Bouveresse
Jacques Bouveresse (1940-2021)
Christiane CHAUVIRÉ. UNIVERSALIS.
Jacques Bouveresse, nascido em 1940 num vilarejo dos altos planaltos do Doubs, é uma figura maior da filosofia francesa — autor de obra abundante, sobretudo consagrada a Wittgenstein, mas também a Frege, Russell, Carnap e aos escritores austríacos Karl Kraus e Robert Musil.
- Faz autoridade em matéria de modernidade vienense e de pensamento austríaco.
- Trabalhou para introduzir na França a filosofia da linguagem anglo-saxônica e a filosofia analítica.
- Suas obras ultrapassam o gênero do comentário ao encarnar literalmente uma maneira sóbria e rigorosa de filosofar, defendida em La Demande philosophique — sua lição inaugural no Collège de France.
- Meticuloso e cultivando o escrúpulo, tornou-se mestre na arte de conduzir um problema filosófico a um grau incomum de clareza e precisão.
Rigor crítico
Formado no seminário de Besançon, Bouveresse não se deixou seduzir, nos anos 1960, pelas correntes filosóficas dominantes em Paris — estruturalismo e psicanálise lacaniana —, nem, nos anos 1970, pelo pós-modernismo.
- Atacou muito cedo uma forma literária de filosofia que pratica a sedução pela retórica, opondo-lhe a clareza e o rigor da filosofia anglo-saxônica, e se fez campeão do racionalismo e dos valores do Iluminismo.
- Criticou o que denomina “a postura heroica em filosofia” — herança do romantismo alemão — e certas consequências do estatuto singular da filosofia na França: a pretensa onisciência do filósofo pronto a se pronunciar na mídia sobre toda questão de interesse geral, e o desprezo pelos problemas filosóficos específicos, sobretudo os técnicos.
- Pronunciou-se em favor de uma reprofissionalização da filosofia — declarando-se, a esse respeito, “muito pouco francês”.
- Reprovou a filosofia universitária francesa por se limitar a ensinar história da filosofia, enquanto a filosofia de vanguarda afundava no literarismo.
- Nem acadêmico nem vanguardista, esse franco-atirador se inscreve numa tradição francesa de filosofia das ciências ilustrada por Henri Poincaré, Pierre Duhem, Jules Vuillemin e Gilles Gaston Granger — dos quais se separa, porém, por sua verve de polemista.
Fazer escola sem ruído
Filósofo desiludido, Bouveresse fez, nem por isso, uma carreira brilhante — normalien, aprovado em primeiro lugar na agrégation de filosofia, nomeado professor na Sorbonne aos trinta e cinco anos, professor no Collège de France desde 1995.
- Pouco conhecido do grande público, esse trabalhador obstinado e solitário sempre atribuiu grande valor ao seu papel de pedagogo.
- Muito cedo se tornou figura de mestre — e hoje numerosos de seus alunos, tornados professores universitários, permanecem marcados por seu pensamento.
- Nunca buscou posições de poder, nem praticou o “star system”, nem quis ser uma grande consciência ou um intelectual no sentido sartriano do termo.
- É a ele que se pensa ao ler Valéry em Tel Quel: “O que é um 'intelectual'? Deveria ser um homem hábil em se situar razoavelmente em seu próprio pensamento, que o trata de suficiente altura, que não se crê facilmente, que é insensível aos grandes efeitos no espírito, pelo conhecimento que tem de suas causas, sobre quem a eloquência não tem presa. Não crer lhe é natural. Ou ao menos faz dever de nunca dar ao que ouve mais força do que essa palavra lhe traz e pode trazer consigo…”
