STAROBINSKI, Jean. Montaigne en mouvement. Paris: Gallimard, 1982 (Coleção Bibliothèque des Idées).
DIZER O AMOR
LIVROS PROIBIDOS, LIVROS DESEJADOS
1. O capítulo A propósito de Virgílio é para Montaigne a oportunidade de desenvolver da maneira mais completa seu pensamento sobre a relação com outrem, pois o amor, tema central desse ensaio, constitui a relação com outrem por excelência, embora ao lado da amizade e muito mais baixo que esta.
2. É a relação consigo que constitui o ponto de partida, e o movimento é dado por uma série de inversões, pois o que a velhice traz em excesso exige o seu contrário, e o corpo adoentado impõe sua presença incômoda que deve ser contrabalançada em nome da moderação e do domínio de si.
3. Montaigne não passa uma hora acordado ou dormindo sem que se entretenha acerca da morte, da paciência e da penitência, e hoje se defende contra a temperança como outrora se defendia contra a volúpia, pois ela o domina a tal ponto que se sente apoucado, querendo permanecer senhor de si mesmo em quaisquer circunstâncias, pois a sabedoria também tem seus excessos e tanto quanto a loucura precisa ser moderada.
4. O motivo é duplo, pois de um lado está o princípio médico e moral que pretende que se tratem os contrários pelos contrários para compor um justo temperamento, e de outro está a preocupação de não pertencer a uma de nossas peças que reine em excesso, no caso o corpo, de modo que a livre posse de si exclui a própria sabedoria se esta paradoxalmente é excessiva.
5. Daí a permissão que Montaigne se concede de se entregar hoje de quando em quando a certo desregramento, tratando-se apenas de pensamentos de outra idade e da lembrança das loucuras da mocidade, e em face do céu borrascoso e nublado e da morte ameaçadora a diversão consiste em ato de memória.
6. Enquanto seus olhos reconhecerem a bela estação que não mais existe para ele, Montaigne a contemplará de quando em quando, e ainda que fuja de seu sangue e de suas veias não quer que se apague a imagem em sua memória.
7. Exemplo suplementar da diversão preconizada no capítulo anterior, esse retorno ao passado é uma trapaça e um remédio tomado em sonho, pois é em vão que a arte luta contra a natureza, e em todo o movimento dessa página o recurso é interior, sendo pensamentos, imagens e recordações que Montaigne chama em seu socorro.
8. Apenas uma adjunção de 1595 cita a autoridade de Platão para justificar outro método no qual a atenção se voltaria para o espetáculo exterior, recomendando aos velhos que assistam aos exercícios e aos folguedos da juventude e recordem as graças dos verdes anos, mas esse é um exemplo recolhido no decorrer de uma leitura e não um remédio considerado por Montaigne.
9. Por sedutora que seja a compensação imaginária em que despertando as imagens do passado a consciência se nutre de sua própria substância, ela jamais mascarará a ausência das volúpias reais, e esses caprichos da fantasia são apenas um último recurso, pois nada supera o prazer em ato.
10. Montaigne aproveita os menores prazeres que encontra e sua filosofia atém-se aos atos e ao presente, não se subordinando à fantasia, e ele bem quisera ainda jogar pião, desejando encontrar no instante atual o antídoto contra os assuntos graves sobre os quais não podemos meditar muito tempo sem cansar.
11. Ao peso que o acabrunha desejaria ser capaz de opor os jogos da leveza e os jogos que se jogam com coisas leves, e a própria ideia da presença, do jogo e do desejo da alegria despertam em Montaigne a esperança de um encontro e o voto da relação com outrem.
12. Montaigne iria de bom grado buscar no fim do mundo um bom ano de verdadeira tranquilidade e alegria, ele que só tem como objetivo viver de bom humor, e se há por aí em França ou alhures alguém que aprecie a boa companhia em viagem ou no lar, que se adapte a seu humor e a quem ele se ajeite, que lhe comunique logo, pois levar-lhe-á os Ensaios em carne e osso.
13. É então o comércio de amizade e de conversação que Montaigne primeiro chama em seu socorro, e ainda que fosse um desejo destinado a permanecer sonho vê-se bem por que razões a imagem de alguém ou de uma companhia cuja presença terá mais eficácia do que tudo aquilo que a imaginação solitária pode oferecer provoca a esperança da alegria tão necessária a um homem que está doente e envelhecendo.
