer, em resumo, que a “natureza necessária” de Deus só aparece antes da primeira criação.

  • tendo Deus, ao criar, interrompido a eterna suspensão de sua existência abissal, de sua vontade inerte; levantado o obstáculo do existente necessário (necessário = fora de sua vontade, de seu fato), libertando-se dele precisamente ao manifestar-se como livre e independente no mais profundo de seu ser inicial
  • vindo a recusa tenaz oposta por Schelling à prova ontológica do cuidado persistente de salvaguardar a transcendência e a liberdade (sendo tudo um) de Deus, sem abolir a relação com o mundo
  • levando o argumento ontológico não reformado a um Deus que é apenas possibilidade (conceito) ou que é apenas necessário, vindo porém possibilidade, essência, necessidade depois do ato, da liberdade e do Ser
  • podendo apenas deplorar-se a ambiguidade decorrente do emprego da mesma palavra notwendig em dois sentidos diferentes

44. Sugerindo isso igualmente que o grandioso empreendimento de Schelling ao final de seu itinerário não está integralmente refletido no esboço que dele dá Henrich, com base num texto que é talvez o mais nítido, mas está longe de ser o mais detalhado.

  • testemunhando porém a obra, várias vezes reposta no tear, tanto os recursos especulativos do filósofo envelhecido quanto seu esforço sem cessar frustrado: Dass du nicht enden kannst, das macht dich gross (Goethe).
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