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schelling:clara:3

3 Noite

Clara oder über den Zusammenhang der Natur mit der Geisterwelt: Ein Gespräch. 1861

1. Os dias tornaram-se rapidamente hostis, não permitindo mais os longos passeios, observando-se que a amiga permanecia sempre ocupada com o mesmo objeto de pensamento, revelando em algumas conversas a maravilhosa profundidade de sua sensibilidade, à qual faltava, porém, a capacidade de desenvolver os próprios pensamentos de modo compreensível, pois as almas profundas temem esse processo, como se com ele saíssem de si mesmas, preferindo permanecer sempre em suas profundezas.

  • conhece-se o efeito benéfico de uma conexão de pensamentos corretamente ordenada, que alegra a alma ao distinguir como num espelho algo recebido interiormente por inspiração ou por alguma forma de pensamento divino
  • dispunha-se a contrariar essa tendência na amiga na primeira oportunidade, convicto de que, decidindo-se a desenvolver os pensamentos para torná-los compreensíveis, tudo se revelaria mais magnífico e maravilhoso do que quando se cria tê-lo visto apenas na intuição

2. Foi, porém, ela quem se antecipou com sua própria exigência na Noite de Natal, quando convidou os filhos do narrador para alegrá-los com um presente surpresa e substituir, se possível, naquele dia, a mãe que haviam perdido, notando-se em todo o seu ser algo radiante e uma alegria indescritível havia muito não vista nela.

3. Recolhendo-se ao fundo do quarto após o júbilo inicial das crianças, Clara declarou que ver aqueles filhos bem-educados evocava a imagem da mãe deles, que jamais conhecera, dando-lhe a mais plena certeza de que ela está, vive e participa de sua alegria, parecendo-lhe aquele dia aproximar os vivos dos que já partiram, tal como outrora uniu novamente a terra e o céu, respondendo-se que por isso os anjos celebraram aquele nascimento proclamando glória a Deus nas alturas e paz na terra, pois o de cima voltara ao de baixo, restaurando-se a cadeia há muito rompida.

4. Clara acrescentou que em momentos como aquele sua certeza dispensa todo fundamento, vendo tudo como presente, como se a vida do espírito já a rodeasse, ainda a deambular na terra mas como ser completamente distinto, levada por elemento delicado e suave, sem necessidades nem dor, perguntando por que não se poderiam reter tais momentos, ao que se respondeu que talvez esse grau de interioridade não convenha à limitação da vida presente, cuja determinação parece ser conhecer e explicar tudo pouco a pouco.

5. Mediante diálogo conduzido por perguntas, estabeleceu-se que, nesse estado, o ser completo de Clara lhe parece unido num ponto focal, como uma luz ou uma chama, sentindo-se ao sair dele bem menos feliz, e que essa saída ocorre contra sua vontade, concluindo-se haver necessidade na alternância desses estados, devendo-se considerar a experiência do ponto médio como privilégio extraordinário sem por isso desprezar o estado ordinário, cujo vazio, em comparação àquele, deveria ser preenchido pela atividade, isto é, assegurando para este estado os bens do estado mais alto por meio do desenvolvimento do conhecimento em ciência, verdadeira determinação espiritual do homem para esta vida.

6. Clara confessou sentir pela ciência o respeito que se sente por algo negado a nós mesmos mas cujos resultados magníficos se veem, recorrendo sempre com confiança ao amigo como homem de ciência, do qual jamais lhe faltaria conselho espiritual, respeitando-a ainda mais se pudesse reter magicamente a bendição daquele estado contemplativo, ao que se respondeu que o sentimento dado pela ciência é outro, mais tranquilo e constante, mostrando ao alma aquele conhecimento que, embora claro e real, é temporal na intuição espiritual, tornando-se verdadeiramente nosso apenas por meio de conceitos claros que decompõem o que fora conhecido de modo indivisível para depois reuni-lo em unidade, sendo necessária primeiro essa separação para assegurar como bem permanente o que se conheceu imediatamente.

