rosenzweig:estrela:1.1.5
1.1.5 Olimpo mítico
ROSENZWEIG, Franz. L’Étoile de la Rédemption. Tr. Alexandre Derczanski et Jean-Louis Schlegel. Paris: Seuil, 1982
- Os deuses da Antiguidade também são vivos, e não apenas aquele que hoje se chama vivo; são até, se se quiser, muito mais vivos, pois são somente vivos. São imortais: a morte jaz abaixo deles. Não a venceram, mas ela não ousa medir-se com eles; deixam-na reinar em seu reino e enviam alguém de seu imortal círculo para governar esse império. Esse é o império ilimitado, e em sentido estrito o único, que exercem.
- Intervêm no mundo do vivo, mas não o governam: são deuses vivos, não deuses do vivo, pois para tanto teriam de sair de si, o que não convém à vida “despreocupada” dos olímpicos. Só à tarefa de manter a morte afastada de seu mundo imortal dedicam atenção metódica; de resto, os deuses vivem entre si.
- A relação tão evocada dos deuses com as “forças da natureza” nada muda, pois o conceito de natureza como reino de leis próprias, em contraste com algum “sobrenatural”, ainda não existe: a natureza é sempre a natureza própria dos deuses. Se um deus é referido a uma constelação, não se torna deus da constelação, como se quer representar projetando retroativamente o conceito de natureza; é a constelação que se torna Deus ou parte do Deus.
- Se desse reino divino das constelações um campo de forças lança seus raios sobre todo evento terrestre, este não fica por isso submetido ao reino dos astros; é, em certa medida, exaltado a essa esfera divina, da qual é parte, deixa de ser independente, se alguma vez o foi, e torna-se ele mesmo divino.
- O mundo dos deuses permanece sempre um mundo à parte, mesmo quando englobam o mundo inteiro, pois então esse mundo englobado carece de realidade própria; o Deus não entra em relação com ele, já que o engloba. Deus é aqui sem mundo, ou, caracterizando-se essa representação como visão de mundo, o mundo em que a vida dos deuses permanece entre si seria um mundo sem deuses. Assim se exprimiria a essência do que se pode designar como concepção mitológica do mundo.
- A essência do mito é uma vida que nada conhece acima nem abaixo de si, sem coisas dominadas nem deuses dominantes, uma vida puramente em si, sejam seus portadores deuses, homens ou coisas. A lei dessa vida é o acordo entre arbítrio e destino, acordo interno, que não ressoa além de si e retorna sem cessar a si mesmo. A paixão do Deus, que se dá livre curso, quebra-se no dique interior do mandamento obscuro de sua natureza.
- As figuras do mito não são meras potências nem meras essências, pois nenhuma das duas as tornaria vivas; só na compenetração mútua da paixão e dos decretos do destino surgem seus traços mais vivos: sem razões no ódio como na cólera, pois não há razão em sua vida, sem recurso, pois não há recurso perante o qual devam fazer valer direito algum.
- Sua livre efusão é sem direção, freada apenas pelo veredicto do destino; sua necessidade não é desfeita pela livre força da paixão, e no entanto ambas, liberdade e essência, confundidas na unidade misteriosa do vivo, constituem o mundo do mito.
rosenzweig/estrela/1.1.5.txt · Last modified: by 127.0.0.1
