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4 Heidegger
LACOUE-LABARTHE, Philippe; LACOUE-LABARTHE, Philippe. Le Sujet de la philosophie. Paris: Aubier : Flammarion, 1979.
- Libertar a Dichtung da literatura é uma coisa, e a outra coisa de que se precisa é salvar a terra para o mundo.
- Pensar é certamente um assunto peculiar, pois a palavra dos pensadores não tem autoridade, não conhece autores no sentido de escritores, não é pitoresca nem tem encanto, repousa no efeito de sobriedade do que diz, e ainda assim muda o mundo, mudando-o nas profundezas cada vez mais escuras de um enigma que, ao escurecer, promete maior claridade.
Acesso (1): Lendo Heidegger
- A publicação de Nietzsche no outono de 1971 foi sem dúvida intempestiva, e suas repercussões foram praticamente inexistentes, embora sua publicação na Alemanha dez anos antes talvez também tenha sido intempestiva, já, e ao menos em parte provavelmente pelas mesmas razões, havendo algo de estranho ou inesperado nisso para um monumento de tal assinatura.
- Na França, a situação nunca foi muito clara, pois Nietzsche, antes de ser efetivamente traduzido, já havia praticamente sido lido, sabia-se que existia, preocupava-se com ele e conheciam-se ao menos os contornos gerais de seu conteúdo, suas teses e os temas dominantes da interpretação que propunha, mas com poucas exceções nada havia que se assemelhasse a uma leitura genuína.
- Desse duplo livro, dessa síntese, as pessoas contentavam-se frequentemente em recordar, para subscrever ou se irritar, o modo como Heidegger demonstrava a adesão de Nietzsche à metafísica, mas isso já é razão suficiente para dizer que Nietzsche não precisava ser acessível em nossa língua para agir e ter efeito, e para deixar sua marca, ainda que superficialmente, em certo campo filosófico.
- Deve-se reconhecer que toda a renovação dos estudos nietzschianos na França, todas as instâncias mais ou menos claras de um certo retorno a Nietzsche, e mesmo toda a releitura de Nietzsche, não derivam realmente ou apenas de Heidegger, sendo bem conhecido o papel maior desempenhado de diferentes maneiras por Jaspers ou Bataille.
- Heidegger ocupou no entanto uma posição tal que se poderia mostrar que, ao fim e ao cabo, esse retorno de Nietzsche se deu, e não sem desconforto, como que em torno desse livro que falta em nossos catálogos e em nossa biblioteca, mas difratado aberta ou veladamente em tudo o que, a respeito de Nietzsche, foi ensinado, escrito, publicado ou mesmo traduzido na França nos últimos dez anos.
- Haveria muito a dizer sobre esse novo nietzschianismo, que seria um erro considerar homogêneo e sobretudo simplesmente nietzschianismo, e sobre o papel exato desempenhado por Heidegger nessa história, se foi rejeitado ou evitado, oposto ou tentado superar, mas isso não é o que interessa aqui.
- Pode-se simplesmente e provisoriamente dizer que esse livro, apesar de sua divergência e leitura bastante laterais, terá contado para algo nos tempos recentes, e que sua tradução francesa pode muito bem coincidir, como resultado, com o fim previsível da agitação que criou.
- Resta saber se é de fato esse livro mesmo que deve ser assim posto em questão, pois é justo notar, por incongruente que pareça, que Nietzsche já havia sido lido antes mesmo de ser publicado, em certo número de textos curtos nos quais Heidegger revelara antecipadamente, ao menos em princípio e em certas trajetórias, a essência de sua interpretação.
- A palavra de Nietzsche: Deus está morto figurou em Holzwege de 1950, A superação da metafísica e Quem é o Zaratustra de Nietzsche, com a nota sobre o eterno retorno, em Vorträge und Aufsätze de 1954, toda a primeira parte do curso de 1951-52 dedicada a Nietzsche fora publicada em Was heißt Denken? de 1954, e a própria Einführung in die Metaphysik, onde o debate com Nietzsche fora inaugurado em 1935, apareceu em 1953.
- A persistência com que, desde 1947, desde a Carta sobre o Humanismo, apesar ou por causa da dispersão dos textos, Heidegger recordava incansavelmente as teses maiores, a reversão do platonismo, a completude ou culminação da metafísica, poderia muito bem ter levado a pensar que não havia de fato nada mais a esperar ou aprender.
