GIRARD, René; VATTIMO, Gianni; ANTONELLO, Pierpaolo. Christianisme et modernité: entretiens menés par Pierpaolo Antonello ; traduction par Renaud Temperini. Paris: Flammarion, 2009.
ANTONELLO: A modernidade construída e compreendida pelo Ocidente europeu é, em substância, uma invenção do cristianismo, de modo que a secularização do mundo e o próprio ateísmo em sentido moderno resultam de uma religião, e tomar a laicidade como oposta ao cristianismo constitui um erro histórico e filosófico cujo aparente paradoxo exige explicação.
GIRARD: O cristianismo representa uma ruptura na história cultural e religiosa da humanidade porque, ao narrar a cena sacrificial do ponto de vista da vítima inocente, desmonta o mecanismo de desconhecimento (méconnaissance) sobre o qual se fundavam as religiões arcaicas e inaugura uma fase da história que se pode legitimamente chamar de moderna.
Durante dezenas de milhares de anos, as religiões impediram que as comunidades primitivas se autodestruíssem, pois a violência humana não é mero comportamento agressivo, mas um fenômeno inerente a dinâmicas sociais de represália e vingança, alimentadas pelo caráter mimético de seres que desejam sempre as mesmas coisas que os outros desejam.
Os mitos de origem começam sempre pelo relato de uma crise nas relações humanas, interpretada como praga ou peste, que se resolve quando a unanimidade mimética polariza a violência coletiva sobre uma vítima escolhida arbitrariamente, cuja morte restabelece a ordem social e cuja figura acaba divinizada, já que sacrificar significa tornar sagrado.
No mito, a vítima é sempre representada como culpada, como no caso de Édipo, que
Freud tomou ao pé da letra, enquanto o cristianismo revela a verdade recalcada de uma encenação na qual as multidões acreditam justamente porque não sabem o que fazem.
Já no Antigo Testamento, como em Isaías 52-53, aparece a inocência da vítima condenada por uma multidão em delírio mimético, mas a Paixão constitui o ápice dessa revelação, mostrando inclusive Pedro cedendo à lógica unânime da massa e negando o Cristo.
Uma vez revelado que a ordem social se constrói sobre o sacrifício de inocentes, torna-se impossível fingir ignorância, e dessa tomada de consciência interna ao cristianismo partem todas as conquistas da modernidade.
ANTONELLO: As premissas girardianas, sobretudo as de “Coisas ocultas desde a fundação do mundo”, podem ser declinadas filosoficamente em diálogo com Heidegger sobre o fim da metafísica e a dissolução do Ser, de modo que, pela encarnação, pela morte do Cristo e pela revelação do mecanismo vitimário, o próprio Deus se enfraquece e abre ao homem um espaço de emancipação capaz de torná-lo ateu e laico.
VATTIMO: A leitura de Girard permite compreender a essência histórica, progressiva e de acontecimento (événementielle) do cristianismo e da modernidade, entendendo a secularização como realização efetiva do cristianismo enquanto religião não sacrificial, o que levanta a questão de saber se essa revelação não deveria chegar a eliminar o próprio aparato eclesiástico e tudo o que nele permanece de religião natural.
A formação católica tradicional opunha ser cristão e ser moderno, tratando a Revolução Francesa, o Iluminismo, a democracia e o liberalismo como inimigos da fé, e restringindo a filosofia cristã a um retorno a Aristóteles,
Agostinho e Tomás de Aquino.
A descoberta de que Jesus veio revelar o mecanismo vitimário que funda as religiões naturais permitiu minar e dissolver muitas de suas crenças, e a própria história do cristianismo é a dissolução, com o auxílio do Espírito Santo, dos elementos de violência e de sagrado natural presentes na Igreja.
A secularização não significa abandono do sagrado, mas aplicação plena da tradição sagrada a fenômenos humanos precisos, à maneira de Max Weber, que vê na sociedade capitalista a filha legítima do espírito protestante, o que autoriza uma teoria positiva da secularização e a valorização de aspectos aparentemente escandalosos e dissolutos da modernidade.
O cristianismo abre caminho a uma existência não estritamente religiosa, liberta de vínculos, de coerção e de autoridade, na linha de Joaquim de Fiore (Gioacchino da Fiore) e de sua terceira idade da história, em que o sentido espiritual da Escritura se manifesta cada vez mais e a caridade substitui a disciplina.
