korzybski:1
Villaret I
Helene Bulla de Villaret. Introduction à la Sémantique Générale de Korzybski. Paris: Le Courrier du Livre, 1973.
I
- Zoólogos e zoopsicólogos revelam cada dia mais capacidades insuspeitadas nas espécies animais, mas o comportamento animal permanece fixado em repetições imutáveis de geração em geração, sem progresso perceptível.
- A espécie humana, ao contrário, nunca repete exatamente o que a geração anterior fez, transmitindo um acervo que cada geração modifica e amplia.
- A planta liga entre si energias, sendo um “energy-binder”; o animal liga pontos no espaço, sendo um “space-binder”; o homem liga momentos no tempo que ultrapassam sua própria duração vivida, sendo um “time-binder”, segundo a expressão cunhada por Korzybski.
- Somente o homem, por ser “time-binder”, pode criar e fazer evoluir civilizações, capacidade que a simples imitação não explicaria.
- O desenvolvimento cerebral humano permitiu a elaboração do instrumento único de transmissão que é a linguagem humana, distinta de qualquer suposto “linguagem animal”.
- A maneira de pensar e a maneira de se exprimir estão intimamente ligadas, de modo que o desordenado emprego da linguagem gera um desordenado emprego do pensamento e vice-versa.
- A Semântica Geral aborda de forma nova essa relação entre pensamento e linguagem, ampliando suas perspectivas.
II
- No domínio técnico é possível fazer planos cujos resultados são previsíveis, enquanto nos domínios econômico, político e social as previsões costumam falhar amplamente.
- Korzybski atribui essa diferença ao fato de o engenheiro usar uma linguagem matemática cuja estrutura é similar à dos fatos físicos, o que não ocorre com a linguagem corrente aplicada aos assuntos humanos.
- Essa ruptura entre a estrutura dos fatos e a estrutura da linguagem empregada para falar deles está na base de grande parte das dificuldades individuais e coletivas.
- As matemáticas constituem uma linguagem cuja estrutura é similar tanto à dos fatos quanto à do sistema nervoso humano, tornando-a correta do ponto de vista neurológico e biológico.
- Praticar a Semântica Geral permite ao sistema nervoso funcionar da maneira que lhe convém melhor, corrigindo um uso corrente da linguagem que tem sido prejudicial a ele.
III
- O mapa não é o território: ele apenas representa o território por meio de símbolos e signos convencionais, de forma esquemática e sem todos os detalhes.
- Na perspectiva aristotélica, a linguagem era considerada espelho fiel da realidade, o que atribuiu a ela um poder excessivo e originou muitos dos males decorrentes dessa identificação indevida entre o vivido e o que se diz sobre ele.
- A linguagem não pode dar conta totalmente dos fatos, permitindo apenas o traçado de mapas verbais, de modo que uma palavra não é o que representa e não representa todos os fatos.
- A atitude adequada exige uma tomada de consciência permanente do afastamento entre o dado vivido e a forma como a linguagem o simboliza, buscando reduzir esse afastamento como faz o cientista com a linguagem matemática.
- A linguagem matemática corre muito menos risco de deformação na comunicação do que a linguagem corrente, cujo conteúdo simbólico varia de pessoa para pessoa e de situação para situação.
- Convém adotar uma atitude de prudência e vigilância diante de mapas traçados por outros, pois podem circular mapas deformados ou falsificados por interesse ou vaidade.
IV
- Korzybski divide a história do pensamento humano em três períodos segundo a relação entre o observador e o que ele observa: o período grego ou pré-científico, no qual o observador era tudo; o período clássico ou semicientífico, no qual só importa o que é observado; e o período matemático ou científico, no qual se compreende que todo conhecimento resulta conjuntamente do observador e do observado.
- A dicotomia clássica entre corpo e psiquismo é superada pelos dados científicos que mostram o homem como um todo orgânico psicossomático, no qual as partes somática e psíquica estão indissoluvelmente ligadas.
- A Semântica Geral considera o homem como um todo orgânico psicossomático inserido em seu meio, atitude chamada não-elementalista, que evita isolar fatores estruturalmente ligados entre si.
- A estrutura nervosa humana condiciona as percepções, de modo que existem tantos “mundos” quantas estruturas nervosas diferentes, como ilustram o mundo do sapo, da mosca ou dos pássaros.
- O exemplo do ventilador cujas pás em movimento parecem formar um disco sólido ilustra a distância entre a percepção e os fatos reais, resultado da capacidade de abstração do sistema nervoso.
- A expressão “a flor é vermelha” atribui erroneamente à flor uma qualidade intrínseca que na verdade decorre da relação entre o objeto e o observador, sendo mais correto dizer que a flor aparece vermelha.
