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Jorge Navarro Pérez

SCHELLING, Friedrich Wilhelm Joseph von. Las edades del mundo: textos de 1811 a 1815. Jorge Navarro Pérez. Madrid: Akal Ed, 2002.

A gênese do projeto “As idades do mundo”

1. O projeto As Idades do Mundo representa, ao menos do ponto de vista externo, uma cesura na trajetória filosófica de Schelling. Até 1809, o jovem autor publicara praticamente tudo o que escrevera, o que lhe permitiu reunir num volume intitulado Escritos Filosóficos I alguns de seus textos mais importantes, contendo esse volume um inédito: as Investigações Filosóficas sobre a Essência da Liberdade Humana. Essa obra parecia abrir novos horizontes, mas o público não chegou a saber o que se passou a seguir, pois Schelling quase nada publicou entre 1809 e 1854. As Idades do Mundo foi precisamente a primeira obra que não conseguiu concluir em sua até então bem-sucedida carreira, passando a partir daí a segundo plano, lugar que só abandonou em 1840, quando o rei Frederico Guilherme IV da Prússia o nomeou catedrático em Berlim para conter os excessos do “panteísmo hegeliano”. Sem êxito, porém, retirou-se em 1846.

2. O projeto não é menos relevante do ponto de vista interno do desenvolvimento filosófico de Schelling. Entre 1801 e 1806 defendera uma filosofia da identidade; costuma-se descrever com tons dramáticos a passagem dessa filosofia à do ensaio sobre a liberdade. Enquanto a filosofia da identidade sublinhava a função da unidade, assegurando que no fundo natureza e espírito não se contrapõem, a partir de 1806 Schelling passa a sublinhar a função da dualidade, estendendo-a até a Deus, em quem afirma haver forças contrapostas. Irrompe então o problema do mal e a possibilidade de o homem afastar-se do absoluto: segundo a interpretação padrão, Schelling tomou consciência do lado obscuro e tenebroso da existência, atribuindo-se isso à morte de sua esposa Caroline em 1809, ao contato com os românticos de Munique e à leitura de Jakob Böhme.

3. Schelling entendia o ensaio sobre a liberdade como sua primeira tentativa bem-sucedida de expor “seu conceito da parte ideal da filosofia”, aquela “em que domina a liberdade”. Para ele, a “contraposição de natureza e espírito” devia ceder lugar à “contraposição superior, ou antes autêntica: a de necessidade e liberdade”. Já a “parte real” da filosofia se encontrava na filosofia da natureza, à qual dedicara até então boa parte de seus esforços. O ensaio termina com a promessa de uma série de tratados que exporiam paulatinamente o conjunto da parte ideal da filosofia — série que jamais publicou. Tampouco parece que os textos das Idades do Mundo elaborem essa parte ideal; abordam antes toda a contraposição entre necessidade e liberdade.

4. O objetivo principal do ensaio sobre a liberdade é explicar como é possível a existência do mal. Para isso, Schelling elabora uma teoria sobre unidade e dualidade em Deus que ampliará nas Idades do Mundo. Pensa ser Deus uno, mas distingue ao mesmo tempo “Deus enquanto existe” de seu “fundamento” (Grund), sendo este “a natureza em Deus”, ser inseparável dele mas dele distinto, a obscuridade que aspira à claridade, uma vontade de entendimento que pressente o entendimento. Há em Deus dois princípios: Deus é amor, mas possui também um fundamento sem o qual o amor não pode atuar, devendo encontrar algo oponente em que se realizar.

  • O que interessa é que Deus se conheça a si mesmo, separando para isso as forças presentes em seu fundo; essa divisão sucede-se ou progride paulatinamente, correspondendo a cada grau um tipo de ser vivo, até culminar no homem.
  • Essa teoria complicada serve para explicar a possibilidade do mal ao supor que cada ser, de modo semelhante ao que ocorre em Deus, tem dois princípios, um obscuro e outro luminoso, a vontade própria e a vontade universal. No homem, ambos os princípios se encontram em todo o seu esplendor: “nele há o abismo mais profundo e o céu mais elevado”. O mal consiste na inversão da relação correta entre os princípios, quando a vontade própria se separa da vontade universal.

