1.10 At tibi

STAROBINSKI, Jean. Montaigne en mouvement. Paris: Gallimard, 1982 (Coleção Bibliothèque des Idées).

10. At tibi certamen malus.

1. Povoando todo o espaço temporal, o passado habitado pela lembrança do amigo e o projeto de falar dele no futuro, mais afetuosamente a partir do presente que é luto e privação, a consciência do escritor se vota a uma experiência de si e da duração que ao mesmo tempo altera e enriquece a exaltação que conhecera no tempo da amizade viva.

2. Montaigne lera o Discurso da servidão voluntária antes de encontrar La Boétie, e essa obra lhe fizera desejar aproximá-lo, pois lhe foi mostrada muito tempo antes de ter visto o autor e lhe deu o primeiro conhecimento de seu nome, encaminhando assim essa amizade que nutriram, enquanto Deus quis, tão inteira e tão perfeita que certamente não se lê outra parecida.

3. Se Montaigne percebeu um apelo de amizade no Discurso, não foi só porque aí encontrava, através de referências ao mundo antigo imediatamente inteligíveis para um homem de sua cultura, a denúncia dos monarcas opressores, mas sobretudo porque La Boétie, para completar sua definição da tirania, celebrava por contraste a amizade, mostrando nela o que a onipotência tirânica excluía radicalmente.

4. A amizade, segundo La Boétie, é a forma de sociedade que a tirania torna impossível em todos os escalões da vida coletiva, e ele diz que certamente o tirano nunca é amado nem ama.

5. A amizade é um nome sagrado e uma coisa santa, que só se põe entre gente de bem e só se toma por mútua estima, e se entretém não tanto por benefícios quanto pela boa vida, e o que torna um amigo seguro do outro é o conhecimento que tem de sua integridade, e os respondentes que dele tem são seu bom natural, a fé e a constância.

6. Não pode haver amizade onde há crueldade, deslealdade e injustiça, e entre os maus, quando se juntam, há um complô e não uma companhia, pois não se amam, mas se entre travam, não sendo amigos, mas cúmplices.

7. E mesmo que isso não o impedisse, ainda seria difícil achar num tirano um amor seguro, porque, estando acima de todos e não tendo companheiro, ele está desde logo além dos limites da amizade, que tem seu verdadeiro pasto na igualdade, que nunca quer claudicar e é sempre igual.

8. A amizade, dom de si recíproco, verídico e desinteressado, é o oposto mesmo da submissão interessada do adulador que se lança na servidão voluntária, e por maiores que sejam os privilégios do vício, o desfecho não deixa dúvida.

9. O adulador, primeiro mimado e coberto de recompensas, sofrerá cedo ou tarde o capricho destruidor do tirano, e depois de longamente demonstrar o mecanismo imitativo que reproduz a transação servil de alto a baixo da sociedade tirânica, La Boétie não lhe opõe, com exceção da fraternidade restrita, nenhum modelo preciso de sociedade livre.

10. É evidente que a amizade constitui para ele a única possibilidade de resistência ou de salvação, reservada aos homens de bem, e o exemplo de Harmódio e Aristógiton, de Bruto e Cássio, faz aparecer nos horizontes lendários o tiranicídio como a obra heróica a que uma grande amizade pode se consagrar.

11. Não é certamente um projeto dessa ordem que selará a amizade de Montaigne e de La Boétie, mas antes, no momento em que o poder se dispersa entre tiranos e tiranetes, partidos ou bandos anárquicos, a ideia de encontrar fora do poder e inacessível a seus atos arbitrários um abrigo seguro num nome sagrado e numa coisa santa.

12. Eles se consagrarão a um comércio privado, mas tão altamente empregado no culto da virtude que jamais poderá perder de vista os interesses públicos.

13. Na carta em que Montaigne relata a doença e a morte de La Boétie, o moribundo apostrofa seu irmão em termos que fazem eco aos que se extraíram do Discurso da servidão voluntária.

14. La Boétie diz a Montaigne, chamando-o de irmão que ama tão caramente e que escolheu entre tantos homens para renovar com ele essa virtuosa e sincera amizade cujo uso está pelos vícios há tanto tempo afastado de nós que só restam alguns velhos traços na memória da Antiguidade, e lhe suplica, em sinal de sua afeição, querer ser sucessor de sua biblioteca e de seus livros, que lhe dá.

