Adeus Kant!
FERRARIS, Maurizio. Goodbye Kant! Cosa resta oggi della Critica della ragion pura. Milano: RCS Libri, 2012.
- Introdução
- 1. A revolução de Kant
- Por que iniciar uma revolução
- Os racionalistas e a Biblioteca de Babel
- Os empiristas e Funes, o memorioso
- Refundar a metafísica pela inversão do ponto de vista
- 2. As teses fundamentais
- O esquema da obra
- A metafísica da experiência
- Cinco teses ontológicas
- Duas teses epistemológicas
- Onde encontrá-las
- 3. O que é herdado (Aprofundamento)
- Vinho novo em odres velhos
- A metafísica de Kant
- Os modelos da Crítica da Razão Pura
- A naturalização da física
- Consequências
- 4. O que há de novo (Aprofundamento)
- Kant e o ornitorrinco
- Fenômeno e númeno
- Dedução, esquematismo e imaginação
- Os cem táleres
- Juízos sintéticos a priori
- Os juízos sintéticos a priori são possíveis?
- Dogmas do empirismo e dogmas do transcendentalismo
- 5. A falácia transcendental (Aprofundamento)
- Uma semic atástrofe
- A carta roubada
- Um mundo dependente da mente
- Uma falácia evitável
- 6. Esquemas conceituais e fenômenos
- Óculos excessivamente poderosos
- A tese dos esquemas conceituais
- As intuições sem conceitos são cegas?
- Os conceitos sem intuições são vazios?
- A tese dos fenômenos
- 7. Espaço e tempo
- O que é a Estética Transcendental?
- Espaço
- Tempo
- O significado da matematização
- 8. Eu, substância e causa
- Eu: o mundo como representações
- Substância
- Causa
- 9. Aparato lógico (Aprofundamento)
- Um dispositivo complicado
- Primeiro dispositivo: juízos e categorias (dedução metafísica)
- Segundo dispositivo: dedução transcendental
- Dedução A: teoria do conhecimento
- Dedução B: psicologia transcendental
- Terceiro dispositivo: o esquematismo
- Como funciona um esquema: as indicações de Kant
- Como funciona um esquema: uma hipótese especulativa
- A linha do tempo
- Por que não funciona
- Poderia ter funcionado?
- Quarto dispositivo: princípios
- Posfácio sobre a ação recíproca
- 10. Dos fenômenos às chaves de fenda
- A dedução como naturalização
- A Crítica da Razão Prática
- A Crítica da Faculdade de Julgar
- 11. Balanço da revolução
De Königsberg a Kaliningrado
Entre as muitas cidades que mudaram de nome após a Segunda Guerra Mundial, está também Königsberg, onde Kant nasceu e viveu. Naquela época, ficava na Prússia; hoje é um enclave russo entre a Polônia e a Lituânia, e chama-se Kaliningrado. A mudança do alemão para o russo, após 1945, parece ser o inverso da mudança do russo para o alemão de Leningrado/São Petersburgo, após 1989. E sugere, por meio de uma viagem no tempo em vez de no espaço, quanta água já passou por baixo das pontes, tanto na história (o que parece óbvio) quanto na filosofia (o que, muitas vezes, é menos óbvio).
Inspirado no bicentenário da morte de Kant, este breve texto tem como objetivo expor sua revolução — a revolução copernicana — com a mesma ironia afetuosa reservada à revolução soviética em Goodbye Lenin! Também em Kant, assim como na RDA recriada no filme de Wolfgang Becker, encontramos pepinos em vinagre e velhos carros Trabant misturados com o ideal de um mundo mais sólido e menos injusto, e com a aspiração a uma fundação total do conhecimento e da moral.
O espírito é, portanto, totalmente diferente daquele que animou, há cento e cinquenta anos, o livro de Franz Příhonský (1788-1859), um discípulo do filósofo austríaco Bernhard Bolzano (1781-1848), intitulado programaticamente Novo Anti-Kant (que, aliás, como se entende já pelo título, nem sequer era o primeiro). O meu, em suma, não é um “Novíssimo Anti-Kant”. Não se trata de mutilar um monumento, mas sim, se possível, de tirar um pouco da ferrugem para devolvê-lo à atualidade. Acredito, de fato, que fazer um inventário dos Trabants e dos pepinos espalhados pela Crítica da Razão Pura constitui uma maneira não de dizer o que está vivo e o que está morto na revolução copernicana (quem se atreveria a uma pretensão tão grande?), mas de apresentar, sob outro ponto de vista — talvez mais cordial —, um clássico da filosofia que o tempo e o sucesso acabaram por embalsamar.