7. Desenvolveu-se então, por meio de perguntas e respostas, a decomposição do conceito de ser humano completo em corpo e espírito, opostos entre si, reconhecendo-se necessária uma esencia mediadora e benévola entre ambos, que toca o espírito com sua parte superior e desce à matéria com a inferior, identificada por fim como a alma, aquilo propriamente humano no ser humano, ao qual damos toda a nossa confiança, distinguindo-se assim três elementos — corpo, espírito e alma — unidos numa rotação viva em que cada um se estende no outro e nenhum pode faltar, tendo porém a alma a vantagem de ser a única que, ao ser posta, exige necessariamente a presença dos outros dois, sendo por isso a mais distinta entre os três.

8. Concluiu-se assim que, falando-se da perdurabilidade do ser humano completo, não bastaria a perdurabilidade do mero corpo nem a do mero espírito, mas apenas a certeza firme da perdurabilidade da alma satisfaria, ilustrando-se isso com o exemplo de que, prometida uma vida trinta anos mais longa, não se entenderia que o corpo ou o espírito permaneceriam idênticos, mudando ambos constantemente, mas que aquilo mais interior, o eu real, a consciência unitiva de ambos — a alma —, viveria para sempre, tendo os filósofos, portanto, falado corretamente da imortalidade da alma, ainda que sem saber exatamente por quê.

9. Clara manifestou ainda dúvidas, observando que, salvando-se a alma do afundamento, pareceria seguir-se que também o corpo e o espírito deveriam continuar, pois a alma é a unidade de ambos, mas temendo que se pudesse antes argumentar que, separados corpo e espírito pela morte, a própria união entre eles se dissolveria, e achando ainda mais complexo que se chame comumente ao mundo do além de “mundo dos espíritos”, considerando os que partiram sobretudo como espíritos, quando o que propriamente perdura seria a alma.

10. Respondeu-se que a confusão vinha de supor-se, por momentos, que corpo e espírito poderiam existir cada um por si, quando na verdade, uma vez nomeados os três elementos, nenhum pode prescindir do outro, estando encadenados numa união indissolúvel, de modo que, na rotação atual da vida, ou tudo deixa de existir ao mesmo tempo ou, perdurando um, necessariamente perduram todos, o que permitiria inclusive extrair dessa cadeia uma prova distinta para a perdurabilidade, a partir do encadeamento essencial e não contingente dos três elementos.

11. Redirecionou-se então a questão para perguntar o que é a morte e que mudança ela produz na rotação da vida atual, retomando-se a observação de Clara sobre ser estranho que, sendo a alma o que propriamente perdura, todos falem da outra vida como vida dos espíritos, explicando-se isso pelo fato de ser natural ao ser humano pensar cada condição de trânsito como oposta à condição precedente, presente a condição corporal atual o ser humano completo — corpo, espírito e alma —, de modo que, passando à condição oposta, a espiritual, nada haveria razão para perder-se algo do ser humano completo nesse trânsito, não sendo mais incrível manter-se como corpo, alma e espírito na condição espiritual do que sê-lo, já na condição corporal, além de corpo.

12. Lembrou-se então do que fora dito sobre estar a alma, na vida atual, enfeitiçada pela matéria, satisfazendo-a já aqui o ser inteiramente sustentada pelo corpo apesar de ser o essencial do ser humano, devendo satisfazê-la ainda mais o ser sustentada e enfeitiçada pelo espírito, permanecendo, porém, misteriosa a transferência do corpóreo ao espiritual, comparável talvez a transições já conhecidas no presente, como o trânsito da vigília ao sono e vice-versa, em que a rotação da vida não se detém mas se transfere de um meio a outro, permanecendo o espírito ocupado com pensamentos durante o sono e a alma capaz de querer, amar e detestar, ainda que não se lembre disso ao despertar.

13. Concluiu-se assim que, na morte, a alma se eleva a alma espiritual, sendo na vida presente apenas alma corporal, contendo porém todo nível inferior pressentimentos do nível superior, permanecendo ainda assim o nível inferior, arrastando muitas coisas o ser humano para aquele mundo mais alto, interessando aqui a determinação do nível geral desta vida, que não pode ser derivado dos níveis que dela se distanciam.