15. Em verdade, para construir essa amizade, La Boétie não cessou de apelar a esses velhos traços e a essas imagens exemplares conservadas na memória da Antiguidade, sendo ele com evidência o relé entre o passado admirável e o amigo que se escolheu.

16. La Boétie é a prova viva de que a exemplaridade pode reviver, como revive entre eles a língua latina, e nos seus poemas reservou a língua latina a suas amizades masculinas, enquanto o francês lhe servia quando se dirigia às damas.

17. O latim, dirá Montaigne, é dotado de uma energia, de uma densidade de ser e de um vigor moral que superam os fracos poderes da língua vulgar, reflexo de uma idade abastardada, e o latim é a língua da exemplaridade viril em razão mesmo de seu mais alto título ontológico.

18. Nos três poemas latinos que dirige a Montaigne, La Boétie assume a função do guia, e sua idade lhe dá avanço, pois tem três anos mais que Montaigne.

19. Para cumprir um dos ofícios da amizade que define Cícero, o de se entre advertir, admoestar e ser admoestado, La Boétie toma a iniciativa e, com o olho erguido sobre o astro imutável da virtude, repreende o mais novo, censura seus desvios e sua fraqueza diante das tentações da carne.

20. É ele quem encoraja Montaigne a dirigir seus passos, à exemplo também de seu pai, para a região dos grandes modelos e das essências incorruptíveis, e Montaigne é convidado a se juntar ao irmão que o precede e que lhe fala a linguagem da superação e do esforço.

21. Trata-se ora de partir a três, em companhia de Belot, para outro hemisfério, para fugir à desolação das guerras civis, mas sem perder a triste lembrança da pátria mãe, ora de subir a senda da virtude, ora de se arrancar aos prazeres ilusórios e de conquistar o repouso reservado aos sábios.

22. Ao termo desse movimento entretido pela energia da recusa e do sacrifício, atinge-se o legítimo gozo de si e o domínio calmo de todos os horizontes temporais.

23. O poema de La Boétie diz ou que não existe nenhuma felicidade em parte alguma, ou que só a virtude pode nos tornar felizes, e ela só possui sempre em si mesma o objeto de seu gozo, plenamente consciente do passado, capaz de fazer face hoje a todos os golpes do destino e confiante em seu destino futuro.

24. A virtude não tem necessidade de nada e se apoia toda inteira sobre si mesma, e no exterior nada deseja nem teme, nenhuma ferida a pode atingir, e ereta e estável pouco lhe importa que a fortuna, numa volta de roda, lhe imponha a pobreza, o exílio ou a morte.

25. Ela permanece imóvel, ocupa o centro e contempla o desencadeamento insensato dos acontecimentos, e a fortuna em delírio se precipita em todos os sentidos, mas serena a virtude se aplica a seus deveres e em sua própria companhia goza de tesouros que não lhe podem ser arrancados, tornando-se mais rica do usufruto que tira de si mesma.

26. O poeta exclama: ó pudesse eu colher tão belos frutos, pudesses tu, Montaigne, colhê-los também, tentemo-lo ambos, e se não os gozarmos como possuidores, morramos procurando possuí-los.

27. Assim admoestava a voz que Montaigne escutou e que o convidava a buscar a estabilidade, a reapropriação de si, a coerência íntima e a serenidade contemplativa diante das agitações humanas.

28. A exigência do próprio e da relação exclusiva a si devia ser vivida a dois, na relação que forma um ser dobrado, e Montaigne diz que nossa liberdade voluntária não tem produção que seja mais propriamente sua que a da afeição e da amizade.

29. Certo que sejam palavras retomadas dos livros e talvez textualmente transcritas, La Boétie, em sua assistência afetuosa, prova não só que essas palavras podem ser repetidas, mas que sua lição pode ser revivida e reencarnada.

30. A injunção experiamur uterque poderia também ser traduzida por façamos ambos o ensaio, e definiria assim um sentido primeiro do ensaio, bem cedo abandonado por Montaigne, concebido como a tentativa que sabe de antemão o que visa e o sabe demasiado bem, pois se trata do soberano bem no que tem de superior, único e universal, a virtude.

31. A virtude é o sacramento da comunhão amical, e o apelo da exemplaridade, dominado pelos modelos antigos e formulado agora numa língua do passado, é uma modalidade exaltada do laço amical, implicando a emulação ao mesmo tempo que a partilha, e a vida consagrada a essa única tarefa até seus últimos limites.

