3.1 Razão e paixão
I. A unidade de razão e paixão
1. A primeira discussão do Ocidente sobre o poder emotivo da imagem: o “Elogio de Helena” de Górgias
1. A expressão poética revela a diferença essencial entre a linguagem pictórica e poética e a linguagem racional e lógica, pois os símbolos da arte, auditivos como na poesia e na música ou visuais como na pintura e na escultura, tocam e comovem diretamente a alma humana, processo do qual as expressões racionais não participam.
2. O dualismo entre ratio e pathos, ciência e arte, conhecimento e retórica parece intransponível, já que o saber resulta do processo racional concludente, compulsório para a razão mas não para as paixões, ao passo que as formas de expressão que comovem e agem sobre as paixões, como a arte e a retórica, nascem do poder dos sinais sensoriais alheios aos conteúdos racionais e constituem uma forma de expressão emotiva livremente suspensa.
3. Esse dualismo cristaliza-se na questão da relação entre conteúdo e forma da expressão, ou entre a imagem emocionalmente eficaz e a razão concludente, e tem como primeira consequência o abismo entre o ensino científico e o retórico e como segunda a transformação da retórica, doutrina de convencer e de inspirar fé, pistis, numa técnica de persuasão separada do conteúdo real do verdadeiro e do falso, donde seu caráter sofístico do ponto de vista racional.
4. A terceira consequência da dicotomia entre razão e pathos é a necessidade de um sistema educacional que torne a verdade e o método racional mais agradáveis e acessíveis, já que a razão não afeta os instintos e as paixões e a vida científica parece seca e árida, o que obriga a misturar o verdadeiro com o agradável e conduz à popularização da linguagem científica, necessária mas vista pela própria ciência com desprezo e suspeita como admissão da fraqueza de uma mente humana ainda incapaz de racionalização pura.
5. O problema pedagógico da ciência e de sua popularização assume hoje grande importância, por exemplo nos países socialistas, onde a um racionalismo rigoroso e à atribuição de caráter predominantemente esclarecedor ao conhecimento se junta a preocupação de tornar a ciência acessível a todos.
6. A quarta e mais importante consequência diz respeito ao papel atribuído à arte, à qual se confere a função de unir verdade e beleza, concepção que a reduz a fator puramente pedagógico e retórico, tira-lhe toda autonomia e lhe nega natureza científica, de modo que numa ideologia racionalista a arte só tem importância por sua função educativa potencial, como nas teorias socialistas sobre as funções educacionais e políticas da arte, de Marx e Engels até o realismo socialista.
7. Todas essas tentativas de superar o dualismo nascem da compreensão de que o homem não é um ser puramente racional e de que, apesar da prioridade dada à ratio, precisa fazer concessões às paixões, esforçando-se por vencer a lacuna entre logos e pathos.
8. O realismo socialista mostra quão facilmente uma arte sem conteúdo condutor se expõe à acusação de formalismo alheio à realidade e enganador, pois, embora atribua função emotiva à arte, exige que essa forma livre e espontaneamente eficaz se ancore num conteúdo real, o papel histórico do homem, já que, livre da seriedade da realidade, a arte esboçaria um mundo descompromissado e perigoso para a evolução humana.
9. Impõe-se examinar se é possível vencer o dualismo entre imagem e razão, pathos e logos, arte e ciência, questão que permanece aberta mesmo após a demonstração de que o processo racional se enraíza numa tensão originária e que só pode ser respondida por etapas, começando por mostrar como, na retórica, o poder emotivo das imagens captado pela linguagem pode ser mal utilizado ao ser dissociado de seu contexto original, possibilidade e perigo que determinam a situação humana.
10. O Elogio de Helena, de Górgias, contém a mais antiga discussão teórica detalhada do Ocidente sobre o poder emotivo das imagens na fala, e o problema da relação entre arte e razão, pathos e logos, deve ser cuidadosamente extraído da tradição clássica em que está inserido, pois a problemática do homem moderno só pode ser discutida proveitosamente dentro de sua tradição, cuja atualidade assim se atesta contra a exclusividade de uma erudição abstrata.
11. À primeira vista, o tema parece divergente e destinado mais a exibir a virtuosidade retórica de Górgias que a expor um conteúdo sério, e assim foi interpretado até agora, como defesa de Helena contrária a toda a tradição, um panegírico bem construído para isentá-la da culpa tradicional, iniciado pela enumeração geral de tudo o que é digno de louvor.
