O homem e a gente
ORTEGA Y GASSET, José. El hombre y la gente. Madrid: Revista de Occidente, 1957.
Introdução
1. Ao retomar as Lições sobre o homem e a gente, dadas na primavera passada, torna-se imprescindível ter claro e presente o que nelas se alcançou, e por isso convém concentrar aqui o mais indispensável dos conceitos obtidos na série anterior, a fim de liberar as quatro lições do ciclo deste ano do resumo inevitável e passar logo a novos temas da doutrina sociológica.
2. Boa parte das angústias históricas atuais procede da falta de clareza sobre problemas que só a sociologia pode esclarecer, falta que se origina no estado deplorável da teoria sociológica, cuja insuficiência para orientar sobre a política, o Estado, o direito, a coletividade e sua relação com o indivíduo, a nação, a revolução, a guerra e a justiça, as coisas de que mais se fala há quarenta anos, decorre de os próprios sociólogos não terem analisado a sério e radicalmente os fenômenos sociais elementares, tornando impreciso e contraditório todo esse repertório de conceitos.
3. É urgente esclarecer de verdade o que é sociedade, sem o que nenhuma daquelas noções pode ter substância clara, mas isso exige precisar antes seus sintomas, isto é, os fatos sociais em que a sociedade se manifesta e consiste, e portanto o caráter geral do social.
4. Não está provado que o social seja uma realidade peculiar, pois poderia ser apenas combinação ou resultado de outras realidades, e se, como quase sempre se acreditou, com consequências práticas mais graves no século XVIII, a sociedade fosse mera criação de indivíduos que se reúnem por vontade deliberada, uma simples associação, não teria realidade própria nem haveria necessidade de sociologia, bastando estudar o indivíduo, questão que só se resolve com os meios radicais da análise filosófica, investigando se entre as realidades autênticas, irredutíveis a outras, existe algo correspondente aos chamados fatos sociais.
5. Para isso é preciso partir da realidade fundamental em que todas as demais têm de aparecer, a vida de cada um, e é cada um quem deve analisar se no âmbito de sua vida o social aparece como algo distinto e irredutível a tudo o mais.
6. Na área da vida, deixando de lado o problema transcendente que é Deus, encontram-se minerais, vegetais, animais e os outros homens, realidades irredutíveis entre si e portanto autênticas, e o social aparece ligado apenas aos homens, pois, embora se fale de sociedades animais como a colmeia, o formigueiro, o cupinzeiro e o rebanho, o fato de o homem não ter podido ser reduzido à realidade animal impede, ao menos por ora, considerar sinônima a palavra sociedade aplicada a homens e a animais.
7. O social consiste em ações ou comportamentos humanos, mas a vida humana é sempre a de cada um, o eu que se encontra tendo de existir numa circunstância, o mundo, sem segurança de existir no instante seguinte e tendo sempre de fazer algo, material ou mentalmente, para assegurar essa existência, de modo que só é humano em sentido estrito e primário o que se faz por si mesmo e em vista dos próprios fins, sendo o fato humano sempre pessoal.
8. Só é propriamente humano no eu o que ele pensa, quer, sente e executa com seu corpo sendo seu sujeito criador, ou o que lhe acontece enquanto si mesmo.
9. Portanto, só é humano o pensar quando se pensa algo por conta própria, percebendo o que significa, e só é humano o que se faz porque tem sentido para quem o faz, isto é, o que se entende.
10. Em toda ação humana há, pois, um sujeito de quem ela emana e que por isso é responsável por ela.
11. Consequentemente, a vida humana, que põe o eu em relação direta com tudo o que o rodeia, é por essência solidão, pois a dor de dente só pode doer em quem a sente e o pensamento verdadeiramente pensado, e não repetido mecanicamente por ter sido ouvido, só pode ser pensado na própria solidão.
12. O fato social, porém, não é um comportamento da vida humana como solidão, mas aparece na medida em que se está em relação com outros homens, e por isso não é vida humana em sentido estrito e primário.
13. O social não é um fato da vida humana, mas algo que surge na convivência, entendida como relação ou trato entre duas vidas individuais, como as de pais e filhos, amantes e amigos, nas quais um indivíduo criador e responsável, que faz o que faz porque o entende, age sobre outro de iguais características, de modo que os fatos de convivência não são por si mesmos sociais, mas formam a companhia ou comunicação, um mundo de relações interindividuais.
