Montaigne

STAROBINSKI, Jean. Montaigne en mouvement. Paris: Gallimard, 1982 (Coleção Bibliothèque des Idées).


Prefácio

Prefácio

1. Quando o pensamento melancólico de Montaigne denuncia o artifício e o disfarce das aparências em nome do ser, da verdade e da identidade, permanece em aberto a possibilidade de alcançá-los, sobretudo porque a tentativa de pôr a si mesmo à prova nos Ensaios depende da linguagem, cujo valor ele próprio põe em dúvida.

2. O movimento do pensamento de Montaigne nasce de um ato de recusa e pode ser acompanhado pelas consequências lógicas dessa negação inicial, independentemente da ordem em que determinadas ideias e atitudes intelectuais ganham relevo nas sucessivas edições dos Ensaios.

3. A contestação do poder enganador das aparências constitui, em Montaigne e Rousseau, um ato de pensamento e de existência que dá origem a percursos distintos, pois Montaigne reconhece a legitimidade da aparência diante da impossibilidade de alcançar o ser, enquanto Rousseau, inconciliado com o mundo que percebe como hostil, preserva a convicção de que a transparência encontrou seu último refúgio no próprio coração.

4. A denúncia da mentira, comum à antiga retórica moral e a muitas formas contemporâneas de suspeita, permite interrogar Montaigne a partir de inquietações modernas e, ao mesmo tempo, esclarecer a situação de quem o lê por meio do confronto com uma obra viva em sua distância histórica e em sua singularidade.

5. Embora o ceticismo possa conduzir à reabilitação dos fenômenos, à valorização do instante, ao recurso à experiência sensível e, em contexto cristão, ao fideísmo, o percurso singular de Montaigne se revela nas variações pelas quais o pensamento retorna às aparências e aos artifícios inicialmente rejeitados, passando pela amizade, pela morte, pela liberdade, pelo corpo, pelo amor, pela linguagem e pela vida pública.

6. A advertência de Montaigne contra a proliferação de comentários sobre comentários convive com a expectativa de um leitor capaz de imaginar, a partir dos Ensaios, outros ensaios possíveis e de reconhecer, naquilo que o acaso trouxe à escrita, achados que ultrapassam a intenção e o saber de quem escreveu.