As proibições católicas relativas ao aborto, ao divórcio e às pesquisas com embriões parecem conservar, no interior de uma religião histórica que revelou apenas o amor, uma violência própria da religião natural, de modo que tudo o que na Igreja não se reduz ao amor a Deus e ao próximo pode ainda ser religião natural e vitimária.
ANTONELLO: Diante dessa objeção, impõe-se esclarecer a relação entre o cristianismo histórico e o sagrado que o cristianismo evangélico se esforça por superar.
GIRARD: O cristianismo histórico conservou elementos de religião arcaica porque precisou penetrar num mundo perigoso, marcado pela territorialidade, pela vingança e por mecanismos unânimes de tipo tribal, levando milênios para desestruturá-lo, e a dessacralização que ele produz, ao privar a humanidade dos meios sacrificiais de conter a violência, aumenta a liberdade de ação humana sem aumentar na mesma medida o senso de responsabilidade, o que traz consigo o risco de uma violência apocalíptica.
Não se trata de aprovar tudo o que a Igreja foi e fez, mas de reconhecer que o cristianismo não transformou o mundo tanto quanto deveria ou poderia, lutando ainda contra formas mais ou menos explícitas de sagrado.
Os homens primitivos muitas vezes nem ousavam cultivar a terra por temor aos espíritos que a habitavam, divindades nascidas de vítimas expiatórias transformadas em deuses, temores que já não existem.
O Iluminismo percebeu que o mundo mudava e que a dessacralização oferecia maior possibilidade de ação, mas instaurou a crença equivocada de que esse fenômeno era produto exclusivo do gênio humano, enquanto a consciência da responsabilidade não cresceu, de modo que se dispõe de armas cada vez mais poderosas com um senso de responsabilidade muito fraco.
A mídia trata a religião como algo estranho à natureza humana e nocivo à saúde, como o tabaco, ignorando que as crenças religiosas são próprias do homem e têm finalidade antropológica e social, e que um mundo que pretende dispensá-las pode expor-se ao desencadeamento da violência.
Esse apocalipse nada tem a ver com o fundamentalismo protestante que imagina o mundo destruído pela violência divina, ideia essencialmente anticristã, e os verdadeiros textos apocalípticos, que pesam mais que o próprio Apocalipse de João, são Marcos 13 e Mateus 24.
Judaísmo e cristianismo sabem que abolir todas as proibições e limites impostos pelas religiões arcaicas ameaça não só os indivíduos, mas a existência do mundo, enquanto a humanidade atual age como senhora da natureza sem mediação, esquecendo que os tabus arcaicos tinham valor e que homens e nações não podem viver sem ética.
Uma boa teoria da secularização é necessária porque esta coincide com o fim do sacrifício, abrindo-se à ágape, à caridade, mas também ao risco de uma violência maior, num mundo que cuida das vítimas como nenhuma civilização jamais fez e que é, ao mesmo tempo, o mais perseguidor e assassino da história.
Weber, ao ver na secularização a causa do desencantamento do mundo, descobriu apenas metade do paradoxo da coexistência entre alto desenvolvimento e desagregação, e há outros paradoxos que se intensificam com o tempo e se tornam cada vez mais fascinantes.
VATTIMO: Seguindo a própria trilha girardiana, é possível desconstruir até o conceito de natureza humana entendida como limitadora, pois o cristianismo não descreve a verdadeira natureza do homem, mas a transforma e redime, de modo que a finalidade da história consiste em suprimir cada vez mais os limites e permitir dizer “graças a Deus sou ateu”, isto é, não idólatra e livre da crença em leis naturais intransponíveis.
Se Jesus tivesse vindo apenas para revelar que o demônio existe e é perigoso, como diria Baget Bozzo, bastaria uma carta, mas veio também para destruir o mal, proclamando não a lembrança da morte, mas a pergunta sobre onde está a vitória da morte.
A redenção não consiste apenas em saber que Deus existe, mas em saber que Deus ama e que não se deve temer a escuridão, o que conduz ao único mandamento de amar a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a si mesmo.
Identificar Deus com as leis da natureza é perigoso, pois obrigaria a amar também desigualdades como a riqueza histórica dos brancos sobre os negros ou as leis de mercado pregadas pela direita, segundo as quais o mais forte vence, e por isso cabe recusar todo naturalismo.