14. Questionado sobre o corpo, se também ele se tornaria espiritual na outra vida, corrigiu-se a expressão: não se deveria dizer que a alma se torna espiritual como se antes não o fosse, mas que o lado espiritual já existente nela, ali oculto e subordinado, ali se torna manifesto e predominante, valendo o mesmo para o corpo, cuja mera aparência exterior era consequência de um desenvolvimento estancado que, sem destruir a essência interior, pôde subordiná-la, de modo que, desintegrada a primeira forma do corpo, liberta-se naturalmente a outra, em que o interior supera o exterior, já presente como germe na forma exterior, ainda que reprimido pelo poder da vida exterior.

15. Clara lembrou ter ouvido falar de um corpo mais sutil contido no corpo mais grosseiro, que com a morte dele se separaria, ideia que nunca lhe trouxera satisfação, explicando-se que isso ocorre com opiniões surgidas ao acaso, sem conexão necessária, sendo aquela essência intermediária pensável apenas como algo sutilmente corporal e não como forma verdadeiramente espiritual, questionando-se ainda se esse germe celestial de vida se encontraria apenas nos seres humanos ou em todos os seres orgânicos, respondendo-se não haver razão para negá-lo a qualquer coisa, mais manifesto em umas, mais oculto em outras, estando toda a natureza destinada a representar uma completa harmonia entre exterior e interior.

16. Levada a deduzir que a morte seria então a libertação da forma de vida interior a partir da forma exterior que a oprime, e que ela é necessária porque essas duas formas de vida não podem coexistir após o afundamento da natureza no meramente exterior, Clara concluiu que todas as coisas, sem exceção, deveriam morrer, evocando como exemplo a solubilidade dos metais em ácido e a possível recuperação dessas soluções ao estado corporal inicial, questionando se não se deveriam chamar “espíritos” a essas soluções e “morte” a essa dissolução do corporal no espiritual, comparando-a à tendência de todas as coisas corporais a volatilizar-se, como o aroma das flores, respondendo-se que isso demonstra antes uma tendência a uma existência mais livre do que propriamente a morte, restrita esta, ao que parece, aos seres orgânicos enquanto totalidades, sendo as demais coisas meras partes de um todo mais elevado — a terra — que só morrerá quando esta alcançar seu próprio fim.

17. Entrando o médico e informado do essencial da conversa, este observou que, se na vida atual aquela essência espiritual do corpo já estava presente como germe na essência exterior, pareceria seguir-se que a vida atual é mais perfeita que a vida vindoura, por possuir tanto essa essência espiritual quanto o corpo exterior do qual careceria a vida futura, respondendo-se com o exemplo de que riqueza em coisas de pouco valor não supera a posse de uma única coisa de valor incalculável, distinguindo-se entre o ser (Seyn) como mero ser do interior e o ser ativo (Seyende) como aquilo que conhece sem ser conhecido, sendo todo conhecer um pôr, e o ser um pôr-se a si mesmo que não se conhece a si próprio, sendo antes conhecido pelo ser ativo, que por isso constitui potência mais alta, situando-se a diferença entre interior e exterior como entre potência superior e inferior, sem que isso torne o exterior imperfeito ou de pouco valor, pois o ser ativo necessita do ser tanto quanto o ser do ser ativo.

18. Questionada por Clara como essa diferença poderia desaparecer, respondeu-se que, se o exterior estivesse tão impregnado pelo interior a ponto de conter em si o que conhece junto ao conhecido, e vice-versa, sendo ambos um só, ter-se-ia então a vida mais bendita e perfeita, sem mais diferença entre exterior e interior, observando-se que, tal como somos agora, o exterior contém em certa medida o que conhece — como provam os animais, que conhecem por necessidade externa —, mas o interior não contém reciprocamente o exterior posto em si mesmo, pois, se assim fosse, dispensar-se-iam experiência, investigação, educação e ensino, como provam os exemplos de crianças criadas entre animais, privadas daquele interior perfeito, concluindo-se que o interior não é algo já presente, mas algo cultivado como flor em solo estranho.

