3. A aposta fichteana: fé, realidade e o estatuto do aparecer
MML
Raízes filosóficas do erro de Fichte quanto ao estatuto do aparecer, reabertas pela retomada do Fichte inicial do período de Jena, frequentemente tomado como idealista subjetivo radical.
Dupla descrição possível da realidade, articulada como alternativa entre dogmatismo e idealismo, em que cada polo implica um modo de situar o sujeito no mundo e de compreender a liberdade.
Dogmatismo definido como materialismo determinista de matriz espinosista, segundo o qual o sujeito é parte da realidade submetida a leis necessárias, figurando como objeto entre objetos, e a liberdade aparece como ilusão sem consistência própria.
Idealismo definido como posição em que o sujeito é autônomo e livre, e, enquanto Eu absoluto, põe espontaneamente a realidade, de modo que o fundamento do mundo depende do ato do sujeito.
Impossibilidade de a razão teórica decidir entre as duas descrições, deslocando a escolha para uma decisão prática, onde a filosofia assumida depende do tipo de homem que se é.
Preferência apaixonada de Fichte pelo idealismo apresentada como dado inicial, mas imediatamente posta em questão pela análise subsequente.
Reinterpretação do idealismo em Fichte como exercício intelectual com função negativa, e não como doutrina positiva destinada a substituir o materialismo.
Idealismo entendido como exercício acessível a quem admite a autonomia da razão teórica, cuja função é destruir o dogma determinista vigente.
Rejeição do idealismo quando convertido em explicação teórica de realidade, pois, nessa forma, ele reproduz o mesmo impasse que pretende superar.
No determinismo, a vida humana se reduz a acontecimento natural no qual o Eu é o material sobre o qual a vida sucede como evento.
No idealismo tomado como teoria, a vida humana se reduz a sonho no qual o Eu se torna espectador desimplicado do espetáculo onírico que é a própria existência.
Igualdade de ambos como causas equivalentes de lamentação, já que em nenhum dos dois casos o humano se realiza como humano.
Exigência decisiva de não substituir uma filosofia teórica por outra, mas de sair da filosofia enquanto pretensão de compreensão teórica autônoma.
Subordinação da razão filosófica à razão prática, identificada com a vontade, e recusa da autonomia do intelecto como instância última.
Intelecto afirmado como não autônomo, pois seu funcionamento adequado exige inserção na totalidade do ser humano enquanto agente.
Compreensão e contemplação do real reconhecidas como atividades humanas, mas impossíveis a partir de um ponto de vista exterior ao mundo.
Ser humano situado no mundo, e não acima dele, de modo que a necessidade de compreensão emerge do agir no interior do mundo.
Fundamento do intelecto localizado na agência, na razão prática ou na vontade, como condição para que o entendimento não se torne delírio teórico.
Fundamento fornecido pela vontade mediante um ato de fé que transforma o espetáculo aparente da experiência em mundo objetivo de coisas e de outros.
Fé definida como ato livre e teoricamente injustificável do espírito pelo qual se instauram as condições dentro das quais se pode agir e usar o intelecto.
Transformação do aparecer em objetividade como operação prática, sem pretensão de prova teórica, mas como instauração do espaço de ação e de sentido.
Recusa da leitura segundo a qual a escolha seria entre determinismo para observadores e idealismo para agentes engajados, uma vez que o idealismo, tomado como teoria, conduz à passividade.
Idealismo teórico descrito como posição em que a realidade já estaria constituída pelo Eu, restando ao sujeito apenas observá-la como sonho, o que elimina a necessidade do engajamento.
Convergência de materialismo e idealismo em consequências que tornam a atividade prática impossível ou destituída de sentido.
Materialismo dissolvendo a liberdade em causalidade natural, esvaziando o espaço da intervenção.
Idealismo teórico dissolvendo a realidade em sonho observado, esvaziando a resistência e a urgência da ação.
Condição prática do engajamento exigindo autoaceitação do sujeito como ser no mundo, apanhado em situação e em interação com objetos reais que resistem e podem ser transformados.
Ser no mundo afirmado como situação concreta de confronto com resistências, sem as quais não há transformação nem intervenção.
Realidade objetiva tratada como pressuposto do agir, pois apenas onde há resistência há sentido para a atividade e para a modificação do estado de coisas.
Condição moral da liberdade exigindo aceitação da existência independente de outros sujeitos e de uma ordem espiritual superior, irredutível ao determinismo natural.
Existência de outros sujeitos assumida como necessária para o sujeito agir como sujeito moral livre, já que a liberdade não se realiza em isolamento solipsista.
Participação em uma ordem espiritual superior postulada como condição da liberdade moral, de modo que a moralidade não se reduz a efeitos de causas naturais.