Ajudar os peixes grandes a comer os pequenos porque assim quer a natureza seria absurdo, e tentar torná-los vegetarianos não viola nenhuma lei natural, o que mostra que a criação não deve ser lida ao pé da letra.
No fundo do pensamento girardiano, como em “As origens da cultura”, subsiste a ideia de que a revelação do mecanismo vitimário serviria para descrever melhor a natureza humana, quando
Heidegger e
Nietzsche ensinam que estabelecer estruturas é sempre um ato de autoridade, tal como a polícia que exige a carteira de identidade.
Não se trata de habitar o Éden, mas de prolongar momentos de plenitude por meio de mais amor recíproco, já que a natureza humana não conhece esse tipo de limite e o preceito evangélico de ser perfeito como o Pai celeste não pode ser algo absolutamente impossível.
ANTONELLO: Mesmo sem o sistema de tabus e proibições próprio do sagrado e das sociedades pré-tecnológicas, as sociedades humanas parecem precisar de estruturas normativas compartilhadas de comportamento, o que leva a indagar qual papel cabe ao cristianismo na construção dessa ética coletiva.
VATTIMO: A tese girardiana deve ser aproximada da ideia de uma consumação (consumation) do cristianismo, com cada vez menos ídolos e cada vez mais ateísmo, sem provas naturais de Deus, restando apenas a caridade e a ética, entendida como caridade acrescida das regras de trânsito, respeitadas por amor ao próximo e não por supostas leis naturais.
Considerar que avançar o sinal vermelho seja algo contra a natureza é ridículo, e fundar a ética na natureza sempre abre espaço para quem afirma conhecer as leis naturais melhor que os outros.
Ao cidadão democrata cabe salvar a própria alma e a própria liberdade de ser informado, de consentir e de participar na elaboração de leis acordadas no respeito recíproco em nome da caridade, já que todos os outros sistemas produziram autoridades que impõem o que se deve fazer.
A responsabilidade para com os outros inclui a história da Igreja e a humanidade, o que exige não agir como elefante em loja de porcelana e manter profundo respeito pelos santos, preferindo parecer-se com são José a parecer-se com Cesare Romiti, sem chegar porém a não tomar banho, como teria feito são Luís Gonzaga para não ver a própria nudez.
GIRARD: A conversão de Vattimo foi um acontecimento importante nos meios intelectuais europeus, pois ele provém da corrente que passou de Heidegger ao estruturalismo e ao desconstrucionismo, marcada por um otimismo extremo e pela palavra-chave “jogo”, mas seu pensamento ainda conserva demasiado dessa atmosfera lúdica num momento em que a tragédia reaparece em todos os domínios.
Sociologicamente, essa escola pode permitir-se o lúdico porque seus membros, em geral acadêmicos, contam com universidades sustentadas pelo financiamento constante do sistema capitalista e levam vidas confortáveis e regradas, ainda que sem os salários dos engenheiros do Vale do Silício.
Essa corrente pretendia romper com o idealismo alemão, não desconstruir a civilização, e a reação de
Vattimo a ela foi notável.
A religião supera a filosofia: as filosofias estão praticamente mortas, as ideologias quase extintas, as teorias políticas arrasadas e a crença de que a ciência substituiria a religião já ultrapassada, enquanto o mundo manifesta uma nova necessidade religiosa.
A tragédia volta na política, na ecologia e na sociedade, e a vida fácil no mundo ocidental bem organizado pertence a apenas um quarto privilegiado da população mundial, com problemas que dizem respeito ao planeta inteiro.
Se a tragédia for percebida como tragédia religiosa, ainda há esperança, mas, se for tomada como tragédia grega, tudo estará acabado.
VATTIMO: Os males que ameaçam o mundo devem ser lidos não como sinal da natureza humana, mas como resultado da malícia de alguns, da luta de classes e do autoritarismo, de modo que o retorno da tragédia talvez se deva menos aos jogadores do que ao peso de uma tradição metafísica e autoritária, o que favorece a passagem da veritas à caritas e a ideia de que a finalidade da vida é estética e não ética.
A tragédia grega já não pode ser levada a sério, pois Édipo não sabia o que fazia e tudo era culpa do destino, e se todos andassem com documento de identidade o problema estaria resolvido, como se fosse uma questão de falta de registro civil.