5. O ciclo de lições de 1810, conhecido como Stuttgarter Privatvorlesungen e não publicado em vida de Schelling, ofereceu a ocasião para aprofundar as questões colocadas pelo ensaio sobre a liberdade. Ali Schelling precisa as teorias sobre Deus que retomará nas Idades do Mundo. Por Deus ou “o ser primígeno” entende-se a “identidade absoluta do real e do ideal”. Esse ser, porém, só pode existir manifestando-se em seu contrário, na diferença, pois sem contraposição não há vida; os dois princípios do ser primígeno ficam assim diferenciados sem deixarem de ser o mesmo nem perder a unidade da essência. O ser primígeno não se divide, mas informa tanto o real quanto o ideal.

  • O real é a primeira potência; o ideal, a segunda; a unidade absoluta de ambos é a posição comum das duas potências. O processo de manifestação começa quando o ser primígeno se limita ou “contrai” voluntariamente na primeira potência. Surge assim o tempo: passa-se de uma potência a outra, conformando “os períodos da autorrevelação de Deus”.
  • Tal como sucede ao homem, Deus é um ser em devir. A princípio carece de consciência; está ainda reunido tudo o que depois se desdobrará: indiferença das potências. A obscuridade precede a claridade, e o processo de Criação do mundo consiste em que Deus chegue a ser consciente. O primeiro passo dá-se quando Deus separa em si mesmo o superior e o inferior, a fim de extrair do inferior o que nele é superior.
  • Esse processo de conscientização é ao mesmo tempo um processo de personalização. Deus é amor, ser de todos os seres; mas, para existir, necessita do egoísmo, da individualidade.

6. Por volta de 1810, as ideias de Schelling pareciam ter alcançado tal clareza que já era hora de escrever uma obra “grande”. Na noite de 15 de setembro concebeu a ideia de escrever As Idades do Mundo, e em dezembro empreendeu seriamente a tarefa. Sua intenção inicial era publicar Die Weltalter em três livros na Páscoa de 1811; mandou para isso imprimir as provas do texto escrito até então, mas não se decidiu a publicá-lo, permanecendo essa primeira versão inédita.

  • Prometeu então à editora ter o livro pronto para a Páscoa de 1812, mas o trabalho se interrompeu no outono de 1811, quando Jacobi publicou um virulento ataque a Schelling. Este reagiu de imediato com um escrito que ele mesmo considerou “prólogo muito adequado” às Idades do Mundo, opondo à noção imóvel e estática de Deus própria de Jacobi a ideia de que Deus não é apenas unidade mas também dualidade, encontrando-se por isso em devir.
  • Voltou então às Idades do Mundo, esperando concluí-las para a Páscoa de 1813; mandou imprimir as provas de novo texto cuja publicação finalmente recusou, sob a desculpa de que as guerras napoleônicas não seriam o contexto adequado.
  • Propôs a Páscoa de 1815 como nova data; serviu-lhe em maio desse mesmo ano o fugaz retorno de Napoleão ao poder de desculpa para não cumprir a promessa. Nesse mesmo ano, porém, publicou finalmente algo das Idades do Mundo: seu Beylage ou complemento, uma conferência pronunciada na Academia Bávara das Ciências sob o título Sobre as Divindades de Samotrácia, com o subtítulo Beylage zu den Weltaltern.
  • No epílogo desse livro, Schelling explica que ele faz parte de “uma série de obras que se referem às Idades do Mundo como ponto central comum”, sendo ao mesmo tempo início e trânsito para outros vários tratados destinados a trazer à luz o autêntico sistema primígeno da humanidade.
  • Publicou assim, em 1812 e 1815, o prólogo e o apêndice de uma obra que se absteve de publicar. É crueldade da história da filosofia que, ao mesmo tempo em que Schelling fracassava por três vezes em escrever e publicar sua obra-prima, Hegel — seu grande inimigo desde 1807 — publicasse em 1812, 1813 e 1816 os três volumes de sua própria obra-prima, a Ciência da Lógica.