14. Para ele o que esperar do exclusivo tête-à-tête consigo mesmo senão muito pouca coisa, se se deve acreditar na frase em que a auto-estimulação permanece sem efeito, pois pode fazer-se cócegas mas não consegue mais arrancar um riso deste pobre corpo.
15. Na estreita aliança que une o espírito ao corpo é impossível que o espírito possa fugir à velhice quando a saúde do corpo está enfraquecida, e a bela imagem do agárcio verdejante e florescente em árvore morta exprime um voto irrealizável.
16. O espírito está tão intimamente ligado ao corpo que se desvencilha continuamente de mim para segui-lo e participar de sua decadência, e Montaigne o chama de lado e o adulá, mas em vão, pois o espírito não é um interlocutor independente e portanto a assistência de outrem é indispensável a quem quer livrar-se do peso moroso da idade e da doença.
17. Apraz-lhe uma sabedoria jovial e sociável, pois a alegria ainda junto com a sociabilidade reclama a comunicação, e na falta de poder levar os Ensaios em carne e osso a alguém ou alguma boa companhia que lhe seria preciso descobrir, Montaigne contenta-se com o comércio que mantém com seus contemporâneos por meio do livro que escreve.
18. Mas tão logo evocada essa relação Montaigne a descreve nos termos de uma oposição, pois sua atitude que consiste em ousar dizer tudo o que ousa fazer constitui a exceção, e os outros defendendo as aparências não chegam à mesma tranquila e inteira igualdade do dizer e do fazer.
19. Em uma época de insinceridade Montaigne é o único a confessar-se com total franqueza, e Deus queira que essa sua licença excessiva decida os outros a se expandirem um pouco mais, levando um pouco menos em conta essas virtudes timoratas nascidas de nossas imperfeições.
20. Os males da alma ao contrário tornam-se menos visíveis com a agravação e o mais doente é quem menos os sente, e eis por que é preciso não raro examiná-los de perto arrancando-os sem dó do fundo do coração.
21. É uma das inúmeras declarações em que Montaigne se aplica em mostrar a que ponto difere de seus contemporâneos que todos seguem caminhos contrários, mas em seu movimento de reprovação polêmica determina e especifica seu projeto de escritor e sua vontade de se dar a conhecer por aquilo que é.
22. Nós o vimos comprazer-se muitas vezes em assim tomar distância e em colocar-se à parte, mas para chamar sobre si um olhar que o alcançará em seu ser verdadeiro, o qual ele tem a preocupação de representar da maneira mais exata, pois é preciso discernir seu vício e bem analisá-lo para o contar, e é preciso estar acordado para contar um sonho.
23. Ora aqui o apelo se precisará de maneira singular, pois ele se dirige às damas e espera em razão do tema que tratará ser lido em um lugar mais secreto do que o salão, lamentando que as senhoras da sociedade encarem seus Ensaios como obra de salão e esperando que este capítulo venham a ler no toucador às escondidas.
24. Montaigne confessa aliás que aprecia sua companhia a sós, pois em público ela carece de sabor e deixa de ser um privilégio, e depois de ter voltado seu olhar para sua própria juventude não pôde contentar-se apenas com o ato de memória, imaginando uma companhia que lhe conviesse e à qual correria a unir-se se fosse convidado.
25. Seu único verdadeiro recurso contudo são os ensaios que escreve, e graças ao livro levará sua leitora para a intimidade do toucador, sendo a oferta de leitura uma sedução simbólica e o comércio mais próximo do comércio amoroso.
26. Anunciando seu tema, o ato sexual, e anunciando-se consubstancial à sua obra, ele transpõe um limiar proibido e toca de leve um corpo por pouco que o volume penetre em um quarto onde a leitora costuma ficar só e entregue aos seus segredos.
27. Semelhante intimidade não terá nada de ilícito já que coincide com a separação mais radical, os preparativos da morte, e jamais talvez Montaigne terá posto os contrários em mais estreita relação do que quando escreve estas linhas imediatamente depois daquelas que acabamos de citar, pois em nossos adeuses exageramos em geral o amor às coisas que abandonamos às vésperas de partir, e são estes os seus últimos abraços.
28. É tanto que libera a possibilidade de deixar falar eros, e nesse capítulo o livro oferece-se então conjuntamente como mensageiro de morte e de amor, pois o adeus à vida autoriza nada calar daquilo que já no imperfeito constituía o calor da vida.