19. Interveio o médico observando que, sendo livre a tendência ao conhecimento e a de converter o exterior em interior, e sendo possível já aqui subordinar o corpo ao interior a ponto de viver-se uma vida pura, alcançar-se-ia já nesta vida, em certo grau, o que corresponderá à vida vindoura — a subordinação do exterior ao interior —, tal como o filósofo, segundo a tradição, já deambula como morto, tendo por isso a vida atual um mérito evidente sobre a vinda, ao que se respondeu que cada condição tem seus próprios méritos, sendo o maior mérito da vida presente o de poder cuidar e fazer surgir em si o germe divino, gozando assim já aqui parte da bendição da outra vida, pois sem esse interior perfeito a vida exterior perde seu verdadeiro encanto, que reside não na liberação dos desejos sensuais mas na sensação do belo e do propriamente interior em todo o exterior.

20. Objetado que, assim, o espiritual perderia muitíssimo com a morte e o não-espiritual muito pouco, respondeu-se que apenas os que ficam para trás falam assim, comparando-se a quem, promovido de arador a chefe, lamentasse perder o arado, devendo antes perguntar-se o que ganha com a morte aquele que aqui vive espiritualmente, a saber, a perfeição daquilo a que tendeu em grau sumo, necessariamente algo mais alto que o presente, pois o exterior aqui é mais perfeito por conter o interior em si, sem que o interior contenha reciprocamente o exterior, não podendo por isso o exterior, enquanto não conciliado com o interior perfeito, ser o mais perfeito, sendo necessário abandonar esta esfera da vida para alcançar o interior mais perfeito, constituindo a morte não mera inversão da relação mas elevação a uma potência mais alta, a um mundo realmente distinto e superior, do qual o sábio e o justo, tendo cuidado e criado em si aquele germe divino até sua madurez, deixariam a terra imperfeita sem pesar, como aves que alçam voo da árvore de cujas folhas nasceram.

21. Objetado ainda que, tendo-se atribuído à vida presente o mérito de conter em si o germe de uma vida mais alta, seu crescimento completo tornaria dispensável esse germe e sua perda não seria perda alguma, notou-se que, perdida havia tempo a atenção de Clara, esta retornou subitamente dizendo desejar saber como se sente interiormente aquele que partiu, perguntando por que a morte é comumente representada como adormecer, e não antes como despertar, respondendo-se ser talvez assim, mas reconhecendo-se doce a ideia do descanso dos mortos em seu último sono.

22. Questionando por que o brilho do dia lhe parece externo, emergindo o verdadeiramente interior apenas com seu desaparecimento, e por que deveria ser de noite, respondeu-se que a noite mostra estar ainda incompleto o propriamente interior em nós, pertencendo ao oculto e ao vindouro, imaginando Clara que, se na própria noite emergisse uma luz que nos envolvesse num dia noturno e numa noite amanhecendo, todos os desejos alcançariam seu fim, questionando se não seria por isso que a noite enluarada toca tão docemente o interior com o presságio de uma vida espiritual próxima, lembrando-se a máxima de que só seria filósofo perfeito aquele que pudesse fazer acordado o que deve fazer dormindo, corrigida para “perfeitamente bendito”, crendo-se que aos bem-aventurados entre os que partiram é dado tal destino, chamando-se por isso “os que dormem seu último sono” e não “os que adormeceram”, pois já aqui dormir está mais próximo da vida interna que a vigília.

