3.2 Existência

ZABALA, Santiago; VATTIMO, Gianni. Hermeneutic Communism: From Heidegger to Marx. New York: Columbia University Press, 2011.

A existência é interpretação

1. Os porta-estandartes da hermenêutica são figuras revolucionárias porque apresentaram uma nova visão de mundo e sobretudo afirmaram que não pode mais haver uma única visão de mundo, tese desenvolvida explicitamente por Heidegger em A época da imagem do mundo, segundo a qual a multiplicação das ciências especiais torna hoje impossível uma imagem unitária, organizada e sistemática do mundo, de modo que o mundo da hermenêutica não é um objeto observável de diferentes pontos de vista, mas um mundo em contínua revolução, e por isso a hermenêutica é uma ontologia que pensa o mundo apenas como evento, evento que não se oferece como espetáculo aos seres humanos, pois estes nele estão engajados como atores.

2. Nietzsche foi o primeiro a enfatizar radicalmente essa condição na célebre tese de seus cadernos de 1883 a 1888, segundo a qual, contra o positivismo que se detém nos fenômenos, não há fatos, mas apenas interpretações, sendo impossível estabelecer qualquer fato em si, e mesmo a afirmação de que tudo é subjetivo é interpretação, já que o sujeito não é algo dado, mas acrescentado, inventado e projetado por trás do que há, e até a suposição de um intérprete por trás da interpretação é invenção e hipótese.

3. A tese de que não há fatos, apenas interpretações, e de que também isso é interpretação, não remete apenas a um problema geral do conhecimento em que nada é fato objetivo, mas afirma que os fatos não existem como objetos externos independentes à maneira da mentalidade positivista, existindo apenas como eventos para cuja constituição o intérprete contribui, e Nietzsche, longe de organizar um sistema teórico, desenvolveu essa hermenêutica como pensamento vitalista, provavelmente por sua proximidade com o positivismo e a herança iluminista, vendo o mundo em termos de expressão e incremento de forças vitais que conservam a vida superando continuamente os graus alcançados e destruindo ou pondo de lado o que produziram para construir o novo, tese elaborada desde O nascimento da tragédia segundo a qual criar exige destruir, embora Nietzsche tenha se afastado do historicismo providencialista que via na vontade de potência vontade de progresso rumo a uma perfeição equivalente à morte e de uma concepção biológica da vontade de potência como fortalecimento das capacidades constitutivas do homem.

4. O traço mais importante das intuições de Nietzsche é sua ontologia do evento, que antecipa e esclarece a análise heideggeriana do Ser, pois a interpretação só faz sentido como dimensão constitutiva do Ser se este for entendido como evento e não como objeto, sentido niilista que torna Nietzsche intérprete antecipado de Heidegger, cuja relação com ele é complexa e ambígua, já que Heidegger, contra a tradição que o via como crítico político (Bäumler) ou pensador biológico (Klages), foi o primeiro a considerá-lo filósofo metafísico da dignidade de Platão, Aristóteles ou Hegel, escrevendo porém no fim da metafísica, à maneira do filósofo da vida apresentado por Dilthey, mas nunca aceitou que o fim da metafísica pudesse ser o niilismo nietzschiano, que julgava ter superado, de modo que não há em Heidegger verdadeira superação de Nietzsche, mas uma leitura que o distorce e liberta dos restos positivistas e vitalistas da vontade de potência, permitindo que a teoria heideggeriana da interpretação esclareça a hermenêutica de Nietzsche e que o niilismo e a ontologia do evento nietzschianos permitam ler Heidegger fielmente à diferença ontológica, encerrando Nietzsche todas as tentações metafísicas de considerar o Ser como algo que está lá fora.

5. Nietzsche e Heidegger, independentemente da atitude explícita de Heidegger para com Nietzsche, são os guias para delinear o sentido da hermenêutica e suas implicações políticas, pois nessa configuração a hermenêutica se torna a filosofia própria da modernidade, já que a tese de que não há fatos, apenas interpretações, não teria sido possível sem a ampliação do horizonte mundial provocada pelas descobertas geográficas, pelas relações intensificadas com outras culturas nas empresas imperialistas do Ocidente e pela consciência histórico-antropológica que prevaleceu no fim do século XIX, tudo isso expresso em Dilthey, que, insistindo no conhecimento das ciências humanas e especialmente da historiografia, construiu as bases da hermenêutica contemporânea.

6. A historiografia, que sempre buscou explorar as épocas com pretensões rigorosas e objetivas, tornou-se problemática no fim do século XIX sobretudo pela expansão e multiplicação dos horizontes da modernidade, e embora os debates sobre as ciências humanas em contraste com as naturais tenham sido motivados em grande parte pela necessidade de historiadores e humanistas de garantir posição num mundo acadêmico dominado pelas disciplinas tecnocientíficas, a ênfase na compreensão como característica das ciências humanas tornou mais urgente o problema da estranheza de seus objetos, e nessa atmosfera amadurece a centralidade da interpretação como problema filosófico, pois as ciências humanas devem compreender, o que implica envolvimento, e cabe perguntar como esse envolvimento é possível com objetos tão distantes quanto os da etnologia e da antropologia.

