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panofsky:1964:4.1

4.1 A melancolia em Conrad Celtes

Erwin Panofsky — SATURNO E A MELANCOLIA

A xilogravura de Dürer para a folha de rosto dos Quattuor Libri Amorum de Celtes

A doutrina dos temperamentos nos escritos de Dürer

1. A correspondência de Ficino foi publicada em 1497 por Koberger, padrinho de Dürer, apenas três anos após a primeira edição florentina, e também o De vita triplici se difundiu na Alemanha no fim do século XV, mas a nova ideia de melancolia não obteve logo supremacia incontestada, pois a ideia popular dos temperamentos permaneceu até bem dentro da era moderna muito mais condicionada pela tradição médica que pelas novas teorias metafísicas, que só a atingiram paulatinamente, e os próprios humanistas estavam presos demais ao humoralismo e à astrologia tradicionais para que a nova doutrina se impusesse sem oposição, sobretudo no norte, onde só Agrippa de Nettesheim adotou plenamente as teses de Ficino, e nem mesmo Conrad Celtes, de mentalidade tão humanista, parece ter sido influenciado pelas concepções florentinas.

  • Na Itália, berço da reabilitação de Saturno e da melancolia, Gioviano Pontano, Caelius Rhodiginus e Francesco Giorgio aceitaram sem reservas o novo evangelho, quase sempre com as palavras de Ficino, mas persistiu a ideia de Saturno como planeta puramente funesto, capaz de gerar grande talento apenas se, como um veneno, fosse corretamente temperado por outros planetas.
  • No norte, o terceiro livro do De vita triplici pareceu de início incompreensível.
  • Os outros humanistas alemães da primeira geração citavam ocasionalmente o Problema XXX, 1 sem ênfase especial, ou faziam a concessão habitual de que Saturno, combinado com Júpiter, aumenta excelentemente o engenho e torna o homem inventor de certas artes.
  • Celtes identificava-se inteiramente, quanto à melancolia, com as teses correntes da medicina das escolas, e Saturno era para ele apenas um perturbador que produzia homens tristes, trabalhadores e fradescos, a quem se devia implorar que deixasse na aljava suas flechas mórbidas.

2. Se no norte nem os humanistas puderam romper com a tradição medieval, ou o fizeram apenas gradualmente e com certa relutância, o mesmo se espera de um artista alemão como Dürer, sobretudo porque enfrentou pela primeira vez o problema das quatro compleições numa xilogravura que serviu a Celtes de folha de rosto para seus Libri amorum, publicados em 1502, sem mostrar qualquer influência da nova doutrina, empregando um esquema compositivo que remonta às imagens clássicas dos quatro ventos, como na Tabula Bianchini, passando pelas representações medievais de Cristo cercado dos símbolos dos quatro evangelistas e pelos quadros didáticos da escolástica tardia, já usado por outros para os quatro temperamentos.

  • No centro está entronizada a Filosofia, coroada e, segundo Boécio, provida de uma scala artium.
  • Cerca-a uma guirlanda de quatro espécies de plantas, ligadas por medalhões com bustos de filósofos, e os cantos da página trazem as cabeças dos quatro ventos, diferenciadas em idade e caráter.
  • Cada vento simboliza, segundo fontes mais antigas e o texto de Celtes, um elemento, um temperamento e uma estação.
  • Zéfiro, vento oeste, cabeça juvenil e idealizada saindo das nuvens, com flores brotando da boca, significa o ar, a primavera e o sanguíneo.
  • Euro, vento leste, cabeça de homem cercada de chamas, significa o fogo, o verão e o colérico.
  • Austro, vento sul, homem mais velho e inchado entre ondas e aguaceiros, significa a água, o outono e o fleumático.
  • Bóreas, vento norte, velho calvo e magro, significa a terra, o inverno, daí os pingentes de gelo, e o melancólico.