Estatuto da realidade externa como não sendo objeto de conhecimento, mas questão de fé e necessidade prática, enquanto pressuposição indispensável do sujeito agente.
Existência da realidade externa compreendida como condição de possibilidade do sujeito intervir no real e interagir com ele.
Teoria substituída por pressuposição prática, pois o agente precisa do mundo como mundo para agir, e não como hipótese demonstrada.
Aproximação irônica entre Fichte e Nikolai Bukharin, apesar da oposição declarada entre idealismo e materialismo dialético, pela convergência no ponto da fé como ruptura do impasse teórico.
Tentativa de Bukharin de reunir experiência de vida em edifício filosófico coerente em manuscrito escrito em 1937, em prisão, aguardando execução.
Primeira batalha concebida como confronto entre afirmação materialista da realidade do mundo externo e intrigas do solipsismo.
Vitória dessa batalha descrita como libertação do cárcere úmido das fantasias e recuperação de uma respiração livre, seguida da exigência de extrair consequências.
Tensão entre forma e conteúdo no capítulo inicial, pois, embora o conteúdo negue tratar-se de escolha entre crenças, a estrutura se organiza como diálogo dramático.
Diálogo entre materialista saudável porém ingênuo e Mefistófeles como diabo do solipsismo, espírito astuto que se reveste de lógica de ferro e zomba.
Tentação mefistofélica formulada como passagem das sensações subjetivas à crença em realidade externa por um salto de fé, nomeado como salto vitale em oposição a salto mortale.
Sedução para interpretar a realidade externa independente como questão de fé e a matéria como dogma sagrado de uma teologia materialista.
Conclusão do capítulo como exorcismo irônico que tenta silenciar Mefistófeles, sem eliminar seu retorno recorrente, sugerindo persistência do impasse.
Paralelo explícito com Fichte no ponto em que a realidade externa surge como questão de fé, rompendo sofística teórica por um salto prático.
Superior consequência de Fichte em relação a Bukharin pelo reconhecimento de um elemento de credo quia absurdum no salto de fé, mantendo irreconciliável a discórdia entre conhecimento e engajamento ético-prático.
Discordância entre saber e engajamento apresentada como irredutível, impedindo a síntese total em uma visão de mundo completa.
Radicalização de Kant pela introdução de um terceiro espaço para a espontaneidade do Eu transcendental entre fenômeno e númeno.
Liberdade e espontaneidade recusadas como propriedade fenomenal, portanto não reduzíveis a aparência falsa que ocultaria necessidade noumenal inacessível.
Liberdade e espontaneidade recusadas também como simplesmente noumenais, preservando a ambiguidade do seu estatuto.
Argumento kantiano sobre a adaptação sábia das faculdades cognitivas à vocação prática, mostrando que acesso direto ao domínio noumenal destruiria a própria espontaneidade da liberdade transcendental.
Presença ininterrupta de Deus e eternidade diante dos olhos como cenário em que as ações conformes à lei seriam movidas por medo ou esperança, e não por dever.
Desaparecimento do valor moral das ações e, com isso, da dignidade da pessoa e do mundo aos olhos da suprema sabedoria.
Transformação da conduta humana em mecanismo semelhante a teatro de marionetes, com gesticulação correta e ausência de vida nas figuras.
Consequência explicitada como paradoxal e mais radical do que parece, pois a liberdade desapareceria tanto no nível fenomenal quanto no noumenal.
No nível fenomenal, submissão a nexos causais e redução a mero mecanismo natural.
No nível noumenal, repetição da redução a mero mecanismo, de modo que o acesso ao númeno não entrega autonomia, mas automatismo.
Persistência da liberdade apenas no espaço entre fenômeno e númeno, onde o horizonte permanece fenomenal e o domínio noumenal se mantém inacessível.
Formulação do impasse como limitação do conhecimento para abrir espaço à fé, preservando a condição prática da liberdade.
Desfecho fichteano como ceticismo cognitivo total e abandono da filosofia propriamente dita, com busca de sabedoria em fé quase religiosa, sem considerar isso um problema por privilegiar o prático.
Centralidade do prático como produção de um mundo adequado aos seres humanos e como produção de si mesmo como pessoa para toda a eternidade.
Troca da exigência de conhecimento por exigência de formação prática do mundo e do sujeito.
Limitação comum a Kant e Fichte na incapacidade de pensar positivamente o estatuto ontológico do sujeito autônomo e espontâneo que não é nem fenômeno nem númeno, articulada como reproche heideggeriano à metafísica tradicional.
Dasein indicado como nome do problema do estatuto ontológico irredutível a categorias tradicionais.