23. Clara relatou então a descrição de um clérigo célebre sobre o instante em que alguém cai em seu último sono, quando se derrama sobre todo o ser uma alegria indescritível e a alma alcança sua mais alta atividade moral e espiritual, apresentando-se então todos os erros de forma embaraçosa e sendo tanto mais bendita essa condição intermediária quanto mais puro o coração, condição infinitamente distinta de todo sonho, superando em clareza até as representações mais vívidas da vigília, transposta a um ponto de vista novo, uma espécie de contemplação sem imagens onde tudo está diferenciado sem confusão, durando porém geralmente apenas um segundo antes de desaparecer por um movimento convulsivo que deixa um anelo melancólico, seguindo-se o sono total, sendo esse movimento reconhecido pelo médico como sinal do adormecer em vigília, questionando-se se não seria o golpe pelo qual a natureza destrói a luz interna que quer emergir, transformando-a em mero sonho, não havendo prova maior da supremacia da natureza exterior sobre nossa vida atual do que essa transformação da condição mais interior em sonho.

24. Considerou-se ainda, com base no testemunho de homens dignos de fé sobre pessoas influenciadas por outras com os sentidos exteriores completamente apagados, obtendo a mais alta clareza e consciência de si mesmas, tratar-se de uma condição mais alta comparável a um sono em vigília ou vigília dormente, aproximando-se seus acercamentos aos da morte, pois também ali uma espécie de morte deve preceder aquela condição elevada, desejando Clara saber, porém, como se sentem os que dormem quanto à sua condição, respondendo o médico que, a julgar pela aparência exterior dos que dormem, encontram-se em indescritível bem-estar, obscurecendo-se todo tenor de doença em seus traços, parecendo mais felizes, mais espirituais e mais jovens, desvanecendo-se todo rastro de dor do rosto iluminado, tornando-se tudo mais espiritual, sobretudo a voz.

25. Evocou Clara, comovida, a lembrança de uma amiga transfigurada precocemente, cuja beleza no instante da morte jamais imaginara possível, tornando-se sua voz sempre melodiosa música celestial que ainda ressoa mais profundamente em seu interior, confirmando o médico que os que assim dormem, se perguntados, assegurariam ser essa a condição mais bendita, sem sentir nada do corpo ou das dores anteriores, atravessados por uma claridade celestial, concordando Clara que diante da morte cessam até os assaltos da enfermidade e os melhores se despedem em deleite celestial.

26. Precisou o médico que tal estado ainda é mera aproximação ao estado mais alto, pois ainda são afetados por coisas externas, vendo tudo perceptível fora deles apesar dos olhos fechados, com sentidos mais agudos, sendo o estado mais alto aquele em que são completamente liberados do mundo sensível e conectados às coisas exteriores apenas através de quem os influencia, tornando-se então indiferentes a estrondos e sensíveis apenas à voz daquele com quem se conectam, originando-se somente então a clarividência mais alta, na qual todo o ser se concentra num ponto focal que une passado, presente e futuro, tornando-se ambos claros em vez de esquecidos.

27. Concluiu-se dessa série de fenômenos que a essência espiritual de nossa corporalidade, que nos segue na morte, já está presente em nós desde antes, não se originando apenas com a morte, mas tornando-se livre quando os sentidos deixam de aferrar-se ao mundo exterior, confirmando o médico que numerosos fenômenos da vida, não deriváveis nem da alma nem do corpo isoladamente, comprovam a presença dessa essência, sendo o que Clara mais ama nesse estado a profundidade da consciência, nunca tendo compreendido as dúvidas pusilânimes sobre se a consciência se destrói após a morte, parecendo-lhe antes que a morte reúne mais do que dispersa, interioriza mais do que exterioriza, explicando-se essa dúvida generalizada pelo fato de a morte ter sido tomada como separação completa de tudo o que é físico, fundamento de toda consciência.

28. Mediante nova sequência de perguntas, estabeleceu-se que a perdurabilidade da consciência requer a perdurabilidade da unidade de algo ativamente consciente, diferenciável de tudo o mais apenas no âmbito físico, ou, dito de outro modo, na base de toda consciência pessoal permanece algo obscuro, indesvendável por nenhum conceito, que sustenta a personalidade, algo que Clara desejaria afastar por perturbar a pureza do ser, mas que não pode nem deve ser afastado sob pena de dissolver-se a própria personalidade, podendo porém ser transformado e tornar-se claro, comparável ao diamante que existe para que a luz brilhe através dele, provindo tal germe obscuro da natureza, congênito e não acidental em cada ser humano, capaz de transformação contínua mas não de destruição, conservando sempre algo físico em si, do que se segue que algo físico nos acompanha também na morte, juntamente com a persistência da autoconsciência.