3. O esquema cosmológico da xilogravura é tão antigo quanto seu esquema compositivo e, comparado à ordem de Antíoco de Atenas, mostra apenas uma adaptação ao tempo e ao lugar, pois Bóreas e Austro trocaram de papel: o outono, frio e seco no sul e por isso atribuído nas fontes clássicas a Bóreas, à terra e à bílis negra, parecia no norte mais conforme à natureza fria e úmida de Austro, da água e da fleuma, e o inverno, mais rico em geadas que em chuvas nos países setentrionais, ao contrário do inverno aquoso do sul, parecia corresponder a Bóreas, à terra e ao melancólico, tornando-se Bóreas o decano do ciclo e primeira evidência da ideia de Dürer sobre o estado melancólico, em nada diferente da tradição medieval, pois nos olhos fundos e nas feições enrugadas desse velho calvo, narigudo e magro há mais misantropia rabugenta e astúcia mesquinha que tristeza sublime e reflexão contemplativa, em contraste com a bonomia bem nutrida do fleumático, a força veemente do colérico e o viço juvenil do sanguíneo, conforme centenas de textos populares sobre as compleições.

4. Em versos franceses populares, o melancólico tem face triste, é cobiçoso e cheio de avareza, não se lhe deve pedir graça, não é propício a fazer bem algum, foi criado pela trapaça, pela fraude e pela falácia, nunca é avaro em falar bem, mas que se busque outro para fazer o bem.

5. Uma doutrina dos quatro temperamentos popularizada em tantos textos, imagens e versos parecia a um homem do século XVI tão óbvia e obrigatória quanto a ideia pré-einsteiniana do universo para épocas mais recentes, e Dürer nunca a repudiou expressamente, caracterizando ainda nos Quatro livros sobre a proporção humana, já familiarizado com a melancolia neoplatônica florentina, a imagem do homem saturnino como desleal e a do filho de Vênus como doce e gentil, e suas observações sobre as compleições pouco diferem da ideia popular de que as diferenças individuais dependem em grande parte da pertença a uma das quatro compleições, equivalentes a naturezas ígnea, aérea, aquosa ou terrosa e condicionadas pelos planetas, indo além dos textos correntes apenas ao subordinar, em sua teoria da proporção, as características descritivas e expressivas às de proporção, afirmando que, praticados seus ensinamentos, se saberia que medida e maneira empregar para uma imagem saturnina e traiçoeira, marcial ou venusina, pois pelas proporções exteriores se podem descrever todas as condições dos homens, de natureza ígnea, aérea, aquosa ou terrosa, já que o poder da arte submete todas as coisas.

6. Após sua segunda viagem à Itália, Dürer esboçou o programa de seu amplo livro sobre a pintura, que abrangeria muito mais que perspectiva e proporção, mas nem então se deve presumir que conhecesse o De vita triplici ou a nova ideia de melancolia, influência outrora suspeitada porque estipulava que na seleção e educação dos aprendizes se atendesse à compleição e especificava requisitos gerais: observar sob que signo nasceu o jovem, rogando a Deus que a hora tenha sido afortunada, observar sua figura e membros, mantê-lo com vontade de aprender e sem cansar-se, cuidar para que não praticasse demais, a ponto de ser vencido pela melancolia, e que aprendesse a distrair-se tocando árias agradáveis no alaúde para deleitar seu sangue.

7. A tese de que o esforço mental causa predomínio da bílis negra e, por isso, uma rejeição depressiva e mórbida de toda atividade era, desde Rufo de Éfeso, princípio da medicina das escolas tão universal quanto a crença nos poderes curativos das árias agradáveis no alaúde, cujo efeito antimelancólico já aparece ilustrado em miniaturas do século XIII, e não primeiro nas xilogravuras da tradução de Ficino por Muelich, e nem a exigência de regular a educação do discípulo pelo horóscopo e pelo temperamento é tão moderna quanto parece, pois o De disciplina scholarium, atribuído a Boécio, mas escrito por um desconhecido Conradus, conhecido em toda parte desde meados do século XIII e traduzido ao francês e ao alemão, descreve longamente como regular alojamento, alimentação e modo de vida do jovem estudante conforme sua constituição, determinada se necessário por peritos, bastando a Dürer transferir esses princípios da escola e da universidade para a oficina do pintor, o que jamais ocorreria a seu mestre Wolgemut, e combinar a doutrina das compleições com a astrologia, de modo muito conhecido nos séculos XV e XVI, para ter pronto seu programa de educação iatromatemático.

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