STAROBINSKI, Jean. Montaigne en mouvement. Paris: Gallimard, 1982 (Coleção Bibliothèque des Idées).
O MOMENTO DO CORPO
AS CONFISSÕES ESTUDADAS
1. Embora Montaigne não queira assemelhar-se aos eruditos e aos sábios que classificam sistematicamente os gêneros e as espécies, é possível reconhecer no longo ensaio conclusivo Da experiência uma organização a um só tempo rigorosa e maleável.
2. Depois de uma introdução muito ampla sobre a noção de experiência e sobre as dificuldades da interpretação em matérias religiosas e legais, Montaigne coloca o princípio do estudo auto-referido que ele substitui às disciplinas aceitas e em seguida prepara o leitor para ouvir o que será a sua conclusão.
3. Montaigne estuda a si mesmo mais do que qualquer outra coisa e esse estudo constitui toda a sua física e a sua metafísica, e nesse grande todo abandona-se despreocupado e ignorante à grande lei que rege o mundo, conhecê-la-á suficientemente quando lhe sentir os efeitos.
4. Portanto é ao sentir que Montaigne transfere a tarefa do saber, e o papel do corpo anuncia-se fundamental, pois por certo cabe também à alma sentir a si mesma intuitivamente segundo uma das faculdades reservadas ao senso interno.
5. O sentimento em sua acepção mais ampla consiste em perceber tanto os pensamentos quanto as modificações corporais, mas conhecer-se por sentimento exclui a intervenção da razão discursiva, e Montaigne julga-se pelo que sente realmente e não pelo raciocínio.
6. Sentir é a condição necessária do julgamento, e não apenas a observação de si não tem fim mas também observar-se lhe permite conhecer e advertir os outros, e na vida prática essa faculdade o teria tornado capaz de ser o conselheiro de um príncipe a quem teria defendido contra a perfídia de seus aduladores.
7. Contudo a descrição de si não deve limitar-se às faculdades da alma, pois para ser completo é preciso manter registro das aptidões e dos hábitos corporais, e Montaigne assinala muito claramente essa subdivisão.
8. Todo este ensopado de frases jogadas algo confusamente constitui uma espécie de registro das experiências de sua vida, e no que concerne à saúde do espírito fornecem elas muitos exemplos instrutivos, mas quanto à saúde do corpo ninguém há de falar com maior experiência do que ele e oferece-a em toda a sua pureza não alterada por artifícios ou preconceitos.
9. Com certeza esses dois temas distinguidos por preocupação de clareza, a saúde da alma e a saúde corporal, serão objeto do esforço de Montaigne em reuni-los e em mostrar-lhes a conexão necessária e seus mútuos serviços, mas ele o fará mais tarde quando se houver desobrigado plenamente da descrição de suas condições corporais.
10. A conclusão do ensaio conciliadora e apaziguada será consagrada à afirmação serena dos deveres recíprocos da alma e do corpo cuja harmonia conjugal torna possível o gozo da vida, e ele poderá recorrer a um de seus quiasmas mais expressivos ao dizer que não pode ventilar tão singelo tema sem se inclinar fortemente para os prazeres presentes da lei humana em geral, intelectualmente sensíveis e sensivelmente intelectuais.
11. Mas então terá sido preciso antes de chegar aí dizer o corpo, exibir-lhe sem falso pudor as principais características, ainda que fosse apenas para estabelecer correspondência quase simetricamente com o que Montaigne acaba de dizer de suas faculdades internas.
12. Evidentemente não é a primeira vez que Montaigne se empenha em montar de sua pessoa um retrato geral e que procede segundo a bipartição tradicional da alma e do corpo, pois já o fez especialmente em uma longa seção do ensaio Da presunção mas em ordem inversa.
13. Começara então pelo que será a conclusão da Experiência, isto é, pela afirmação da estreita união de nossos dois elementos principais, depois iniciando seu desenvolvimento pela questão da beleza descrevera bem rapidamente seu corpo e enfim explicava-se sobre sua alma, suas faculdades e suas paixões, insistindo sobretudo em sua ausência de memória.
14. A subdivisão e a transição entre coisas do corpo e qualidades espirituais eram muito bem marcadas pelo começo de dois parágrafos sucessivos, pois Montaigne diz que suas qualidades físicas estão em suma perfeitamente de acordo com as de sua alma e que sua alma ama a liberdade e a independência e está habituada a conduzir-se a seu bel-prazer.
15. Na Experiência não apenas a ordem das matérias está invertida mas os desenvolvimentos descritivos são também de uma extensão proporcionalmente inversa, pois aí se tratará mais longamente do corpo do que da alma de Michel de Montaigne.
16. Como se vê, dizer o corpo não é de modo algum para Montaigne uma empresa nova que teria reservado ao ensaio final de 1588, mas jamais entretanto a isso terá consagrado tão longa seqüência de páginas, e elas se exibem no próprio centro do ensaio.
17. A importante adjunção póstuma de 1595 ao capítulo Do exercício comportará a justificação dessa franqueza total, pois pintar-se é principalmente pintar suas cogitações, mas não é preciso limitar-se a isso.
18. Não é a título apenas metafórico que Montaigne acrescenta que se mostra por inteiro como uma peça anatômica cujas veias, músculos e tendões divisamos em seus lugares, e que não são apenas seus gestos que escreve mas é ele mesmo, é a sua essência.