29. Concluiu-se assim que aquela essência espiritual de nossa corporalidade é o germe que nos segue, mantendo sempre relação com o físico do qual originalmente foi tomado, explicando-se por isso ser natural que quem admite a influência frequente do espiritual sobre o físico tema reciprocamente a influência do físico sobre o mundo dos espíritos, temendo que a morte destrua completamente a união entre alma e corpo e dissolva até a consciência individual sem deixar rastro, sendo poucos, porém, os que nesta vida conseguem transformar satisfatoriamente em luz aquele germe obscuro, compondo-se as massas sobretudo de pessoas obstinadamente apegadas à própria individualidade, incapazes de esquecer-se de si ou perder-se na contemplação do eterno, rejeitando o que não se deixa manipular, sendo estas, se tivessem experiência fora de si mesmas, antes inimigas juradas de toda clarividência do que capazes da consciência mais alta.

30. Considerando-se então que, se aquela interioridade mais alta da consciência é a condição dos melhores após a morte, poder-se-ia crer que toda consciência pessoal desaparece, questionou-se como poderia ainda haver em nós algo que nos diferencie de Deus, uma vez tornado completamente claro aquele germe inicialmente obscuro, respondendo-se com nova série de perguntas que, dizendo-se dos bem-aventurados que vão para Deus e descansam nEle, isso demonstra que antes estavam separados dEle não pelo verdadeiro ser ativo em si mas pelo falso ser ativo, devendo este perecer ou transformar-se no perfeito, começando essa transformação já nesta vida para os bons, de modo que, quanto mais avançam na perfeição, menos separados de Deus permanecem, até desaparecerem completamente nEle, temendo porém muitos que, completamente transfigurados, sua vontade própria seja de todo superada e desapareçam sem retorno em Deus como gota no oceano ou raio de luz no sol.

31. Contra-argumentou-se que, mesmo assim, a gota permanece sempre aquela gota e o raio aquele raio, ainda que não se distingam como tais, não se seguindo necessariamente da unidade completa com o divino a perda de toda existência particular, comparando-se antes a relação com Deus, na morte, à relação de quem foi adormecido magneticamente com seu médico, estando morto para tudo exceto para ele, questionando-se se aqueles que temem a aniquilação da individualidade na unidade divina não temem antes o próprio arrebatamento e submissão total, tal como já aqui temem toda embriaguez, mesmo espiritual, tendo por morte verdadeira a extinção da vontade própria, observando Clara que, no exemplo do ímã, cada partícula de limalha, embora impregnada de sua força e inseparável dela, conserva algo em si mesma que não deve ao ímã, o mesmo valendo para os que dormem em sono magnético.

32. Concluiu-se então que, para aqueles que creem bastar a moralidade nesta vida para unir-se completamente à divindade, nada os acompanharia à outra vida, nem sequer aquele germe inicialmente obscuro que gradualmente recebe a luz, nem aquilo que, mesmo transformado, nunca nega sua primeira natureza, tão pouco provável quanto que o diamante mais transparente deixasse de ser duro ou corpóreo, permanecendo sempre em nós, mesmo liberados e transfigurados, algo que não provinha de Deus, mas da natureza, distinguindo-se do erro daqueles que, ensinando a desaparição de toda personalidade em Deus, identificam a natureza com Deus, tendo talvez ouvido dizer que Deus está na natureza e esquecido a pequena palavra “em”, tal como muitas coisas nos pertencem sem serem nós mesmos.