V
- Um julgamento como “Georges Durand é egoísta” pode ser reformulado de maneira mais conforme aos fatos ao indicar que, em determinada circunstância e segundo determinados padrões pessoais, o comportamento de Georges Durand pareceu egoísta ao observador.
- A qualidade “egoísta”, assim como a qualidade “vermelha”, não existe no mundo exterior de modo independente de quem a observa e a experimenta.
- A projeção consiste na tendência de atribuir a outras pessoas qualidades ou intenções nascidas do próprio psiquismo, podendo em casos extremos assumir proporções patológicas.
- Os postulados silenciosos constituem dados fornecidos pela cultura, pela educação e por experiências anteriores que permanecem semiconscientes ou inconscientes no momento de formular apreciações.
- No caso da observação sobre um certo David Levinsohn identificado apenas como judeu, a imagem convencional forjada por preconceitos substitui a pessoa real, levando a comportamentos inadequados em relação a ela.
- Convém substituir o verbo “ser” pelo verbo “parecer” e pensar em termos de comportamentos em vez de qualidades fixas atribuídas às pessoas.
VI
- Diante da constatação de que os objetos não são independentes de quem os observa, permanece possível construir uma representação do terreno cada vez mais rica, exata e válida, como demonstra o progresso científico.
- O cientista descobre a estrutura na qual se organizam os elementos do terreno, formula hipóteses a partir de inferências e retorna à observação para verificar se as previsões se confirmam.
- O exemplo do álcool e do éter, compostos pelos mesmos átomos dispostos de maneira diferente, ilustra a importância da estrutura para distinguir corpos diferentes.
- A imagem budista do carro sem essência central, composto apenas por suas partes, é contraposta à ideia de que o carro possui uma estrutura definida que permite relações precisas entre suas partes.
- O mundo está submetido a um perpétuo processo de mudança, e a confiança excessiva em aparências estáticas gera erros de avaliação por má adaptação a essas mudanças.
- A desorientação espaço-temporal constitui um dos principais sintomas de certas doenças mentais, embora em grau leve seja sofrida por muitas pessoas sem que estejam mentalmente doentes.
- Korzybski explica, a partir do exemplo de pedir a alguém que dê um pedaço de matéria, de espaço ou de tempo, que esses três elementos estão estruturalmente ligados entre si, contrariando a antiga atitude elementalista que os separava.
VII
- O modelo do Estrutural Diferencial é construído com um plano parabólico simbolizando o evento, um disco acima dele simbolizando o objeto, e um retângulo ainda mais acima simbolizando a etiqueta verbal que designa o objeto.
- Uma primeira série de linhas liga características do plano ao disco e à etiqueta, indicando as características levadas em conta na elaboração feita pelo sistema nervoso, enquanto uma segunda série de linhas se perde fora do diagrama, indicando as características deixadas de lado nessa mesma elaboração.
- Levar em conta certas características e deixar outras de lado constitui uma abstração, e o Estrutural Diferencial ensina a distinguir os níveis de abstração, cada um deles resultando de uma abstração a partir do nível anterior.
- Ao designar o disco se afirma que o objeto não é o evento, e ao designar o retângulo se afirma que a palavra não é o objeto, retomando assim as duas primeiras premissas empíricas não-aristotélicas de que o mapa não é o território e de que o mapa não representa todo o território.
- A reação à palavra como sinal, em vez de como símbolo, decorre da força de evocação ligada às emoções associadas à palavra ao longo do desenvolvimento intelectual e psicológico de cada pessoa.
- O verbo ser apresenta dois usos sem dificuldade, quando significa existir ou quando funciona como auxiliar, mas se torna perigoso quando identifica de maneira errônea diferentes níveis de abstração, seja ligando dois nomes situados no mesmo nível, seja ligando um nome a adjetivos que na verdade decorrem da relação entre observador e observado.
- O animal, por dispor apenas de pensamento por imagens, tem acesso somente ao nível inferior de abstração que vai do evento ao objeto, o que explica sua incapacidade de construir cultura ou civilização.
VIII
- O plano parabólico representa um mundo de eventos e o disco representa um mundo de eventos-significações, chamado mundo dos objetos, sendo ambos níveis não-verbais ou objetivos.
- A adequação entre os níveis verbais e os níveis não-verbais nunca é completa, mesmo quando se utiliza a linguagem dita científica, pois se emprega uma representação estática para dar conta de uma realidade dinâmica.