32. O que foi a finalidade da vida se torna a finalidade da morte, morrer aspirando a possuir esses maravilhosos frutos, e a bandeira da amizade leva em divisa a virtude ou a morte.

33. O sacrifício da vida é o ato capital da destinação exemplar, e proclamar o imperativo da virtude não é nada se não se sabe morrer pelo que se proclamou, pois só uma morte conforme ao discurso impede que este se dissipe em vãs palavras e retórica fútil.

34. Ela é o selo que autentica a sentença, que conforma e solidifica o que, confinado na só matéria da linguagem, nunca possui suficiente consistência, e os grandes homens do passado ficaram memoráveis porque morreram sobre a palavra, segundo a palavra que tinham dado.

35. Para escapar à derrisória grandiloqüência, é preciso que a atividade discorrente continue até na morte, se aproprie dela e a eleve ao posto de efeito supremo, e a morte se torna assim a pontuação que dá sentido, o traço que define e a ação oratória superlativa que não só escolta o discurso como um gesto, mas o acaba na imobilidade sem retorno.

36. Só então é permitido afirmar que a palavra portava em si uma força performativa e que era um fazer desde o instante em que o dizer começava, e esse paroxismo eloqüente projeta retroativamente seu sentido forte sobre toda a duração da vida antecedente.

37. O exemplo culmina numa morte monumental, erguida como uma coluna ou um troféu, constrangendo os homens, nas idades futuras, a se lembrar, a se maravilhar e a tentar imitar.

38. Desse modo, quando a natureza ou a fortuna concorrem, o exemplo novo surge ao apelo do exemplo antigo, e assim La Boétie pode, sob os olhos de Montaigne, se mostrar igual aos modelos antigos e morrer de uma morte admirável, toda pontuada de sentenças.

39. Montaigne as recolheu, desde o primeiro dia da doença de seu amigo, com avidão fascinada, e no espírito da época as últimas palavras não são apenas um testamento espiritual, mas portam já a marca da visão direta dos bem-aventurados.

40. Montaigne confessa que para representar La Boétie tão ferozmente detido em sua brava andadura e fazer ver essa coragem invencível num corpo arrasado e assombrado pelos furiosos esforços da morte e da dor, seria preciso um estilo muito melhor que o seu.

41. Pois ainda que durante sua vida, quando falava de coisas graves e importantes, o fizesse de tal modo que era mal-aisado escrevê-las tão bem, naquele transe parecia que seu espírito e sua língua se esforçavam à porfia para lhe fazer seu último serviço.

42. Sem dúvida Montaigne nunca o viu tão cheio nem de tantas e tão belas imaginações nem de tanta eloqüência como ao longo dessa doença, e por toda a agonia La Boétie, espiado pelo amigo, recita admiravelmente o papel do sábio morrente, morrendo como um livro.

43. Montaigne ficará deslumbrado, e em sua lembrança a amizade com La Boétie não só terá se juntado às amizades exemplares da Antiguidade, mas terá respondido à espera de La Boétie, que escrevia em sua epístola a Montaigne não temer que seus netos recusem inscrever seus nomes na lista dos amigos célebres.

44. Ela terá mesmo superado, dirá Montaigne, os exemplos consignados nos livros, pois não se lê outra parecida, e no ímpeto hiperbólico da superação foi mais longe, pois essa amizade não tem outra ideia senão ela mesma e não se pode reportar senão a si.

45. Os discursos mesmos que a Antiguidade nos deixou sobre esse assunto parecem frouxos ao preço do sentimento que Montaigne dele tem, e nesse ponto os efeitos superam os próprios preceitos da filosofia.

46. La Boétie tinha o espírito moldado ao padrão de outras idades que não estas, e a amizade que construiu com Montaigne tão bem se juntou à exemplaridade das amizades antigas que se tornou ela mesma sem exemplo, pois o êxito na imitação a tornou única e inimitável.

47. Ela não é mais uma simples aproximação da plenitude da amizade, mas essa plenitude mesma, atingida e encarnada, e o desvio se tendo anulado entre a vida e o exemplo, a existência pôde se confundir com a essência.

48. Mais ainda, não bastou se elevar acima do comum uso e superar as outras amizades comuns, e no se regular pelo padrão das amizades moles e regulares, e no superamento descrito por Montaigne um leitor moderno poderia decifrar o orgulho estético de escapar a toda norma e a superestimação de um narcisismo a dois que abole a tutela inicial dos exemplos indo mais além na direção que eles indicavam.