Sergio Quinzio considerou o cristianismo um fracasso por ter chegado à situação atual depois de dois mil anos de consciência cristã, o que leva a perguntar se a culpa é dos jogadores ou da tradição, e se não convém adotar uma posição menos naturalista, menos autoritária, menos limitadora e menos metafísica.
O espírito poderia enfim ser o dito espirituoso (mot d'esprit) em vez de um discurso pesado, e o paraíso só pode ser um jogo, embora a ética conte muito no intervalo, entendida como respeito pelos outros e não por normas objetivas.
O itinerário da filosofia contemporânea, dos jogos de linguagem de
Wittgenstein ao Ser como acontecimento em
Heidegger e ao pragmatismo de Richard Rorty, é uma passagem da verdade à caridade, em que a verdade só importa em vista de um fim útil a si e ao próximo.
Saber que dois mais dois são quatro não aproxima de Deus, e a Bíblia não é manual de astronomia, cosmologia ou mesmo teologia, tanto que já não escandaliza dizer que Deus é também mãe ou parente próximo.
O retorno à religião decorre da percepção de que todos os saberes tidos por definitivos dependem de paradigmas históricos e condicionamentos sociais, políticos e ideológicos, e o essencial da vida, como sentimentos, valores e esperanças, não é objeto de ciência, o que torna o fato de Deus também não sê-lo uma razão a mais para crer nele.
O Deus que poderá salvar, segundo
Heidegger, não é o da teologia natural, das regras fixas e do juiz que se alegra com a condenação, mas aquele que Jesus revelou ao chamar os homens de amigos e não de escravos.
ANTONELLO: No processo de dissolução das verdades ontológicas, cabe definir a atitude diante de uma tradição histórica da qual sempre se bebe e que se caracteriza pela crença nessas verdades, bem como as premissas teológicas ou morais compartilhadas sobre as quais se pode construir um diálogo inter-religioso, dado que outras tradições dificilmente aceitariam o niilismo filosófico ocidental e sua versão materialista e secularizada.
VATTIMO: O diálogo ecumênico e inter-religioso é obstruído sobretudo por burocracias eclesiásticas apegadas a seus privilégios, e o projeto cristão consiste em separar-se dos aparatos políticos, renunciar às certezas absolutas responsáveis pela tragédia atual e buscar uma união efetiva no amor, mantendo porém a fidelidade à tradição dos santos como tocha a ser transmitida.
A separação entre anglicanos e católicos por causa do novo casamento de Henrique VIII parece um capricho, e é difícil crer que o papa tema realmente a condenação do dalai-lama por não ser católico, enquanto
Bergson apontava uma fase mística das religiões talvez alcançável.
Nas Igrejas, como na esquerda italiana, há homens de aparelho (hommes d'appareil) que defendem privilégios, como a proibição do sacerdócio feminino, que nada tem a ver com a caridade e é apenas questão de contexto histórico, já que os apóstolos eram casados, pescadores e cobradores de impostos, ao passo que o papa não é casado nem jamais foi pescador.
Quando o cardeal Ruini afirma que o Crucificado é símbolo da nacionalidade italiana, faz de Jesus um membro da Liga Norte, quando ele nada tem a ver com a nação nem com a identidade europeia, e as “raízes cristãs” não devem tornar-se motivo de discórdia na União Europeia.
A única razão válida para crer na ética é a fidelidade aos que vieram antes e aos que virão, à história e à tradição dos santos, às Escrituras e aos ensinamentos da Igreja, instrumentos de bordo que não podem ser enterrados, assim como os talentos.
Diante da alternativa entre reivindicar a autoridade e os dogmas ou buscar uma situação ecumênica de amor, inclusive na política, a via das certezas absolutas já mostrou seus frutos, e por isso cabe eliminar essas verdades.
GIRARD: A recusa de todo limite equivale a uma recusa da ética, clichê da modernidade que remonta ao século XVIII e hoje está esgotado até no plano estético, e diante de ameaças inéditas como o terrorismo suicida impõe-se uma reflexão de fundo, enquanto a verdade cristã consiste na revelação, pela Paixão, do mecanismo vitimário oculto em todos os mitos, destinada a tornar-se conhecimento comum (common knowledge) numa revolução cultural maior que o Renascimento.