Solução hegeliana apresentada como transposição da limitação epistemológica em fato ontológico, onde o vazio do saber corresponde a vazio no ser e à incompletude ontológica da realidade.
Nova luz lançada sobre a liberdade hegeliana como necessidade concebida, exigindo inversão correlata em que a necessidade é concebida como liberdade concebida.
Tese central do idealismo transcendental kantiano retomada como ato espontâneo da apercepção transcendental que transforma fluxo confuso de sensações em realidade regulada por leis necessárias.
No campo moral, identificação da lei moral como ratio cognoscendi da liberdade transcendental, onde a necessidade da lei é o modo de conceber a liberdade.
Pressão insuportável da lei moral como via de acesso ao conhecimento da liberdade, pois obriga a agir contra impulsos patológicos.
Necessidade simbólica que regula a vida sustentada por ato livre abissal e contingente, nomeado como decisão que transforma confusão em ordem.
Ponto de capiton como nome do ponto de decisão que fixa o sentido e inaugura uma nova ordem, convertendo o indeterminado em necessidade.
Figura da liberdade anterior à teia da necessidade apresentada como abismo, nomeada como noite do mundo.
Coerência da radicalização fichteana de Kant como foco na contingência inquietante no coração da subjetividade, recusando a imagem de um Ego absoluto como origem de toda realidade.
Sujeito fichteano definido como finito, lançado e apanhado em situação social contingente que escapa permanentemente ao domínio.
Contingência interna à subjetividade como núcleo do movimento, em vez de soberania total do Eu.
Anstoß como impulso primordial que põe em movimento a autolimitação e autodeterminação graduais do sujeito inicialmente vazio, sendo mais do que estímulo mecânico externo.
Anstoß apontando para outro sujeito que, no abismo de sua liberdade, funciona como desafio e convocação que obriga a limitar e especificar a própria liberdade.
Passagem da liberdade abstrata egotista para liberdade concreta dentro de universo ético racional, mediada pela convocação intersubjetiva.
Hipótese de que a convocação intersubjetiva não é mero caso secundário, mas caso originário exemplar do próprio Anstoß.
Duplo sentido primário de Anstoß em alemão como obstáculo resistente e como ímpeto estimulante, recusando a redução a jogo autocentrado do Eu consigo mesmo.
Anstoß como resistência que freia a expansão ilimitada do esforço e, simultaneamente, como estímulo que incita a atividade.
Rejeição da leitura em que o Eu absoluto poria a si mesmo um obstáculo apenas para confirmar sua potência criadora ao superá-lo.
Distinção em relação ao esquema de ascetismo perverso que inventa tentações para comprovar força ao resistir.
Aproximação conceitual entre Anstoß e objet petit a, em contraste com Ding an sich, descrevendo o Anstoß como corpo estranho primordial que fende o sujeito e causa o desejo.
Corpo estranho não assimilável que se prende na garganta do sujeito como causa de divisão interna.
Divisão do sujeito em sujeito absoluto vazio e sujeito finito determinado limitado pelo não-Eu.
Correspondência sugerida entre Ding an sich e a Coisa freudiano-lacaniana, enquanto Anstoß se vincula ao pequeno objeto a como causa do desejo.
Anstoß como momento do choque e do encontro com o Real no interior da idealidade do Eu absoluto, sem o qual não há sujeito.
Colisão com elemento de facticidade e contingência irredutíveis como condição de constituição subjetiva.
Fórmula segundo a qual o Eu deve encontrar em si algo estrangeiro, localizando alteridade no interior do Eu.
Presença no Eu de um domínio de alteridade irredutível, contingência absoluta e incompreensibilidade como núcleo reconhecido.
Caráter sem porquê de todo Anstoß, estendendo a ausência de razão causal a esse ponto originário.
Ex-timidade do Anstoß como corpo estranho no núcleo do sujeito, recusando a exterioridade simples e afirmando a simultânea subjetividade e não produção pelo Eu.
Anstoß não vindo de fora como objeto dado, mas emergindo como estranho íntimo no próprio cerne subjetivo.
Paradoxo em que o Anstoß é dito puramente subjetivo e, ao mesmo tempo, não produzido pela atividade do Eu.
Risco de recaída em dogmatismo se o Anstoß for tomado como não-Eu objetivo, convertendo-se em resto sombrio do Ding an sich.
Risco de recaída em solipsismo se o Anstoß for tomado como simplesmente subjetivo, reduzindo-se a jogo vazio do sujeito consigo mesmo.
Constituição da realidade como processo desencadeado pelo Anstoß, em que o sujeito assume distância em relação ao Real informe e lhe confere estrutura de objetividade.
Situação inicial como Eu puro com corpo estranho não assimilável em seu coração.