33. Prosseguiu-se explicando que aquela essência espiritual desenvolvida de nossa corporalidade, sede do pressentimento, é nosso fiel acompanhante nesta vida e nos segue na vindoura, tal como o corpo, sede do desejo e da paixão, nos pertence sem ser nós mesmos, exigindo-se que nosso eu real domine esse eu distinto e irreal, pertencendo assim a natureza a Deus não como sua essência real e primeira mas como sua essência irreal e distinta, aquilo que, em relação ao ser realmente ativo, é o não-ativo, sendo Deus na natureza o ser ativo e a natureza apenas o ser de Deus, vivo em grau sumo sem que isso identifique Deus e natureza, distinguindo-se por fundamento nossa essência inicial da de Deus, podendo por sua própria atividade elevar-se ao ser ativo espiritual ou opor-se a ele, tal como a flor se eleva do solo obscuro pela força do sol e por esforço próprio, permanecendo distinta da luz mesmo reconciliada com ela.

34. Concluiu-se assim que, mesmo absorvidos em deleite espiritual após a morte e completamente impregnados pela presença divina, restaria sempre em nós algo distinto de Deus, em repouso mas sempre presente como possibilidade de separação ou de independência, elevando-se apenas com a transfiguração completa dessa obscuridade congênita a consciência mais clara e profunda de nós mesmos, tanto da condição presente quanto da passada, tornando-se então, e só então, consciência perfeita, em relação à qual a consciência presente, constantemente obscurecida, é apenas sonho e crepúsculo.

35. Interrompida a conversa pelo sono das crianças menores e pela chegada das mais velhas junto a Clara, o médico formulou ainda uma última objeção, notando não ter gostado de que a condição da clarividência fosse apresentada como a condição usual seguinte à morte, sendo ela em si bendita, quando certamente poucos alcançam tal condição imediatamente após a vida, respondendo-se lembrar ter-se dito que isso corresponde apenas aos melhores, não se tendo ainda investigado o que toca aos demais, desejando porém Clara que a conversa não ficasse incompleta sem tratar disso, alegando-se ser difícil falar satisfatoriamente sobre a diversidade de níveis intermediários entre bem-aventurança e miséria na outra vida, tal como existem na presente entre o bem e o mal, requerendo tal exposição alguém que tivesse morrido e retornado da vida do além, como o armênio de Platão ou o visionário sueco.

36. Argumentando o médico que, tendo-se os dois extremos de uma questão, poder-se-ia conceber com segurança o que estivesse entre eles, respondeu-se ser necessário antes recuar mais, pois entre a corporalidade atual e a espiritualidade pode haver tantos níveis intermediários que o ser humano se liberte da primeira sem passar à segunda, permanecendo aquele dominado por vontade retrógrada ou maligna em posição de anelar violentamente pelo corpo perdido, tendendo continuamente a voltar a alma à corporalidade, como demonstram as concordâncias entre lendas de diversos povos sobre aparições de almas em túmulos ou lugares por elas escolhidos.

37. Desatou-se então acalorada discussão geral sobre o tema, declarando-se Clara completamente contrária a tais histórias, que ofendem o bom senso por sua vulgaridade comum, gerando antes oposição do que crença, defendendo o médico, em parte de brincadeira, que os miseráveis representam a pior parte da sociedade, e em parte citando histórias encantadoras, como o incidente de Clairon, às quais Clara respondeu não encontrar sentido, não se atrevendo a considerar moralmente possível que os já falecidos conservem vontade suficiente para gerar efeitos no entorno ou vingar-se.

38. Argumentou o médico que, se cientistas naturais falam com razão de um campo de ação espiritual próprio de cada ser vivo, deveria ser possível a essa essência, uma vez libertada, ter efeitos imediatos sobre a essência das coisas de modo distinto do nosso, agindo a vontade primeiro e imediatamente sobre o interior e só depois sobre o exterior, sendo talvez o som, aparentado a essas essências, o mais fácil de liberar-se espiritualmente, permanecendo aquela essência espiritual-corpórea o órgão próprio da vontade mesmo nesta vida, evocando o poder dos extáticos sobre ela, capazes de retraí-la da recepção sensorial e regular até o sentido da audição, e mesmo de separá-la de si e enviá-la longe, como observado em soldados suíços nostálgicos, cujos corpos permaneciam presentes mas parcial ou completamente desalmados enquanto seus espíritos talvez deambulassem pela pátria distante.