Não se trata de obrigar ninguém a cobrir a cabeça de cinzas, mas quem tem filhos e netos sente medo diante de algo cada vez mais assustador, e a reflexão sobre o destino do mundo começou em 1945, com a invenção e o uso da bomba atômica.
A bomba funcionou como dissuasão porque os russos, apesar de seus defeitos, não queriam morrer, ao passo que hoje há cada vez mais pessoas dispostas a morrer para matar inocentes desconhecidos, num terrorismo que vence até as tecnologias mais sofisticadas e abre possibilidades assustadoras, sobretudo para a parte privilegiada do mundo.
Cada mito é uma Paixão fracassada, não porque a vítima não tenha sido morta, mas porque a verdade antropológica dessa morte inocente não foi revelada, e a Paixão coloca a questão de saber de que lado se está, com a multidão acusadora ou com a vítima.
A superioridade reveladora da Paixão sobre o Antigo Testamento vem de seu maior pragmatismo didático, pois mostra lado a lado as duas posições, a da multidão que julga a vítima culpada e a da vítima inocente, tornando-se a chave para compreender a mitologia.
Não se mistura religião e ciência: a questão é se o cristianismo é a outra face e a verdade de toda mitologia, uma verdade não científica sobre Deus, mas sobre os mitos e sobre toda a cultura humana, evidente e manifesta caso seja verdadeira.
Caminha-se para um futuro em que esse conhecimento comum será cada vez mais aceito e em que o mundo parecerá tão cristão quanto hoje parece científico, perspectiva fascinante de uma mudança diante da qual o Renascimento parecerá insignificante.
VATTIMO: O otimismo girardiano reconhece na modernidade um germe cristão que o cristianismo oficial recusou, mas a difusão de uma consciência geral do mecanismo vitimário importa menos do que a redescoberta, pelas culturas de origem cristã, do núcleo do cristianismo como ato de amor e não como revelação de uma verdade sobre a natureza humana, sendo a violência originária entendida como autoritarismo e coerção exercida sobre a liberdade do outro.
A Revolução Francesa parece mais cristã que os sanfedistas (sanfédistes), e o cristianismo desenvolveu no Ocidente uma atividade solidária à secularização e à descoberta das liberdades políticas.
A globalização da informação expõe tragédias como a de Ruanda diante das quais se fica petrificado e confortavelmente à mesa, mas também difundiu um humanitarismo médio, com voluntariado e adoções à distância, e a cultura ocidental e cristã não é pior que as outras.
O futuro assusta mais por razões ecológicas do que por questões de bem e de mal, pois não é natural que o mundo acabe nem que 15% da humanidade consuma 85% dos recursos, e resta saber se a descoberta dos mecanismos vitimários permitirá uma civilização que não se limite a defender privilégios.
Diante da ameaça, a resposta não é armar-se nem recitar sermões, mas mudar a política e as estruturas políticas de modo a reduzir a violência.
A violência não se identifica com dar a morte, como mostra a defesa da eutanásia, mas com a coerção sobre a liberdade alheia, de modo que quem quer se jogar pela janela deve ser contido, acolhido e escutado por semanas, mas, persistindo na decisão, deve ser deixado livre, pois sua liberdade vale mais que a sobrevivência imediata, ao contrário do que fez Muccioli ao deixar morrer um dependente químico “para seu bem”.
A origem do mal está no autoritarismo e na falta de amor e de respeito pelo outro, e mais importante que reconhecer a violência, ou saber se existe pecado original, é reduzi-la, ponto em que o Girard antropólogo prevalece sobre o Girard político-cristão ao esperar um mundo mais justo quando a verdade antropológica se tornar senso comum.
A crítica à ciência permanece, pois ela está ligada à tecnologia, que é a aplicação forçada de uma ordem racional ao mundo, e a divergência quanto a esse ponto subsiste.
GIRARD: O cristianismo é revelação do amor, mas também da verdade, pois nele verdade e amor coincidem na reabilitação da vítima falsamente acusada, e essa verdade antropológica pode finalmente dar à teologia cristã, correta em si mesma, a antropologia que ela merece, em lugar da antropologia grega e pagã sobre a qual tradicionalmente se apoiou e que não enxerga a responsabilidade do homem enquanto ser violento.