Miguel de Unamuno
Giovanni Reale
Miguel de Unamuno nasceu em 29 de setembro de 1864 em Bilbao, onde cursou o ensino fundamental e médio, tornando-se doutor em língua basca aos vinte anos, em 1884.
Após sete anos de ensino particular em Bilbao, foi contratado em 1891 como professor de grego na Universidade de Salamanca.
Foi eleito reitor dessa prestigiosa universidade em 1901 e no mesmo ano migrou do ensino de grego para o de literatura espanhola.
As primeiras obras de Unamuno foram publicadas no início do século XX, antes de sua obra filosófica mais representativa.
Em torno al casticismo, escrito alguns anos antes, foi publicado em 1902.
A vida de dom Quixote e de Sancho apareceu em 1905.
A minha religião e outros ensaios é de 1910, seguida de uma longa série de ensaios reunidos em vários volumes.
Del sentimiento trágico de la vida, de 1913, é a obra filosófica mais representativa de Unamuno e testemunha lúcida do colapso do otimismo filosófico do final do século XIX e da crise do intelectualismo positivista e idealista.
Segundo Pietro Prini, foi dessa “verdadeira e própria desespera silenciosa” que teve início o contato cada vez mais íntimo do pensamento de Unamuno com
Kierkegaard.
Para Unamuno, diante dos pregadores da onipotência da Ciência, da universalidade do Espírito ou das leis inexoráveis da História, “o verdadeiro ponto de partida de toda a filosofia” está em saber se a morte de cada um de nós é algo definitivo ou não.
Unamuno afirma que “a história da filosofia é inseparável da história da religião”.
Essa “trágica história do pensamento humano” é uma luta entre a razão, que empurra à resignação diante da inevitabilidade da morte, e a vida, que tenta obrigar a razão a seguir seus próprios impulsos.
A vida política e pessoal de Unamuno foi marcada por conflitos com o poder, levando-o ao exílio durante a ditadura de Primo de Rivera.
Em 1914, por ter se manifestado a favor dos Aliados, foi destituído do reitoriado, conservando porém a cátedra até 1924.
Em fevereiro de 1924, após criticar publicamente o rei Afonso XIII e o ditador Primo de Rivera, foi preso e enviado ao confinamento nas Canárias, na ilha de Fuerteventura.
De lá evadiu-se e viveu em Paris os dias mais amargos do exílio, onde escreveu A agonia do cristianismo.
Transferiu-se para Hendaye, na costa basca, em frente a Bilbao, onde permaneceu até 1930, data da queda de Primo de Rivera.
Ao retornar a Salamanca, Unamuno recuperou a cátedra e ingressou na vida política da recém-proclamada República, mas a guerra civil espanhola o encontrou ao lado do franquismo.
Em 1931, com a proclamação da República, tornou-se deputado nas Cortes.
A guerra civil eclodiu em 1936 e Unamuno não ocultou sua opção franquista.
Morreu em 31 de dezembro de 1936;
Ortega y Gasset o homenageou afirmando que “Unamuno está desde sempre em companhia da morte, sua perene amiga-inimiga” e que “toda a sua vida, toda a sua filosofia, foram uma meditatio mortis”, reconhecendo-o como precursor dessa inspiração que triunfa em toda parte.
A Essência da Espanha
En torno al casticismo de 1902 é uma tomada de posição clara e lúcida contra os intelectuais da “geração de 98” que, decepcionados com a perda de Cuba, discursavam sobre a “regeneração da Espanha” sem tocar o povo real.
O povo permanecia indiferente a esses discursos porque, segundo Unamuno, gozava de uma “cristã saúde”.
Unamuno denuncia com aguda previsão os perigos do nacionalismo.
A ideia de Espanha forjada por intelectuais e políticos é uma decoração intelectualista da qual escapa a vida real da gente.
A Espanha real não é fantasia literária nem visão livresca, mas a vida de milhões de homens que trabalham, pensam, sofrem e cantam suas canções em um pedaço preciso de terra.
“Os jornais não dizem nada da vida silenciosa de milhões de homens sem história, que, a cada hora do dia e em todo lugar, levantam-se à ordem do sol e vão a seus campos para prosseguir sua tarefa obscura e silenciosa, cotidiana e eterna […] que lança as bases sobre as quais se erguem as ondas da história.”
