SCHOPENHAUER, Arthur. Parerga und Paralipomena: Kleine philosophische Schriften. 2 volumes. Berlin: A. W. Hayn, 1851.
“On Education.” In: Arthur Schopenhauer, Parerga and Paralipomena. Volume II. Translated by E. F. J. Payne. Oxford: Oxford University Press, 1974, pp. 627–633.
Em virtude da natureza do nosso intelecto, os conceitos devem surgir por meio da abstração a partir das percepções intuitivas e, portanto, estas últimas devem existir antes dos primeiros. Se esse caminho for de fato seguido, como é o caso do homem que tem como único professor e livro a própria experiência, então ele sabe muito bem quais percepções intuitivas pertencem a cada um de seus conceitos e são por eles representadas. Ele conhece ambas com exatidão e, consequentemente, lida com precisão com tudo o que lhe acontece. Podemos chamar essa forma de educação de educação natural.
Por outro lado, na educação artificial, a mente é sobrecarregada com conceitos por meio de palestras, aulas e leituras, antes mesmo de haver um conhecimento mais amplo do mundo da percepção intuitiva. Supõe-se então que a experiência forneça posteriormente as percepções intuitivas para todos esses conceitos; mas, até lá, estes são aplicados de forma equivocada e, consequentemente, pessoas e coisas são julgadas a partir de um ponto de vista errado, vistas sob uma luz equivocada e tratadas de maneira equivocada. Dessa forma, a educação produz mentes distorcidas e tendenciosas, razão pela qual, em nossa juventude, após muito aprender e ler, entramos no mundo em parte como ingênuos e em parte como excêntricos, e então nos comportamos de maneira nervosa em um momento e precipitada em outro. Pois nossas mentes estão repletas de conceitos que agora tentamos aplicar, mas que quase invariavelmente introduzimos de maneira imprudente e absurda. Essa é a consequência daquela “confusão entre o anterior e o posterior, ou entre o fundamento e a consequência”, pela qual obtemos, em primeiro lugar, conceitos e, em último lugar, percepções intuitivas, em oposição direta ao curso natural de nosso desenvolvimento mental. Pois, em vez de desenvolver na criança a capacidade de discernir, julgar e pensar por si mesma, os professores preocupam-se apenas em encher sua cabeça com ideias prontas de outras pessoas. Uma longa experiência tem então que corrigir todos esses julgamentos que resultaram de uma aplicação errada de conceitos. Raramente isso é totalmente bem-sucedido; e, assim, muito poucos estudiosos possuem o bom senso comum que se encontra frequentemente entre os totalmente analfabetos.
De acordo com o que foi dito, o ponto principal da educação é que o conhecimento do mundo, cuja obtenção pode ser descrita como o objetivo de toda a educação, seja iniciado pelo ponto certo. Mas isso depende, como já mostrei, principalmente do fato de que, em cada coisa, a percepção intuitiva precede o conceito; além disso, de que o conceito mais restrito precede o mais amplo; e de que toda a instrução ocorre, assim, na ordem em que os conceitos das coisas pressupõem uns aos outros. Mas, assim que algo é omitido nessa sequência, resultam conceitos defeituosos e, a partir deles, surgem conceitos falsos e, finalmente, uma visão distorcida do mundo, peculiar a cada indivíduo, que quase todos mantêm por algum tempo e muitos por toda a vida. Quem aplicar o teste a si mesmo descobrirá que uma compreensão correta ou clara de muitas coisas e circunstâncias bastante simples só lhe surgiu em uma idade bastante madura e, às vezes, de forma bastante repentina. Até então, havia, em seu conhecimento do mundo, um ponto obscuro que havia surgido por ter pulado o assunto no período inicial de sua educação, quer isso tenha sido artificial por parte dos instrutores, quer meramente natural por meio de sua própria experiência.
