Unamuno

Miguel de Unamuno

Giovanni Reale

Miguel de Unamuno nasceu em 29 de setembro de 1864 em Bilbao, onde cursou o ensino fundamental e médio, tornando-se doutor em língua basca aos vinte anos, em 1884.

As primeiras obras de Unamuno foram publicadas no início do século XX, antes de sua obra filosófica mais representativa.

Del sentimiento trágico de la vida, de 1913, é a obra filosófica mais representativa de Unamuno e testemunha lúcida do colapso do otimismo filosófico do final do século XIX e da crise do intelectualismo positivista e idealista.

A vida política e pessoal de Unamuno foi marcada por conflitos com o poder, levando-o ao exílio durante a ditadura de Primo de Rivera.

Ao retornar a Salamanca, Unamuno recuperou a cátedra e ingressou na vida política da recém-proclamada República, mas a guerra civil espanhola o encontrou ao lado do franquismo.

A Essência da Espanha

En torno al casticismo de 1902 é uma tomada de posição clara e lúcida contra os intelectuais da “geração de 98” que, decepcionados com a perda de Cuba, discursavam sobre a “regeneração da Espanha” sem tocar o povo real.

A Espanha real não é fantasia literária nem visão livresca, mas a vida de milhões de homens que trabalham, pensam, sofrem e cantam suas canções em um pedaço preciso de terra.

A tradição que Unamuno busca é a tradição espanhola eterna, eterna porque humana mais do que espanhola, e por isso a tentativa de europeizá-la ou regenerá-la carece de sentido.

En torno al casticismo representa o primeiro ataque significativo de Unamuno contra o intelectualismo, contra imagens que pretendem passar por realidade, contra ideias de Deus que querem substituir os impulsos místicos dos fiéis, e contra quem não consegue ver a fome e o sofrimento humano além das tabelas e gráficos econômicos e sociológicos.

Para se Libertar do Domínio dos Cavalheiros da Razão

Em A vida de dom Quixote e de Sancho, Unamuno inverte a hierarquia escolástica entre conhecimento e vontade, afirmando que é a vontade, e não a inteligência, que constrói o mundo.

O critério da verdade é a vida, não a lógica, pois a concordância lógica é apenas critério da razão, e não o único meio de avaliar o que é verdadeiro.

Contra “a peste do bom senso que nos mantém todos sufocados e comprimidos”, Unamuno propõe uma desconfiança programática da ciência e das letras que degeneram em literatura aliada das servidões e das misérias.

Dom Quixote tornou-se louco “unicamente por maturidade de espírito”, alimentando sua alma com as façanhas de cavaleiros que aspiravam à glória que permanece, e com isso deixou “um eterno exemplo de generosidade espiritual”.

A Vida não Aceita Fórmulas

Para Unamuno, não existem “o humano” nem “a humanidade” como realidades abstratas — o que existe é somente o homem concreto, cuja existência está “acima de todas as razões”.

A razão e a ciência são incapazes de responder ao sentido da vida, às necessidades volitivas mais profundas e à fome de imortalidade do ser humano.

A desconfiança em relação aos sistemas filosóficos que reduzem tudo à matéria, à ideia, à força ou ao espírito decorre da convicção de que os desejos, as volições, os afetos, os sentimentos e as angústias precedem a inteligência e não nascem dela.

Unamuno: um Pascal Espanhol que Encontra o Irmão Kierkegaard

O desprezo de Unamuno pelas construções doutrinárias se volta também contra o racionalismo teológico tomista, cuja filosofia triunfou precisamente quando “a fé, ou seja, a vida, não se sentia mais segura de si mesma”.

Unamuno declara que nenhum argumento racional jamais o convenceu da existência ou da inexistência de Deus, e que os raciocínios dos ateus lhe parecem ainda “mais superficiais e mais fúteis” do que os de seus adversários.

Em A agonia do cristianismo, Unamuno reconhece em si mesmo “um Pascal espanhol” e havia chamado Kierkegaard de “irmão”, definindo-o como pensador que viveu “em perpétuo desespero interior”.

O Significado da Obra Filosófica de Unamuno

Segundo Pietro Prini, o mérito de Unamuno foi o de colocar no centro de sua reflexão filosófica o sentimento do tempo erosivo, em meio ao otimismo turgente da sociedade burguesa do início do século XX e às filosofias eufóricas da “durée éternelle” e do “desenvolvimento histórico”.

Entrelaçado a essa posição há em Unamuno “o sentido da incerteza ineliminável da vida e da própria fé, que, justamente porque incerta, luta e se esforça por testemunhar-se na ação”.

Os maiores influxos sobre Unamuno vieram de Pascal, Schleiermacher e Kierkegaard, sendo Unamuno considerado o “descobridor” deste último quando Kierkegaard “era ainda um desconhecido na Europa”.