Girard e Heidegger

GIRARD, René; VATTIMO, Gianni; ANTONELLO, Pierpaolo. Christianisme et modernité: entretiens menés par Pierpaolo Antonello ; traduction par Renaud Temperini. Paris: Flammarion, 2009.

G. Vattimo, essai publié pour la première fois in B. Dieckmann (dir.), Dos Opfer – aktuelle Kontroversen. Religions-politischer Diskurs im Kontext der mimetischen Théorie, Münster, LIT Verlag, 1999.

Girard e Heidegger: kénosis e fim da metafísica

1. Completar Heidegger e torná-lo plenamente claro exige lê-lo não sob uma luz filosófica, mas à luz de uma etnologia capaz de identificar o mecanismo da vítima expiatória e de reconhecer na polivalência do sagrado a matriz originária do pensamento humano, e por isso a obra de Girard se oferece como chave para esclarecer o sentido da filosofia heideggeriana e para restabelecer a comunicação entre certos aspectos do pensamento pós-metafísico contemporâneo e a tradição judaico-cristã, ainda que ao preço de possíveis deformações das intenções originais girardianas.

2. Embora Heidegger, ao reconstruir a história da onto-teologia europeia, ignore por completo a Bíblia e permaneça alheio à lógica vitimária, constituindo exemplo emblemático da “expulsão” moderna das Escrituras judaico-cristãs, ele participa involuntariamente da imensa obra da revelação, porque a modernidade, ao dissolver os mecanismos vitimários tradicionais de recomposição da rivalidade mimética e ao desenvolver meios técnicos de destruição em massa, torna a violência da cultura humana totalmente manifesta, ilimitada e por isso mesmo ineficaz, colocando a civilização diante da alternativa radical entre a autodestruição da humanidade e a plena realização da caridade pregada por Jesus.

3. A relação entre Heidegger e a história da Revelação é mais específica do que Girard supõe, pois Heidegger não é mero elemento sintomático e inconsciente da cena descrita por Girard, mas oferece ele próprio uma descrição muito próxima dela, de modo que sua filosofia pode ser interpretada como revelação ativa do mesmo mecanismo vitimário descoberto nas Escrituras e, portanto, como uma transcrição filosófica, mais ou menos consciente, da revelação judaico-cristã.

4. A visão apocalíptica da modernidade em Girard e o acabamento da metafísica no último Heidegger convergem ao identificar como elemento revelador da época atual a explosão de violência decorrente de a vontade de potência, ou a rivalidade mimética, ter-se tornado explícita e sem limites, e essa analogia se sustenta porque a recusa heideggeriana da metafísica, já desde Ser e Tempo, não é motivada por uma razão teorética, mas pela violência com que a metafísica reduz o Ser, e sobretudo a existência humana, a uma objetividade quantificável e a um mecanismo racionalizado.

5. O vínculo profundo da filosofia de Heidegger com as Escrituras se manifesta sobretudo no conceito de Ser como Ereignis, nascido também das meditações sobre a graça, a liberdade e a predestinação que acompanharam a leitura do Novo Testamento e de Lutero na época da redação de Ser e Tempo, de modo que a superação da metafísica como Verwindung poderia reabrir a via da experiência religiosa ao eliminar os obstáculos metafísicos que impedem a razão moderna de escutar seriamente as Escrituras, e o fato de essa direção não ter sido seguida, assim como a adesão ao nazismo, deve ser compreendido como efeito de uma autoincompreensão filosófica ligada ao afastamento das origens católicas e ao mito de uma relação direta entre a Alemanha moderna e a Grécia antiga.

6. O conceito de Ser como evento é apenas o ponto de partida do estreito parentesco entre Heidegger e a Bíblia, cujo aprofundamento exige permanecer fiel ao propósito fundamental de sua filosofia mesmo contra o próprio Heidegger, paradoxo apenas aparente, pois, segundo a teoria de Luigi Pareyson sobre a distinção entre forma formada e forma formante, toda obra deve ser avaliada e interpretada segundo uma regra que ela mesma instaura, inclusive quando não se torna o que “queria” ser, princípio aplicável tanto à experiência estética quanto à interpretação filosófica e a todo ato interpretativo.

7. A forma formante da crítica heideggeriana da metafísica, como tentativa de pensar o Ser não mais como fundamento último, objetividade e estabilidade, legitima uma interpretação “de esquerda” de Heidegger, na qual a diferença ontológica só é levada a sério quando se recusa a ideia de um Ser objetivamente dado em algum lugar para além de todos os nomes, à maneira do Deus da teologia negativa, de modo que o evento do Ser deve ser pensado como subtração, enfraquecimento, afastamento e longo adeus, conforme o deixar ir o Ser como fundamento do ente e a rememoração (An-denken) que não pretende re-presentá-lo, imagem talvez reminiscente do Deus que Moisés só vê de costas, afastando-se.

8. A fraqueza que caracteriza o evento do Ser, que só ocorre nas aberturas epocais da história ou do destino como diferença ontológica e ruptura das pretensões de definitude, estabilidade e finalidade, faz do Ser o próprio princípio do enfraquecimento, e daí se segue que os aspectos dissolutivos da modernidade, como a dissolução das instituições políticas autoritárias, da consciência subjetiva como fundamento último e de todo conceito de realidade diante da multiplicação das interpretações, não são simples preparação negativa da revelação, mas participam positivamente da história da salvação na medida em que já não permitem crer no mecanismo vitimário.

9. O enfraquecimento do Ser, único modo de manifestar-se para além do esquecimento metafísico, é análogo à dissolução da violência do sagrado revelada pelas Escrituras judaico-cristãs segundo Girard, razão pela qual a noção de kénosis é a mais apta a aproximar esses dois pensamentos aparentemente tão diversos, já que para ambos o sentido emancipatório e salvífico da história está ligado ao fim da violência própria da religião natural ou do esquecimento metafísico do Ser.

10. A leitura de Heidegger através de Girard implica também uma reinterpretação de Girard, cujo ponto crucial reside no fato de ele buscar não uma história do Ser, mas uma antropologia “científica”, como atesta o terceiro livro de Coisas ocultas desde a fundação do mundo dedicado à psicologia interindividual, de modo que o poder redentor de Jesus parece reduzir-se ao desmascaramento da essência violenta do sagrado natural, com o risco de converter a redenção em mero problema de conhecimento e de negligenciar os conceitos de perdão e salvação intimamente ligados à encarnação.

11. A revelação do vínculo entre o sagrado e a violência ocorre simultaneamente à encarnação de Cristo como kénosis e somente através dela, o que significa que a salvação não é primordialmente uma escolha consciente entre rivalidade mimética e caridade, mas o anúncio de um processo histórico infinito de educação pelo qual Deus chama, agora e sempre, a dessacralizar a violência e a dissolver a pretensão peremptória da objetividade metafísica, processo que não se encerra na alternativa apocalíptica nem no episódio de Emaús, mas prossegue com a vinda do Espírito Santo, que inaugura a reinterpretação das Escrituras pela comunidade viva da Igreja.

12. Impõe-se reconsiderar a possibilidade de uma aproximação, e não apenas de um confronto polêmico, entre a descoberta decisiva do mecanismo vitimário e o fim da metafísica que Heidegger procurou preparar, de modo que este esboço, necessariamente inacabado, valha como convite dirigido ao próprio Girard ou ao menos a alguns de seus leitores.