- A percepção constitui em si mesma uma experiência inexprimível, e nos grupos de estudo de Semântica Geral pratica-se o gesto de apontar para o objeto no diagrama enquanto se coloca o dedo sobre os lábios, indicando silêncio nos níveis objetivos.
- O treinamento de contemplar objetos, obras de arte ou músicas sem verbalizar visa enriquecer o contato com o nível não-verbal e estabelecer distância entre o objeto e a palavra que virá a designá-lo.
- A reação diferida consiste em uma atitude de investigação e expectativa que precede a resposta, permitindo aguardar a compreensão do sentido do percebido antes de formulá-lo verbalmente, sendo necessária para uma avaliação correta, uma ação eficaz e a saúde psicossomática.
- A reação semântica corresponde à reação do organismo, detectável no psicogalvanômetro, à significação de um termo, podendo certas doenças remontar em última análise a más reações semânticas.
- Uma vez que a linguagem transmite apenas descrições e julgamentos, e não as experiências não-verbais diretamente, surgem numerosos mal-entendidos quando se supõe erroneamente que dizer algo desperta no outro ressonâncias idênticas às próprias.
IX
- A expressão “os fatos” não deve ser entendida de maneira absoluta e dogmática, pois tanto a Semântica Geral quanto a ciência contemporânea permanecem no domínio do relativo, regido pelo princípio de probabilidade ou incerteza.
- Os fatos correspondem ao dado vivido, produto conjunto de uma realidade em última análise inapreensível e das estruturas nervosas do observador, razão pela qual se leva em conta nos laboratórios o coeficiente pessoal do experimentador.
- A orientação extensional convida a lembrar que cada objeto, mesmo pertencendo a uma coleção de objetos da mesma espécie, é único e apresenta características que o diferenciam de todos os outros.
- As generalizações abusivas ocorrem quando se considera em bloco certos grupos, atribuindo a todos os seus membros traços observados estatisticamente ou meramente supostos em apenas alguns deles.
- O uso de índices, como distinguir “empregador 1” de “empregador 2”, ajuda a lembrar que um mesmo termo designa objetos diferentes entre si, evitando identificações falsas entre eles.
- A notação “etc.” serve como lembrete do processo de abstração, indicando que certas características foram deixadas de lado na descrição de um objeto ou de um grupo de objetos.
- Os índices de data e de lugar ajudam a evitar que um comportamento atual seja avaliado à luz de um comportamento antigo, já que a mesma designação verbal pode recobrir um objeto que se modifica ao longo do tempo.
- O uso de aspas em torno de termos como espaço, tempo, corpo ou psique, e o uso do hífen em expressões como espaço-temporal ou psicossomático, servem para indicar a atitude não-elementalista que recusa separar artificialmente fatores estruturalmente ligados entre si.
X
- A cada etiqueta é possível prender uma nova etiqueta, representando sucessivamente as inferências, os julgamentos e as teorias construídas a partir do nível de abstração precedente.
- A construção da geometria não-euclidiana exemplifica a passagem a um nível de abstração mais elevado pelo abandono de um postulado anterior e a introdução de um novo postulado.
- A ordem natural de abstração vai da percepção de um objeto à sua designação verbal, depois à sua descrição, à sua classificação, às inferências, aos julgamentos e finalmente às teorias e hipóteses.
- O ponto mais fraco do raciocínio corrente consiste em misturar a experiência de um objeto com os níveis superiores de abstração, agindo a partir de uma teoria ou julgamento pré-estabelecido colado à experiência sem descrevê-la previamente.
- Ao inverter a ordem natural de avaliação, verificam-se os fatos à luz das teorias em vez de reconsiderar as teorias à luz dos fatos, levando a extrapolações ilegítimas e a formulações dogmáticas.
- Somente no nível da observação, cujos enunciados são verificáveis, é legítimo empregar os termos verdadeiro ou falso, enquanto nos níveis superiores tem-se apenas probabilidades sujeitas a revisão posterior.
XI
- O mapa é auto-reflexivo e a linguagem é auto-reflexiva, constituindo a terceira premissa empírica não-aristotélica.
- O exemplo da embalagem de queijo com a imagem de uma pequena normanda segurando outra embalagem idêntica ilustra a ideia de uma imagem da imagem, que se repetiria indefinidamente.
- Para ser completo, um mapa deveria representar um mapa do mapa, assim como o cartógrafo, já que ambos fazem parte do terreno no momento em que o mapa é traçado.
- Toda descrição de uma descrição exigiria, para ser completa, uma nova descrição dessa descrição, e assim sucessivamente, o que mostra ser impossível pronunciar-se de maneira absolutamente completa sobre qualquer coisa.