- Se a isso se acrescenta que quase todos os textos que assim o anteciparam já haviam sido traduzidos na França à época, torna-se claro que não havia, e portanto nunca haverá realmente, necessidade urgente de empreender a leitura efetiva desse livro, do qual o mínimo que se pode dizer é que não chegou, em nenhum dos casos, a tempo.
- Essa intempestividade dupla, restrita e empírica, provavelmente implica outra muito mais fundamental, mas basta para explicar certo silêncio, pois independentemente da Alemanha, onde se diz que Heidegger há muito é coisa do passado, a tradução francesa sem dúvida chega tarde demais para ter qualquer chance de reorientar ou mesmo afetar seriamente a leitura de Nietzsche, e cedo demais, ou ainda tarde demais, para interessar uma possível leitura de Heidegger.
- O fato de essa tradução trazer a assinatura de Klossowski, e de se ter o direito de considerá-la de qualidade discutível, é um fato que, apesar de todas as declarações sobre a relação entre escrita e tradução generalizadas hoje, provavelmente será considerado negligenciável no que concerne à própria obra de Klossowski ou à questão da tradução.
- Nada resta senão aguardar os historiadores, a menos que essa tradução chegue de fato a tempo, supondo que seja urgente, por muitas razões, resistir à espécie de liquidação precipitada de Heidegger atualmente em voga e que parece ter assumido, suavemente, o lugar do pathos devoto e loquaz do passado recente.
- A menos, portanto, que essa tradução ofereça a oportunidade de persistir um pouco mais, apesar da falta de moda de tal atividade, na leitura de Heidegger, supondo que não seja inteiramente fútil tentar quebrar a oposição sistemática entre heideggerianismo e anti-heideggerianismo, cujo único resultado terá sido, em última análise, ter esgotado prematuramente o texto de Heidegger e todas as questões que ele levantou.
- É verdade que, nesse caso, resistir ou persistir é sem dúvida uma maneira de reforçar a intempestividade, mas além do fato de que isso certamente não é ruim, há também momentos em que a necessidade não conhece lei, e além disso, em geral, a urgência nunca data de hoje.
- Mas olhar as coisas assim é obviamente relegar Nietzsche mesmo ao segundo plano, isto é, colocar entre ele e nós a tela pouco transparente da interpretação de Heidegger, e é portanto também arriscar, ao mesmo tempo, sancionar involuntariamente a opinião que prevalece virtualmente em toda parte, e primeiro na filosofia acadêmica, quanto ao interesse real, à seriedade filológica e à exatidão histórica, ou simplesmente à honestidade, das interpretações de Heidegger.
- Tal risco é mais sério do que se pensa, e deve-se portanto começar por dissipar esse mal-entendido, pois é bem sabido que na maioria das vezes, e contrariamente ao costume, essa desconfiança provocada por Heidegger se expressa de modo bastante claro, também porque a ameaça é forte, e ninguém ignora tudo o que Heidegger tornou definitivamente obsoleto.
- Assim, não precisamos procurar muito longe, pois por exemplo no exposé crítico já aludido encontramos a passagem segundo a qual essas teses de Martin Heidegger são filosoficamente muito estimulantes, mas parecem mais aptas a nos informar sobre o pensamento de Heidegger do que sobre o de Nietzsche, sendo, de um ponto de vista estritamente nietzschiano, inadmissível a interpretação de Heidegger.
- Dir-se-á que aqui se alcança uma espécie de limite, mas nada é menos certo, pois se se admite a rigidez do tom, essa queixa, com sua lógica estranha mas significativa, segundo a qual o que é filosoficamente estimulante pode eventualmente ser instrutivo mas permanece inadmissível, é de fato a mesma que sempre foi feita a Heidegger, e não apenas a respeito de sua interpretação de Nietzsche.
- Seria tedioso mostrar que o livro de Granier é o primeiro a refutar essencialmente o que ele mesmo afirma, ou que se reduz a nada mais que um gigantesco ou ao menos volumoso anti-Heidegger, mas o que é notável em uma acusação desse tipo é que ela pressupõe, contra algumas das afirmações mais decisivas e mais vertiginosas do texto de Nietzsche, que há uma verdade da doutrina nietzschiana, segura dentro de seu texto, inicialmente pura, prévia e externa a qualquer leitura, começando pela do próprio Nietzsche, com base na qual a interpretação correta deve ser construída, isto é, com base na qual a coerência de um sistema deve ser reconstruída.
