0 Introdução

VATTIMO, Gianni; ZABALA, Santiago. Hermeneutic communism: from Heidegger to Marx. New York: Columbia university press, 2011.

Entretanto, passou-se a exigir também da filosofia que ela não se contentasse mais em interpretar o mundo e vagar por especulações abstratas, mas que se empenhasse em transformar o mundo na prática. Só que a transformação do mundo assim concebida exige, antes de tudo, que o pensamento mude, da mesma forma que, por trás dessa exigência, já existe uma transformação do pensamento (cf. [275] Karl Marx, A Ideologia Alemã: Teses sobre Feuerbach, 11: “Os filósofos apenas interpretaram o mundo de maneiras diferentes; trata-se de transformá-lo”). Mas como o pensamento pode mudar se não se encaminhar para aquilo que é digno de ser pensado? Ora, porém, o fato de o ser se apresentar como aquilo que é digno de ser pensado não é nem uma premissa infundada nem uma invenção arbitrária. É o ditado de uma tradição que ainda hoje nos determina, e de maneira ainda mais decisiva do que se queira reconhecer. (Martin Heidegger, As teses de Kant sobre o Ser, 1961)

1. O fracasso dos filósofos marxistas em mudar o mundo não decorre de um erro de orientação política, mas de seu enquadramento na tradição metafísica, pois, como indicou Heidegger, a metafísica não pode ser superada no sentido de Überwindung, isto é, vencida e deixada para trás, mas apenas no sentido de Verwindung, isto é, incorporada, distorcida e enfraquecida, de modo que somente uma filosofia pós-metafísica que enfraqueça a forma mentis objetivista, sempre pertencente aos detentores do poder, poderá favorecer os fracos, hoje a vasta maioria da população mundial, já que, enquanto a metafísica ou política das descrições é a filosofia dos vencedores que desejam conservar o mundo tal como está, o pensamento fraco da hermenêutica torna-se o pensamento dos fracos em busca de alternativas.

2. Comunismo e hermenêutica não se traduzem um no outro como posição filosófica ou política, mas ambos chamam a atenção para a atual ausência de emergência, isto é, para a crescente homologação das estruturas políticas, econômicas e sociais de poder, tornando-se respostas alternativas dos perdedores da história, de modo que o fato de o comunismo ser apresentado como tirânico e a hermenêutica reduzida a puro niilismo indica não seus perigos, mas sua ineficácia para os detentores do poder, e daí se segue a posição de um comunismo hermenêutico, para o qual a política não pode fundar-se em bases científicas e racionais, mas apenas na interpretação, na história e no evento, contra a herança marxista acadêmica que, como criticou Richard Rorty, pretende que a busca da comunidade cooperativa seja científica e não utópica.

3. A hermenêutica contém os traços utópicos e românticos evocados por Rorty porque reivindica não a universalidade moderna da ciência, mas o particularismo pós-moderno, e o que a une ao comunismo é a dissolução da metafísica, ou seja, a desconstrução das pretensões objetivas de verdade, Ser e logocentrismo levada a cabo por Nietzsche, Heidegger e Derrida, de modo que o comunismo se apresenta hoje como alternativa ao capitalismo não só por sua fraqueza política, mas também por sua fraqueza teórica, já que, com o triunfo capitalista, perdeu tanto o poder efetivo quanto as pretensões metafísicas do ideal de desenvolvimento, que inevitavelmente conduz a uma lógica de guerra e que hoje orienta governos conservadores e reformistas.

4. O comunismo hermenêutico abandona tanto o ideal de desenvolvimento quanto o apelo geral à revolução, ao contrário de Alain Badiou, Antonio Negri e outros teóricos marxistas, porque as forças da política das descrições são demasiado poderosas, violentas e opressivas para serem vencidas por uma insurreição paralela, de modo que somente um pensamento fraco como a hermenêutica pode evitar revoltas ideológicas violentas e defender os fracos, restando aos derrotados da história, como observou criticamente Slavoj Žižek, um pensamento atento à textura rizomática da realidade, no qual o comunismo motiva a resistência às desigualdades do capitalismo e a hermenêutica intervém indicando a natureza interpretativa da verdade.