49. À força de idealização, Montaigne estima que sua amizade se desligou dos modelos, a ponto de não poder ela mesma se oferecer como modelo, pois ninguém a alcançaria, e ela permanecerá sem igual.

50. A morte de La Boétie lançou Montaigne na noite obscura e enfadonha, e ao sentimento de superioridade perdida em que se elevara por instigações do amigo sucede a autodepreciação de coloração melancólica, o negro da fumaça.

51. E depois de ter querido tão altivamente se distanciar do comum, formando com La Boétie uma mistura tão universal que suas duas almas apagam e já não acham a costura que as uniu, Montaigne, privado de seu amigo e reduzido a si só, proclamará mais de uma vez que se põe no comum.

52. A amizade lhe tinha permitido se subtrair por alto, pelo esforço de transcendência, ao império dos exemplos, e a perda do amigo doravante relega Montaigne à vida baixa e sem lustre, vida cuja diversidade, riqueza polimorfa e curso instável recusam, de outra maneira, as palavras de ordem unificadoras da exemplaridade.

53. Em lugar da única Virtude, os fenômenos abundantes de um mundo e de uma existência ondulantes e diversos.

54. Estranha inversão suscitada pela morte: La Boétie, nesse casal fraterno, era o mais avançado em sabedoria, o mais advertido das exigências da virtude e o mais senhor de suas paixões, e a marca que dava forma a sua alma a reunia toda sob uma única marca.

55. A fortuna, termo incansavelmente usado por Montaigne, quebrando essa vida aos trinta e dois anos, põe de repente toda essa perfeição sob o signo do inacabamento e da fragmentariedade.

56. Em seu desgosto, Montaigne vê a grandeza moral incomparável de seu amigo mal servida pelos atos ou obras em que não pôde se objetivar toda inteira, e La Boétie não deixou monumento em que sua nobreza de alma fosse plenamente reconhecível.

57. O testemunho de Michel de Montaigne é desde então indispensável para atestar que essa ausência de grande carreira política e essa produção literária esmigalhada em alguns livretos póstumos são sem comum medida com a verdadeira suficiência de seu amigo, ou não são senão índices longínquos.

58. São simples jogos que, à exceção de muito raros observadores, não revelariam a ninguém todo o valor de um ser superior, e o amigo sobrevivente é o único a poder atestar que há disparidade entre a obra heterogênea e limitada e as grandes ações ou os livros mestres de que seu autor, ajudando a fortuna, teria sido capaz.

59. Publicando os papéis de seu amigo, multiplicando os livretos e escrevendo o capítulo Da amizade, Montaigne se aplicou a provar uma relação de desigualdade entre a magra herança objetiva e a personalidade miraculosa de La Boétie.

60. Nesse sentido, a imperfeição forçada da obra serve para pôr em evidência uma perfeição espiritual reduzida a permanecer quase inteiramente interior.

61. Esse tipo de relação de desigualdade é tão ligado à afirmação da subjetividade soberana que numerosos escritores da idade moderna, do romantismo a Valéry e além, se editarão a si mesmos como Montaigne editou La Boétie, adotando o papel do respondente póstumo.

62. O inacabado, o fragmentário e o texto quebrado, oferecidos como um jogo em que o escritor não engajou todas as suas forças ou não pôde apreender o infinito que visava seu desejo, serão outras tantas provas de um excesso da livre subjetividade sobre seus próprios produtos.

63. A inversão suscitada pela morte de La Boétie não se detém nesse aspecto de sua fortuna póstuma, pois afeta também Montaigne.

64. Tendo publicado os papéis que lhe tinham sido confiados, Montaigne tentará continuar só o trabalho de unificação moral a que seu amigo o quisera arrastar, mas, como se viu, ele descerá de novo ao mundo da diversidade, do remendo e da mescla para o criticar e no entanto se aliar a ele, pois nossa condição é habitar esse mundo.

65. Enquanto a admirável unidade de La Boétie não deixava de si, fora, para os olhares do público, senão uma obra esparsa e curta, a diversidade subjetiva de Montaigne será recolhida por um registro e tomará a forma do livro e não mais do livretos.

66. Nesse livro, todos os acréscimos e ornamentos serão integrados a uma totalidade multiforme, e o dever de unidade, a que a consciência sabe não poder se ater, será delegado ao livro, onde nunca faltará o fio que serve para fazer da multidão das flores estrangeiras um só amontoado e um único buquê.