29. O que se inflamará nesse capítulo é um último fogo, e as imagens calóricas se insinuarão quase em cada parágrafo para conjurar o frio que se anuncia também a todo momento, e os abraços rememorados ou vagamente ainda esperados são os seus últimos abraços.
30. Nenhuma frivolidade portanto no que se traça sobre fundo de morte, pois pode-se falar dos laços carnais mais íntimos quando todos os laços estão prestes a desatar-se, e a dialética de Montaigne aparece aqui em plena evidência, pois a perda iminente confere um valor infinito ao que se deixa ainda dizer e possuir e reciprocamente a mais livre das palavras se autoriza da morte para nada ocultar dos mais secretos pensamentos.
31. Em primeiro lugar trata-se da linguagem e mais uma vez de uma discordância entre o dizer e o fazer, pois a primeira das coisas de que fala Montaigne a propósito da sexualidade é a proibição que impede de falar sobre ela.
32. Há então à primeira vista um laço muito estreito entre amor e palavra, mas é um laço paradoxal já que quanto menos se fala das coisas do sexo mais se pensa nelas, pois é de se observar em verdade que as palavras que menos pronunciamos são as que melhor conhecemos.
33. Essa quaisquer que sejam a idade e os costumes ninguém a ignora como não ignora o pão, e imprimiu-se em nós sem que fosse preciso ouvi-la ou vê-la escrita, e o sexo que mais pratica a ação é o que mais discreto se mostra.
34. O que há de notável é que cercamos o ato de silêncio e deste não o tiramos nem mesmo para acusá-lo e condená-lo, e só o criticamos com perífrases e metáforas, não ocorrendo com ele o que se verifica com os livros proibidos os quais justamente por isso tanto se leem.
35. A sexualidade é simultaneamente onipresente e protegida pelas conveniências que pretendem que a silenciemos, e a se crer em nosso texto ela própria está atada a essas palavras que se calam, assemelhando-se a uma escrita interior impressa mas não expressa que não se desenvolve em voz e figura.
36. Esse criminoso que só ousamos criticar com perífrases e metáforas Montaigne se apressa em compará-lo a um livro proibido, o que põe imediatamente em movimento o poder contrário, o desejo de adquirir e de ler o texto proibido.
37. A máscara no caso consiste em silenciar sobre a sexualidade e em não a nomear, mas qual é em sua essência essa realidade oculta que no entanto não é segredo para ninguém, e o leitor não tardará a perceber que Montaigne lhe propõe pelo menos uma dupla resposta, pois é uma palavra reprimida mas é apenas um ardor fugidio.
38. Prestemos atenção ao primeiro desses aspectos, pois o amor é a linguagem oculta e são as palavras impressas em nós, e cabe às Musas e à mais alta poesia exprimir-lhes toda a força, pois só a obra de linguagem pode manifestar o imaginário e figurar a parcela de ficção que confere ao amor todo o seu valor.
39. Daí o recurso a Virgílio que se anuncia no título do ensaio, título alusivo mas ligado a um propósito central, pois quem sonegasse às Musas a inspiração amorosa roubar-lhes-ia seu mais belo tema e o mais nobre, e quem fizesse com que o Amor perdesse a colaboração da poesia tê-lo-ia enfraquecido privando-o de sua melhor arma.
40. Por mais esgotado e lardo que se encontre Montaigne ainda experimenta uns poucos efeitos dos entusiasmos idos, mas na medida em que pode assegurá-lo o poder e o valor desse deus apresentam-se mais vivos e animados na poesia do que na realidade.
41. O verso do poeta tem dedos acariciadores porque a poesia encerra efetivamente algo mais amoroso do que o próprio amor, e Vênus nua viva e palpitante não é tão bela como no-la pinta Virgílio, pois fala e como ele hesita a deusa envolve-o docemente em seus belos braços mais brancos do que a neve e aquece-o num amplexo.
42. A admirável cena erótica representada no texto virgiliano não é apenas obra de linguagem, pois é ademais encetada pelo discurso dos esposos, e o ardor do corpo e o langor que se segue ao abraço estão misturados a uma conversação.
43. Todas as imagens do ardor se desenvolvem entre a apresentação poética da palavra trocada e a evocação do raio que ilumina e corta as nuvens ao descer do céu, e a chama amorosa que atravessa um corpo divino é traçada como o acontecimento que simultaneamente resulta de um ato de linguagem e assemelha-se a um fenômeno natural.
