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Schopenhauer, prefácio

ROSSET, Clément. Faits divers. Textes réunis et présentés par Nicolas Delon et Santiago Espinosa. Paris: Presses Universitaires de France, 2013. (Collection Perspectives critiques).

  • Schopenhauer é um filósofo insólito por excelência, surgido sem que se soubesse de onde vinha, como aquele “calmo bloco aqui caído de um desastre obscuro” de que fala Mallarmé, no auge do idealismo alemão, como um viajante com máquina de navegar no tempo e no espaço que tivesse escolhido, para parar, o pior lugar e o pior momento.
    • Sua obra é estranha não só à filosofia alemã de seu tempo, que naturalmente a ignorou, mas à filosofia alemã em seu conjunto.
  • Ele é estranho à mística alemã que o precedeu, de mestre Eckhart a Angelus Silesius, como a todas as componentes da metafísica alemã passada, contemporânea ou futura, de Wolff a Heidegger.
    • Incompreendido por ela, não a compreende mais, e se contenta, quando a ela alude, com um ritual rosário de injúrias, cômico decerto, mas fora de propósito.
    • Exato contemporâneo de Schelling e de Hegel, que fizeram do devir e da história a pedra angular de seu pensamento, Schopenhauer carece de todo senso histórico: um capítulo do Mundo como vontade e como representação (cap. XXXVIII dos Suplementos) contesta o próprio fundamento da noção de história e a descreve como alucinação cuja função é dissimular o caráter repetitivo do mundo.
  • Para Schopenhauer tudo é e nada devém, e até a morte é uma espécie de ilusão, de não acontecimento (cap. XLI dos Suplementos); tudo o que superficialmente se toma por acontecimento é não acontecimento, simples ocasião de reafirmar a realidade sempiterna do mundo, que ele chama de “querer-viver” (vouloir-vivre).
    • O amor é um dos principais pseudoacontecimentos: parece o assunto mais importante, mais individual e mais íntimo, o “jardim secreto” (jardin secret), quando é apenas um trompe-l'œil destinado a enganar o indivíduo e a fazê-lo tomar por assunto privado o que é o assunto público por excelência, a reafirmação incessante do querer-viver da espécie.
    • Essas considerações cruéis e desiludidas muito fizeram pela glória póstuma de Schopenhauer e influenciaram muitos autores modernos, como Georges Bataille, cuja concepção do erotismo delas se inspira diretamente, sem que aparentemente ele o perceba.
    • Schopenhauer é também precursor do existencialismo e de seu conceito de “facticidade” da existência, que não passa de diluição da concepção schopenhaueriana de um mundo absurdo por carecer de fundamento e de finalidade.
    • Seu desinteresse pela história acarreta necessariamente uma depreciação da ação, que no fundo nada muda e não “age”, no sentido clássico, pois se limita a repetir, sem propriamente realizar, os gestos previstos desde toda a eternidade pelo querer-viver, de modo que só se deve buscar força e virtude humanas no domínio da contemplação.
    • Todas as valores tradicionais são triturados pelo bulldozer schopenhaueriano antes de o serem pelo nietzschiano, que parece uma segunda camada destinada a assegurar a solidez e a estanqueidade da primeira.
  • Outra singularidade de Schopenhauer é a clareza e a legibilidade de sua escrita, qualidades pouco frequentes entre filósofos, sobretudo alemães, a ponto de quase se dizer que é o único filósofo alemão a escrever bem o francês, lapso não inteiramente lapso, pois Nietzsche declarava preferir lê-lo em tradução francesa.
    • O Mundo é um livro grosso que, como provavelmente todos os livros grossos, tem passagens enfadonhas, como os famosos “túneis” (tunnels) de Saint-Simon, o que vale para o primeiro livro, que reformula e ilustra laboriosamente as teses já expostas em A quádrupla raiz do princípio de razão suficiente.
    • O encantamento filosófico começa no livro II, com a teoria da vontade, ou do querer-viver, como essência do real, como na Ética de Spinoza, que só “decola” no apêndice de seu livro I, e continua no livro III, com a célebre teoria da arte como contemplação, isto é, libertação dos sofrimentos causados pela realidade e pela vontade que é sua substância.
    • A leitura dessas páginas, ainda adolescente, foi o primeiro contato do autor com a filosofia e provocou emoção determinante para a decisão de estudá-la: foi sorte começar, aliás incidentalmente, por páginas simples e verdadeiras, que o prepararam e encorajaram a enfrentar tantas páginas incertas e obscuras.
  • Não é a Schopenhauer que se devem pedir variações originais sobre os temas do ser, da existência ou da essência, sutilezas de importância crucial em muitas filosofias mas indiferentes a ele: basta-lhe saber, ou estimar, que a vontade é onipresente e todo-poderosa e que o pensamento (representação), impotente para modificar-lhe o curso, deve contentar-se com o papel de informante infiel e gerador de ilusão.
    • Sua intervenção no campo filosófico, como a de Spinoza, visa fazer do leitor, e de si mesmo, um homem desiludido mas “livre”, libertado das ilusões e dos tormentos que as acompanham, das “paixões tristes” de que fala Spinoza.
    • É espectador do mundo mais que ator, certamente, mas menos por egoísmo que por lucidez.
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