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espinosa:1677:start

Tratado da reforma do intelecto

SPINOZA, Benedictus de. Tractatus de Intellectus Emendatione: Et de via, qua optime in veram rerum Cognitionem dirigitur. In: Opera Posthuma. Amsterdam: Jan Rieuwertsz, 1677.

Prefácio de Edwin Curley

1. O Tratado da emenda do intelecto, breve, difícil e fascinante discurso sobre o método publicado nas Opera posthuma em 1677, é por estilo e conteúdo uma das primeiras obras de Espinosa, cujo rascunho, se for a ele que se refere a “pequena obra inteira” da Carta 6, já existia no início de 1662 e provavelmente foi escrito antes disso.

2. Várias remissões nas notas indicam que Espinosa concebeu em algum momento o tratado como introdução a uma obra sistemática, talvez intitulada Filosofia, sobre teologia filosófica, filosofia da mente, epistemologia e ética, mais próxima do Breve tratado que da Ética, e embora Gebhardt o considerasse prolegômeno metodológico de um Breve tratado já existente e Mignini sustentasse sua anterioridade em data e em estágio de pensamento, a posição mais plausível é que, se não é anterior ao Breve tratado, foi escrito aproximadamente na mesma época e como introdução a ele.

3. Por sua importância para o estudo do desenvolvimento do pensamento de Espinosa, o Tratado do intelecto compara-se às Regulae de Descartes, pois ambas são obras precoces e inacabadas que revelam a direção do pensamento de seus autores num estágio formativo, discutem certos temas mais amplamente que qualquer obra posterior e devem ser lidas com a consciência de que suas linhas de pensamento podem não ter satisfeito plenamente seus autores.

4. No tratado, Espinosa talvez ainda não se tenha emancipado inteiramente de Descartes quanto à distinção entre vontade e intelecto, tende claramente a confundir mente e intelecto e expõe de modo pouco claro os quatro tipos de conhecimento, chegando-se mesmo a supor que a obra visasse apenas a uma exposição popular e imprecisa de seu pensamento.

5. A questão mais importante é se o próprio conceito de método ali apresentado não seria incoerente e fadado ao fracasso, já que a verdade dispensaria qualquer sinal e possuir uma ideia verdadeira bastaria para eliminar a dúvida, ao passo que o método deveria ensinar o que é uma ideia verdadeira e como distingui-la das demais percepções.

6. Apesar das reservas, a doutrina do tratado continuou a satisfazer Espinosa por vários anos, como mostram a carta a Bouwmeester de 1666, que retoma a tese de que o intelecto, ao contrário do corpo, não está sujeito a causas externas fortuitas e a necessidade de distinguir intelecto e imaginação, e a correspondência com Tschirnhaus de 1675, que o levara a esperar a publicação próxima do tratado sobre o método.

7. Diversas explicações foram propostas para a não publicação do tratado em vida de Espinosa, como a lentidão imposta pela importância e dificuldade do tema, segundo os editores das Opera posthuma, a falta de solução satisfatória para os problemas levantados no final e a prioridade dada às obras de filosofia moral e política, segundo Appuhn, ou a dificuldade do § 46, segundo Koyré, e ironicamente o comentário de Joachim também ficou inacabado por ele não ter resolvido como Espinosa pretendia concluir o tratado.

8. Se o caráter inacabado, problemático e póstumo da obra a aproxima das Regulae, o tom aparentemente autobiográfico das seções iniciais a aproxima do Discurso do método, embora com tom bem diverso, pois a insatisfação que conduz Descartes à filosofia refere-se à incerteza do saber recebido nos estudos, enquanto a de Espinosa refere-se à insuficiência dos fins que os homens comumente perseguem.

9. O caráter estritamente autobiográfico dessas passagens iniciais é duvidoso, pois o tema do verdadeiro bem e do desprezo do mundo é tão antigo quanto o próprio mundo, presente em estoicos como Marco Aurélio e Sêneca e no autor judeu medieval Shem Tov Falaquera, que também apresentava o conhecimento como caminho da salvação, mas permanece altamente significativo que Espinosa inicie um tratado sobre o método refletindo sobre o verdadeiro bem.

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