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SUPOSTAS PROVAS DA EXISTÊNCIA DE DEUS

(G. Gusdorf, Traité de Métaphysique, 1956, p. 386-387-388.)

Os sistemas metafísicos, de Descartes e Spinoza até Hegel e Hamelin, podem ser considerados como gigantescas provas da existência de Deus, já que cada verdade no desenvolvimento do sistema só adquire todo o seu sentido na perspectiva da totalidade, onde se insere sob a égide da Razão absoluta. Mas os filósofos apresentaram argumentos formais, na maioria das vezes retomados da teologia, que permitem, aos seus olhos, estabelecer com toda a certeza a existência de um ser divino garante de toda a realidade. Desde Aristóteles, a teodiceia formulou uma série de “provas”, retomadas de época em época e aperfeiçoadas contra eventuais críticas; as mais famosas dessas doutrinas são a prova pela necessidade de um primeiro motor, pela impossibilidade de uma regressão ao infinito da cadeia de causas, pelas causas finais, pela ideia de perfeição ou de infinito. A prova a priori, ou argumento ontológico, que permite deduzir a existência de Deus a partir da mera consideração de sua essência — cuja ideia original remonta a Santo Anselmo —, pareceu especialmente decisiva para Descartes; ela foi revisada e corrigida, após ele, por grandes pensadores como Leibniz e Hegel.

Uma primeira dúvida surge quanto à validade dessas provas, devido à própria multiplicidade delas. Se uma delas fosse válida por si só, teria se imposto de uma vez por todas, de modo que teria sido inútil buscar outras, ou reformular esta ou aquela das que haviam sido formuladas anteriormente. Uma vez demonstrado um teorema de geometria, a dúvida não se justifica mais: a demonstração é válida ou não é. Se for válida, ela impõe uma forma definitiva a um determinado domínio de inteligibilidade. Mas, para que isso seja possível, certas condições epistemológicas devem ser previamente satisfeitas; é aqui que o metafísico geralmente falha por insuficiência de crítica. Quando Brunschvicg ou Newman reivindicam para a teodiceia os meios e recursos da certeza científica, eles admitem que Deus se apresenta ao homem como uma realidade da mesma ordem que essa natureza material na qual definimos as grandes linhas da geologia ou da astronomia, para retomar os exemplos de Newman…

Querer provar Deus é pretender reduzi-lo a outras verdades que não ele, e que teriam autoridade em relação a ele; mas um deus assim reduzido ao direito comum não seria mais o verdadeiro Deus. Quando a razão fala de Deus, não se trata mais de Deus. «Deduzir Deus equivale a negá-lo » (E. Le Roy, Le problème de Dieu, Artisan du Livre, 1929, p. 83), afirmava com veemência Edouard Le Roy, a quem faz eco Gabriel Marcel, outro pensador católico, segundo o qual «a teodiceia é o ateísmo» (G. Marcel, Journal métaphysique, N.R.F., 1935, p. 65). O deus dos filósofos é apenas o filósofo que se crê ter se tornado deus.

O discurso filosófico sobre Deus está fadado ao fracasso. Em primeiro lugar, porque o método reflexivo procede por determinação e combinação de conceitos: ora, Deus não é um conceito. Nenhum conceito está à altura de Deus; a essência divina não poderia, sem contradição, deixar-se circunscrever nos limites das definições humanas. Toda ideia de Deus não pode ser senão uma ideia incompleta, bem inferior, nesse sentido, às ideias claras e distintas dos verdadeiros seres da razão, o círculo ou o triângulo, por exemplo. Só se pode caracterizar Deus afirmando-o como incaracterizável.

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