A natureza distinta da linguagem onírica.
No sonho e no delírio pré-sonolento, a alma parece falar uma linguagem totalmente diferente da habitual.
Objetos e propriedades designam pessoas, e qualidades ou ações se apresentam sob forma de pessoa.
As ideias estão submetidas a uma outra lei de associação, mais rápida, misteriosa e breve que no estado de vigília.
A eficiência expressiva do sonho.
Com um pequeno número de imagens misteriosas, a linguagem onírica expressa em pouco tempo mais coisas que muitas horas de palavras.
Aprendemos num sonho breve mais que em horas de linguagem ordinária, sem lacunas, num contexto coerente mas particular.
Esta linguagem de abreviações e hieróglifos aparece, em muitos aspectos, mais apropriada à natureza do nosso espírito que a linguagem habitual de palavras.
Comparação entre a linguagem onírica e a linguagem verbal.
A linguagem onírica é infinitamente mais expressiva, mais rica e menos dependente da cronologia.
A linguagem verbal deve ser aprendida; a onírica é inata.
A alma tenta usar esta linguagem própria assim que se liberta do confinamento habitual (sono, delírio).
A metáfora do feto e do ventríloquo.
A tentativa da alma de usar sua linguagem no estado liberto é comparada a um bom andante, ainda feto no ventre materno, tentando executar os passos futuros.
Se trouxéssemos à luz esses “disjecta membra” de uma vida originária e futura, só poderíamos balbuciar na língua dos espíritos ou obter efeitos de ventriloquia.
O poder e vantagem da linguagem onírica sobre a ordinária.
Esta linguagem tem tanto poder sobre as forças do eu íntimo quanto o canto de Orfeu sobre a natureza sensível.
Possui outra vantagem importante: o curso dos eventos da vida parece organizar-se segundo uma lei de associação própria ao destino, semelhante à que rege o encadeamento das imagens oníricas.
O destino e a alma falam a mesma linguagem.
O destino (em nós e fora de nós) fala a mesma língua que a alma no sonho.
Por isso, ao usar sua linguagem de imagens oníricas, a alma produz combinações impensáveis na vigília, liga habilmente o futuro ao passado, e seus cálculos se mostram exatos.
A previsão onírica como uma álgebra superior.
A alma prediz frequentemente o futuro com justeza.
Esta maneira de calcular e combinar é uma forma de álgebra superior, mais simples e fácil, mas que só o poeta oculto em nós sabe manejar.
A universalidade da linguagem onírica.
Esta linguagem não é diferente segundo as pessoas, nem autocrítica segundo o arbítrio de cada individualidade.
Aparece bastante semelhante em todos os seres humanos, com no máximo nuances dialetais.
Exemplo hipotético: no templo de Anfiarao, o selvagem americano e o neozelandês entenderiam mutuamente sua linguagem de imagens oníricas.
Variações dialetais dentro da universalidade.
A riqueza lexical, extensão e fineza variam, como numa língua comum (ex: Platão vs. marinheiro do Pireu; dama de honra vs. camponesa).
Almas vulgares falam um “patois”; outras mais cultivadas, um dialeto mais elaborado (ex: baixo-alemão vs. alto-alemão na região do Schein).
As “Chaves dos Sonhos” e sua validade parcial.
Parte do conteúdo das Chaves dos Sonhos funda-se em observações pertinentes e repetidas; outra parte é constituída de interpretações fantasiosas.
As Chaves de diferentes nações mostram concordância no essencial, não apenas por influência cultural comum (ex: Cardano em latim).
Estudos objetivos e relatos de viajantes sobre povos da América do Norte levam a princípios de interpretação semelhantes aos das Chaves, conhecidos dos simples por experiência ou tradição.
Exemplos de imagens oníricas e suas interpretações confirmadas.
Os graus do sonho: do imperfeito ao perfeito.
O estado em que a alma pensa e age em sua linguagem metafórica com coerência representa um grau superior e mais perfeito do sonho.
Existe um grau menos perfeito, mais próximo da vigília, no momento de adormecer ou no semi-sono, que representa a passagem para o sonho verdadeiro.
A coexistência e mistura incoerente das duas linguagens no adormecer.
Neste estágio, as duas regiões distintas com suas duas linguagens caminham ainda lado a lado e se misturam de maneira incoerente.
Exemplo: pensar a palavra “escrever” e ter ao mesmo tempo a imagem de duas pessoas, uma carregando a outra.
A razão desperta prega ainda um momento em sua linguagem de palavras, enquanto o estado de sonho, aparecendo atrás dela, executa gestos insolentes (como uma criança atrás de outra rezando), até que a razão adormece e o universo onírico aparece em liberdade.
A variação do modo de expressão metafórico no sonho perfeito.
A compreensão é mais ou menos fácil. Por vezes um sonho profético apresenta os eventos do dia seguinte exatamente como se apresentarão na vigília, se se prestam a uma representação imagética.
Ou imagens misteriosas se misturam bizarramente.
Exemplos de sonhos premonitórios.
Sonhar com a chegada de um amigo distante, que surge no dia seguinte; mas o que ele tinha a dizer no sonho era mimado ou revestido de expressões metafóricas.
Sonhar com um amigo em boa saúde numa sala cheia de sangue, dizendo ser seu aniversário; no dia seguinte, assistir inesperadamente à autópsia desse amigo morto subitamente na mesma sala vista no sonho.