- A noção de auto-reflexividade aplica a teoria dos tipos de Bertrand Russell, segundo a qual não se pode construir uma proposição sobre todas as proposições sem gerar, com isso, uma nova proposição, eliminando certas totalidades ilegítimas.
- A auto-reflexividade conduziu à distinção dos níveis de abstração e à noção correlata de multiordinalidade dos termos do vocabulário.
XII
- Termos multiordinais como sim, não, verdadeiro, falso, fato, realidade, causa, efeito ou estrutura não possuem significação geral e uniformemente válida, dependendo do nível de abstração ou do contexto em que são empregados.
- O exemplo militar do termo unidade, aplicável simultaneamente a um pelotão, a um batalhão e a uma brigada, ilustra que os termos multiordinais se referem tanto aos conteúdos quanto aos continentes que os contêm.
- Perguntas como “o que é a verdade” ou “ele realmente me ama” revelam-se desprovidas de sentido assim que se reconhece a multiordinalidade dos termos nelas envolvidos.
- A maior parte dos termos utilizados encontra-se ao mesmo tempo superdefinida em relação às ideias preconcebidas e subdefinida em relação aos fatos, restando ao final um resíduo de palavras que não podem ser plenamente definidas por revelarem postulados metafísicos de base.
XIII
- Passar de um nível de abstração dado a outro mais elevado corresponde a passar de uma estrutura de dimensão determinada a uma estrutura mais vasta que a contém e que contém também outras.
- Na Semântica Geral entram em consideração a função proposicional de Bertrand Russell, a função doutrinal de Cassius J. Keyser e o sistema-função, que abrangem a busca de estruturas cada vez mais vastas e complexas.
- O observador ideal descrito por Korzybski registra os eventos de maneira impessoal, descreve-os sem confundir os níveis de abstração e forma um julgamento apropriado, enquanto o não-semanticista confunde seus níveis de abstração e colore a descrição de novos eventos com julgamentos já formados anteriormente.
- O semanticista aborda cada experiência com espírito aberto e prudente, difere sua reação, sabe escutar, descreve com honestidade comparável à do homem de ciência e recorre à classificação sem apagar as diferenças em proveito dos traços comuns.
- O princípio da não-aditividade mostra que, fora da aritmética, um mais um não resulta necessariamente em dois, como ocorre ao misturar um litro de água com um litro de álcool ou ao acrescentar uma terceira pessoa a duas que já estavam juntas.
- Na formação de seus julgamentos, o semanticista leva em conta as lembranças de experiências anteriores, as normas culturais, seus próprios conhecimentos e ignorâncias, os limites de sua percepção, suas reações afetivas, suas preferências pessoais e seus postulados silenciosos.
- O não-semanticista prefere se guiar por sua própria mitologia em vez dos fatos, interpreta tendenciosamente os fatos conforme lhe sejam favoráveis ou desfavoráveis, reage à palavra como sinal e forma sua opinião de uma vez por todas sem admitir revisão.
- A experiência do Dr. Johnson da Universidade de Iowa, na qual grupos favoráveis e contrários aos negros resumiram sucessivamente um mesmo texto, demonstrou que cada grupo tendeu a reter apenas os pontos que desejava ler, fazendo desaparecer os dados desfavoráveis à sua posição.
XIV
- Os princípios da Semântica Geral, embora pareçam fáceis de compreender intelectualmente, exigem ser postos em prática para transformar não apenas a forma de se exprimir, mas a forma de viver.
- Diferir a reação diante de símbolos permite dar tempo ao córtex de intervir na escolha da resposta, em vez de deixar o comportamento ser comandado diretamente pelo tálamo como se os símbolos fossem sinais.
- Distingue-se o medo primário, decorrente de uma situação vivida no instante presente, do medo secundário, que é o medo do próprio medo ou do sofrimento, sendo este último situado em um nível de abstração mais elevado.
- O homem é um “time-binder” cuja potencialidade deve se atualizar, e o objetivo do semanticista é tornar-se um “time-binder” tão eficaz quanto possível e ajudar os outros a se tornarem também, sem deformar suas capacidades de abstração.
- Toda forma de pensamento, atividade, costume, governo ou teoria é boa na medida em que favorece o desenvolvimento de “time-binders” eficazes, e má na medida em que não o favorece.
- A experiência pedagógica de Korzybski com a maçã, na qual se pede às crianças que digam “tudo” sobre o objeto até que fiquem exasperadas com essa palavra, e depois se corta a maçã para mostrar que ainda não haviam dito tudo sobre ela, forma nas crianças uma reação semântica importante quanto aos limites de toda descrição.
korzybski/1.txt · Last modified: by 127.0.0.1