O que importa a Unamuno não é uma ideia de Espanha ou a retomada de sua história, mas “o destino individual de cada homem”, por ser “a coisa mais humana que existe”.
Os que falam de regeneração da Espanha esquecem justamente o destino individual dos homens concretos.
A tradição que Unamuno busca é a tradição espanhola eterna, eterna porque humana mais do que espanhola, e por isso a tentativa de europeizá-la ou regenerá-la carece de sentido.
“Deixemos correr os outros, eles também mais cedo ou mais tarde vão parar.”
O povo, mesmo que considerado ignorante, “sabe tantas coisas que os homens públicos ignoram” e “a ignorância é ciência divina: é mais do que ciência, é sabedoria”.
Unamuno pergunta se o camponês de Toboso não vive e não morre mais feliz do que um operário novaiorquino.
“Malditos os benefícios de um progresso que nos obriga a nos esgotar de aflição, de trabalho, de ciência!”
En torno al casticismo representa o primeiro ataque significativo de Unamuno contra o intelectualismo, contra imagens que pretendem passar por realidade, contra ideias de Deus que querem substituir os impulsos místicos dos fiéis, e contra quem não consegue ver a fome e o sofrimento humano além das tabelas e gráficos econômicos e sociológicos.
Para se Libertar do Domínio dos Cavalheiros da Razão
Em A vida de dom Quixote e de Sancho, Unamuno inverte a hierarquia escolástica entre conhecimento e vontade, afirmando que é a vontade, e não a inteligência, que constrói o mundo.
“Ao velho aforismo escolástico 'nihil volitum quin praecognitum', ou seja, 'nada se quer sem que se conheça antes', é preciso acrescentar uma correção, lendo assim: 'nihil cognitum quin praevolitum', ou seja: 'nada se conhece sem que primeiro se o tenha querido'.”
A razão vem depois da ação; a inteligência segue a vontade.
O critério da verdade é a vida, não a lógica, pois a concordância lógica é apenas critério da razão, e não o único meio de avaliar o que é verdadeiro.
“Se a minha fé me leva a criar ou a aumentar a vida, para que exigir outra prova de minha fé?”
“Quando as matemáticas servem apenas para matar, também as matemáticas se tornam mentira.”
“Verdade é tudo aquilo que, nos impulsionando a agir de um modo ou de outro, faz com que o resultado de nossa ação resulte conforme ao nosso propósito.”
Contra “a peste do bom senso que nos mantém todos sufocados e comprimidos”, Unamuno propõe uma desconfiança programática da ciência e das letras que degeneram em literatura aliada das servidões e das misérias.
“Deve bastar-te a tua fé. A tua fé será a tua arte; a tua fé será a tua ciência.”
A “santa cruzada” que Unamuno propugna é o resgate do sepulcro de dom Quixote “das mãos dos bacharéis, dos padres e dos barbeiros, dos duques e dos cônegos que dele se apoderaram”.
O sepulcro do Cavaleiro da Loucura deve ser resgatado “do domínio dos cavalheiros da Razão”.
Dom Quixote tornou-se louco “unicamente por maturidade de espírito”, alimentando sua alma com as façanhas de cavaleiros que aspiravam à glória que permanece, e com isso deixou “um eterno exemplo de generosidade espiritual”.
Unamuno pergunta se, com o juízo em ordem, dom Quixote teria sido tão heroico.
A loucura heróica é contraposta à miséria do bom senso e os livros de cavalaria são postos contra as pretensões do intelectualismo cientificista.
Unamuno traça um paralelo entre dom Quixote e Inácio de Loyola, cavaleiro de Cristo, sugerindo que a aventura de um pode ser vista em paralelo com a aventura do outro.
A Vida não Aceita Fórmulas
Para Unamuno, não existem “o humano” nem “a humanidade” como realidades abstratas — o que existe é somente o homem concreto, cuja existência está “acima de todas as razões”.
“Tudo o que é vital é irracional, enquanto tudo o que é racional é antivital.”
A vida “não aceita fórmulas”; o homem concreto “é absolutamente instável, absolutamente individual” e não é capturável por nenhuma definição teórica.
“Não me submeto à razão, e me revolto contra ela.”
A razão e a ciência são incapazes de responder ao sentido da vida, às necessidades volitivas mais profundas e à fome de imortalidade do ser humano.
“A verdade racional e a vida estão em oposição.”
Segundo René Marill Albérès, Unamuno “tornou a razão 'trágica' e 'agonística', vale dizer, em luta”, sem por isso renunciar a ela.