14. Em outra série de fatos humanos, como o cumprimento ou a ação do guarda que impede atravessar a rua, a ação não é feita porque ocorreu a quem a pratica, nem espontaneamente sob sua responsabilidade, nem dirigida a outro enquanto indivíduo determinado, mas sem vontade original e muitas vezes contra ela, e sem que se entenda seu sentido, como apertar a mão ao encontrar um conhecido, de modo que dessas ações se é mero executor, como o gramofone que toca seu disco ou o autômato que executa movimentos mecânicos.
15. Aperta-se a mão ao conhecido porque é o que se faz, e o guarda detém a passagem não por conta própria, mas porque assim está mandado, sendo o sujeito originário e responsável do que se faz a gente, os demais, todos, a coletividade, a sociedade, isto é, ninguém determinado.
16. Há, portanto, ações que por um lado são humanas, porque consistem em comportamentos intelectuais ou de conduta especificamente humanos, e por outro não se originam no indivíduo, que não as quer, não é responsável por elas e com frequência nem sequer as entende.
17. As ações que têm esses caracteres negativos e que se executam por conta de um sujeito impessoal e indeterminável, que é todos e ninguém e se chama a gente, a coletividade ou a sociedade, são os fatos propriamente sociais, irredutíveis à vida humana individual, que aparecem no âmbito da convivência sem serem fatos de simples convivência.
18. O que se pensa ou diz porque se diz e o que se faz porque se faz costuma chamar-se uso.
19. Os fatos sociais constitutivos são usos.
20. Os usos são formas de comportamento humano que o indivíduo adota e cumpre porque, de um modo ou de outro, não tem remédio, já que lhe são impostos por seu contorno de convivência, pelos demais, pela gente, pela sociedade.
21. Para a doutrina sociológica a expor nestas lições basta que certos usos, os casos extremos do uso, se caracterizem por determinados traços.
22. Os usos são ações executadas em virtude de uma pressão social, que consiste na antecipação das represálias morais ou físicas que o contorno exercerá contra quem não se comportar assim, sendo portanto imposições mecânicas.
23. Os usos são ações cujo conteúdo preciso, aquilo que nelas se faz, é ininteligível para quem as executa, sendo portanto irracionais.
24. Os usos são formas de conduta e ao mesmo tempo pressões encontradas fora da própria pessoa e de qualquer outra, porque atuam sobre o próximo como sobre cada um, sendo portanto realidades extraindividuais ou impessoais.
25. Durkheim, por volta de 1890, entreviu os traços da pressão e da exterioridade como constitutivos do fato social, mas não chegou a vê-los bem nem a pensá-los, não percebeu a irracionalidade e acreditou no contrário, que o fato social era o verdadeiramente racional por emanar de uma suposta e mística consciência social ou alma coletiva, nem notou que ele consiste em usos, e como a irracionalidade é a nota decisiva, compreendida ela, os outros dois caracteres quase só coincidem no vocábulo com o que ele percebeu, embora tenha sido quem mais se aproximou de uma intuição certeira do fato social.
26. Ao seguir os usos, o homem comporta-se como autômato e vive por conta da sociedade, que não é algo humano nem sobre-humano, mas atua exclusivamente pelo puro mecanismo dos usos, dos quais ninguém é sujeito criador, responsável e consciente, de modo que a vida social ou coletiva não é humana, mas algo intermediário entre a natureza e o homem, uma quase natureza irracional, mecânica e brutal, sem alma coletiva, a grande desalmada, o humano naturalizado, mecanizado e como que mineralizado, justificando-se chamá-la mundo social, elemento inumano em que a pessoa se encontra.
27. Sendo mecanismo, a sociedade é, no entanto, uma formidável máquina de fazer homens.
28. Os usos produzem no indivíduo três categorias principais de efeitos.
29. Os usos são pautas de comportamento que permitem prever a conduta de indivíduos desconhecidos, possibilitando uma quase convivência com o estranho, já que a relação interindividual só é possível com quem se conhece individualmente, isto é, com o próximo.
30. Ao impor por pressão um repertório de ideias, normas e técnicas, os usos obrigam o indivíduo a viver à altura dos tempos e lhe injetam, queira ou não, a herança acumulada do passado, de modo que, graças à sociedade, que entesoura o passado, o homem é progresso e história.
31. Ao automatizar grande parte da conduta da pessoa e dar-lhe resolvido o programa de quase tudo o que tem de fazer, os usos lhe permitem concentrar sua vida pessoal, criadora e verdadeiramente humana em certas direções, o que de outro modo seria impossível, de modo que a sociedade situa o homem numa certa folga diante do porvir e lhe permite criar o novo, o racional e o mais perfeito.