Assim, deve-se procurar examinar a sequência realmente natural do conhecimento, de modo que as crianças possam se familiarizar com as coisas e circunstâncias do mundo metodicamente e de acordo com essa sequência, sem que lhes sejam incutidas na cabeça ideias absurdas que, muitas vezes, não podem mais ser removidas. Aqui, seria preciso, em primeiro lugar, impedir que as crianças usassem palavras às quais não associassem nenhum conceito claro. Mesmo as crianças têm, com frequência, a tendência fatal de se contentarem com palavras em vez de tentarem compreender as coisas, além de um desejo de decorar tais palavras para se safarem de uma dificuldade quando a ocasião surgir. Essa tendência permanece posteriormente, quando crescem, e é por isso que o conhecimento de muitos estudiosos é mera verborragia. Mas o ponto principal deve ser sempre que as percepções intuitivas precedam os conceitos, e não o contrário, como costuma acontecer, infelizmente; como se uma criança viesse ao mundo com os pés primeiro, ou um verso fosse escrito com a rima primeiro! Assim, enquanto a mente da criança ainda é bastante pobre em percepções intuitivas, conceitos e julgamentos — ou melhor, preconceitos — são impressos nela. Ela então aplica esse aparato pré-fabricado à percepção intuitiva e à experiência. Em vez disso, os conceitos e julgamentos deveriam ter se cristalizado a partir da percepção intuitiva e da experiência. Tal percepção é rica e variada e, portanto, não pode competir em brevidade e rapidez com o conceito abstrato, que logo encerra e dá conta de tudo; e, assim, levará muito tempo para corrigir tais noções preconcebidas, ou talvez nunca consiga pôr fim a isso. Pois, seja qual for o aspecto que se mostre contraditório em relação a essas noções preconcebidas, sua afirmação é rejeitada antecipadamente como sendo unilateral, ou é até mesmo negada; e as pessoas fecham os olhos para ela, a fim de que a noção preconcebida não sofra nenhum dano. E assim acontece que muitos carregam por toda a vida um fardo de noções absurdas, caprichos, excentricidades, fantasias e preconceitos que, em última instância, se tornam ideias fixas. Na verdade, ele nunca tentou abstrair por si mesmo conceitos fundamentais a partir da percepção intuitiva e da experiência, porque aceitou tudo pronto; e é justamente isso que o torna, assim como a inúmeras outras pessoas, tão superficial e insípido. Portanto, em vez disso, o curso natural da formação do conhecimento deve ser mantido desde a infância. Nenhum conceito deve ser introduzido a não ser por meio da percepção intuitiva; de forma alguma deve ser fundamentado sem isso. A criança obteria, então, poucos conceitos, mas estes seriam bem fundamentados e precisos. Ela aprenderia, então, a avaliar as coisas segundo seu próprio critério, em vez de usar o de outra pessoa. Nunca conceberia mil caprichos e preconceitos cuja erradicação inevitavelmente exigiria a maior parte da experiência posterior e da escola da vida; e sua mente se acostumaria de uma vez por todas à rigor e clareza de seu próprio julgamento e à liberdade de preconceitos.
As crianças, em geral, não devem se familiarizar com a vida em todos os aspectos a partir de uma cópia antes de conhecê-la pelo original. Portanto, em vez de nos apressarmos a colocar apenas livros em suas mãos, vamos fazê-las se familiarizar gradualmente com as coisas e as circunstâncias humanas. Acima de tudo, devemos nos empenhar em proporcionar-lhes uma compreensão clara da vida real e capacitá-las a extrair seus conceitos sempre diretamente do mundo da realidade. Elas devem formar tais conceitos de acordo com a realidade e não obtê-los de qualquer outro lugar — seja de livros, contos de fadas ou das conversas alheias — para, posteriormente, aplicá-los prontos à vida real. Pois, nesse caso, suas mentes ficarão cheias de quimeras e, em certa medida, elas interpretarão erroneamente a realidade ou tentarão em vão remodelá-la de acordo com tais quimeras, desviando-se assim teoricamente ou até mesmo na prática. Pois é incrível o quanto de dano é causado por quimeras implantadas desde cedo e pelos preconceitos que delas decorrem. A educação posterior que nos é proporcionada pelo mundo e pela vida real deve, então, ser utilizada principalmente para erradicar tais preconceitos. Até mesmo a resposta dada por Antístenes, segundo Diógenes Laércio, baseia-se nisso: “Quando questionado sobre qual fosse a coisa mais necessária a se aprender, ele respondeu: ‘desaprender o que é ruim’.”
Justamente porque os erros absorvidos desde cedo costumam estar profundamente gravados e são indeléveis, e o poder de julgamento é a última coisa a atingir a maturidade, devemos manter as crianças até os dezesseis anos livres de todas as teorias e doutrinas nas quais possam existir grandes erros. Assim, elas devem ser mantidas afastadas de toda filosofia, religião e visões gerais de todos os tipos, e deve-se permitir que se dediquem apenas àquelas disciplinas nas quais ou não há possibilidade de erros, como na matemática, ou nenhum é muito perigoso, como nas línguas, nas ciências naturais, na história e assim por diante. De modo geral, em todas as idades, elas devem estudar apenas aqueles ramos do conhecimento que lhes sejam acessíveis e totalmente compreensíveis. A infância e a juventude são o período para coletar dados e adquirir um conhecimento especial e aprofundado de coisas individuais e particulares. Por outro lado, o julgamento, em geral, deve permanecer suspenso e as explicações definitivas devem ser adiadas. Como a capacidade de julgamento pressupõe maturidade e experiência, ela deve ser deixada em paz, e deve-se tomar cuidado para não antecipá-la incutindo preconceitos, o que a paralisaria para sempre.