12. O digno de louvor é o kósmos, que pode designar ordem no plano político, militar, filosófico ou religioso, mas sempre ligado à harmonia e à perfeição natural, e que, sob influência de Pitágoras e Empédocles, se refere em Górgias ao encontro da palavra adequada que une o que deve ser unido, expressão do absolutamente objetivo, como mostra a primeira sentença do Elogio, segundo a qual o ornamento da cidade é a valentia, do corpo a beleza, da alma a sabedoria, da ação a habilidade e da fala a clareza, enumeração que revela a intenção de tratar um problema fundamental situado exclusivamente na esfera humana, e não no âmbito mítico, religioso ou natural.
13. Se o ornamento e a harmonia da fala estão em sua clareza, aletheia, o próprio Elogio deve possuí-la, e, se Górgias entende por aletheia a clareza lógica, ele identifica, contra a interpretação sofística tradicional, a verdade lógica com a perfeição da fala, devendo dar a seu panegírico uma estrutura exclusivamente racional.
14. Surge então o problema de que o elogio pertence tradicionalmente ao gênero retórico, embora o discurso tenha desde o início estrutura rigorosamente lógica, pois, após distinguir os tipos de kósmos e mostrar a necessidade de ressaltar apenas o louvável, conclui que Helena deve ser louvada e defendida contra as acusações tradicionais, cabendo perguntar se elogio e verdade, pathos e logos, são idênticos.
15. O discurso confronta uma longa tradição poética que proferiu sentença unânime contra Helena, sendo os poetas fundadores da crença, da pistis, pois para os gregos o objetivo se faz ouvir pela poesia por obra das Musas, e a imagem de Helena, ligada aos primórdios da história grega, mostra como a tradição poética era a base da consciência histórica, a ponto de seu nome, já em Homero e no Agamêmnon de Ésquilo, significar destruidora de navios, guerreiros e cidades, de modo que refutar os poetas implica disputar também com a fonte da consciência histórica e com a tradição mítica como lugar imaginário da origem dos nomes.
16. O Elogio tem, assim, significado fundamental em dois sentidos, por questionar pela fala toda uma tradição e por afirmar o predomínio da palavra, aparentemente da palavra racional, como marca da dignidade humana.
17. A estrutura racional do discurso manifesta-se em seu desenvolvimento, que trata da ascendência divina de Helena, filha de Leda e Zeus, de sua beleza e de seus nobres pretendentes, e examina os três motivos possíveis de sua conduta, a vontade dos deuses, a violência externa e a persuasão, buscando sempre a verdade e a prova de sua inocência, pois a vontade divina implicaria crítica aos deuses e a violência física a isentaria, merecendo ela compaixão e o criminoso ódio, o que sugere uma relação íntima entre aletheia e pathos, sendo a terceira causa, o poder persuasivo da palavra, a que recebe maior ênfase e exige atenção em sua relação com o elemento racional.
2. Helena como símbolo da condição humana
1. O discurso é um soberano poderoso que, com os meios mais diminutos e invisíveis, realiza as obras mais divinas, podendo eliminar o medo, remover a tristeza, inspirar alegria e intensificar a piedade.
2. Esse poder não pertence à fala racional, que contribui para a história humana pela descoberta de razões e ideias e pela revelação do oculto, mas ao mundo emotivo e figurativo, sem acesso ao qual permanece a razão, e é ilustrado sobretudo pela poesia e pelos encantamentos sagrados dos mistérios.
3. A poesia, especialmente a tragédia, provoca em quem a ouve um arrepio de terror, uma piedade chorosa e uma saudade melancólica, e a fortuna e o infortúnio de ações e pessoas alheias fazem a alma experimentar um estado estranho como se fosse seu.
4. Platão também acentua o poder sedutor da poesia, rica em sinais sensoriais, e por isso a rejeita, assim como a música e a pintura, chamando de sympáschein o perigo de transformar uma paixão alheia em própria.
5. Como o homem, ao contrário do animal, não está submetido a símbolos fixos e é livre em seus comportamentos, qualquer evocação de sinais sensíveis pode subjugá-lo e seduzi-lo, perigo que resulta dessa liberdade flutuante e do fato de já não ser compelido pelos sinais que originalmente lhe diziam respeito e o definiam.
6. Os encantamentos inspirados pelos deuses provocam alegria e afastam a tristeza, pois, quando seu efeito coincide com a imaginação da alma, eles a enfeitiçam, persuadem e transformam magicamente.
7. Os encantamentos, epodaí, são elocuções sagradas que conferem poder mágico à oração, pois no mundo do sagrado a palavra tinha primitivamente sentido mágico, idêntica ao mito que exprime e que é a realidade pura e simples, mundo em que os sinais têm significados originais e imediatos e o homem, fora da história e em contato direto com eles, não precisa interpretá-los, sendo palavra, sinal e realidade uma só coisa.
