rosset:1983:1.2
1.2 Música
La force majeure. Paris: Éditions de Minuit, 1983.
- O problema fundamental da filosofia de Nietzsche parece de tipo kantiano: é possível a beatitude nietzschiana (Seligkeit), a pura adesão à existência sem remorso nem segunda intenção? Como é possível transfigurar o sofrimento em prova positiva da afirmação, e como pode o pensamento da morte incidir de modo apenas favorável sobre o pensamento da vida?
- Seria possível esquivar-se dessas questões respondendo que isso é possível porque é, e Nietzsche estaria autorizado a fazê-lo, já que toda a sua obra é o relato e o testemunho de tal beatitude.
- Essa afirmação sem sombra de negatividade não invoca, porém, nenhuma razão confessada nem pensamento em que se apoiar ou esboçar um fundamento, mesmo vasculhando os textos do próprio Nietzsche.
- Nietzsche analisa os pensamentos alheios à luz de sua experiência da beatitude, mas nunca analisa nem critica a própria, que é afirmada, quase nunca descrita e apenas aludida de modo vago e fugidio; o ponto de apoio do sistema é assim muito operante e pouco visível, como um lugar que atribui domicílio a todos os outros sem ele próprio poder ser localizado (assignable).
- A questão fundamental do pensamento nietzschiano difere das interrogações kantianas porque recebe resposta positiva da experiência vivida e imediata, ao passo que as grandes questões de Kant só se respondem pela distinção metafísica entre o empírico e o “transcendental”, o fenômeno e o “númeno”.
- A possibilidade da beatitude é garantida já aqui embaixo, e mais crível que a do juízo sintético a priori ou das grandes ideias reguladoras da moral, cuja sorte depende do crédito dado à autoridade de outro mundo: garante-a a experiência, repetível à vontade, da jubilação musical.
- A música ocupa todos os “centros nervosos” da filosofia de Nietzsche e substitui aquilo que, em outros sistemas, faz as vezes de princípio ou fundamento: responde a todas as questões, faz as vezes de teologia, metafísica e física, e é a Revelação primeira sobre o sentido, a causa e o fim de toda existência. Nietzsche recusa a metafísica e a religião em parte porque ocupariam um espaço já tomado pela música.
- Como a maioria dos comentadores modernos silencia sobre a questão musical, cabe lembrar sua importância primordial e constitutiva na gênese do pensamento nietzschiano: “Sem a música, a vida seria um erro”, palavra de peso vinda de um pensador cuja filosofia se resume à adoração perpétua da vida; sem música, não haveria filosofia de Nietzsche.
- Nietzsche é antes de tudo um músico filósofo, levado à meditação filosófica por uma reflexão incessante sobre a natureza da jubilação musical. A essência comum do “trágico” e do “dionisíaco”, fio condutor de toda a sua filosofia desde O Nascimento da Tragédia, já é designada pelo título da obra como efeito musical: nascida “do espírito da música”.
- Essa observação vale como aviso a intérpretes passados e futuros: assim como Platão exigia geometria à entrada da Academia, a divisa de Nietzsche poderia ser que ninguém se ocupe dele se não for músico.
- A relação entre o pensamento nietzschiano e a música resume-se em duas teses complementares.
- Primeira tese: a experiência musical coincide sempre, em Nietzsche, com uma experiência de beatitude.
- Segunda tese, recíproca: a experiência da beatitude, mesmo quando sentida e descrita a propósito de uma realidade não musical, é sempre efeito secundário de uma jubilação antes de tudo musical, de modo que a música está na origem de tudo o que Nietzsche vive como beatitude, como no caso exemplar da origem da tragédia, situada expressamente na música.
- A primeira tese quase não admite discussão, pois basta ler Nietzsche para se convencer de sua exatidão: a música que lhe repugna, nostálgica ou melancólica, é aquela de que desvia o ouvido.
- Tudo o que Nietzsche escreveu sobre música, seus gostos e a música que ele próprio compôs atestam uma aliança indissolúvel entre experiência musical e jubilação; em Ecce Homo, a propósito do “Caso Wagner”, o efeito musical é definido como “poder de dizer sim ao mundo”.
- Chopin, um de seus músicos favoritos, situa-se nos antípodas do romantismo e se destaca na expressão da felicidade: é feliz até na infelicidade, como o Dionísio nietzschiano é afirmador até no trágico, e sua melancolia, longe de mórbida, é ocasião de deleite e sinal de saúde plena. Segundo o aforismo 160 de O Viajante e sua Sombra, sua “Barcarolle” faria até os mais bem-aventurados dos deuses desejarem partilhar a condição humana.