67. Como alguém poderia dizer de Montaigne que ele só fez aí um amontoado de flores estrangeiras, não tendo fornecido do seu senão o fio para as ligar, certamente ele deu à opinião pública que esses paramentos emprestados o acompanhem, mas não entende que o cubram e o escondam, sendo o contrário de seu desígnio, que só quer fazer mostra do seu e do que é seu por natureza.

68. Ora, fazer mostra do seu é, para Montaigne, no fio mesmo de seu propósito, denunciar sua propensão a perder o fio, dizendo que se se anima, falando, a se desviar um pouco de seu fio, nunca falha de o perder.

69. É declarar que não se mantém bem em sua posse e disposição, que o acaso tem aí mais direito que ele, que não se acha onde se procura e se acha mais por encontro que pela inquisição de seu julgamento.

70. Mas como para os empréstimos, o fio do texto permite no entanto reunir em amontoado os momentos e fragmentos esparsos do eu, e, dizendo o fio perdido do pensamento, nunca deixa se interromper o discurso da reflexão, que toma seu partido da insciência e do esquecimento.

71. A força de La Boétie ficara contida nele mesmo e culminava numa bela morte, e a fraqueza confessada de Montaigne se transformará em força ao se objetivar no livro, um livro que vai e caminha, mas de andadura livre e caprichosa, e que não se submete mais à injunção de seguir o reto caminho da virtude.

72. Na longa epístola latina dirigida a Montaigne, La Boétie se atribui um espírito mais estreito e mais estável, e Montaigne, alma mais complexa, lhe parece em revanche votado às grandes coisas, mas ao mesmo tempo exposto às mais fortes tentações e aos maiores riscos.

73. La Boétie diz que para Montaigne, ao contrário, há mais a combater, pois é seu amigo que sabem igualmente próprio aos vícios e às virtudes de brilho, e a Montaigne cabe um certame maior.

74. Montaigne, nesse momento de juventude, está entregue aos apelos contraditórios e aos desvios perigosos, tendo necessidade de advertências e correções, e um outro poema dirigido a Montaigne evoca a situação emblemática de Hércules na encruzilhada entre o vício e a virtude.

75. Ainda uma vez o risco da derivação e o perigoso atrativo do libertinagem são os temas do discurso amical, e pode-se dizer que essas afirmações são verdadeiras, num nível mais geral e de modo mais permanente, do pensamento mesmo de Montaigne.

76. Não há para ele caminho que não ofereça uma bifurcação, virtude que não se inverta em seu oposto, exemplo que não chame um exemplo contraditório.

77. O conflito, para Montaigne, não consiste somente no choque dos valores morais antinômicos tais como são definidos no interior da linguagem do humanismo cristianizado, mas põe em causa essa linguagem mesma, sua validade e a obrigação de lhe obedecer.

78. La Boétie, até o fim de sua muito curta vida, se deixou guiar por essa linguagem, e Montaigne a põe à prova, a interroga e dela se afasta, e esse código, primeiro respeitado, torna-se para ele problemático, não constituindo logo senão uma lição entre outras, diante da qual convém adotar uma sabedoria e uma arte de viver independentes.

79. Diante da obra cumprida, é permitido desviar o sentido das palavras latinas de La Boétie e dizer que o maior combate, para Montaigne, residiu precisamente na relação ambígua, ao mesmo tempo atenta e infiel, com a lição aprendida.

80. O ensaio, no que comporta de dubitativo e reflexivo, mas também de vida improvisada, deverá ocupar o lugar deixado vazio pela supressão da aliança aos exemplos.

81. La Boétie foi o homem-exemplo, e seu desaparecimento, antes que começasse a empresa de escrever, reveste significação emblemática, pois nunca poderá ser apagado pelo esquecimento, mas a virtude que vivia nele já não tem representante nem campo de ação neste mundo.

82. Nada mais pode ser feito do que ele teria feito e do que sem dúvida teria arrastado Montaigne a cumprir com ele, mas essa impossibilidade pode e deve ser dita, confiada ao papel e comunicada ao leitor.

83. La Boétie, diante da morte, deixou a Montaigne a lembrança de uma resolução exemplar, e Montaigne, pela singular e fraternal amizade que se entreportaram, tinha conhecimento certíssimo das intenções, julgamentos e vontades que ele tivera durante a vida, sabendo-as altas, virtuosas, cheias de certíssima resolução e admiráveis.

