Quanto mais o ser exterior triunfa com uma energia robusta, mais o ser interior se debilita e se refugia no mundo dos sentimentos obscuros e do sonho, enquanto, inversamente, quanto mais o homem interior se torna vigoroso, mais o homem exterior definha, constituindo esta uma experiência por demasiado antiga, pois o que um mais deseja não tem nenhuma utilidade para o outro, e o que o primeiro reclama é um veneno para seu parceiro, já que ambos os aspectos deste estranho par reivindicam seu direito de existir, nenhum disposto a ceder ao outro, puxando cada qual a atrelagem para seu lado e fazendo o homem oscilar entre a infelicidade e a felicidade, dilacerado e frequentemente esquarteado por esta atrelagem indócil, atraindo inevitavelmente a hostilidade de um quando favorece o outro, colocando-nos assim a questão fundamental de saber quando cessará esta eterna contradição, se o monstruoso nascimento de um ser duplo no qual uma parte é um fardo para a outra concluir-se-á pela morte efetiva de uma delas, ou se arrastaremos para o outro lado esta ridícula ambiguidade visceral, sem nunca nos libertarmos deste monstro que faz ressoar seus risos insolentes diante do altar sagrado de nossas melhores resoluções ou junto ao caixão de nossos entes queridos, e cujos risos altos se imiscuem até em nossas mais profundas alegrias, como numa estranha pilhéria na qual se brinca com nossa pobre natureza tal como se faz um sermão em camisola, onde, para acompanhar as palavras do pregador maneta, uma outra pessoa escondida sob suas roupas faz gestos de tristeza quando ele fala de alegria, gestos de alegria quando tem palavras tristes, ou executa movimentos de inquietação quando o orador fala muito calmamente, e movimentos calmos quando suas palavras são as mais ardentes.