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Dialética em Platão

BORNHEIM, Gerd. Dialética. Teoria e prática. Porto Alegre: Editora Globo, 1983.

A DIALÉTICA EM PLATÃO

7. No Sofista, Platão recusa tanto a tese parmenídica do ser imóvel e vazio de inteligência quanto a tese inversa que confunde o ser com o movimento, pois ambas levariam ao absurdo ou ao mutismo, sendo necessário admitir que o ser é inteligível e se relaciona com o movimento e o repouso, estabelecendo uma comunicação ou participação entre o ser e o não-ser, o uno e o múltiplo.

8. A participação não pode ser absoluta, pois tudo se confundiria, nem pode ser nula, pois levaria ao imobilismo, mas deve ser regulada, como no alfabeto e na música, onde há regras para as relações, e Platão conclui que deve existir uma ciência das relações do todo do real, que é a dialética.

9. A dialética divide a realidade por gêneros, ensinando a não tomar uma forma por outra, e como em torno de cada forma há uma multiplicidade de ser e infinito não-ser, o ser não é uma unidade imóvel, mas está na relação, sendo o gênero supremo que permite toda participação, ao lado de outros quatro gêneros supremos: movimento, repouso, mesmo e outro.

10. Os gêneros dividem o real e estipulam os modos de participação, e o ser, sem se confundir com os outros gêneros, corre através deles, sendo milhares de vezes não-ser, e a missão da dialética é acompanhar esse correr que configura as articulações do real.

11. A dialética platônica, mesmo em perspectiva ontológica, oferece sugestões como o ser como terceiro termo, a prefiguração da contradição e da totalidade nos gêneros, e a inteligibilidade da dialética pelo ser, mas tais sugestões só devem ser aceitas em um contexto antiplatônico, pois a questão está na natureza das articulações do real, que Platão vincula apenas ao mundo das Idéias.

12. O erro do sofista, para Platão, é querer uma dialética das aparências, e a dialética platônica se restringe aos objetos do raciocínio, sem aplicação ao mundo sensível, e a tentativa de “complementar” Platão com uma dialética entre os dois mundos, como fez Brochard, é inócua e passa por cima do platonismo, pois o problema radical é se há uma dialética própria do mundo sensível como tal.

13. A dialética no Sofista tem caráter metafísico por se referir ao mundo transcendente das Idéias, e a segunda acepção da dialética, que instaura o acesso a esse mundo, baseia-se no conceito de participação conjugado com o de separação, que no Fédon surge com sentido positivo como o que deve ser almejado pelo filósofo para separar a alma do corpo e entregar-se às coisas do pensamento.

14. A separação em Platão pode ser entendida a partir dos conceitos de unidade e multiplicidade, e há três planos de separação: a separação ôntica, que caracteriza o mundo das sombras e é negativa; a separação ontológica, que é a multiplicidade das Idéias; e a separação metafísica, situada entre o mundo sensível e o mundo das Idéias, onde se encontra a segunda acepção da dialética.

15. Não há em Platão uma dialética no plano da separação ôntica, pois a dialética metafísica busca o abandono do sensível a favor da Idéia, e a tentativa de estabelecer uma dialética da finitude carece de significação, pois o sentido do platonismo decorre da dimensão metafísica da dialética.

16. O sentido metafísico da dialética determina o problema da unidade e multiplicidade, onde a multiplicidade é maior no mundo da separação ôntica, e a dialética busca a unidade, com a Idéia reunificando a pluralidade sensível e a dialética ontológica garantindo certa unidade no mundo das Idéias, com uma hierarquia que culmina na Idéia do Bem.

17. O problema da extensão do reino das Idéias nunca foi elucidado, e Platão relutou em admitir Idéias para coisas sem valor, pois seria absurdo duplicar o mundo sensível, sendo necessário que as Idéias configurem o reino da unidade, que encontra sua fundamentação objetiva na hierarquia e na Idéia do Bem, que ilumina todas as outras.

18. A dialética metafísica estabelece uma relação entre o mundo das Idéias e o mundo sensível, com uma dialética ascendente, onde a alma sobe à contemplação das Idéias, e uma dialética descendente, que se dá no conhecimento, onde a Idéia “desce” pela reminiscência, mas o tema permanece obscuro.

19. Heidegger interpreta a doutrina platônica da verdade como um processo de desocultamento, onde a Idéia, enquanto o não-oculto, é a luz que torna visível o ente, e a dialética, como olhar voltado para a Idéia, é a arte de guiar o olhar, sendo a suprema e mais alta ciência, que se distingue da doxa por não se ocupar do ente, mas do ser no ente.

20. A separação entre o mundo sensível e o mundo das Idéias é interpretada por Platão como uma doença que o amor busca sanar, e o eros na dialética, conforme o Fedro, busca uma unidade espiritual, e o bom dialeta é habitado por um “impulso divino”, pois a dialética não é apenas uma ciência lógica, mas um processo ascendente de conversão que exige força para manter o olhar no divino.

21. A dialética ontológica e a metafísica constituem um processo único destinado a salvar a alma, e o dialeta, embora não veja a Luz diretamente, alcança a visão do real iluminado pela suprema unidade, sendo superior aos prisioneiros da caverna, e a dialética é o caminho ascensional que liberta o homem da história e o ensina a reencontrar sua verdadeira morada, pois a finitude é negativa.

22. A dialética é a via para a filosofia, e a passagem da multiplicidade à unidade ideal é chamada de maravilhosa, manifestando-se quando se deixa de lado o plano das coisas perecíveis e se fixa o pensamento na unidade-homem, boi, belo, bem, e apenas no plano das Idéias faz sentido falar em unidade e multiplicidade.

23. As ideias de heterogeneidade do ser e natureza positiva do não-ser, dominantes no Sofista, são importantes para pensar uma dialética da finitude, mas em Platão permanecem alienadas pela dialética metafísica, e o Sofista, embora vá longe na compatibilização com a multiplicidade, continua integralmente metafísico, sendo a alienação a principal responsável pelo banimento da finitude.

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