Por outro lado, como a memória é mais forte e tenaz na juventude, ela deve ser especialmente estimulada; no entanto, isso deve ser feito com a mais cuidadosa seleção e planejamento meticuloso. Pois o que é bem aprendido na juventude permanece para sempre; e, portanto, essa faculdade preciosa deve ser utilizada para o maior proveito possível. Se nos lembrarmos de quão profundamente gravadas em nossa memória estão as pessoas que conhecemos nos primeiros doze anos de vida e de como os acontecimentos desses anos — e, de modo geral, a maior parte do que vivemos, ouvimos e aprendemos naquela época — também ficam indelevelmente impressos na memória, é perfeitamente natural basear a educação nessa receptividade e tenacidade da mente juvenil, orientando de forma estrita, metódica e sistemática todas as impressões que nela se formam, de acordo com preceitos e regras. Ora, visto que apenas alguns anos da juventude são concedidos ao homem e que a capacidade da memória em geral — e, mais ainda, a do indivíduo — é sempre limitada, é de suma importância preenchê-la com o que há de mais essencial e vital em qualquer ramo do conhecimento, excluindo todo o resto. Essa seleção deve ser feita, e seus resultados fixados e estabelecidos, após a mais madura deliberação pelas mentes e mestres mais capazes em cada ramo do saber. Tal seleção teria de se basear em uma triagem entre o que é necessário e importante para um homem saber de maneira geral e o que é importante e necessário para ele em qualquer profissão ou ramo específico do conhecimento. Além disso, o conhecimento do primeiro tipo teria de ser classificado em cursos graduais ou enciclopédias, adaptados ao grau de educação geral destinado a todos, de acordo com suas circunstâncias externas. Começaria com um curso limitado à educação primária mais básica e terminaria com a lista abrangente de todas as disciplinas ministradas pela faculdade de filosofia. O conhecimento do segundo tipo, no entanto, seria deixado à seleção dos verdadeiros mestres de cada área. O conjunto proporcionaria um cânone de educação intelectual especialmente elaborado, que naturalmente precisaria ser revisado a cada dez anos. Assim, por meio desses arranjos, a capacidade de memória dos jovens seria aproveitada da melhor maneira possível e forneceria excelente material para a capacidade de julgamento quando esta surgisse posteriormente.
A maturidade do conhecimento, ou seja, a perfeição que este pode alcançar em cada indivíduo, consiste no fato de que foi estabelecida uma conexão precisa entre todos os seus conceitos abstratos e sua faculdade de percepção intuitiva. Assim, cada um de seus conceitos repousa, direta ou indiretamente, sobre uma base de percepção intuitiva, e somente por meio dela tal conceito possui algum valor real. Além disso, essa maturidade consiste em sua capacidade de enquadrar sob o conceito correto e apropriado toda percepção intuitiva que lhe ocorra; é obra exclusiva da experiência e, consequentemente, do tempo. Pois, como frequentemente adquirimos nosso conhecimento por meio da percepção intuitiva e nosso conhecimento abstrato separadamente — o primeiro de forma natural e o segundo por meio do ensino e do que os outros nos dizem, seja bom ou ruim —, muitas vezes, na juventude, há pouca concordância e conexão entre nossos conceitos, fixados por meras palavras, e nosso conhecimento real, obtido por meio da percepção intuitiva. Somente gradualmente os dois se aproximam e se corrigem mutuamente; e a maturidade do conhecimento só existe quando eles se uniram completamente. Tal maturidade é totalmente independente da maior ou menor perfeição das habilidades de cada um, que não repousa na conexão entre o conhecimento abstrato e o intuitivo, mas no grau de intensidade de ambos.
Para o homem prático, o estudo mais necessário é a aquisição de um conhecimento exato e profundo dos caminhos reais do mundo. Mas é também o mais cansativo, já que se prolonga até ele ficar muito velho, sem que chegue ao fim de seu estudo; ao passo que, nas ciências, ele domina os fatos mais importantes quando ainda é jovem. Nesse conhecimento, o menino e o jovem precisam aprender, como novatos, as primeiras e mais difíceis lições; mas mesmo o homem maduro muitas vezes precisa recuperar muitas lições. Essa dificuldade, por si só, já é grave, mas é agravada pelos romances que descrevem uma situação e um curso de ações humanas que, na verdade, não ocorrem na vida real. Essas obras são agora aceitas com a credulidade da juventude e assimiladas pela mente, de modo que o lugar da mera ignorância negativa é agora ocupado por todo um tecido de suposições falsas, como erros positivos, que posteriormente confundem até mesmo a própria escola da experiência e fazem com que seus ensinamentos apareçam sob uma luz equivocada. Se antes o jovem tateava no escuro, agora ele é enganado por um fogo-fátuo; e isso ocorre com ainda mais frequência no caso das meninas. Por meio dos romances, impõe-se a elas uma visão totalmente falsa da vida e despertam-se expectativas que nunca poderão ser realizadas. Em muitos casos, isso exerce a influência mais perniciosa sobre toda a sua vida. Nesse aspecto, aqueles que, na juventude, não tiveram nem tempo nem oportunidade de ler romances — como artesãos, mecânicos e similares — têm uma vantagem decisiva.
Existem alguns romances que são exceções e não merecem a crítica acima; na verdade, eles têm o efeito oposto. Por exemplo, temos, acima de tudo, Gil Blas e as outras obras de Lesage (ou melhor, seus originais em espanhol); depois, O Vigário de Wakefield; e, em certa medida, os romances de Sir Walter Scott. Dom Quixote pode ser considerado uma representação satírica desse próprio caminho equivocado.