4 Corpo

STAROBINSKI, Jean. Montaigne en mouvement. Paris: Gallimard, 1982 (Coleção Bibliothèque des Idées).

O MOMENTO DO CORPO

O IMPUDOR

1. Montaigne reconhece a necessidade da relação com outrem enquanto exprime quase simultaneamente seu desprezo pela opinião exterior, fazendo coincidir um apelo e uma ruptura, pois se mostra para ser visto mas exibe o maior desdém pelo julgamento que dele farão.

2. Com a condição de ser reconhecido tal como é, a reprovação ou o louvor lhe são indiferentes, e os outros são livres para condená-lo, pois quanto a seu próprio valor declara-se o único juiz qualificado.

3. Afirmar-se descobrindo-se para outrem mas negando-lhe qualquer consideração é fazer coincidir um apelo e uma ruptura, e a altivez de que Montaigne se acusa está fora de propósito em uma proclamação dos direitos do impudor, que alicia e desqualifica simultaneamente o espectador.

4. A atitude de Montaigne traz um componente exibicionista, considerada sumariamente um narcisismo que toma por espelho o olhar da testemunha, pois o impudor força a atenção e o sujeito desnudado, tendo imposto aos outros uma imagem provocante, encontra aí com que reforçar o sentimento incerto que tem de sua própria existência.

5. Vê-se intervir conjuntamente a intimidade forçada e o afastamento, a necessidade de comunicação e a recusa provisória da reciprocidade, e a relação funda-se no circuito de uma única e mesma imagem entre o escritor e seu leitor, não sendo este muito mais que um relê imaginário e virtual da consciência de si.

6. O valor que o eu se atribui é muito ambíguo, pois de um lado afirma explicitamente sua importância privilegiada e sua independência e de outro imputa a si mesmo uma insuficiência radical que o obriga a buscar no exterior a confirmação de sua singularidade e o reforço de sua figura por demais precária.

7. Singular autarquia que não pode prescindir de recorrer à exibição, pois o erro dos outros ou sua indiferença colocariam em perigo a imagem a que Montaigne confia sua cartada máxima, e para evitar esse prejuízo que o atingiria em sua existência segunda ele toma o partido de se descobrir até em suas cicatrizes e em suas deformidades.

8. O projeto de se mostrar por inteiro e nu formula-se desde a advertência Ao leitor e será reformulado em muitas outras circunstâncias com uma energia veemente, devendo-se jogar fora esse pobre farrapo que disfarça os nossos costumes.

9. Sua justificação é dupla, pois de um lado trata-se de fazer justiça à natureza corporal que nos constitui, sendo devedores de nosso ser ao ato sexual, e de outro o olhar de Deus tem acesso sem dificuldade a essas realidades do sexo e do corpo das quais tentamos fazer mistério.

10. O impudor consiste em desvelar no homem o que o liga à natureza e o emparelha aos animais, mas de outro lado vai ao encontro do conhecimento divino, e o homem tem ao mesmo tempo o dever de confessar sua animalidade e o poder de conhecer a si mesmo sub specie divinitatis.

11. O impudor escrito de Montaigne se beneficia de uma dupla justificação, pois o que o impudor mostra pertence ao reino da natureza e o olhar que ele aí lança se aparenta ao olhar de Deus, e que aí se trate de estratégia literária e não de um comportamento vivido basta lembrar a declaração que coloca singular distância entre o homem do livro e o homem da realidade.

12. Montaigne, que tão impudente tem a língua, é por temperamento igualmente inclinado à discrição, e a menos que a tanto seja levado por necessidade ou volúpia não expõe aos olhos de ninguém as partes de seu corpo ou os atos íntimos que nossos costumes recomendam se soneguem à vista.

13. Isso é reconhecer na ordem do fazer a legítima autoridade do costume em nossas vidas, mas na ordem do dizer essa autoridade é afastada, pois o livro é o espaço de uma outra liberdade.

14. Quando Montaigne falar do pudor mostrará tão nitidamente quanto em relação ao impudor o jogo de um duplo movimento, pois o pudor ao recusar o desejo não faz mais que exasperá-lo e sincero ou artificioso estabelece uma distância que tem como resultado seduzir mais infalivelmente.

15. Montaigne tira essa lição de Ovídio e de Virgílio, que consideram o pudor o estratagema mais eficaz do coquetismo, e lembra-se também de Sabina Popéia, a qual segundo Tácito só saía coberta por um véu.

16. Atrair afastando é a fórmula muito expressiva que ilustra à maravilha o título do capítulo Nosso desejo cresce com a dificuldade, pois a dissimulação e a máscara, os eufemismos ou as perífrases pudicas, ao interpor obstáculos, aumentam o prazer do encontro.

17. Na Lacedemônia Licurgo, a fim de manter desperto o amor, ordenou que os casados só o praticassem às escondidas e que ser encontrados dormindo juntos fosse tão vergonhoso como se dormissem com outros, e as dificuldades dos encontros, o perigo das surpresas e a vergonha do dia seguinte põem pimenta ao molho.

18. Assim se complica a significação primeira da máscara e da confissão, pois é preciso reconhecer doravante que a máscara esconde e atrai e que a confissão aproxima e separa, pelo menos na medida em que implica essa altivez e essa indiferença que recusam respeitar as testemunhas de nosso impudor.

19. Não há relação dominada senão entre indivíduos que aceitam seu afastamento recíproco sem contudo perder os benefícios de um comércio perseverante, e assim Montaigne imagina a possibilidade de tomar suas distâncias e de brincar com a distância para dar à comunicação sua sutileza mais refinada.