5. As versões de comunismo e hermenêutica aqui assumidas ultrapassam as intenções de Marx e de Heidegger, mas encontram-se no pensamento de ambos graças ao projeto comum de emancipação da metafísica, pois a décima primeira tese sobre Feuerbach não desacredita a interpretação, mas indica que, para que ela funcione, uma mudança deve ocorrer, já que, diferentemente da descrição, que impõe a realidade, a interpretação traz uma nova contribuição a ela, ao passo que a rejeição heideggeriana do comunismo, ao lado do capitalismo e da democracia, deriva menos de suas simpatias nazistas que da necessidade de superar a metafísica numa época em que o comunismo soviético estava preso ao ideal de desenvolvimento, de modo que, se Marx ancorou os pés na terra e Heidegger mostrou que essa terra está em constante movimento e conflito, chegou o momento de reformular Marx: os filósofos apenas descreveram o mundo de diversas maneiras, e agora é tempo de interpretá-lo.

6. Inverte-se a concepção habitual que estende o comunismo a todos os domínios da sociedade e restringe a hermenêutica a uma técnica de interpretação, limitando o comunismo à sua função social e enfatizando a essência filosófica da hermenêutica, razão pela qual a referência não é o comunismo soviético histórico nem o modelo chinês contemporâneo, mas os atuais governos comunistas sul-americanos democraticamente eleitos e determinados a defender seus cidadãos mais fracos, que melhor representam o comunismo do século XXI concebido, segundo Eric Hobsbawm, como crítica do capitalismo e de uma sociedade injusta, ideal de igualdade, liberdade e fraternidade e defesa dos pobres e oprimidos, válido como motivação, mas não mais como programa de organização econômica total, experiência que fracassou.

7. Os governos de Hugo Chávez na Venezuela, de Evo Morales na Bolívia e de outros políticos latino-americanos representam uma alternativa ao capitalismo e uma defesa efetiva dos mais fracos que nenhum Estado capitalista é capaz de igualar.

8. A hermenêutica não deve ser entendida como técnica tradicional de descoberta de sentidos ocultos em textos bíblicos, jurídicos ou literários, mas como a existência inteira do ser humano, essência ontológica reconhecida por Nietzsche, Heidegger e Gadamer e hoje convertida em linguagem comum da filosofia contemporânea, na qual tanto a verdade quanto a própria filosofia se dissolveram em interpretações, de modo que, enquanto as imposições descritivas buscam o poder pretendendo identificar-se com o objeto do conhecimento, a hermenêutica luta pelo conflito das interpretações contra a conservação de leis naturais, valores e princípios, configurando-se não como posição conservadora, mas progressista, o que permitiu a Rorty afirmar que a atitude hermenêutica é no mundo intelectual o que a democracia é no mundo político, isto é, respeito às minorias, às diferenças e aos fracos.

9. Os fracos são o resíduo descartado do capitalismo, isto é, do realismo metafísico, correspondendo ao que Heidegger chamou de Ser, Derrida de margens da filosofia e Walter Benjamin de tradição dos oprimidos, e abrangem tanto as disciplinas que se recusam a submeter-se ao desenvolvimento racional da ciência quanto os Estados subdesenvolvidos, os acionistas inúteis e as favelas que representam mais de três quartos da população mundial, tendo como adversários não os fortes, mas os poderosos, os vencedores da história, cuja voz filosófica ecoa em John Searle, Francis Fukuyama e Robert Kagan, para os quais a política se tornou o acabamento do ideal liberal de objetividade científica, e que se julgam portadores de conhecimento verdadeiro, procedimentos democráticos justos, sistemas econômicos e guerras humanitárias que são, na realidade, guerras contra os fracos, realismo a ser confrontado filosófica e politicamente, com o apoio das investigações de Naomi Klein, Ellen Meiksins Wood e Joseph Stiglitz, antes de se explorar a alternativa do projeto político progressista da hermenêutica e do comunismo enfraquecido que orienta a América do Sul.

10. A ausência de emergência que reina hoje sobre o mundo exige favorecer a emergência filosófica e política, isto é, as alternativas, pois os atentados de 11 de setembro e a crise econômica de 2008 não produziram mudança massiva, mas a intensificação das próprias políticas que os geraram, como mostra o reforço das agendas militares e neoliberais pelo presidente Obama e seus aliados, de modo que não surpreende que o comunismo sul-americano e a hermenêutica filosófica, exemplos efetivos de emergência e mudança, sejam constantemente apresentados como perigosos pelo establishment político e filosófico, enquanto o capitalismo neoliberal conserva seus mercados financeiros e o realismo metafísico domina os filósofos acadêmicos que submetem a filosofia à ciência, abrindo-se assim aos manifestantes antiglobalização ocidentais alternativas políticas e filosóficas efetivas, caso a mudança seja realmente seu objetivo.