8. A união entre a palavra como sinal original e necessariamente atuante e a representação criada na alma revela que o poder mágico das imagens evocadas pela palavra nada tem de misterioso, sendo o poder indutivo, condutor e indicativo dos padrões típicos do mundo sagrado, mas, como Górgias já não crê nesse mundo, o impacto das palavras e sinais sagrados sobre as paixões lhe parece mera ilusão, sendo feitiço e encantamento artes gêmeas que dependem dos erros da alma e dos enganos da imaginação.
9. O tempo representa a estrutura original da fala emotiva, pois, se todos tivessem memória do passado, visão do presente e previsão do futuro, a retórica seria desnecessária, afirmação que oferece a primeira definição teórica das três formas de retórica, o discurso político voltado ao futuro, o jurídico voltado ao passado e o elogio dirigido aos valores presentes.
10. As experiências do passado, do presente e do futuro são inseparáveis, pois a visão do presente permite avaliar um passado pelo qual simultaneamente se abre um futuro, e não é fácil recordar o passado, avaliar o presente nem prever o futuro.
11. O poder da palavra manifesta-se também na meteorologia, cujas afirmações parecem paradoxais por contradizerem os fenômenos sensoriais imediatos e alterarem completamente o significado do que se mostra diretamente por meio de construções abstratas que remontam ao poder do logos.
12. Os artistas da retórica influenciam as decisões políticas na ágora e servem, assim, ao domínio das massas.
13. A linguagem filosófica exerce poder emotivo pela capacidade de alterar opiniões, pois o processo racional do logos parte de uma tese definida e, ao longo da argumentação, altera gradualmente a definição de um fenômeno até apresentá-lo sob nova luz, processo surpreendente que levava os interlocutores de Sócrates a chamá-lo de mágico.
14. A última parte do discurso confere ao argumento seu significado principal ao fazer de Helena símbolo da condição humana, introduzindo, além das três causas já examinadas, o argumento inesperado de que Eros pode ter determinado sua conduta, caso em que ela escaparia facilmente à acusação de culpa.
15. A consideração das paixões como causa possível de sedução é formalmente justificada e constitui o requisito da fala retórica, mas seu ponto decisivo está em que o mundo circundante apresenta qualidades típicas, alheias à escolha e à vontade, que afetam os sentidos por sinais inequívocos e definem a alma segundo tipos, de modo que a vida emotiva não se identifica com a vida subjetiva e individual, pois não é o indivíduo que ama, odeia, espera ou teme, mas são determinados sinais que desencadeiam diretamente nele paixões e comportamentos, desenrolando-se a vida no anonimato dos tipos, o que demonstra concretamente a existência do inconsciente, fundamento da retórica.
16. Quando guerreiros se armam contra o inimigo com bronze e ferro, a visão desse equipamento perturba o olhar e a alma a ponto de provocar fuga em pânico mesmo diante de um perigo muitas vezes inexistente, pois a percepção da verdade se dissipa no medo causado pela visão, que leva a desprezar o que as convenções consideram honroso e o bem que decorre do que é justo.
17. Trata-se do contraste entre o que é reconhecido e o que é sofrido pelo poder dos tipos, isto é, de uma brecha entre o que se aceita segundo as regras da razão e os efeitos evocados pelos objetos.
18. Como a ratio é impotente diante do pathos, a força instintiva dos sinais sensoriais persiste e o comportamento se realiza à margem das definições racionais, sem que se fale de instintos maus, mas apenas da dicotomia entre o reconhecimento e os sinais que agem sobre as paixões, cujo aspecto negativo só aparece em comparação com o que a razão mostra, quando o susto expulsa e extingue o pensamento e a vista grava no pensamento as imagens das coisas vistas, cabendo à razão compreender como, quando e diante de quem as paixões devem ser aplacadas ou provocadas, de modo que essa dicotomia torna possível o surgimento do problema ético.
19. Essas afirmações têm profundo significado filosófico e esboçam problemas que Platão formularia mais tarde, como mostra a referência à arte, cujas obras, estátuas e ídolos, são festa para os olhos que agem sobre as paixões e despertam desejo e amor, donde não surpreender que Helena tenha sido dominada pela beleza de seu sedutor, pois a arte, ao usar sinais sensoriais e afetar diretamente as paixões, pode simular uma variedade de mundos possíveis e iludir, e os efeitos emotivos se mostram imprevisíveis, repentinos e fortuitos, já que quem é dominado pelo amor é envolvido pelas redes do acaso e não por decisão consciente ou acordo.