44. Se como diz Juvenal citado mais acima por Montaigne o verso pode ter dedos é porque a palavra pode fazer-se corpo e penetrar o corpo, e essa pintura do amor pode superar o próprio amor.
45. Havia pouco Montaigne parecia reprovar as proibições que fazem com que só usemos criticar esse ato com perífrases e metáforas, no entanto eis que dá sua preferência ao que nos oferece do amor a pintura da poesia.
46. Ademais depois de ter acrescentado ao texto de Virgílio uma bela passagem de Lucrécio sobre os amores de Vênus e de Marte, ele louva os dois autores por não terem dito tudo do ato amoroso, e essa pintura que Montaigne coloca acima da própria realidade do amor deve sua superioridade ao que permanece velado e ao que nela arrastando a imaginação respeita a parte de ilusão de que o amor não poderia prescindir, pois a elipse mostra melhor o que cala.
47. Os versos desses dois poetas que tratam com distinção e discrição da lascívia parecem a Montaigne esclarecê-la e realçá-la, pois as senhoras não cobrem os seios com gazes nem ocultam os padres certos objetos sagrados aos olhares curiosos, e os pintores dão relevo a seus quadros com as sombras que aplicam.
48. E não se diz que o sol e o vento são mais fortes por reflexão do que diretamente, mas há coisas que só ocultam para que melhor se admirem, pois quando Ovídio escreve toda nua apertei-a contra o seio Montaigne sente-se castrado, e Marcial por mais que exiba as seduções de Vênus não a consegue apresentar na plenitude de seus encantos.
49. Quem tudo diz empanturra-nos e nos repugna, e quem ao contrário se empenha em ser discreto sugere-nos mais do que comporta a realidade, e há algo traiçoeiro em tal modéstia, e é o que fazem Virgílio e Lucrécio indicando apenas um belo caminho para a nossa imaginação, pois a ação e a descrição valorizam-se com a maneira de falar.
50. O poder que na poesia do amor supera o amor e que nos textos de Virgílio e de Lucrécio comporta algo mais amoroso do que o próprio amor alia-se à reserva que para nos oferecer Vênus mais inteira persiste em velá-la e em nem tudo dizer.
51. Eis que a força da linguagem do amor que Montaigne critica seus contemporâneos de dissimularem por pudicícia hipócrita lhe vem de ser ela própria uma linguagem dissimuladora que se utiliza do claro-escuro para cativar a imaginação, pois a plenitude de nosso sentimento tem necessidade de um objeto no qual algum último segredo parece esquivar-se.
52. Ora a essa linguagem que instiga o amor pela astúcia de sua reticência Montaigne atribui o mérito da presença, e aí descobre não apenas o pensamento presente mas também o próprio corpo, e aí a palavra já não é vá loucura nem alusão.
53. Quando rumina os vocábulos de Virgílio e de Lucrécio ele prova de uma linguagem rica, plena e naturalmente vigorosa, pois tudo o que dizem é epigrama e não vem este apenas na cauda mas também na cabeça, no estômago e nos pés, e o que pintavam os antigos não decorria da habilidade e sim da impressão sincera que sentiam.
54. É igualmente o caso de Horácio que vê mais clara e profundamente, e nas cenas amorosas de Virgílio e de Lucrécio mesmo quando se trata de ficções fabulosas o sentido ilumina e realça as palavras fazendo-as não de vento mas de carne e ossos, e significam mais do que dizem.
55. Se cremos em Montaigne a força de encarnação e de sexualização da linguagem não se distingue do excesso de significação que se acrescenta como uma aura a cada palavra e que desse modo transpõe o intervalo que Montaigne vê quase sempre interpor-se entre a palavra simples vento e a coisa.
56. Montaigne que tantos traços aproximam da arte maneirista condena uma poesia que cultivasse a maneira em seu sentido primeiro de habilidade e da qual não resta mais que vento, e contra os poetas que cultivam a locução ou a cauda epigramática protesta que se fosse do ofício esforçar-se-ia por tornar natural a arte como eles se esforçam por artificializar a natureza.
57. Mas quanta arte é preciso para dar vida ao discurso amoroso, e a poesia que melhor diz o amor é ao mesmo tempo aquela cujas palavras são habitadas pelo sentido, aquela que se faz carne e ossos pelo movimento mesmo em que o significar ultrapassa o dizer, e aquela que acrescenta ao amor físico o componente imaginário que ao velá-lo o transfigura.