84. Montaigne previa que, se a doença lhe deixasse meio de se poder exprimir, não lhe escaparia nada em tal necessidade que não fosse grande e cheio de bom exemplo.

85. Em troca, Montaigne promete a La Boétie tê-lo por exemplo, dizendo-lhe que até então pensara que Deus não nos desse tão grande vantagem sobre os acidentes humanos e mal acreditava no que às vezes lia nas histórias, mas que, tendo sentido tal prova, louvava Deus por ter sido numa pessoa de quem fosse tanto amado e que amasse tão caramente.

86. E diz que isso lhe serviria de exemplo para representar esse mesmo papel a sua vez.

87. Ora, uma vez desaparecido La Boétie, falta a Montaigne aquele que foi o exemplo mesmo da resolução, e, embora conceda um lugar em sua própria consciência à imagem e à voz do amigo, Montaigne não esperará delas os conselhos e advertências que constituíam o nervo da amizade viva.

88. A parte da testemunha, ainda que profundamente interiorizada, terá perdido muito de sua insistência e de sua eficácia pragmáticas, sobrevivendo no julgamento severo e sereno e no exame de si, e não na injunção a agir nem na espera de uma glória futura.

89. Ela não exercerá o efeito disciplinar mas desastroso que a psicologia moderna atribui a um supereu tirânico, e tudo se passa como se o desaparecimento de La Boétie tivesse subitamente descoberto a Montaigne sua própria morte, ferindo de inanidade toda empresa flechada pela esperança e voltada ao futuro.

90. Montaigne diz que seu desígnio é divisível por todo e não se funda em grandes esperanças, cada jornada lhe faz o fim, e a viagem de sua vida se conduz do mesmo modo.

91. Nada reteve Montaigne de recair nessa irresolução a que La Boétie o quisera arrancar, e ele aceita doravante fazê-la figurar como uma cicatriz em seu autorretrato, defeito muito incômodo para a negociação dos negócios do mundo, pois não sabe tomar partido nas empresas duvidosas.

92. Montaigne sabe bem sustentar uma opinião, mas não escolhê-la, e a escolha e a resolução eram possibilidades da amizade partilhada.

93. A melancolia resulta precisamente do véu e da fumaça que embrumam doravante o futuro e constrangem a consciência a se recolher ora no presente, ora, muitas vezes também, no espaço da memória retrospectiva.

94. Tudo o que Montaigne pôde salvar do naufrágio e incorporar em si mesmo é o ato da reflexão vigilante, e ele quererá lhe oferecer o campo de um vasto lazer, onde desaparecerá pouco a pouco a necessidade do combate a que La Boétie assignava seu amigo.

95. A alegre descontração suplantará o ardor belicoso, e o ato por vir não impondo mais sua tensão nem obrigando mais a poupar o tempo, a palavra pode se fazer sinuosa e sem termo, pois nenhuma urgência a apressa.

96. Como não tem outra meta senão sua própria manifestação, nenhuma digressão a pode desviar, e seu tempo próprio é o do prazer e não mais o que governa a vida ativa e impõe uma estrita economia aos discursos da eloqüência persuasiva.

97. É o tempo que reina além ou aquém da vida prática, sobre a vida privada ou sobre a morte, e o lazer infinito subjacente aos Ensaios renvia ao mesmo tempo à intimidade da vida e à inanidade da morte.

98. Recorrendo a um termo caro a Maurice Blanchot, pode-se dizer que é do desobra que nasce a obra multiforme da escrita.

99. Exemplarmente resolvido, La Boétie celebrava a virtude e acrescentava experiamur uterque, definindo assim uma significação primeira do ensaio, tentativa que sabe de antemão o que visa, ainda que ignore se terá a força necessária para o atingir.

100. La Boétie queria seguir a via mais reta, mas Montaigne, permanecendo só, já não se defenderá de extravagante e de oblíquo, e a irresolução de Montaigne transforma radicalmente o sentido do ensaio, cuja forma tão original não pode ser plenamente compreendida senão pelo desvio que a separa do experiamur de La Boétie.

101. Montaigne diz que se sua alma pudesse tomar pé não se ensaiaria, se resolveria, mas ela está sempre em aprendizagem e em prova.