- A música constitui assim tríplice iniciação: ao bem-estar e à felicidade (bonheur), como em “Como a felicidade depende de pouca coisa! O som de uma gaita de foles…”, à vida e à filosofia.
- Iniciação à vida: nas páginas do “Caso Wagner” sobre Carmen, Nietzsche celebra o “sentido do real” da música de Bizet, que evoca a rudeza de tudo o que acontece à existência, seu caráter irrecusável, rápido e inelutável como uma guilhotina (couperet), com uma alegria africana, sob um destino cego, de felicidade breve, súbita e sem piedade.
- Iniciação à filosofia: a felicidade dada pela escuta musical suscita uma reflexão que sem ela não haveria; Nietzsche diz sentir-se mais e melhor filósofo ao ouvir Carmen, pois a música liberta o espírito e dá asas ao pensamento, de modo que quanto mais se é músico, mais se é filósofo, e isso define a paixão filosófica.
- A segunda tese, segundo a qual a jubilação musical é o princípio de toda experiência de beatitude e a chave de abóbada da filosofia nietzschiana, é mais problemática, mas pode-se mostrar que é exata, fiel à letra de Nietzsche, e concorde com o que o pensamento nietzschiano tem de mais notável: a afirmação de uma jubilação incondicional diante de toda realidade, musical ou não, “boa” ou “má”.
- Para Nietzsche basta que algo seja real para ser tido como bom, e vice-versa, sendo o domínio do mau, isto é, do suspeito à luz de sua “moral”, constituído pelas coisas que não existem, ou mais precisamente pelas ideias que as designam aos homens.
- Quanto à exatidão material da segunda tese, Nietzsche sempre concedeu ao canto e à partitura primazia hierárquica e cronológica sobre qualquer outra forma de texto falado ou escrito.
- Prosa, poesia e teatro têm a música por modelo e origem, ponto que A Nascimento da Tragédia sublinha, sobretudo nos aforismos 5 e 6. O discurso musical é também o modelo da forma mais elaborada de discurso, o escrito filosófico tal como Nietzsche o pratica, ao dizer que escreve tanto com o pé quanto com a mão, o pé que dança sobre o papel e marca o compasso.
- O início do aforismo 334 de A Gaia Ciência, “É preciso aprender a amar”, faz do gosto musical e de seu longo aprendizado o modelo do amor ao real e da “aclimatação” que ele supõe: primeiro aprender a ouvir e isolar uma melodia, depois suportá-la apesar de sua estranheza, com paciência e ternura, até que ela faça falta e nos torne seus amantes humildes e encantados; e é assim que aprendemos a amar todos os objetos que amamos.
- Resta mostrar que a tese que faz da música condição sine qua non de toda beatitude é ortodoxia nietzschiana, isto é, concorda com a aprovação universal de toda realidade.
- A experiência musical foi sempre a via principal para a experiência filosófica da aprovação, mas isso não significa que a aprovação se restrinja ao aspecto musical do real, como se fosse preciso rejeitar tudo o que a perspectiva musical não transfigura: a jubilação musical é privilegiada por suscitar a aprovação de qualquer coisa indiferentemente, e não por distinguir a realidade musical das demais.
- O aforismo 5 de O Nascimento da Tragédia contém uma declaração ambígua, segundo a qual a existência e o mundo só se justificam como fenômeno estético, mas Nietzsche a retomou no prefácio de 1886, qualificando-a de “proposição escabrosa” (scabreuse).
- A fórmula do Crepúsculo dos Ídolos, “sem a música, o mundo seria um erro”, não faz da música uma alternativa de salvação oferecida ao mundo, e sim uma testemunha dele: significa que a vida privada de sua própria aprovação, a que a música convida de modo particularmente imperioso, deixaria de ser vida, e não que a vida sem música deixaria de sê-lo.
- Não se trata de apelar a outro mundo, ainda que musical, para justificar este; o valor da música está em testemunhar este mundo, palavra tão mais preciosa quanto resolutamente daqui de baixo. A afirmação do real passa pela música, mas abrange toda espécie de existência.
- Por isso, no aforismo 372 de A Gaia Ciência, a filosofia tradicional, de Platão a Kant, tem por preocupação permanente tapar os ouvidos: não como Ulisses, para escapar ao canto das sereias tomado como evocação de um mundo utópico e ilusório, mas ao contrário, porque não queria ouvir falar do real, justamente o que o canto das sereias evoca sem cessar.
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