1.4 Teoria e exemplo

STAROBINSKI, Jean. Montaigne en mouvement. Paris: Gallimard, 1982 (Coleção Bibliothèque des Idées).

4. A vida teorética e a função do exemplo.

1. A relação com o mundo inaugurada por Montaigne a partir do lugar de lazer e de leitura de que fez seu refúgio é aquela que os antigos chamavam theoria, vida teorética, isto é, compreensão contemplativa do mundo oferecido ao olhar.

2. Encontra-se sob sua pena um dos topoi clássicos que justificam o exercício da theoria, segundo o qual a vida se assemelha à grande e populosa assembléia dos jogos Olímpicos, onde uns exercitam o corpo para adquirir a glória dos jogos, outros levam mercadorias a vender pelo ganho, e outros, e não os piores, não buscam outro fruto senão olhar como e por que cada coisa se faz e ser espectadores da vida dos outros homens para julgá-la e regular a sua.

3. Não se trata apenas de uma chrie, o lembrete de uma opinião autorizada e digna de aprovação, mas sobretudo da atitude que Montaigne entende adotar diante da realidade presente, pois sua curiosidade faz com que se agrade de ver com seus olhos o notável espetáculo da morte pública de seu tempo, seus sintomas e sua forma.

4. Já que não pode retardá-la, Montaigne contenta-se de estar destinado a assistir a ela e a instruir-se, pois busca avidamente reconhecer, mesmo em sombra e na fábula dos teatros, a mostra dos jogos trágicos da fortuna humana.

5. Diante da agitação dos homens absorvidos por seus interesses e lutas, o espectador imóvel remonta às causas e se aplica a discernir o como e o porquê para satisfazer sua curiosidade, mas não é por isso desinteressado, pois se o quiser pode velar para que a verdade manifestada no espetáculo do mundo encontre aplicação na vida interior, fazendo concorrer o julgamento e a vontade.

6. O julgamento é ato intelectual em que o indivíduo se olha por sua vez e se compara, e a vontade é ato formador ou transformador pelo qual o indivíduo regula sua vida.

7. A enquête, atentamente perseguida através do espetáculo variegado das ações humanas, aspira a reconhecer aí encadeamentos regulares que terão não só valor explicativo mas também valor regulador, pois a felicidade ou a infelicidade dos homens ilustres são modelos ou advertências que, por seus próprios erros, põem em evidência princípios de conduta e contribuem para a unificação da vida moral.

8. Uma verdade moral percebida fora na sua validade seria recebida dentro, e sua eficácia se traduziria pela identidade a si mesmo, isto é, pela constância e coesão da alma.

9. A esperança que anima essa atitude é que a fidelidade imitativa sele ao mesmo tempo uma fidelidade interna, pois uma vez apreendida pelo olhar contemplativo, a verdade só pode ser reiterada, semelhante a si mesma, assegurando assim a identidade e a estabilidade do sujeito que dela tomou posse.

10. A continuidade interna tem sua fonte na fidelidade ao modelo externo, e tal é a função que o espectador assignará às existências exemplares, pois o exemplo é a figura que, posta à parte mas chamando a imitação e a generalização, pode confortar o indivíduo em sua singularidade virtuosa.

11. Fazendo esforço para se manter em estado de semelhança contínua em relação aos que foram milagres de constância, o indivíduo se exercerá a tornar-se idêntico a si mesmo, e para satisfazer tal exigência bastaria o simples lembrete do exemplo e seu emblema, a efígie sobre a medalha.

12. A literatura impessoal dos adágios e das lições será eficaz na medida em que o leitor lhe responda com todas as suas energias pessoais, mas as histórias serão mais eficazes, bastando fixar o olhar sobre a evidência admirável que chama em nós sua repetição.

13. É preciso portar o olhar sobre os indivíduos exemplares para imaginar em troca seu olhar dirigido sobre nós, e sob o controle desses seres a que nos submetemos como a preceptores ou parentes somos assignados à nossa própria verdade, ao ato de reasserção que constitui nossa identidade pessoal na pura presença a si.

14. A eficácia do exemplo deve em parte importante à sua qualidade de evento passado, e a imagem de perfeição moral que propõe se conjuga temporalmente no perfeito, indo a nitidez de seu traço de par com seu afastamento no tempo.

15. Mas o passado do exemplo, para quem a ele se aferra, é secretamente habitado pelo futuro do dever-ser, pois o que foi o homem exemplar devemos sê-lo por nossa vez e o seremos se nos aplicarmos com toda nossa energia.

16. O exemplo é uma forma cultural preexistente que se propõe à nossa emulação, e o que está em jogo é construir o eu e aceder à nossa própria forma superando o que a existência quotidiana tem de amorfo e indeciso, definindo-se a vivo toda a mole argila e todo o flou de nossas condições e humores.

17. Uma marca se imprime então para sempre em nós, e a imitação do exemplo é um simulacro que visa à identificação, um papel que devemos nos apropriar deixando-nos habitar por sua lei e oferecendo-nos todos inteiros à potência formativa do exemplo.

18. O exemplo, dando-nos contorno e constância, parece à primeira vista roubar-nos a espontaneidade ou obrigar-nos a reprimi-la, mas logo transplantado em nós se confunde com nossa existência, e nossa espontaneidade segunda cumpre sem esforço os gestos exigidos pelo modelo encarnado.

19. Assimilar a lição exemplar é o programa clássico de uma pedagogia que quer inculcar normas através da imitação das grandes vidas em que elas se atualizaram, e no universo humanista o exemplo se perfila sobre um horizonte de perfeição passada, o mundo antigo, ou se oferece numa figura simultaneamente próxima e transcendente, o Cristo.

20. No mundo contemporâneo, os exemplos, heróis, vedetas e figuras carismáticas frequentemente efêmeras e intercambiáveis, pertencem em geral ao próprio mundo contemporâneo e são muitas vezes objeto de manipulação que os torna utilizáveis a fins econômicos e políticos, pois as figuras exemplares são um poderoso meio de orientar nossos desejos.

21. O exemplo antigo aparece sobre um teatro absoluto, separado de nosso mundo como a cena à italiana é separada da sala, e fala com a força de uma sentença admirável, sendo ao mesmo tempo sentença e ato, e mais ainda, julga-nos porque determina a escala de valores e a medida pela qual nosso mérito e demérito podem ser medidos.

22. A palavra e a imagem exemplares são demasiado poderosas para que o esquecimento consiga apagá-las, e sua marca é indelével, pois o exemplo se desdobra o mais das vezes num feito memorável em que nos são oferecidas indissoluvelmente ligadas as palavras, a vida e a morte do herói.

23. Duas grandes ilustrações terão de ser examinadas mais de perto: a morte de La Boétie e o suicídio de Catão.