Sagrado

WUNENBURGER, Jean-Jacques. Le sacré. Paris: Presses Universitaires de France (PUF), 1981. (Coleção “Que sais-je?”).

PRIMEIRA PARTE - PRÁTICAS DO SAGRADO

CAPÍTULO I - FENOMENOLOGIA DO SAGRADO

CAPÍTULO II - SIMBÓLICAS DO SAGRADO

CAPÍTULO III - ANTROPOLOGIA CULTURAL DO SAGRADO

SEGUNDA PARTE - TEORIAS DO SAGRADO

CAPÍTULO IV - A NATUREZA DO SAGRADO

CAPÍTULO V - AS CRÍTICAS DO SAGRADO

CAPÍTULO VI - AS METAMORFOSES DO SAGRADO

CONCLUSÃO


Introdução

1. A noção de sagrado parece inseparável da experiência e da instituição do religioso, isto é, das relações do ser humano com um plano de realidade suprassensível e invisível, o divino, mas sagrado e religião não se confundem, pois certas religiões dispensam a mediação do sagrado e este pode sobreviver ou reviver fora do religioso, embora seu surgimento, evolução, compreensão e avaliação permaneçam interligados, como mostra o percurso do sagrado, central nas explicações sociológicas do início do século XX, de Durkheim ao colégio de sociologia dos anos 1930, depois acompanhando o lento declínio cultural do cristianismo no Ocidente e recolocado em cena pelo recente retorno mundial do religioso no início do século XXI.

2. A modernidade europeia foi marcada por uma dessacralização da cultura tida por irreversível, manifestada no avanço do ateísmo, no declínio ou na privatização das práticas religiosas e no enfraquecimento das instituições religiosas, com a secularização e a laicização relegando o sagrado à esfera íntima ou a práticas residuais, ao passo que a nova religiosidade favorece tanto o ressurgimento espetacular de sacralidades tradicionais, como as concentrações de jovens em torno do papa ou as peregrinações a Meca, quanto uma floração anômica de símbolos e ritos ancestrais ou exóticos difundidos por modas, entretenimentos e mídias, de modo que o termo sagrado reúne sincreticamente fenômenos de religiosidade tradicional e de esoterismo, mistério, fantástico, magia e feitiçaria, situação típica da cultura dita pós-moderna.

3. Essas variações culturais levam a indagar se a sacralidade constitui uma estrutura permanente e transcultural do homem, sujeita apenas a deslocamentos e metamorfoses, ou uma construção social variável a ponto de poder ausentar-se, ser recalcada ou mediatizada em formas irreconhecíveis, dificuldade que exige aceitar a universalidade sugerida pelos isomorfismos da religião comparada sem endossar uma uniformidade tecida de falsas semelhanças e levar em conta as filiações culturais e históricas sem renunciar a uma antropologia geral do sacro e a um horizonte metafísico originário, pois compreender o fenômeno do sagrado em suas dimensões individuais e coletivas, experiências e instituições, deve permitir remontar à fonte do religioso e da cultura por ele inspirada e compreender as metamorfoses mais surpreendentes da época, com seu cruzamento de imaginários e racionalidades, de desmistificação e reencantamento do mundo.