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kolakowski:1972:logica

4 Lógica

KOLAKOWSKI, Leszek. A Presença do mito. Brasília: Editora Universidade de Brasília, 1981. (original 1972)

  • A suposição talvez mais ofensiva seja a de que intuições míticas estão presentes e são irremovíveis em nossa compreensão das regras da lógica, exatamente onde a soberania da razão se experimenta com mais força, revelando exame mais atento a irradiação da consciência mítica sobre os imperativos de nosso trabalho mental.
  • Esquematicamente, podem-se registrar quatro interpretações principais do sentido a atribuir às asserções lógicas.
    • O psicologismo do século dezenove, criticado por Husserl e, em parte, já por Frege e Bolzano, recomendava tratar tais asserções como regularidades empíricas descobertas no comportamento mental humano, sendo, na versão extrema, a compulsão sentida diante das regras de inferência mero resultado de nexo causal hipotético, descrevendo as leis da razão certas conexões recorrentes entre fatos que ocorrem no sistema psíquico ou nervoso humano.
    • Husserl critica essa doutrina como ruína de todos os pressupostos em que se funda a cultura espiritual europeia, distorção completa do sentido que realmente atribuímos à nossa lógica, pois o psicologismo nos força à conclusão desagradável de que todo o nosso conhecimento seria regido por princípios que não vinculam o pensamento como tal, apenas descrevendo o funcionamento de nosso cérebro numa determinada área, sugerindo que um cérebro diferente pensaria segundo outra lógica, sendo a nossa contingente e relativa às qualidades genéticas de nossa constituição corporal, incapaz o relativismo psicológico de admitir que o pensamento científico seja algo além de reação fisiológica, cometendo o clássico erro do hysteron proteron, ao empregar as regras da lógica que consideram órgão de argumentação válida para negar-lhes justificação racional em princípio, apoiando-se nelas mesmas como racionalmente justificadas, enredando-se assim em círculo vicioso e infundado; há, porém, escapatória, exigindo abandonar os hábitos empíricos: as proposições da lógica não descrevem o funcionamento efetivo do cérebro nem implicam fatos psicológicos, sendo normas que constrangem incondicionalmente e precedem todo pensamento factual, dizendo respeito não a como pensamos, mas a como deveríamos pensar para pensar corretamente, sem referência ao tempo, permanecendo válidas independentemente de nossa existência, pertencendo a um mundo de vínculos ideais revelado à percepção radical de um pensador libertado dos preconceitos do empirismo biológico, contendo condições noéticas a priori de todo pensamento concreto, reconhecíveis imediatamente como inescapáveis uma vez compreendidas.
    • Podemos, alternativamente, seguindo o empirismo lógico, aceitar as restrições das regras lógicas como decorrentes do sentido que a própria linguagem impõe às palavras, sendo, por exemplo, a validade do modus ponens redutível ao fato de que negar a conclusão enquanto se aceita a premissa condicional e seu antecedente revelaria não compreender o sentido da expressão “se… então” na língua em questão, derivando, assim, a validade de uma regra dedutiva de circunstâncias linguísticas, do sentido das constantes lógicas fixado em determinada língua natural ou nas convenções de linguagens artificiais, pertencendo a gênese desses significados não à investigação epistemológica, mas à história ou psicologia da linguagem, pressupondo-se tacitamente que a origem das convenções linguísticas seja irrelevante para a valoração epistemológica dos juízos reconhecidos com base nelas.