7. O domínio das ciências humanas, dotado também de forte componente político pelas corporações acadêmicas que enfrentam, isto é, pelo poder financeiro dos cientistas obtido por universidades e empresas privadas, torna-se aspecto essencial da crise da objetividade, que, qualquer que seja a caracterização da hermenêutica, das disputas sobre os textos sagrados em Lutero à noção marxista de ideologia, se consuma no fim da modernidade como traço essencial do discurso moderno e triunfo do historicismo, segundo o qual o real não é o objeto, mas a história, que, não podendo ser pensada como objeto externo determinado, não responde a um ato de conhecimento, mas apenas se oferece à interpretação, definida por Luigi Pareyson como forma de conhecer em que receptividade e atividade são inseparáveis, em que o conhecido é uma forma e o conhecedor uma pessoa, definição a ser lida à luz da vontade de potência nietzschiana e da interpretação como existência em Heidegger.

8. Embora já em Kant o sujeito não fosse tábula rasa, mas encontrasse o mundo por meio de quadros a priori de espaço, tempo e entendimento, conhecendo apenas fenômenos, Kant nunca chamou o conhecimento de interpretação por considerar esses esquemas fixos e idênticos em todos os tempos e para todos os homens, estabilidade que, contudo, pertence aos objetos fenomênicos e não à estrutura do sujeito, como mostram Kierkegaard e a antropologia cultural, com a consciência da finitude da existência humana, feita de interesse, paixão e história, e do conhecimento de culturas diferentes, de modo que a existência como projeto lançado significa para Heidegger que o ser humano está no mundo não como razão pura, mas como indivíduo com interesses, expectativas e instrumentos cognitivos herdados de um mundo, de uma cultura e de uma língua, isto é, como intérprete que olha as coisas com interesse e assim as enquadra numa ordem compreensível sem cair no subjetivismo, já que nem o mundo é distinto do sujeito nem o sujeito é distinto do mundo que seria seu objeto, dimensão transobjetiva desenvolvida a partir da Carta sobre o humanismo e das Contribuições à filosofia.

9. A hermenêutica de Nietzsche e de Heidegger confirma o significado político da hermenêutica como concepção do Ser que não se oferece a descrições, mas envolve desde o início como intérpretes, pois, fora do preconceito do conhecimento como espelho da natureza, não se pode mais imaginar um mundo dado objetivamente, mas apenas um mundo sempre dado mediante o envolvimento de alguém, não havendo fatos nem nada que se apresente por si como óbvio ou evidente, e o que se chama mundo é resultado não só da interpretação, mas também da história, isto é, dos processos interpretativos de outros, de modo que nem o sujeito nem o mundo são algo primordial ou originário.

10. A hermenêutica concebe o Ser como herança que nunca é tomada como dado último, ao passo que o capitalismo sempre cresceu considerando, ou forçando outros a considerar, como posse natural o que é herdado, como mostram as grandes famílias dominantes, herdeiras dos mais fortes piratas, ladrões e bandidos, que se julgam autorizadas a comandar por direito divino ou natural, quando são apenas resultado de uma violência esquecida.

11. O direito divino dos reis, aplicável de muitos modos à lógica das sociedades de classes e do crescimento capitalista, mostra por que somente a ontologia hermenêutica abre o horizonte de emancipação em relação às pretensões de direitos mais originários de sacerdotes, monarcas e proprietários, e embora a ideia de que, se o Ser é apenas história, toda história é Ser pareça legitimar qualquer hegemonia bem-sucedida, problema próprio do niilismo de Nietzsche e Heidegger que a metafísica ainda pretende resolver com a ideia de uma ordem objetiva independente à qual se deve conformar o conhecer e o agir, não é coincidência que a oposição radical entre metafísica e hermenêutica surja justamente no problema ético-político da emancipação, pois é sobretudo nas esferas ética e política que a insustentabilidade da metafísica se evidencia, sendo os pregadores de uma ordem do mundo à qual todos devem conformar-se, na verdade, seus consumidores satisfeitos e por isso seus defensores mais raivosos.

12. Se o Ser é história e nada mais, e não uma estrutura objetiva eterna, apenas o que é história é Ser, o que exclui tudo o que pretende evitar a história e equivale a dizer que emancipação significa abertura, transformação e interpretação projetada, e não o que já é, razão pela qual Rorty afirmava que, se se cuida da liberdade, a verdade cuidará de si mesma.

13. A ideia do Ser como evento é preferível porque sem ela não se poderia existir como projeto pelo simples fato de viver, princípio que deveria valer também para os detentores do poder, defensores do mundo como estrutura estável a ser respeitada, aos quais se pode ao menos recomendá-lo na esperança de que o endossem, permanecendo-se, contudo, pronto para lutar também de maneira concreta contra a obstrução dessa prática.