cumont:cumont-lux-perpetua-introduction
VIDA NA TUMBA NO MUNDO ROMANO
FCLP
- Proposição metodológica inicial: a antiguidade universal da crença na sobrevivência atestada pelos próprios ritos fúnebres, conforme observado por Cícero.
- Caráter estratificado e sincrético das doutrinas pagãs: coexistência de concepções de diferentes eras sem uma ortodoxia rígida.
- A população do Império Romano como amalgama de raças e níveis culturais, permitindo a convivência de crenças primitivas e filosofias refinadas.
- Tese central da seção: a crença mais antiga e difundida é a de que os mortos continuam a viver na própria tumba.
- Evidência arqueológica universal: tratamento do cadáver e do túmulo como uma habitação.
- Inumações: corpo vestido e adornado, acompanhado de armas, utensílios e alimento.
- Cremações: urna cinzária tratada como o corpo, frequentemente com forma de cabana, depositada com objetos similares.
- Conclusão: desde a pré-história, as tribos itálicas partilharam esta fé numa sobrevivência localizada na sepultura.
- Psicologia da crença primitiva: incapacidade de conceber a aniquilação total das faculdades de um ser que antes era vivo.
- Ideia de uma sensibilidade residual no cadáver: torpor análogo ao sono.
- Persistência desta intuição: exemplos do ritual egípcio de mumificação e da fórmula epigráfica romana S(it) t(ibi) t(erra) l(evis).
- Citação de Lucrécio atestando o temor popular de que o cadáver sofra (decomposição, predação), demonstrando a projeção da sensibilidade no corpo inerte.
- Consequência lógica da crença: o morto, na tumba, conserva necessidades e sentimentos da vida terrena.
- Gênese do culto funerário: conjunto de ritos destinados a assegurar um suporte suportável ao defunto em sua nova morada.
- Motivação dual do culto:
- Afeto e desejo de proteger os entes queridos.
- Medo predominante do ressentimento do morto negligênciado, que poderia voltar para perturbar os vivos.
- Ritos performáticos de luto como comunicação com o defunto.
- Lamentações familiares e profissionais (praeficae): demonstração de pesar para provar ao morto que não é esquecido ou desejado de fora.
- Práticas de autoflagelação (arrancar cabelos, arranhar faces) como expressão arcaica e violenta da dor, atenuada mas nunca totalmente erradicada.
- Persistência transcultural e multissecular destes costumes, do mundo antigo ao folclore europeu recente.
- Cerimônias preliminares: evidências esparsas em Roma de ritos pré-inumação.
- Costume arcaico (quase extinto) de depositar o moribundo no solo, para contato direto com a Terra-mãe.
- Vigília do corpo (custodia corporis) para sua proteção, mas sem o caráter de festa ruidosa (wake) atestado entre Celtas e Germânicos.
- A sepultura ritual como condição sine qua non para o repouso do morto.
- Convicção universal: a alma privada de ritos fúnebres adequados vaga eternamente como larva inquieta e perniciosa.
- Exemplos: almas dos náufragos condenadas a vagar sobre as ondas; cadáveres devorados por feras ou peixes, impedindo a sepultura.
- O ato de cobrir um cadáver abandonado com um pouco de terra era um dever de piedade humana e caridade.
- Institucionalização do imperativo fúnebre na sociedade romana.
- Legados e fundações para garantir a perpetuidade das cerimônias.
- Ameaças jurídicas e divinas nas inscrições contra violadores de túmulos.
- Criação de collegia funeraticia para assegurar enterros dignos aos membros.
- Ritual do funus imaginarium: cerimônia fúnebre com efígie, em caso de impossibilidade de recuperar o corpo, baseada na lógica simpatética do ritual.
- Transmissão e persistência da crença para além do paganismo.
- Judaísmo: associação entre repouso no túmulo e participação na ressurreição futura.
- Cristianismo primitivo: crença popular de que um corpo não sepultado ou disperso não ressuscitaria.
- Resistência da superstição aos esforços dos doutores da Igreja.
- Folclore grego moderno: morto sem ritos fúnebres transforma-se em vampiro.
- A tumba como domus aeterna: conceito material e arquitetônico da sobrevivência.
- Tradição artística de modelar a sepultura à imagem da habitação dos vivos:
- Urnas-cabana da Idade do Ferro itálica.
- Hipogeus etruscos com disposição e ornamentação doméstica.
- Estelas-casa célticas.
- Sarcófago de Simpelveld (séc. II d.C.): representação interior da falecida em seu leito, seu mobiliário e a fachada de sua vila.
- Terminologia epigráfica: difusão da fórmula casa eterna (domus aeterna), de origem oriental (egípcia/semítica).
- Inscrições que falam da coabitação familiar no túmulo, perpetuando a intimidade doméstica.
- Práticas contínuas de provisão aos mortos, derivadas da crença em suas necessidades.
- Refeições fúnebres (silicernium, cena novendialis) celebradas no túmulo.
- Oferecimento regular de alimentos e libações (ex.: festival dos Parentalia).
- Deposição de objetos de uso pessoal, vestes e jóias no sepulcro, apesar das críticas de filósofos e, posteriormente, de padres da Igreja.
- A crença na sensibilidade do morto justifica até a construção de infraestruturas (ex.: tubos para libações) no túmulo.
cumont/cumont-lux-perpetua-introduction.txt · Last modified: by 127.0.0.1