A fidelidade do sonho como espelho da vigília.
As coisas expressas no sonho perfeito, na medida em que apresentam parentesco com o mundo do sonho (ou do sentimento), conservam frequentemente a expressão e o contexto habituais da vigília.
Apenas pensamentos isolados são caracterizados seguindo o modo simbólico próprio do sonho.
Graças a esta parentesco, o sonho é em muitos indivíduos um espelho fiel do estado de vigília.
A necessidade de tradução do sonho.
Noutros casos, a expressão metafórica do sonho é tão afastada da expressão verbal da vigília que necessita primeiro de uma tradução.
Passa-se então a falar deste linguagem simbólica que caracteriza o sonho.
Primeira classe de palavras da linguagem onírica: imagens com significado análogo à expressão poética comum.
Exemplos:
Caminho por espinheiros ou montanhas abruptas: desagrados e obstáculos no curso da vida.
Caminho gelado: situação penosa e perigosa.
Trevas: aflição e melancolia.
Receber um anel: noivado.
Flores: alegria.
Riacho seco: ausência.
Estar encerrado numa fortaleza: estar acamado.
Visita do médico: doença.
Advogados: despesas.
Ver alguém partir em viagem ou barco: deixá-lo para a vida.
Segunda classe: a significação por oposição (contrarium).
A alma designa por uma imagem exatamente o contrário do que ela significa na vida quotidiana.
Usa imagens alegres para designar eventos tristes, e imagens tristes para eventos alegres.
O “estranho poeta oculto em nós” parece achar um prazer bizarro no que nos entristece e ter uma ideia muito grave de nossos prazeres.
Exemplos de contrarium.
Choros e aflição: frequentemente uma alegria próxima.
Desolação e tristeza: designadas pelo riso, dança e jogo.
Comédias alegres, jogos de cartas, música alegre (sobretudo de violinos): anunciam violenta disputa ou desagrados.
Só o canto: presagia algo bom.
Túmulo ou cortejo fúnebre: anunciam frequentemente um casamento.
Ver alguém se casar: significa frequentemente a morte dessa pessoa.
Verbo “nascer”: morte próxima do doente.
“Aniversário de nascimento”: dia do falecimento.
Terceira classe: o sonho como desprezo ou ironia em relação a coisas valorizadas na vigília.
Exemplos de contrarium aplicado a bens materiais.
Pequena soma de dinheiro: indica contrariedade.
Má transação: anunciada pela imagem de um grande lucro.
Receber golpes e ferimentos de alguém: anuncia, ao contrário, presentes e bens materiais que o sonhador deve esperar dessa pessoa.
O sonho como lembrete do lado funesto da felicidade terrestre.
A promessa de felicidade material próxima é frequentemente prefigurada pela imagem do caixão.
Muitas pessoas, perante a promessa de felicidade material ou ascensão social, veem em sonho a imagem do próprio funeral.
A cruz (símbolo habitual do sofrimento): significa triunfo sobre inimigos e glória.
Ver lírios florescer: indica que se zomba do mundo e o despreza.
Quarta classe: palavras baseadas em relações de reciprocidade mais profundas, próximas a uma “linguagem da natureza”.
Ações simbólicas com significação particular.
Dialetos inferior e superior da linguagem onírica.
A maior parte dos exemplos dados pertence provavelmente ao dialeto inferior; a maioria das observações o concerne.
O dialeto superior parece concordar inteiramente com a linguagem tratada no capítulo seguinte.
Ambos têm um parentesco muito estreito; a compreensão de um a partir do outro é possível.
A significação destes hieróglifos oníricos foi primeiro estudada nos sonhos premonitórios.
Contudo, a alma não exerce essa faculdade de combinar profeticamente em todos os sonhos.
Assim como na vigília, refere-se tanto ao passado ou aos desejos e necessidades presentes quanto ao futuro.
A natureza variada dos sonhos.
Grande parte dos sonhos, como grande parte das conversas de vigília, é constituída por um verbiagem oco e insignificante.
Às vezes, a alma se desforra no sonho de todas as tagarelices inúteis que lhe são negadas durante o dia.
Almas profundas, que parecem não ter meio de expressão na vigília, encontram um, mais poderoso e rico, no sonho.
Os sonhos não-proféticos também usam imagens misteriosas.
Mesmo nos sonhos não proféticos, a alma utiliza, para designar os objetos, imagens misteriosas semelhantes às dos sonhos proféticos.
Assim, grande parte dos sonhos é apenas repetição de coisas passadas ou o jogo desenfreado de nossas inclinações e desejos, ambos se desenrolando num universo de imagens estranhas e signos misteriosos.
A reflexão abstrata no sonho e sua relação com o verdadeiro universo onírico.
A hipótese de um grau de sonho mais profundo e inacessível.
É mais que provável que exista um grau de sonho mais profundo, do qual raramente subsiste uma lembrança ao despertar, ou no máximo uma reminiscência obscura.
Está separado do estado de vigília por um abismo tão profundo quanto a “clarividência magnética”.
Os efeitos residuais destes sonhos superiores.
A importância do universo onírico para a formação e o florescimento do espírito.
O universo onírico desempenha geralmente um grande papel na formação e florescimento do nosso espírito.
O grau superior do sonho parece merecer um estudo mais aprofundado.
O psicólogo não terá dificuldade em encontrar muitas marcas dele.