102. O que animará o movimento do ensaio será o aveu do esforço ineficaz, sempre recomeçado e demasiado depressa recaído, apesar da fascinação dos grandes modelos.

103. Acontece a nós mesmos, que não somos senão abortos de homens, lançar por vezes nossa alma, despertada pelos discursos ou exemplos de outrem, muito longe além de seu ordinário, mas é uma espécie de paixão que a impele e agita e a arrebata de algum modo fora de si.

104. Passado esse turbilhão, vê-se que, sem pensar nisso, ela se distende e relaxa de si mesma, ao menos até já não ser aquela, e então, a toda ocasião, por um pássaro perdido ou um copo quebrado, nos deixamos comover quase como um do vulgo.

105. A suspeita vai até supor que, nos próprios heróis do tempo passado, o heroísmo só prevalecia por sacudida, como traços miraculosos, mas são traços, na verdade.

106. O ensaio, mais ainda, será a posta em obra de um novo tipo de identificação, simpatia toda mental, compreensão das grandes almas do passado e admiração racionada dos modelos de virtude, mas ao mesmo tempo consciência aguda de pertencer a uma forma diferente e de não dispor das forças necessárias para passar da identificação intuitiva a uma imitação ativa.

107. O eu se percebe desde então por sua distância e disparidade, e escolhe por tema de seu discurso essa diferença mesma, dizendo o que ao mesmo tempo lhe faz venerar a figura exemplar e o obriga a se afastar dela.

108. No começo do capítulo Do jovem Catão, Montaigne diz não ter o erro comum de julgar de outro segundo o que ele é, e crê facilmente coisas diversas de si, pois para se sentir engajado numa forma não obriga o mundo a ela, como cada um faz.

109. Crê e concebe mil contrárias maneiras de vida e, ao contrário do comum, recebe mais facilmente a diferença que a semelhança em nós, desobrigando quanto se quer um outro ser de suas condições e princípios e o considerando simplesmente em si mesmo, sem relação, estofando-o sobre seu próprio modelo.

110. Por não ser continente, Montaigne não deixa de reconhecer sinceramente a continência dos Feuillans e dos Capuchinhos e de achar bem o ar de seu modo de vida, insinuando-se por imaginação muito bem em seu lugar, e ama e honra tanto mais esses religiosos quanto são outros que ele.

111. Montaigne deseja singularmente que se julgue cada um à parte e não o tire por consequência dos exemplos comuns, e sua fraqueza não altera em nada as opiniões que deve ter da força e do vigor dos que o são.

112. O primeiro dos juízos moralizados é de Cícero, segundo o qual há os que só louvam o que se fazem fortes de poder imitar, e o segundo é de Horácio, para quem a virtude não é senão um nome e o bosque sagrado um lenho, tal como é seu pensamento.

113. Escrever e exercer seu julgamento não será somente, por via indireta e por um desvio que inclui o pensamento da morte, voltar ao que tinha sido inicialmente acusado e não cessa de ser recusado, a aparência.

114. Será além disso permanecer em relação, mas negativamente, com o que se tinha buscado por trás das aparências e que se esquiva, a essência e a exemplaridade virtuosa, relação doravante desprovida de esperança, impregnada de humildade, mas tornado matéria de um discurso sem fim.

115. Esse eu que se arrasta no limo da terra é o mesmo que se proclama matéria de seu livro.

116. A questão posta no início era a da relação consigo e das razões de escrever num mundo entregue às ilusões e à hipocrisia, e viu-se a resposta de Montaigne se desenvolver segundo as etapas de um percurso em que a morte, a forma estética e a relação com outrem intervinham como encontros capitais.

117. Constatou-se que Montaigne, depois de ter tentado em vão se liberar dos prestígios exteriores, era reconduzido a uma aceitação refletida do mundo fenomênico, recolhido e representado na obra literária.

118. Resta examinar de mais perto e separadamente alguns dos problemas que apareceram em sua interdependência esquemática, o recurso ao ser, a relação a outrem e o engajamento na obra.

119. Ver-se-á confirmar o itinerário que se acabou de relevar, e se, nessas diversas direções, um mesmo traçado fundamental persistir, encontrar-se-á a ocasião não só de melhor apreender, em seu movimento indefinidamente repetido e variado, a forma mestra de que Montaigne não cessou de se reclamar, mas ainda de perceber mais nitidamente o que o livro de Montaigne, em seu afastamento e proximidade, nos convida a pensar de nossa presença no mundo.