Obras de 2008
Escola do real
ROSSET, Clément. L'école du réel. Paris: Les Éditions de Minuit, 2008.
Este livro não é uma reedição (exceto, no entanto, por alguns retoques), mas uma compilação dos textos que, ao longo de cerca de trinta anos, escrevi sobre a questão do real e de seus duplos fantasmagóricos. Considerando que eles formavam uma sequência de textos voltados para o mesmo problema — uma série de temas e variações em que *O Real e seu duplo* seria o tema original e muitos dos livros que se seguiram, variações, pelo menos parcialmente —, pareceu-me conveniente reuni-los em um livro no qual cada um deles constitui um capítulo independente. Não achei útil alterar a cronologia e selecionei os textos na ordem em que surgiram, eliminando todos aqueles que não se relacionavam diretamente com a questão do real, a fim de obter um volume dedicado a um único tema.
Esse tema único não é, no fundo, senão a exposição de uma concepção particular da ontologia, do “conhecimento do que é”, como indica a etimologia da palavra. Minha busca pelo que chamo de real está muito próxima da investigação sobre o ser que ocupa os filósofos desde os primórdios da filosofia. Com a única diferença de que quase todos os filósofos se obstinam a destacar, como outrora Heidegger, a diferença entre o ser e a realidade comum, enquanto eu, por minha vez, me esforço para afirmar sua identidade.
- ADVERTÊNCIA
- I O REAL E SEU DUPLO
- INTRODUÇÃO A ILUSÃO E O DUPLO
- 1. – A ILUSÃO ORACULAR: O ACONTECIMENTO E SEU DUPLO
- 2. – A ILUSÃO METAFÍSICA O MUNDO E SEU DUPLO
- 3. – A ILUSÃO PSICOLÓGICA O HOMEM E SEU DUPLO
- “Je est un autre”
- Da tolice
- O abandono do duplo e o retorno a si
- EPÍLOGO
- II POST-SCRIPTUM AO CAPÍTULO PRECEDENTE
- 1. – NOTA BREVE SOBRE A TOLICE
- 2. – O FETICHE ROUBADO OU O ORIGINAL INENCONTRÁVEL
- III RETORNO À QUESTÃO DO DUPLO
- 1. – O DESVIO DO REAL
- 2. – O SER E O DUPLO
- IV MIRAGENS
- INTRODUÇÃO
- 1. – CONVERSAS DO ALÉM-MUNDO
- 2. – AQUI E ALHURES
- Aqui nada
- Interiores românticos
- O lugar do real
- Nas fronteiras do aqui e do alhures: o lugar do medo
- 3. – VISÕES DA AUSÊNCIA
- O estado de carência
- Imagens da ausência
- A nostalgia do presente
- V O PRINCÍPIO DE CRUELDADE
- INTRODUÇÃO
- 1. – O PRINCÍPIO DE REALIDADE SUFICIENTE
- 2. – O PRINCÍPIO DE INCERTEZA
- 3. – APÊNDICES
- A inobservância do real
- O atrativo do vazio
- VI PRINCÍPIOS DE SABEDORIA E DE LOUCURA
- 1. – DA EXISTÊNCIA
- 2. – DA LOUCURA (A EXISTÊNCIA DESLOCADA)
- 3. – DA CRAPULICE (A EXISTÊNCIA DESDOBRADA)
- VII. – O DEMÔNIO DA IDENTIDADE
- VIII. – O REGIME DAS PAIXÕES
- IX IMPRESSÕES FUGITIVAS
- 1. – PRÓLOGO
- 2. – A SOMBRA
- O corpo sem sombra
- A sombra sem corpo
- 3. – O REFLEXO
- O corpo sem reflexo
- O reflexo sem corpo
- Apêndice
- 4. – O ECO
- 5. – EPÍLOGO
- X FANTASMAGORIAS
- ADVERTÊNCIA
- 1. – AS REPRODUÇÕES DO REAL
- A fotografia
- A reprodução sonora e a pintura
- 2. – ESCLARECIMENTOS
- Sobre o real
- Sobre o duplo
Noite de maio
LA NUIT DE MAI. Paris: Minuit, 2008
Prefácio
É apenas um sonho… (J. Offenbach, A Bela Helena)
Na noite de 30 para 31 de maio de 2007, sonho que estou indo para Nice de avião. A viagem, partindo de Paris, é mais longa do que na realidade: leva oito horas e dura a noite inteira. Eu gostaria muito de dormir, mas sou impedido pelos roncos estrondosos do meu amigo de Nice, Philippe Léandri, que viaja comigo (a origem desses roncos, sem dúvida, são os barulhos de martelo e furadeira vindos de um apartamento vizinho ao meu). Na manhã seguinte, chegamos a Nice, onde alguns amigos nos aguardam, entre eles Agnès Varda (??), que me mostra sua casa e me pede para verificar se as janelas e persianas estão bem trancadas; o que eu faço. Mas não é só isso: preciso dar, à tarde, uma palestra sobre “o desejo”. Fico preocupado e expresso meu constrangimento por ter que improvisar algo em tão pouco tempo. Também penso que teria sido melhor não perder um tempo precioso verificando as maçanetas e as fechaduras de Agnès Varda. Mas eis que alguém (que não identifico no sonho, mas a quem me sinto muito grato na realidade) me leva à parte para me dizer: “No entanto, é bem simples. Basta mostrar que o desejo é algo muito complicado, ou melhor, muito complexo. Nunca se deseja uma coisa, mas sim uma pluralidade de coisas. Mencione de passagem Deleuze e conclua com Balzac. O início? Bem, basta falar do Combray de Proust, da pequena madeleine”. O curioso é que tudo isso era bastante preciso e facilmente decifrável, ao contrário do que costuma acontecer nos sonhos. É por isso que, assim que acordo, corro para minha mesa e transcrevo o esboço do meu amigo desconhecido.
O texto a seguir é apenas o desenvolvimento estrito desse esboço, algo como sua concretização. É, portanto, apenas a simples realização de um sonho; revisto e desenvolvido, é certo, mas nem corrigido nem truncado.