    • A epistemologia genética de Piaget representa retorno parcial à interpretação psicológica, constituindo, na verdade, não epistemologia, mas psicologia do desenvolvimento da inteligência que transforma toda questão epistemológica em questão psicológica; existiriam, segundo essa doutrina, equivalentes comportamentais das operações lógicas que precedem sua articulação linguística geral no desenvolvimento humano, mas essenciais para que tal articulação ocorra depois, não postulando Piaget, ao contrário de teóricos psicologistas anteriores, construções lógicas inatas nem normas transcendentais de pensamento, surgindo a própria necessidade de prova, de justificar a própria posição, da necessidade de persuadir, portanto do contato social ao nível do discurso; formam-se gradualmente as normas de pensamento pela influência combinada das condições sociais, das operações práticas sobre objetos na primeira infância e da fala, que, embora não imponha os esquemas lógicos como condição suficiente, permite que passem à esfera da aplicabilidade plenamente consciente, progredindo a mente, na adaptação mútua entre esquemas cognitivos prontos e novas percepções, rumo a equilíbrio cuja expressão abstrata se estabelece, entre outras, como leis lógicas socialmente aceitas, exigindo o princípio da contradição, para tornar-se lei do pensamento, comunicação interpessoal em que se torna condição de solidariedade, ideia que repete a antiga tese de Łukasiewicz de que o princípio da contradição deveria ser tratado como norma moral; incapaz a criança, em fases iniciais, de compreender relação transitiva, capaz é, porém, na prática, de descobrir relações assimétricas e, com o tempo, apreender mentalmente o princípio geral que simultaneamente as descreve e regula, focando claramente o pensamento de Piaget, apesar de certas ambiguidades por ignorar a advertência kantiana e husserliana de distinguir investigações epistemológicas das genéticas, no relativismo genético: as regras da lógica não possuem validade anterior à sua constituição efetiva no pensamento, valendo o mesmo para proposições aritméticas e geométricas, não sendo verdade, grosso modo, que o homem tenha “por natureza” dois olhos, verdade descoberta ao adquirir o conceito de “dois”, nascendo a dualidade como propriedade presente no mundo junto com a presença do “dois” no pensamento, comportamento e fala humanos, nem a lógica nem a aritmética exigindo a experiência como instância de justificação, mas não dependendo seu vínculo com a experiência de mera causalidade ocasional, sendo a experiência que produz os instrumentos conceituais graças aos quais as regras lógicas se tornam verdade, ou seja, tornam-se tout court.
  • Confrontando essas quatro interpretações, notamos de imediato que a primeira e a quarta não respondem à questão epistemológica, apenas a invalidam, enquanto a terceira invalida a questão genética; em ambas as suas variantes, o psicologismo obriga-nos a abandonar qualquer suposição de normas anteriores ao funcionamento factual de nossa mente que o constranjam, não havendo ética a priori do pensamento, sendo sujeito e objeto, pensamento factual e sua regulação normativa, apreensíveis apenas em acoplamento mútuo dentro dos limites da experiência, cuja validade última é impossível questionar, sendo essa experiência autárquica e sem fundamento; o sentido das regras lógicas ou descreve regularidades factuais de nosso trabalho mental, ou, referindo-se às proposições enquanto tais, deve sua validade à necessidade prática de comunicação interpessoal e eficácia tecnológica, sendo a questão de por que a eficácia tecnológica exigiria uma lógica determinada e não arbitrária destituída de sentido empírico, decorrendo de hábitos metafísicos; não temos, consequentemente, direito de crer que a lógica pese como obrigação sobre nosso pensamento, sendo a réplica científica do mundo mero elo numa cadeia de trabalhos coletivos de gerações desejosas de se acomodarem nele, não tendo a valoração cognitiva outro horizonte de interesse legítimo além desse, designado por nossa necessidade de comunicação na adaptação coletiva mútua entre nós e as coisas.
  • Cancelando, no espírito do empirismo lógico, o valor da investigação genética na interpretação da lógica e limitando-nos à sua descrição máxima precisão como coleção de tautologias designadas pelos significados das constantes lógicas embutidas nas línguas naturais, convertemos as regras lógicas em normas destituídas de razões além do uso linguístico contingente, restando à pergunta “por quê?” apenas a resposta de que esse é o sentido que as línguas naturais atribuem ao sinal de negação, sem explicação ulterior além dessa informação factual, permanecendo em aberto se há, na natureza do pensamento, propriedade que obrigue todas as línguas naturais a construções das quais surja precisamente esta e sempre a mesma lógica, questão que transcende os limites da experiência possível.