58. Uma mesma mais-valia faz com que nas palavras a significação exceda em relação ao seu sentido primeiro e que o amor servido pelas musas prevaleça sobre a própria essência do amor, e esse acréscimo é o resultado paradoxal de uma reserva, de um impedimento que a cultura interpõe entre nosso desejo e a satisfação natural que é seu fim.
59. Daí esse elogio inesperado em um inimigo das máscaras do logro, da ilusão e das manobras do pudor ou da coqueteria que mantêm a esperança desperta, pois ensinemos às nossas mulheres a se valorizarem, a nos divertirem e mesmo se divertirem à nossa custa.
60. A duração do desejo e o gozo que a isso se liga beneficia-se de tudo que retarda a conquista e que adquire iguaria de itinerário alegórico, pois quem só aprecia o gozo, quem só quer tirar a sorte grande e quem só ama a caça pelo que caça não é de sua escola, e quanto maior número de degraus mais alto se eleva quem os galga e mais honrado é.
61. Deveríamos comprazer-nos em ser guiados quando pleiteamos os favores da mulher como quando penetramos nesses palácios suntuosos cujo acesso é dificultado por inúmeras galerias e complicados corredores, e isso só nos traria vantagens pois faríamos paradas em caminho e nosso amor duraria mais, ao passo que quando o desejo e a esperança se extinguem nada mais pode interessar-nos.
62. É preciso progredir em amor como em um labirinto e é preciso aumentar o amor para além da instantaneidade decepcionante do prazer físico, daí a passagem pelo discurso poético e a caminhada através das galerias do palácio metafórico.
63. Montaigne prefere um amor mesclado à ficção porque sabe muito bem avaliar esse ato quando ele se reduz apenas a sua realidade física, e não subsiste senão seu aspecto de ardor passageiro e sempre renascente.
64. Em uma passagem da Apologia de Raimond Sebond Montaigne parece prefigurar a teoria enunciada por Freud em Além do princípio do prazer, pois o desejo visa aplacar um mal-estar e redescobrir a ausência de sofrimento e a calma.
65. Essa comichão e essa excitação que nos causam certos prazeres afiguram-se a um tempo excesso de saúde e de mal-estar, e essa volúpia que nos atrai e a que cedemos apesar do que comporta de irritante não terá por objeto aplacar em nós a sensação.
66. O impulso que nos leva às mulheres obedece tão-somente à necessidade de aplacar o mal-estar que produz em nós o desejo ardente e excessivo, e não visa a outra coisa senão saciá-lo extinguindo a febre e devolvendo-nos a calma.
67. Ora a busca do repouso não conhece nenhum repouso, pois não há paixão mais imperiosa do que essa, e por um encadeamento que a frase de Montaigne procura imitar o amor não pode fixar-se em um objeto permanente, pois é verdade que se o amor não é violento não é amor e que a violência e a constância não andam juntas.
68. Mesmo em seu aspecto físico o amor é antes de mais nada um desejo violento do que nos escapa, mas contrariamente aos animais o homem não se atém apenas à satisfação corporal e a ela mistura sempre o imaginário.
69. Essa paixão do amor não é apenas física e sobrevive à satisfação, e não se pode determinar que tenha um mesmo objeto sempre e um fim previsível, prosseguindo sem cessar em sua marcha e estendendo seu domínio.
70. E por certo não há necessidade da companhia dos livros e dos poetas para conhecer a exorbitância do amor, e se Montaigne atribui às mulheres nesse domínio um apetite insaciável é menos por misoginia do que para insistir no contraste entre a castidade imposta às mulheres e a realidade do desejo que as atormenta como aos homens.
71. Não há palavras, ato ou malícia que não conheçam e melhor do que nossos livros, têm isso no sangue, e todo o movimento do mundo tem essa conjunção dos sexos como objetivo, encontrando-se em toda a parte e sendo o centro para o qual tudo converge.
72. Onipresente e irresistível, a sexualidade quando se lhe subtrai a parte da fantasia e da valorização cultural reduz-se a uma função natural e ao mais vulgar dos amores, e à exaltação do amor pelo pensamento neoplatônico é preciso opor o que dele diz o saber médico o qual desde a Antiguidade nele não via mais que uma evacuação entre outras.