20. Ao reconhecer a discrepância entre a compreensão racional e os efeitos dos padrões da vida sensível, Górgias descobriu a origem da capacidade ilusória das emoções e o conflito entre pathos e ratio que pode levar à doença e à loucura, e o conteúdo teórico essencial do discurso está tanto na primeira descoberta e discussão séria, no Ocidente, da razão do poder emotivo quanto na descoberta do abismo entre o que a razão revela e o que as imagens emotivas mostram, reconhecimentos que constituem a estrutura lógica da apologia de Helena, conduzem à compreensão da situação humana como tal e, pelo exame da tradição histórica grega ligada à sua figura, revelam a essência da historicidade humana submetida ao dualismo entre pathos e logos.
3. O problema do dualismo de “pathos” e “logos” e de forma e conteúdo
1. A arte retórica esboça a estrutura emotiva em cuja tensão as palavras, as questões e as ações discutidas adquirem significado passional e pela qual a audiência é literalmente absorvida na estrutura traçada pelo orador, e esse é o conteúdo essencial da defesa de Helena e sua alusão à condição humana.
2. A palavra emotiva, e toda palavra artística é emotiva, afeta por seu caráter imediato, pois, como a vida emocional se desenrola no âmbito de sinais diretamente indicativos, a palavra precisa evocá-los para liberar ou aplacar as paixões, e o homem, como ser passional e não exclusivamente racional, necessita dela.
3. Ao longo dos séculos surgiu constantemente, sob o aspecto da relação entre conteúdo e forma, a tese de que as imagens artísticas e a retórica devem ser apreciadas sobretudo por razões pedagógicas, como meios de suavizar a severidade e a aridez da linguagem racional e facilitar a absorção da verdade racional.
4. Daí resulta uma justificação específica da arte, segundo a qual, por usar imagens emocionalmente eficazes, ela pode assumir importante função educativa ao despertar paixões que tornam a verdade mais acessível, de modo que exprimir artisticamente a verdade significa dar-lhe forma mais aceitável, numa concepção pedagógica da arte.
5. Deixando de lado a relação entre forma e conteúdo da arte e seus aspectos educacionais, impõe-se discutir a questão básica da relação entre pathos e logos, entre sinais, padrões e ratio na fala humana.
6. Na tradição ocidental essa questão estava ligada à discussão sobre a relação entre forma e conteúdo da fala, isto é, entre retórica e filosofia, atribuindo-se à retórica uma função formal e à filosofia, concebida como episteme, o conteúdo verdadeiro e objetivo, questão decisiva porque, sendo a essência do homem determinada tanto pelo elemento lógico quanto pelo emocional, a fala só alcança o ser humano como totalidade de logos e pathos se atingir ambos.
7. O processo racional do saber consiste em fornecer razões e princípios pelos quais um fenômeno se define de determinada maneira, de modo que toda afirmação indemonstrável é considerada arracional e sem fundamento científico, e o ato de fé e de convicção, que não nasce de afirmação científica, como na retórica, aparece ao mundo científico como irracional e sem valor enquanto substituto da prova, cuja superioridade parece incontestável como defesa contra a arbitrariedade e o subjetivo, ficando a pistis reduzida à doxa e a inspiração de fé e convicção relegada à retórica, excluída do mundo racional.
8. No início do pensamento moderno Descartes baniu definitivamente da ciência a retórica, e com ela um elemento importante do ensino humanístico, sustentando que a única convicção verdadeira resulta da dedução ou demonstração racional e que quem tem compreensão mais aguda e ordena melhor seus pensamentos convence melhor, ainda que fale apenas baixo-bretão e jamais tenha estudado retórica.
9. Essa tese implica que a única pedagogia e o único método de ensino verdadeiros consistem na conclusão racional e na prova, fundando-se a pedagogia na explicação, que o testemunho perde todo significado e só o processo lógico vale como testemunho, sendo exteriores e meramente formais os problemas de construção não identificáveis com a estrutura da demonstração, pois o conteúdo racional determina a forma, que o saber é essencialmente não histórico, valendo sempre e em toda parte uma vez obtido, e que todo conhecimento é necessariamente anônimo, por não estarem os fundamentos da razão ligados a pessoas ou individualidades.
10. Existe, em suma, um conceito racional de objetividade científica caracterizado pelo anonimato, pela não historicidade e pela ausência de problema quanto à forma, desde que esta não coincida com o conteúdo racional.