  • Mas responder a essa questão determina finalmente o sentido de toda regra lógica, tornando-a, ao invalidá-la, fato linguístico apenas, “assim é a linguagem”, razão pela qual a explicação positivista, ao abandonar a questão genética, atribui às formas do pensamento o mesmo status factual da explicação psicológica confinada à questão genética, podendo até ser essa formulação mais suspeita ainda de contingência, por ter de recorrer, para sua validação, não às propriedades genéticas humanas, mas às línguas naturais, também contingentes, devendo surpreender sua congruência entre línguas distintas.
  • É por isso que, entre as quatro interpretações descritas, apenas a de Husserl tenta salvar a lógica como obrigação real que a mente descobre e é obrigada a obedecer, dependendo, porém, essa possibilidade de salvá-la de mito cujo caráter mítico ele mesmo recusa aceitar: o mito de uma consciência transcendental que, libertada de todos os preconceitos factuais, seria capaz de dominar as necessidades eidéticas do Ser, e portanto também de descobrir o eidos do pensamento em sua legislação irresistível anterior a todo pensamento factual.
  • O mito husserliano, construído como fortaleza contra o ceticismo destrutivo dos psicologistas e epistemólogos psicologizantes, historiadores e historicistas, repete o mito que Platão construiu contra os sofistas, talvez com maior autoconsciência de seu próprio caráter mítico: o reino das ideias foi visto como descoberta de um universo que possibilita a revelação de uma necessidade não factual contida em nosso pensamento factual sobre objetos matemáticos e valores; a consciência transcendental assumiu a mesma tarefa, funcionalmente idêntica embora ontologicamente interpretada de modo diverso do mito platônico, relativizando pensamento e valoração factuais às restrições imperativas contidas no eidos do pensamento, da justiça e da beleza, constituindo realidade não relativa que nos dá, como pensadores e valoradores, a medida não arbitrária de nossa orientação no mundo, satisfazendo a quem deseja certeza de pensar e julgar verdadeiramente.
  • Essa satisfação não é, porém, necessária para praticar a ciência ou raciocinar eficazmente, não exigindo a aplicação de regras científicas que conheçamos as razões de sua validade, mas exigindo o conhecimento dessas razões, ou a convicção de conhecê-las, que acreditemos que o resultado do trabalho científico não é apenas útil, mas também verdadeiro, havendo diferença entre uma explicação verdadeira do mundo e uma explicação eficazmente aplicável; a totalidade do conhecimento, como elemento de nossa cultura tecnológica, pode prescindir dessa distinção, mas não desejamos prescindir dela na medida em que carregamos necessidade de nos referirmos a uma realidade mítica, necessidade que só pode ser satisfeita pela presença do mito que fixa a jurisdição fundamental de nossa ciência numa jurisdição pré-histórica do pensamento como pensamento, fixando-a, portanto, em realidades anteriores à nossa existência empírica individual, psicológica, cultural e específica.
  • O mesmo se aplica à disputa sobre a validade da indução: a crítica humeana ao círculo vicioso contido nas tentativas de legitimar a indução por procedimentos indutivos permanece essencialmente sem resposta; argumenta-se que uma coisa é aplicar validamente as regras indutivas e outra demonstrar essa validade, podendo-se aplicá-las validamente sem círculo vicioso, mas isso equivale simplesmente a abandonar a validação, não sendo esta essencial como premissa para aplicar regras de procedimento indutivo, mas sendo necessária se quisermos crer que as operações indutivas não apenas conduzem a resultados eficazmente aplicáveis, mas também a resultados verdadeiros.
  • A verdade, portanto, enquanto valor distinto da aplicabilidade eficaz, é parte do mito que remete as realidades empíricas condicionadas a um universo incondicionado, parte da mitologia da Razão, que estabelece a descontinuidade entre razão e assimilação biológica do mundo, recusando-se a considerar a razão mero órgão corporal; sendo o cérebro parte do corpo e a razão parte do comportamento cerebral, não se pode salvar a valoração epistemológica, nem a verdade como qualidade distinta da aplicabilidade tecnológica, nem as regras da lógica como código descoberto pelo pensador na própria natureza do pensamento.