73. Deixando os livros de lado e encarando as coisas com simplicidade unicamente do ponto de vista material, Montaigne acha que o amor não passa de uma vontade de possuir o fruto de nossos desejos e que Vênus não é senão o prazer de aliviar certos órgãos, satisfação que outras partes do corpo também exigem, e sede e prazer que só se tornam vícios quando carecemos de moderação.
74. Que distância entre o amor reduzido à sua expressão material e a elevada figura que lhe dão os livros, e em primeiro lugar com Platão que a volúpia física é uma sujeição humilhante que nos rebaixa ao nível dos animais.
75. Montaigne crê que Platão está com a razão quando afirma que o homem foi criado pelos deuses para servir-lhes de brinquedo, e pensa que foi por zombaria que a natureza nos outorgou essa faculdade a mais desregrada e a mais comum, querendo com isso colocar no mesmo nível os loucos e os sábios, o homem e os animais.
76. É sem dúvida um sinal de nossa vaidade e deformidade como também um comprovante do pecado original, mas essa referência a Platão e ao dogma cristão da queda só aparece de maneira fugidia no arrebatamento de uma redução depreciativa.
77. O que se reduz à natureza não demora a encontrar na própria natureza uma justificação plena, e o leitor da Apologia bem sabe que uma sabedoria mais profunda que a do homem pode manifestar-se no comportamento dos animais, e o que nos emparelha aos animais não nos degrada portanto.
78. O texto prossegue especialmente em suas últimas adjunções como uma defesa em favor das operações físicas do amor, pois por um lado a natureza nos impele à união sexual ligando ao desejo a nossa mais nobre, útil e agradável função e por outro induz-nos a desrespeitá-la, a tachá-la de desonesta, a nos envergonhar dela e a propugnar a abstinência.
79. Seremos tão estúpidos assim para qualificar de brutal o ato ao qual devemos a vida, e consideramos que existimos em consequência de um erro cometido.
80. Depois de haver situado o melhor do amor no verbo poético em versos de Virgílio e de Lucrécio esse consentimento na materialidade da vida sexual pode fazer-nos crer que Montaigne se acomoda à coexistência dos contrários e à sua antinomia persistente.
81. Mas no decorrer de nossa leitura damo-nos conta de que é a aceitação do prazer físico em sua materialidade e sua universalidade que faz Montaigne voltar aos versos desses dois poetas e que o faz desenvolver o elogio da imaginação, da reserva e do cerimonial galante, pois o prazer físico reduzido ao que dele experimenta o corpo é rápido e fugidio.
82. Isso Montaigne nos diz aí introduzindo de passagem uma confidência pessoal, pois não sabe mais quem dizia na Antiguidade que desejara ter um pescoço de grou bem comprido para mais demoradamente apreciar o que engolia, e um tal desejo se justificaria melhor quanto ao prazer amoroso demasiado rápido e repentino mesmo para os que como ele gostam de satisfações imediatas.
83. Para ampliar as sensações cumpre prolongar os preâmbulos, e entre espanhóis e italianos qualquer sinal da mulher é uma recompensa para o pretendente, um olhar, um abano de cabeça, uma palavra, um gesto.
84. O amor é uma paixão em que a uma pequenina dose de seriedade se misturam muita vaidade e fantasia, e cumpre atentar para isso.
85. Tal é o caminho que conduz à reabilitação da aparência, pois o ensaio começara como tantos outros capítulos por uma crítica da dissimulação, silencia-se sobre as coisas do amor e não se ousa nomeá-las, e entretanto a linguagem do amor entre aqueles que a levam à sua mais eficaz expressão reserva sombras e introduz ainda um leve véu.
86. Arrancaremos esse véu e aceitaremos o amor em sua realidade natural, mas a volúpia tendo uma pequenina dose de seriedade é fugidia e inapreensível, e se a essência se furta não se deve acusar desta vez a falha de nossa preensão, pois essa falta de substância constitui a própria realidade do prazer físico.
87. Quem quer ampliar as sensações deve mesclar-lhes vaidade, ilusão, gradação e essa demora na distribuição que as damas fazem de seus favores, e a partir daí embora inimigo do parecer Montaigne não hesita em lhes aconselhar a duplicidade, que aceitem os amantes enquanto representam a comédia da castidade.
88. Montaigne prega-lhes pois a abstinência como aos homens, e se o século é por demais inimigo da castidade que ao menos ajam com discrição e modéstia, e que quem não se esforça por salvar a consciência salve ao menos a reputação, e se o fundo pouco vale preserve-se a aparência.