11. Se na tradição humanística o elemento retórico tem grande significado mesmo na ciência, segue-se que a ciência, tal como concebida pelo racionalismo, é e deve ser anti-humanística, conclusão importante do ponto de vista histórico.
12. Argumentos puramente racionais não têm peso no âmbito emocional, pois ninguém consola nem toca corações com razões, o que explica por que discussões e discursos científicos raramente têm peso político, já que a verdade política se apoia em dois elementos inacessíveis ao processo puramente racional, o emotivo e a relação necessária com o aqui e agora, isto é, com a realidade histórica não dedutível racionalmente.
13. O racionalismo admite facilmente esses fatos sem ser abalado por eles, pois a realidade científica, por ser a-histórica, não se preocupa em alcançar o campo político, cujas realizações se dão pela convicção e são obra de homens que se servem não do método científico, mas do conhecimento da psique, das paixões e das situações concretas, atitude que criou a retórica com suas três formas históricas e situacionais, o discurso político sobre o futuro, o jurídico sobre o passado e o elogio sobre o que tem valor numa dada situação.
14. A retórica é necessária precisamente em razão da historicidade e das paixões humanas, pois as atitudes humanas ocorrem sempre aqui e agora, numa situação concreta.
15. Para vencer o dualismo e suas dificuldades, cabe averiguar se e como a Antiguidade clássica reconheceu a necessidade de estabelecer no discurso uma unidade de saber e paixão que não se alcance nem pelo disfarce emocional de um conteúdo racional nem pela inserção da racionalidade numa forma emocional, recorrendo ao Górgias e ao Fedro de Platão, tradicionalmente tidos como defesas do dualismo entre saber e retórica, cuja interpretação errônea, uma vez examinada, elucidará o problema.
4. A transponibilidade do dualismo entre “pathos” e “logos”: o Fedro de Platão
1. Segundo a interpretação tradicional, a posição de Platão contra a retórica é uma rejeição da doxa e do poder das imagens em que ela se apoia e, ao mesmo tempo, uma defesa do discurso científico, a episteme.
2. O argumento fundamental atribuído a Platão, de que só quem sabe pode falar corretamente, pois de nada serviria a bela fala nascida da opinião e do não saber, ignora dificuldades evidentes, já que essa rejeição pressuporia a exclusão de todo elemento emotivo do saber, quando Platão associa em diversos diálogos o processo filosófico a Eros, atribuindo papel decisivo ao elemento emocional na própria filosofia, o que obriga a explicar essas teses aparentemente contraditórias e a verificar até que ponto a filosofia não se esgota, para ele, na episteme e em seu processo racional.
3. No Górgias, a retórica reivindica poder realizar tudo pelo discurso, isto é, os bens humanos mais esplêndidos, como saúde, riqueza e beleza, mas, como o médico negaria que alguém possa ser curado apenas pela palavra sem conhecimentos especiais, Sócrates investiga que espécie de persuasão resulta da retórica, distingue crença verdadeira e falsa e mostra que, ao contrário da doxa, não há saber verdadeiro e falso, de modo que a episteme é superior e não admite opinião não apoiada no saber, sendo inadequada a arte do orador que desperta crença sem se basear no saber, pois aparência e ser só se distinguem pelo conhecimento.
4. A episteme e a techne fundam-se no conhecimento das razões, como produtos conscientes, e a retórica, que não convence por esse conhecimento, permanece no campo do pseudossaber, entre as ocupações que, em vez de cuidar do bem da alma, apenas agradam a seus desejos sem distinguir entre o melhor e o pior.
5. Esse julgamento radicalmente negativo, tido tradicionalmente como posição definitiva de Platão e baseado na tese de que a ciência é a única retórica válida, deixa sem solução o problema da relação entre paixão, instinto e processo racional, pois o saber, como processo racional, não pode comover o homem nem levá-lo à ação, como mostram as objeções de Górgias de que de nada vale o conhecimento do médico se o paciente não tem coragem de seguir suas prescrições e de que uma comunidade raramente escolhe o que o especialista recomenda, mas o que o orador hábil propõe, configurando-se a aporia aparentemente invencível entre um saber ineficaz e uma fala que é pura sedução.
6. O problema do pathos e da retórica em sua relação com a filosofia é o tema central do Fedro, cuja primeira parte trata de Eros e se abre com o discurso de Lísias, lido por Fedro, contra Eros, segundo o qual pessoas, valores sociais, lugares e tempos parecem transformados e irreconhecíveis a quem sucumbe a ele, que, ao despertar do êxtase, se arrepende de tudo, julga seus atos ininteligíveis e percebe amargamente o desperdício insensato de todos os bens.
