Friedrich Schlegel (1772–1829)
Giovanni Reale
A finalidade do pensamento de Schlegel: encontrar o infinito com meios finitos
Friedrich Schlegel (1772–1829) partiu do classicismo de Winckelmann e das teorias de Schiller, mas logo desenvolveu um pensamento autônomo, sobretudo após a leitura da Doutrina da ciência de Fichte e o contato pessoal com Fichte e com Schelling.
Central em seu pensamento — como no de todo romântico — é a concepção do Infinito, ao qual se pode chegar pela filosofia ou pela arte, sempre mediante meios finitos.
A verdadeira dificuldade está precisamente aí: encontrar o acesso ao Infinito com os meios do finito.
Schlegel tentou mover-se nas duas direções, mas em filosofia criou apenas um conceito verdadeiramente original — o de ironia — enquanto o restante permaneceu fragmento e esboço.
Sua teoria da arte constitui o melhor que ele ofereceu à sua época.
O conceito metafísico de ironia
A ironia em Schlegel retoma o conceito socrático, mas o transforma profundamente, ampliando-o a horizontes teóricos muito mais vastos.
Em Sócrates, a ironia era a simulação do jogo do adversário com o objetivo de refutá-lo por meio de suas próprias armas.
Em Schlegel, a ironia pressupõe a concepção do Infinito como objetivo a alcançar e a inadequação de todo pensamento que visa ao Infinito, por ser sempre um pensamento determinado.
A ironia é a atitude espiritual que tende a superar e a dissolver esse “determinado”, empurrando sempre além.
Ela suscita um sentimento de contradição ineliminável entre o condicionado (finito) e o incondicionado (infinito) e, ao mesmo tempo, o desejo de eliminá-la — daí o sentimento da “impossibilidade e necessidade da perfeita mediação” a um só tempo.
A nova ironia se configura como o senso da inadequação de todo ato ou fato do espírito humano diante da infinitude, e nela o elemento do humor tem papel decisivo.
Esse conceito é o contraponto — de tonalidade aparentemente clássica, mas profundamente romântico — do sentimento de Sehnsucht (anseio lancinante).
Nicolai Hartmann caracterizou esse conceito com precisão: “Schlegel é profundamente compenetrado pela inexprimibilidade e incompreensibilidade mística de tudo o que é o último e autêntico objeto do pensamento.”
Hartmann prossegue: o humor “com o qual o pensamento ao fim ironiza sobre si mesmo e se suprime, é precisamente a admissão profundamente justa e grandiosa da própria impotência” — e acrescenta que se trata de “um vagar pressentido nos arredores do inacessível”, do salto do pensamento no vazio.
Para Hartmann, “a forma desse abandono de si é a ironia, o humor, o riso sobre si mesmo.”
A arte como síntese entre finito e infinito
A arte, segundo Schlegel, é obra do gênio criador, que realiza uma síntese de finito e infinito, exercendo entre os homens uma missão elevadíssima.
O superar-se do espírito humano e o colocar-se progressivamente acima dos limites e de toda finitude valem não apenas para a filosofia, mas também para a ética, a arte e todas as formas da vida espiritual — constituindo uma autêntica cifra romântica.
O verdadeiro artista é aquele que se anula como ser finito para tornar-se veículo do infinito.
Assim entendida — como síntese de finito e infinito — a arte assume também um aspecto religioso, pois religião é “toda relação do homem com o infinito”, e toda religião é mística, pois é “vida em Deus.”
Schlegel indicou a essência da moralidade na “individualidade” humana que se desdobra, resumindo seu pensamento na máxima: “Pensa-te como um ser finito educado para o infinito, e então pensarás um homem.”
Em 1808, Schlegel converteu-se e abraçou o catolicismo — desfecho estrondoso de uma crise religiosa que atormentou quase todos os românticos, mas que ele, diferentemente dos outros, quis e soube levar às suas extremas consequências.