89. Por certo a aparência assim preconizada é uma aparência refletida e sem ingenuidade, de maneira nenhuma enganada por seu jogo, pois a reputação essa coisa tão vã merece contudo ser protegida.
90. Na digressão sobre a arte de escrever que dá sequência à citação de Lucrécio Montaigne fala da fuga do pensamento quase nos termos em que fala da fuga da volúpia, e chega ele a isso por etapas.
91. Proclama em primeiro lugar sua vontade de independência em relação aos livros e a toda autoridade anterior, vontade que deve acomodar-se à inferioridade da língua francesa diante das línguas antigas, pois quando escreve não recorre nem aos livros nem à lembrança que deles tenha de medo que influam na sua maneira de escrever, sem contar que os bons autores o desesperam e desanimam.
92. A ambição de Montaigne como sabemos é de realizar a perfeita apropriação recíproca entre seu livro e ele próprio, pois escrito alhures fora talvez melhor mas não tão seu, e seu objetivo principal bem como seu mérito está em ser a sua imagem exata.
93. Ora esse projeto é contrabalançado pela admiração que Montaigne consagra a certos autores cujo pensamento se apodera dele e cuja influência alienante é poderosa demais, pois é-lhe mais difícil esquecer Plutarco, autor tão universal e completo que em todas as ocasiões por extraordinário que seja o assunto ele se intromete no trabalho alheio oferecendo generoso auxílio e sugerindo as mais variadas e belas soluções.
94. De maneira mais geral Montaigne reconhece que tem forte tendência para a imitação, o que o faz falar como aqueles com quem acaba de se encontrar, e ei-lo a partir daí o mais longe possível da exclusiva semelhança consigo mesmo que deseja.
95. Como conciliar essa perpétua desapropriação com o desejo de escrever um livro que seja meu, e certamente pelo reconhecimento da inevitável dependência e do crédito que se oferece às palavras dos outros, e além disso pela preocupação de evitar os assuntos mais batidos de medo de os tratar a expensas de outrem.
96. Mais vale falar de qualquer coisa e daquilo que nunca interessou a ninguém, pois qualquer tema lhe serve e uma simples mosca pode ser pretexto, e Deus queira que o que está ventilando agora não provenha de fonte estranha, e pouco importa o começo pois vai encadeando as ideias umas nas outras.
97. O remédio para a desapropriação consiste portanto em uma extrema disponibilidade na qual a ocorrência fortuita, uma mosca, a volátil vontade do prazer, pode servir de ponto de partida por via de encadeamento para a universalidade das questões que o espírito se coloca.
98. E a plena e definitiva desforra da adequação a si mesmo não, pois resta ainda na consciência devolvida a si mesma um perpétuo risco de interrupção e uma fuga incessante, e o melhor não se deixa apreender e dizer.
99. Finalmente é no interior de si mesma e em seu âmago que a consciência experimenta simultaneamente a iluminação e a obscuridade, a posse e o despojamento, a apreensão e a perda.
100. Desagrada-lhe contudo que as mais profundas reflexões, as mais ousadas e as que mais aprecia surjam ao acaso do devaneio quando menos as espera e quando não as pode registrar, e é em geral quando está a cavalo, à mesa ou na cama que lhe ocorrem, principalmente a cavalo.
101. Em semelhantes circunstâncias acontece-lhe como quando sonha, e procura fazer com que a memória retenha os pensamentos mas no dia seguinte já não sabe sequer se eram tristes, alegres ou estranhos, e em vão se esforça por conservá-los na lembrança pois quanto mais busca mais esquece.
102. Das ideias que lhe vêm à mente guarda apenas uma vaga recordação, exatamente o suficiente para que se canse e atormente, e o sonho se apresentou mas permaneceu elusivo e inapreensível, e dele a memória nada conservou.
103. O amor cantado por Virgílio, a língua latina e as visões do sonho são os representantes multiformes de uma presença já desaparecida que se tentará inutilmente reconquistar ou fixar, e ela habita um passado perdido.
104. Resta dizer esse fracasso para que o esquecimento do sonho ou do pensamento fugazes se torne por sua vez essa mosca e esse nada volúvel e informe a que o ensaísta poderá sem imitar ninguém associar seu argumento a fim de revelar-se e de compor seu livro.