7. O discurso subsequente de Sócrates, também contra Eros, dá forma mais precisa a esses argumentos, mas é subitamente interrompido pela vergonha de ter falado contra o deus e pelo temor de sua vingança, levando Sócrates a um segundo discurso, que é um panegírico a Eros.
8. A segunda parte do diálogo trata da essência e da estrutura da retórica, e a composição do Fedro suscita as perguntas sobre por que Platão se deteria tão longamente na essência da retórica apenas para negá-la e sobre qual a relação entre o problema de Eros, tema da primeira parte, e a retórica, tema da segunda.
9. A segunda parte abre-se solenemente com uma referência às Musas pelo mito das cigarras, quando Sócrates, deitado com Fedro à sombra dos plátanos às margens do Ilisso, observa que as cigarras que cantam e conversam acima de suas cabeças exigem que se fale com dignidade e não como servos, pois descendem de homens anteriores às Musas que, quando estas nasceram e cantaram, ficaram tão entusiasmados que esqueceram de se alimentar e morreram cantando, sendo transformados em cigarras que nascem sem precisar de alimento para apenas cantar e que, após a morte, relatam às Musas quem as honrou, anunciando a Calíope e Urânia, as mais velhas e que emitem os mais belos sons sobre o céu e sobre a fala humana e divina, quem vive filosoficamente e honra sua arte musical.
10. Surpreende que a retórica, tantas vezes rejeitada por Platão, seja introduzida com tal pompa, ainda que se possa objetar que Sócrates, ao confrontar um sofista, queira apoiar solenemente sua rejeição da fala retórica em favor da filosófica.
11. Essa introdução tão fundamentalmente construída pretende provavelmente mostrar como a arte do discurso, para tornar-se verdadeira retórica, deve transformar-se em fala filosófica, restando esclarecer o que Platão entende por fala filosófica em oposição à retórica.
12. Uma fala é geralmente tida como filosófica quando resulta do saber das razões e pertence ao campo racional da episteme, mas, como a fala racional parte de premissas não racionais e proíbe a intercalação de qualquer elemento ligado às Musas, não se compreenderia que Platão colocasse a filosofia sob o signo das Musas se identificasse a única arte de persuadir que reconhece com o saber racional.
13. O mito das cigarras permanece incompreensível enquanto não se esclarecer o que significa o estado dos homens antes do nascimento das Musas, por que eles se fascinaram por elas a ponto de esquecer o alimento e que relação há entre a filosofia e as Musas, o que exige examinar a essência e a hierarquia das Musas.
5. As Musas e sua obra: a criação do “cosmos” a partir do “caos”
1. O significado da palavra Musa permanece desconhecido, mas as tentativas antigas de derivação etimológica, como a de Platão no Crátilo, que a liga a moosthai, meditar, termo que envolve pesquisa, esforço e pressão, e as de Plutarco, que a deriva de homou ousai, o que existe simultaneamente, ressaltando sua unidade, e a aproxima de mneiai, as que lembram, apontam para elementos essenciais de seu âmbito, a meditação e a lembrança.
2. As Musas são filhas de Zeus e de Mnemósine, mencionada pela primeira vez por Hesíodo, e Homero fala ora de uma Musa, ora de várias, aparecendo seu número de nove somente a partir de Hesíodo.
3. Cada nome das Musas se relaciona a um âmbito específico, como Clio, a fama ou memória, Tália, a alegria de viver, a festa e o florescimento, Urânia, a celeste, e Érato, a amável, alusão a Eros, enquanto outros se referem às próprias atividades de dança e canto, como Melpômene, o canto, Terpsícore, a que ama a dança, Polímnia, a rica em hinos, e Calíope, a de bela voz.
4. No começo da Ilíada a Musa é invocada como deusa, atributo que, significando o absoluto, lhes convém, sendo Apolo o deus mais próximo delas, em cuja companhia aparecem em Homero e Hesíodo, ao passo que raramente se menciona sua relação com Dioniso, com quem partilham a faculdade de liberar o estado entusiástico da mania.
5. Os poetas chamam as Musas de cantoras e dizentes, como no início da Ilíada e da Odisseia, Homero as mostra cantando no banquete dos deuses e nas exéquias de Aquiles, somente em Hesíodo aparecem como dançarinas, e um hino perdido de Píndaro a Zeus, referido por Aristides, conta que os deuses pediram a Zeus que criasse divindades capazes de ornar com palavras e música as grandes obras da criação.