Produção da realidade pela estruturação do Real do Anstoß em objetos, mediante distância e forma.
Paralelo entre Anstoß e esquema freudiano-lacaniano do Ur-Ich com o corpo estranho que perturba o narcisismo e inicia expulsão e estruturação progressivas.
Processo longo de expulsão e estruturação do obstáculo interno como gênese da realidade externa e objetiva tal como é vivida.
Distinção entre Ding an sich e objeto transcendental em Kant, e localização do anúncio do Anstoß na noção de resistência mínima à subjetividade finita.
Ding an sich recusado como equivalente ao objeto transcendental, que é descrito como vazio ou nada enquanto horizonte de objetividade.
Dawider como aquilo que se opõe e está contra o sujeito, configurando resistência formal mínima anterior a qualquer objeto determinado.
Dawider definido como horizonte de abertura à objetividade dentro do qual objetos particulares podem aparecer a um sujeito finito.
Separação entre abismo da Coisa e horizonte formal de resistência, evitando confundir inimaginável com estrutura mínima de oposição.
Cena de autoespancamento em Fight Club como pista para o motivo do duplo, em que a agressão do chefe é encenada sobre si mesmo como teatralização do poder.
Violência autoinfligida como substituto de violência externa, produzindo efeito diante de testemunhas institucionais.
Paralelo com Me, Myself and Irene como caso de autoespancamento ligado à divisão subjetiva, aqui em registro cômico porém doloroso.
Início do autoespancamento marcado pela autonomização da mão, que escapa ao controle do sujeito e se torna objeto parcial.
Mão como órgão sem corpo, sinalizando inscrição corporal de uma eficácia que não é simplesmente voluntária.
Duplo como entidade espectral cuja eficácia está inscrita no corpo, e não como exterioridade simples, sendo a autonomização do órgão a chave de sua potência.
Duplo descrito como Ideal-Eu espectral e alucinatório, cuja ação se registra na corporificação parcial do órgão autônomo.
Pulsão definida como insistência de órgão sem corpo, como lamella, figurando o que foi perdido para que o sujeito se subjetivasse no espaço simbólico da diferença sexual.
Diferença entre desejo e pulsão indicada pela insistência morta-viva que ignora a dialética do desejo.
Razão kantiana do caráter angustiante do duplo como encontro do sujeito com a Coisa que ele é noumenalmente, dramatizada na cena de Shattered.
Amnésia e reconstrução artificial do corpo como preparação narrativa para o choque identitário.
Encontro com o próprio rosto no cadáver oculto como horror máximo, onde o sujeito se encontra como objeto fora de si.
Verdade última da autoidentidade situada no encontro consigo mesmo como objeto.
Paródia romântica de Fichte em Titan, desenvolvendo a ideia de que o não-Eu é o duplo do Eu, isto é, parte ativa do Eu sob a forma de sua passividade, e não oposição real.
Leitura do Eu é Eu como juízo infinito cuja verdade é coincidência de opostos, formulada como Eu é não-Eu.
Inscrição de Fichte na esteira da revolução kantiana pelo deslocamento do duplo do registro cômico ao registro horrível.
Mudança histórica do motivo literário do duplo, do cômico ao terror, como índice da emergência do sujeito kantiano como apercepção transcendental vazia e sem substância.
Antes do fim do século XVIII, duplicação como motor de intrigas cômicas centradas em semelhança exterior e confusões sociais.
Após a virada correlata à revolução kantiana, duplicação como experiência de horror que abala o núcleo da identidade.
Duplo como aquilo em que o sujeito encontra a si mesmo como objeto, isto é, como contrapartida objetal impossível do vazio transcendental.
Duplo como corpo do que há em si mais do que si mesmo, articulando o motivo do inquietante como presença do pequeno objeto a no lugar do semelhante.
Inquietante não reduzido à mera semelhança, mas situado no fato de que o duplo dá corpo ao inacessível que o sujeito é e que lhe falta em sua experiência de si.
Objeto indevassável localizado no próprio cerne do eu vivido, figurando o que não pode ser integrado à autotransparência.
Metáfora da anestesia em Adorno e Horkheimer como figura do destino da razão baseada na repressão da natureza, e possibilidade de lê-la como fantasia do sujeito que se assiste como objeto.
Argumento de Flourens segundo o qual o anestésico operaria apenas sobre a rede neuronal da memória, preservando dor sentida e apagando lembrança posterior.
Vingança da natureza na dominação racional como situação em que o corpo sente plenamente a dor e a consciência não a lembra, tornando o sujeito vítima de si mesmo.
Possibilidade de ler essa cena como fantasia do sujeito que testemunha a si mesmo como objeto, padecendo sem apropriação subjetiva do padecimento.