  • Precisamos do mito da Razão para crer que nossa lógica não é mero savoir vivre de comunidade cooperante no pensamento, nem propriedade física de nossa constituição corporal ou de nosso modo de falar; o mito da Razão não é verdadeiro nem falso, pois nenhum mito se submete à dicotomia entre verdade e falsidade, mas apenas graças a ele algo pode ser verdadeiro ou falso.
  • O mito da Razão jamais deixará de ser mito, só podendo ser forjado como elemento de conhecimento em cega ilusão, não podendo a validade dos meios de prova ser provada antes da aceitação da própria Razão, não podendo a crença na Razão ter seus fundamentos descobertos pela aplicação da Razão como tal, sendo tal crença opção mítica que jaz além do alcance da Razão, necessária para a autoconstituição da humanidade, como presença da Razão no universo desprovido de razão para a autoidentificação humana, para o autoconhecimento radical de ser algo mais que plasma dotado de sensibilidade mais variada; o objetivo do mito da Razão é neutralizar a aceitação desesperada, pela humanidade, de sua própria contingência, sendo possível não levantar a questão da própria contingência, como qualquer outra questão última, podendo-se usar a vida sem transpor a imediatidade; se, porém, a questão da contingência humana surge como buraco em nosso pensamento sobre nós mesmos, a resposta que nos força a aceitar essa contingência é desesperada, não dizendo a verdade quem aceita a contingência humana afirmando que tal aceitação não é desesperada; o mito da Razão nos purifica do desespero, sendo ratio contra a contingência, embora não possa ter, ele próprio, razões, tendo, contudo, atrás de si direito derivado com igual arbitrariedade de duas opções, a opção pelo mito e a opção contra ele.
  • A ciência é um ponto de vista: ao explicar as origens de sua própria legislação, sobretudo a lógica, e condená-la à contingência, usa-a de modo a tacitamente libertá-la dessa mesma contingência, atribuindo às decisões tomadas em seu nome sentido não apenas utilitário; pode a ciência ser praticada sem a opção contra o mito, mas sempre que tenta confirmar sua própria contingência tomando decisões autoestabelecedoras que reduzem seu sentido ao puramente utilitário, remete tacitamente, a cada vez, ao sentido não apenas utilitário de seus resultados, transcendendo-se, portanto, a si mesma cada vez que assim procede; ao buscar fundamento para sua própria autossuficiência, deixa de ser autossuficiente, não escapando, ao optar contra o mito em nome de suas próprias regras, ao círculo vicioso do naturalismo; a atribuição de sentido à totalidade do conhecimento não pode validamente ocorrer dentro da escravidão criada pelo próprio conhecimento, transcendendo também esses limites quando o sentido atribuído a essa totalidade rompe com o mito da Razão, não podendo, em particular, a compreensão utilitária da verdade apoiar-se em razões empíricas cujo sentido acaba de ser conferido por essa mesma compreensão, constituindo, portanto, opção valorativa contra outra opção enfeitiçada pelo mito da Razão; apenas em ilusão as soluções epistemológicas se acham restringidas pelo rigor da ciência, não podendo tal solução, sem petição de princípio, reconhecer esse rigor como obrigação existente cujo sentido já conhece.
  • É por isso que cientificismo e naturalismo não constituem julgamentos do conhecimento científico sobre o mito da Razão, mas opções arbitrárias contra outra opção igualmente arbitrária pelo mito, não contendo decisão da Razão que julga a fé, mas exprimindo ato de fé dirigido contra a fé na Razão; qualquer sentido que atribuamos à totalidade do conhecimento, seu nível lógico difere do nível de cada um de seus elementos e também de sua totalidade, contendo tacitamente cada elemento, isolado ou em conjunto, o cético “nada mais” em relação a seu próprio sentido, sendo, em seu conteúdo, neutro e indiferente a ele.
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