6. As diversas atividades das Musas reduzem-se ao princípio comum da ordem, cuja compreensão explica por que Platão as evoca no mito das cigarras, que condição humana precede seu nascimento e que entusiasmo ele provoca, pois a dança é ordem dos movimentos, o canto ordem dos sons e o verso ordem das palavras, sendo a ordem ponto de partida do ritmo, ordem do movimento, e da harmonia, união de sons agudos e graves, que, segundo Platão, são o que mais penetra e comove o interior da alma.
7. A ordem do movimento é particularmente significativa porque tudo o que é percebido pelos sentidos é devir, mudança ou deslocamento, e ordená-lo é submetê-lo a uma medida que o impede de transbordar para o ilimitado e o faz desenrolar-se dentro de limites e leis, o que explica o significado religioso originário dos números como medida que dá ordem, voltada ao que permanece igual nos fenômenos mutáveis, símbolo do ritmo sagrado que prende o devir que se dilui e revela ao homem o que sempre lhe diz respeito.
8. As Musas são divindades que trazem ordem para criar um cosmos, significado ocultado por sua redução a patronas das belas artes entendidas como criação pessoal do indivíduo, concepção oposta à Antiguidade clássica, como mostra o lamento de Platão nas Leis pela decadência da mousiké, unidade objetiva de canto, verso e dança, quando poetas talentosos mas ignorantes do que é devido às Musas e às leis, tomados de delírio báquico e de prazer excessivo, passaram a misturar hinos e lamentos, peãs e ditirambos, imitando a cítara com a flauta e confundindo tudo, como se na mousiké não houvesse justiça alguma.
9. As Musas representam a ligação com o objetivo, que possibilita a ordem original do mundo humano diante do arbitrário, do subjetivo, do relativo e do mutável, ligação que é a fonte do saber segundo a definição de episteme.
10. O recurso ao fundamento em que o saber se ancora é lembrança do originário, o que explica o vínculo entre Mnemósine e a glória, pela qual o homem se põe na presença do eternamente válido, pois as Musas glorificam por conhecerem o objetivo e imutável, criam um cosmos e desenham um mundo ordenado em que tudo aparece em seus limites segundo sua natureza, iluminam e suprimem o labirinto e conduzem a novas paisagens para além da relatividade dos tempos e lugares, como simboliza seu carro, no qual os antigos cantores subiam com a fórminx sonora para entoar cantos harmoniosos.
11. Todos esses elementos do mundo das Musas atuam em conjunto com o estado de mania, comoção e loucura que elas liberam, e a mania, como origem da poesia, é mal compreendida se identificada a mero entusiasmo psicológico, pois se trata de um evento fundamental em que algo não derivável e arcaico vem à tona, já que o absoluto só pode revelar-se tomando posse do homem, sendo a mania o traço específico do plano arcaico.
12. A inspiração e o entusiasmo maníaco não se ligam apenas à arte, pois o elemento musal tem significado mais amplo e originário, abrindo o espaço humano e vencendo o caos pelo movimento ordenado, pelo canto e pelo verso, e, por fazer aparecer a realidade absoluta, é necessariamente maníaco e imediato, como toda atividade não dedutível, de modo que o homem musal é sábio no sentido originário de possuir conhecimentos arcaicos e indemonstráveis, cuja vocação só se prova pela realização de sua obra como testemunho e exemplo da realidade absoluta e não por fundamentação racional, sendo castigado com a perda de seu dom quem, como o cantor Tâmiris, o usa para exprimir o subjetivo, e reconhecido como arauto das Musas apenas quem ordena pela mousiké o que o comove e abole o acaso e o caos dos fenômenos, pois o que os poetas ouvem dos deuses é inútil esforço dos mortais descobrir sozinhos.
13. A mania e o entusiasmo gerados pelas Musas tomam a alma sensível do iniciado com arrebatamento báquico, celebrando em cantos e outras criações os inúmeros feitos dos antepassados para a educação da posteridade, ao passo que quem chega às portas da poiesis sem a mania das Musas, crendo tornar-se poeta apenas pela techne, fica sem cumprimento, e a poesia do homem sensato é eclipsada pela poesia dos que deliram.
6. A origem musal do discurso filosófico e emotivo
1. A condição do homem antes do nascimento das Musas era o caos, que elas dominaram ao criar a ordem e fazer aflorar um cosmos, ancorando no arcaico o constante devir pela dança sagrada, que ordena o movimento no espaço, pela harmonia sacral, que relaciona a voz aguda e a grave, e pela poesia sagrada, que dá ritmo e gênese à língua, elementos que formam a unidade da mousiké e explicam por que os devotos das Musas tudo esqueciam em favor das atividades musais.
