ZAMBRANO, María. Dos fragmentos sobre el amor. 1982
O amor, ao prometer de modo indecifrável, desqualifica toda realização e atua como força destruidora que revela a inanidade das coisas, expondo o vazio e a nada tanto no objeto amado quanto na vida daquele que ama, arrastando o ser desde o não-ser para uma realidade que se mostra e se oculta.
A promessa do amor torna insuficiente qualquer conquista.
Revela o vazio inerente às coisas.
Descobre o não-ser e a nada.
A criação por amor remete ao surgimento a partir da nada.
O amado é elevado a uma realidade aspirada e ainda não realizada.
O amor realiza um movimento contínuo entre zonas antagônicas da realidade, penetrando nela para descobrir simultaneamente o ser e o não-ser, aspirando sempre além de qualquer projeto e dissolvendo toda consistência estabelecida.
Transita entre polos contraditórios.
Descobre os infernos da realidade.
Desfaz as estruturas consolidadas.
Ao destruir as falsas consistências, o amor dá origem à consciência, elevando o ímpeto vital à alma e, ao revelar a inanidade do que é fixado, expande a consciência por meio do desengano.
Conduz a avidez vital ao plano da alma.
Revela os limites da alma.
A consciência cresce após o desengano amoroso.
O chamado engano do amor não constitui erro contingente, mas necessidade de sua essência, pois ao revelar uma realidade que transcende o amante, instaura transcendência e mantém como verdade aquilo que foi amado, ainda que não plenamente realizado.
O engano permite ultrapassar limites.
O amado conserva sua verdade.
A verdade espera no futuro.
O amor, ao integrar a pessoa e conduzi-la à entrega, exige sacrifício e antecipa a morte como aprendizado, fundamento inclusive da maturidade para a morte em determinadas tradições filosóficas.
A pessoa é unificada pelo amor.
O sacrifício antecipa a morte.
A disposição para morrer nasce de um amor específico.
O amor, apresentado na modernidade como amor-paixão, manifesta-se em episódios que integram uma história mais ampla e oculta, atuando como fogo purificador e forma de conhecimento direto frequentemente encoberto sob expressões objetivas.
A paixão é estação necessária.
O amor atua como instrumento de consunção.
Produz conhecimento inexprimível.
Manifesta-se sob formas aparentemente frias.