39. Preferindo Clara crer nos fenômenos do além aos deste lado, pois a alma não está onde está mas onde ama, questionou-se em seguida se não haveria níveis intermediários entre a clarividência e o próprio dormir, sendo o sonho talvez um deles, tentativa imperfeita de produzir durante o dormir um despertar e, portanto, a clarividência, confirmando o médico que os sonâmbulos não sonham, mas ao saírem desse estado passam a ter sonhos realmente proféticos, concebendo-se então que os seres humanos quase completamente presas da natureza exterior ao morrer sejam possuídos por uma espécie de dormir tomado por tempestade de ideias oníricas, comparável ao tormento de vagar sonhando sem encontrar o caminho, sendo talvez as torturas dos pecadores no outro mundo primariamente torturas da fantasia voltadas ao mundo corpóreo anterior.

40. Considerou-se ainda que, sendo necessária em geral a condição de clarividência após a morte por estarem os que partiram conectados ao mundo corpóreo apenas através daquela essência espiritual-corpórea, seria concebível uma condição oposta ao bem, tal como há enfermos a quem aquela condição traz bem-estar e outros a quem traz dores terríveis, sendo assim possível que, para os que viveram mais interior do que exteriormente, a clarividência seja a condição mais bendita, mas para os que viveram completamente hechizados pela sensualidade exterior, resistindo a toda interioridade, essa condição traga apenas tortura, flutuando entre o ser e o não-ser, incapazes de entrar no que realmente é e separados daquilo que julgavam sê-lo, constituindo essa condição propriamente a purificação da alma de que tanto se falou, necessária mesmo para os que conservaram o germe do bem mas ascendem agravados por vaidade e ilusões, não podendo tal purificação ocorrer sem dor, dada a intervenção profunda necessária para extrair de uma alma tantas raízes de corrupção.

41. Concordando o médico, por experiência própria, que a presença de seres impuros perturba vivamente aquela condição de clarividência, concluiu-se ser tanto mais tortuosa a própria presença do impuro após a morte numa condição semelhante, cosechando o que semeou, acompanhado por seu próprio séquito de más ações, devendo-se por isso, do mesmo fundamento, admitir fisicamente lugares distintos e opostos para o puro e o impuro, havendo porém muitos degraus intermediários, tal como entre os sentidos há graus de visibilidade e invisibilidade, devendo-se crer que no reino invisible após a morte existam muitos reinos particulares e mundos distintos entre si, não alcançando cada alma imediatamente o propriamente suprassensível, mas talvez apenas por espiritualização gradual, merecendo os que viveram retamente segundo a natureza exterior, como homens justos e prudentes, algum mundo de paz semelhante aos Campos Elíseos, enquanto os mais afeitos à natureza exterior, sem terem vivido como ímpios, permaneceriam numa terra de silêncio sem dor, numa vida semelhante à das sombras, até despertar o impulso a uma existência mais alta, como no Aquiles de Homero.

42. Fundamentou-se essa crença ainda nas palavras obscuras do Antigo Testamento sobre um lugar oculto sob a terra onde tudo repousa, o inferno como poder que retém sua presa, diminuindo esse poder à medida que o espiritual penetra mais nesta vida exterior, culminando na vitória sobre o antigo reino da morte realizada por Cristo, que, descendo à natureza afundada e mortal para nela unir a vida espiritual e a natural, reabriu o céu para todos e selou novamente o laço entre terra e céu, extinguindo-se com sua morte a última luz da natureza exterior, mas tremendo a terra e rasgando-se o véu do templo assim que pisou aquela região obscura, mostrando as frequentes aparições de santos já falecidos a superação do poder da morte, retomando-se assim a festa de Natal como a verdadeira celebração do nascimento de toda a natureza e do ser humano para a vida eterna.

43. Decidiu-se então encerrar a conversa antes da meia-noite, temendo que se dissesse terem tido ideias que só a noite permite, dispersando-se cada um para sua casa.

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