2. Sendo as Musas criadoras do mundo humano, também a arte oratória deve ser discutida sob esse aspecto, e Platão não poderia identificar a verdadeira oratória com a episteme, que por seu caráter racional exclui todo elemento musal, de modo que, na segunda parte do Fedro, a dianoia, processo racional enraizado no nous como conhecimento das ideias originais, aparece como requisito do discurso verdadeiro, ilustrado pelo exemplo de que não haveria arte oratória se quem persuade e quem é persuadido a comprar um cavalo para a guerra não soubessem distinguir um cavalo de um asno, nem se um orador ignorante do bem e do mal persuadisse um povo igualmente ignorante a praticar o mal como se fosse o bem, colhendo a oratória frutos ruins do que semeou.
3. Para falar bem sobre o governo, o orador deve possuir a dianoia, faculdade de distinguir com justificação entre bem e mal por meio do nous, isto é, da compreensão das archai, e o nous não se identifica com a episteme, mas é seu pressuposto, pois a episteme só prova e explica a partir da compreensão, noein, das razões originais, e somente com base nessa iluminação direta a ratio pode tirar suas conclusões científicas.
4. A fonte da verdadeira retórica não é a episteme, que por seu caráter racional não poderia influenciar a paixão, mas a compreensão noética e não racional que lhe serve de base.
5. Quem não fala a partir da compreensão noética apoia-se não em imagens originais, mas em imagens aparentes, emocionalmente eficazes apenas como sedução, razão pela qual, onde não reina a dianoia, as paixões só podem ser estimuladas e conduzidas por aparências e sombras de imagens, e quem não filosofa a fundo jamais falará com profundidade sobre coisa alguma, sendo necessário ao filósofo elevar-se até o noein.
6. A verdadeira retórica é psicagogia, que só alcança sua função cinética pelo domínio das imagens originais, eide, e que, ao dirigir originalmente as ações humanas, cumpre uma tarefa que o processo racional jamais poderia cumprir, não se limitando por isso aos tribunais e assembleias, mas abrangendo tudo o que se diz como única arte capaz de representar todas as coisas de modo análogo para qualquer pessoa, pois até a possibilidade de iludir requer conhecimento dianoético, já que somente pelo nous se distinguem ilusão e verdade.
7. Só quem compreendeu o desocultado conduz facilmente os ouvintes pelo discurso, e essa verdade não é a resultante da episteme, mas a imediata, própria do nous, que conhece diretamente e tem efeito emotivo, como provam as palavras finais de Sócrates, que atribui sua visão da verdadeira retórica não à episteme, mas à filosofia e à inspiração dos deuses locais e das servas das Musas, declarando não participar de nenhuma arte retórica, palavras que não podem ser lidas como fórmula literária sem encobrir a essência do pensamento platônico, segundo o qual há dois desocultamentos, o original, experimentado noeticamente por imagens imediatamente compreensivas e aberto às influências musais, e o derivado, nascido do processo racional da episteme, incapaz de comover alma alguma.
8. Se o noético é a origem de toda fala verdadeiramente emotiva, se sua aletheia não se identifica com a racionalidade da episteme e se pertence ao âmbito das indicações fundamentais, a tese sobre a arte retórica pode e deve ser formulada sob o signo das Musas, fonte divina de toda ordem humana, e assim se revela a conexão objetiva entre a primeira parte do Fedro, sobre Eros e a paixão, e a segunda, pois a palavra só pode ser ao mesmo tempo verdadeira e comovente se enraizada na compreensão dianoética e emotiva.
9. Distinguem-se três gêneros de fala, a fala exterior e retórica, que recorre a imagens por afetarem as paixões, mas que, não derivando da compreensão, permanecem objeto de opinião, constituindo o discurso emotivo falso, a fala que nasce do saber, verdadeira por seu caráter racional, demonstrativo e esclarecedor, mas sem efeito retórico porque argumentos puramente racionais não atingem as paixões, e a fala verdadeiramente retórica, não racional, que provém da compreensão e é comovente e indicativa por suas imagens originais, própria do sábio que conduz, guia e atrai, de modo que o dualismo entre pathos e conteúdo só se mostra invencível no âmbito da fala puramente racional.
10. A verdadeira fala retórica foi definida na época helenística, no tratado Do Sublime, como essência da linguagem sublime, que não persuade, mas arrebata os ouvintes, pois o que suscita admiração e abala é sempre mais forte do que o que persuade ou apenas agrada, já que se pode dominar as próprias convicções, mas não a força irresistível do sublime, que, irrompendo no momento oportuno, dispersa tudo como um relâmpago e mostra instantaneamente toda a força do orador.
