Cristianismo e modernidade

GIRARD, René; VATTIMO, Gianni; ANTONELLO, Pierpaolo. Christianisme et modernité: entretiens menés par Pierpaolo Antonello ; traduction par Renaud Temperini. Paris: Flammarion, 2009.

ANTONELLO: A modernidade construída e compreendida pelo Ocidente europeu é, em substância, uma invenção do cristianismo, de modo que a secularização do mundo e o próprio ateísmo em sentido moderno resultam de uma religião, e tomar a laicidade como oposta ao cristianismo constitui um erro histórico e filosófico cujo aparente paradoxo exige explicação.

GIRARD: O cristianismo representa uma ruptura na história cultural e religiosa da humanidade porque, ao narrar a cena sacrificial do ponto de vista da vítima inocente, desmonta o mecanismo de desconhecimento (méconnaissance) sobre o qual se fundavam as religiões arcaicas e inaugura uma fase da história que se pode legitimamente chamar de moderna.

ANTONELLO: As premissas girardianas, sobretudo as de “Coisas ocultas desde a fundação do mundo”, podem ser declinadas filosoficamente em diálogo com Heidegger sobre o fim da metafísica e a dissolução do Ser, de modo que, pela encarnação, pela morte do Cristo e pela revelação do mecanismo vitimário, o próprio Deus se enfraquece e abre ao homem um espaço de emancipação capaz de torná-lo ateu e laico.

VATTIMO: A leitura de Girard permite compreender a essência histórica, progressiva e de acontecimento (événementielle) do cristianismo e da modernidade, entendendo a secularização como realização efetiva do cristianismo enquanto religião não sacrificial, o que levanta a questão de saber se essa revelação não deveria chegar a eliminar o próprio aparato eclesiástico e tudo o que nele permanece de religião natural.

ANTONELLO: Diante dessa objeção, impõe-se esclarecer a relação entre o cristianismo histórico e o sagrado que o cristianismo evangélico se esforça por superar.

GIRARD: O cristianismo histórico conservou elementos de religião arcaica porque precisou penetrar num mundo perigoso, marcado pela territorialidade, pela vingança e por mecanismos unânimes de tipo tribal, levando milênios para desestruturá-lo, e a dessacralização que ele produz, ao privar a humanidade dos meios sacrificiais de conter a violência, aumenta a liberdade de ação humana sem aumentar na mesma medida o senso de responsabilidade, o que traz consigo o risco de uma violência apocalíptica.

VATTIMO: Seguindo a própria trilha girardiana, é possível desconstruir até o conceito de natureza humana entendida como limitadora, pois o cristianismo não descreve a verdadeira natureza do homem, mas a transforma e redime, de modo que a finalidade da história consiste em suprimir cada vez mais os limites e permitir dizer “graças a Deus sou ateu”, isto é, não idólatra e livre da crença em leis naturais intransponíveis.

ANTONELLO: Mesmo sem o sistema de tabus e proibições próprio do sagrado e das sociedades pré-tecnológicas, as sociedades humanas parecem precisar de estruturas normativas compartilhadas de comportamento, o que leva a indagar qual papel cabe ao cristianismo na construção dessa ética coletiva.

VATTIMO: A tese girardiana deve ser aproximada da ideia de uma consumação (consumation) do cristianismo, com cada vez menos ídolos e cada vez mais ateísmo, sem provas naturais de Deus, restando apenas a caridade e a ética, entendida como caridade acrescida das regras de trânsito, respeitadas por amor ao próximo e não por supostas leis naturais.

GIRARD: A conversão de Vattimo foi um acontecimento importante nos meios intelectuais europeus, pois ele provém da corrente que passou de Heidegger ao estruturalismo e ao desconstrucionismo, marcada por um otimismo extremo e pela palavra-chave “jogo”, mas seu pensamento ainda conserva demasiado dessa atmosfera lúdica num momento em que a tragédia reaparece em todos os domínios.

VATTIMO: Os males que ameaçam o mundo devem ser lidos não como sinal da natureza humana, mas como resultado da malícia de alguns, da luta de classes e do autoritarismo, de modo que o retorno da tragédia talvez se deva menos aos jogadores do que ao peso de uma tradição metafísica e autoritária, o que favorece a passagem da veritas à caritas e a ideia de que a finalidade da vida é estética e não ética.

ANTONELLO: No processo de dissolução das verdades ontológicas, cabe definir a atitude diante de uma tradição histórica da qual sempre se bebe e que se caracteriza pela crença nessas verdades, bem como as premissas teológicas ou morais compartilhadas sobre as quais se pode construir um diálogo inter-religioso, dado que outras tradições dificilmente aceitariam o niilismo filosófico ocidental e sua versão materialista e secularizada.

VATTIMO: O diálogo ecumênico e inter-religioso é obstruído sobretudo por burocracias eclesiásticas apegadas a seus privilégios, e o projeto cristão consiste em separar-se dos aparatos políticos, renunciar às certezas absolutas responsáveis pela tragédia atual e buscar uma união efetiva no amor, mantendo porém a fidelidade à tradição dos santos como tocha a ser transmitida.

GIRARD: A recusa de todo limite equivale a uma recusa da ética, clichê da modernidade que remonta ao século XVIII e hoje está esgotado até no plano estético, e diante de ameaças inéditas como o terrorismo suicida impõe-se uma reflexão de fundo, enquanto a verdade cristã consiste na revelação, pela Paixão, do mecanismo vitimário oculto em todos os mitos, destinada a tornar-se conhecimento comum (common knowledge) numa revolução cultural maior que o Renascimento.

VATTIMO: O otimismo girardiano reconhece na modernidade um germe cristão que o cristianismo oficial recusou, mas a difusão de uma consciência geral do mecanismo vitimário importa menos do que a redescoberta, pelas culturas de origem cristã, do núcleo do cristianismo como ato de amor e não como revelação de uma verdade sobre a natureza humana, sendo a violência originária entendida como autoritarismo e coerção exercida sobre a liberdade do outro.

GIRARD: O cristianismo é revelação do amor, mas também da verdade, pois nele verdade e amor coincidem na reabilitação da vítima falsamente acusada, e essa verdade antropológica pode finalmente dar à teologia cristã, correta em si mesma, a antropologia que ela merece, em lugar da antropologia grega e pagã sobre a qual tradicionalmente se apoiou e que não enxerga a responsabilidade do homem enquanto ser violento.