- Até certo ponto, mas apenas até certo ponto, e sem que isso se confunda jamais com uma obsessão compulsiva pela exatidão, uma obliteração análoga, uma certa rasura da letra, anima o próprio estilo de interpretação praticado por Heidegger, com seus efeitos mais espetaculares, seus momentos de coerção, a violência deliberadamente imposta aos textos, e contribui para manter seu método, em larga medida, dentro dos limites estritos de uma hermenêutica no sentido finalmente clássico do termo.
- Heidegger também se ocupa, se não de um sistema, ao menos da coerência de uma doutrina nietzschiana básica que, apesar de tudo, particularmente apesar de certa ausência de obra, se organiza segundo o estilo e a estrutura do filosofar em geral, isto é, segundo a conformidade da forma com o que está em causa no pensamento, com a matéria, Sache, do pensamento.
- Como se pode suspeitar, o foco não é outro senão aquilo de que toda a interpretação de Heidegger procede e ao qual, nessa interpretação, toda filosofia, qualquer que seja, deve ser remetida para se constituir como tal, mas que as pessoas persistem em pensar ser o tema maior da filosofia de Heidegger: a questão do ser, ou da verdade, e o que ela governa, a problemática da delimitação da metafísica.
- Disso Granier aliás não é ignorante, ainda que não o reconheça e se imagine capaz de identificá-lo com uma concepção pessoal da metafísica, à qual se poderia opor outra, a de Nietzsche por exemplo, ou melhor, substituir por uma metafilosofia baseada em uma ontologia do ser-interpretado, e que sem dúvida não tem outro defeito senão revelar-se completamente enraizada na má interpretação prevista por Heidegger da própria natureza da tentativa de delimitar a metafísica.
- O que é perturbador, o que deve ser combatido, é portanto a questão do ser, e primeiro de tudo o que, nessa questão, torna impossível, proíbe, toda uma nostalgia do filosófico em suas variações mais banais ou mais bem documentadas, positivistas, antropológicas ou vagamente teológicas, historicizantes, messiânicas.
- É por isso que as pretensões da filosofia acadêmica são tão facilmente transmissíveis à grande liquidação que ocorre, em princípio, fora da academia, e dizer que Heidegger é inadmissível, ou, como no discurso em voga, que já basta de metafísica, da questão do ser, dá no mesmo, sendo a diferença estilística, como se se pudesse simplesmente decidir dispensar a questão do ser e passar a outra coisa.
- É bastante óbvio que tudo isso deve ser visto em sua devida perspectiva, mas esse encontro tem o mérito paradoxal de indicar onde estão as questões reais, pois ou questionamos seriamente o que está em jogo na questão do ser, ou permanecemos e nos condenamos a permanecer aquém da questão, submetidos a seu poder crítico secundária mas radicalmente, e nesse caso é mais ou menos como se nada tivéssemos feito, tanto mais se se reivindica primitivamente Nietzsche mesmo, sem perguntar por um segundo o que está em jogo no que deve ser chamado, querendo ou não, de pensamento de Nietzsche.
- Devemos portanto passar por Heidegger, não para repetir ou selar um pouco mais algum tipo de ritual de sacralização, mas pela única razão de que sem Heidegger, dizê-lo tornou-se banal mas nada é mais rapidamente esquecido que esse tipo de banalidade, a filosofia de Nietzsche como tal nunca teria sido rigorosamente levada em conta.
- Isso não significa que se deva pura e simplesmente ratificar essa interpretação, mas que é necessário, supondo que ainda se trate de ler Nietzsche, submeter a interpretação de Heidegger a esta questão preliminar que o comentário anti-heideggeriano, qualquer que seja seu grau de oposição, nunca se faz, tão profundamente é influenciado pelo que há de mais fundamental no pensamento heideggeriano: com base em que se pode fazer de Nietzsche um filósofo, com base em que, por que direito, podemos tratá-lo como filósofo e incluí-lo na metafísica, e a que preço.
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