“O verdadeiro intelectual é aquele que nunca está satisfeito consigo mesmo nem com os outros. A noção de 'trágico' se opõe à de certeza e de comodidade” — René Marill Albérès.
A desconfiança em relação aos sistemas filosóficos que reduzem tudo à matéria, à ideia, à força ou ao espírito decorre da convicção de que os desejos, as volições, os afetos, os sentimentos e as angústias precedem a inteligência e não nascem dela.
As doutrinas filosóficas são tentativas de justificar a posteriori a conduta humana e os aspectos mais importantes da vida.
A própria ciência não é um valor diante do qual se deva se ajoelhar, pois por trás dela há fé na razão.
“A fé na razão está destinada a parecer, no plano racional, tão insustentável quanto qualquer outra fé.”
Unamuno: um Pascal Espanhol que Encontra o Irmão Kierkegaard
O desprezo de Unamuno pelas construções doutrinárias se volta também contra o racionalismo teológico tomista, cuja filosofia triunfou precisamente quando “a fé, ou seja, a vida, não se sentia mais segura de si mesma”.
A existência de Deus não é, para Unamuno, resultado de uma prova racional, mas expressão de uma inextirpável vontade de sobrevivência.
É a descoberta da morte e a incapacidade de se resignar a abandonar a vida — o sentimento trágico da vida — que conduz o homem a “gerar o Deus vivente”.
A insistência na imortalidade é o traço pelo qual Unamuno aprecia mais o catolicismo, apesar do racionalismo da escolástica: a justificação é o eixo do protestantismo; a esperança é o eixo do catolicismo.
Unamuno declara que nenhum argumento racional jamais o convenceu da existência ou da inexistência de Deus, e que os raciocínios dos ateus lhe parecem ainda “mais superficiais e mais fúteis” do que os de seus adversários.
“É verdade, talvez eu nunca possa saber, mas quero saber. Quero, e isso me basta!”
Unamuno declarava-se cristão por sentir “uma forte tendência ao cristianismo” e considerava cristão “quem quer que invoque com respeito e amor o nome de Cristo”.
O Deus de Unamuno fala ao coração; é o Deus de Abraão, de Isaac e de Jacó, e não o Deus dos filósofos e dos teólogos — é o Deus vivo de
Pascal e de
Kierkegaard.
Em A agonia do cristianismo, Unamuno reconhece em si mesmo “um Pascal espanhol” e havia chamado Kierkegaard de “irmão”, definindo-o como pensador que viveu “em perpétuo desespero interior”.
O cristianismo, para Unamuno, não é pensamento, mas vida — fé que morre e ressuscita sem cessar no interior da consciência humana.
Agonia significa vida e luta, segundo a etimologia grega adotada por Unamuno para conceber o próprio cristianismo.
O Significado da Obra Filosófica de Unamuno
Segundo Pietro Prini, o mérito de Unamuno foi o de colocar no centro de sua reflexão filosófica o sentimento do tempo erosivo, em meio ao otimismo turgente da sociedade burguesa do início do século XX e às filosofias eufóricas da “durée éternelle” e do “desenvolvimento histórico”.
Nessas filosofias, o tempo era assumido como permanente enriquecimento do passado dentro de um presente grávido de promessas.
A obra de Unamuno se desenvolveu solitária e frequentemente incompreendida nesse contexto.
Entrelaçado a essa posição há em Unamuno “o sentido da incerteza ineliminável da vida e da própria fé, que, justamente porque incerta, luta e se esforça por testemunhar-se na ação”.
Segundo Nicola Abbagnano, por trás de tudo isso preme “um único e só problema, o da imortalidade, levado até a mais aguda exasperação irracionalizante”.
Abbagnano acrescenta que Unamuno vê na exigência da imortalidade e na fé na imortalidade “a própria afirmação da vida contra a morte” e no caráter irracional dessa exigência “a própria condenação da razão”.
Os maiores influxos sobre Unamuno vieram de Pascal, Schleiermacher e Kierkegaard, sendo Unamuno considerado o “descobridor” deste último quando Kierkegaard “era ainda um desconhecido na Europa”.
Segundo Johannes Hirschberger, através de
Kierkegaard, Unamuno é “um precursor dos movimentos filosóficos, em particular do existencialismo, ligados à atualidade do pensador dinamarquês”.