7. A partir de 1815, Schelling já não falou tão frequentemente da iminente publicação das Idades do Mundo. O projeto pareceu revitalizar-se quando, em 1821, voltou a dar aulas na universidade, pronunciando em Erlangen um ciclo de lições sobre a mitologia que esteve prestes a publicar como precursor imediato das Idades do Mundo — o que não ocorreu. Em 1827/28, porém, conseguiu cumprir ao menos em parte a promessa de 1811, pronunciando em Munique um ciclo intitulado Sistema das Idades do Mundo, cuja versão foi publicada em 1990.

  • A essa altura, o projeto já sofrera sérias modificações até desembocar na “filosofia positiva”. Em março de 1833, Schelling propôs publicar seu sistema em três partes, chamadas “filosofia positiva (sistema das Idades do Mundo)”, “filosofia da mitologia” e “filosofia da revelação”. Meses depois, deixou de empregar o título As Idades do Mundo, que o obcecara por vinte e três anos.

8. Assim, Schelling não publicou nenhum dos textos do projeto, ao qual dedicou tantos esforços entre 1810 e 1833. Ao encarregar em 1853 seus filhos da edição de seu legado literário, não valorizou especialmente os resultados desse projeto, mencionando um manuscrito de 590 páginas que “contém os últimos estudos para a projetada obra As Idades do Mundo, que não iria ser (como tantos dizem) uma obra de filosofia da história, mas se referia aos Κρόνοι αἰώνιοι”. Podia aqui e ali encontrar-se manuscrito útil ainda não usado; o resto devia ser destruído.

  • Fritz Schelling não seguiu à risca as instruções paternas: selecionou para publicação nas Sämmtliche Werke o texto de 1815, mas não destruiu os demais. Oitenta anos depois, no verão de 1943, o estudioso Manfred Schröter ordenou e copiou os dois textos impressos de 1811 e 1813, além de vários fragmentos, publicando-os em 1946. A essa altura já não existia o legado de Schelling, incendiado em julho de 1944 pelos bombardeios sobre Munique.
  • As Idades do Mundo sobreviveram, pois, a Napoleão, a Hitler e, o que era ainda mais difícil, ao próprio Schelling.

9. O conjunto de textos relacionados ao projeto demorou muitos anos para chamar a atenção dos estudiosos de modo comparável às outras fases da filosofia de Schelling. A incapacidade do autor de concluir o projeto fez pensar por muito tempo tratar-se de simples interlúdio de escasso interesse, fase de transição entre a filosofia inicial e a tardia. Mais recentemente, porém, estabeleceu-se o costume de ver nas Idades do Mundo o começo da Spätphilosophie.

  • Materialistas e heideggerianos foram os que mais se interessaram pelas Idades do Mundo: os primeiros atraídos pela reabilitação da natureza, os segundos intrigados pela teoria do tempo.
  • Jürgen Habermas doutorou-se em 1954 com tese mais ou menos materialista sobre esses textos; dois anos depois, Wolfgang Wieland publicou estudo sobre a doutrina schellingiana do tempo em que reprova a Habermas “uma dependência frequentemente acrítica da terminologia de Heidegger”.
  • Xavier Tilliette prevenira, em sua monumental obra de 1970, contra as tentativas de modernizar excessivamente Schelling, fazendo dele precursor de Husserl, Heidegger e Merleau-Ponty quanto à temporalidade: o paradigma de Schelling seria teológico, e os tempos de que fala, as fases da manifestação divina.
  • Em 1992, porém, Pascal David pôs Schelling em linha com Heidegger de modo espetacular. Depois de afirmar que Schelling tentou nas Idades do Mundo elaborar concepção mais “autêntica” da temporalidade, aproximando-o, guardadas as proporções, de Ser e Tempo e afastando-o da tradição metafísica que vai de Aristóteles a Bergson, David chega a sugerir que nenhuma obra filosófica anterior a Ser e Tempo se aventurou tão longe no cuidado de tomar distância do “entendimento corrente do tempo”.
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