SCHELLING, Friedrich Wilhelm Joseph von. Clara, or, On nature’s connection to the spirit world. Albany, NY: State University of New York Press, 2002.
Consciência originária e seu caráter de pura substancialidade, identificada como poder-ser que conduz a si mesmo e portanto mestre de si mesmo, porém contendo em si, como impossível de excluir, a possibilidade de transitar ao ser. Essa possibilidade subjacente representa a potência que não tolera a mera contingência, entendida como aquilo que poderia ser e não ser, sendo portanto fortuito e não merecido. Tal potência é nomeada Nêmese, que revela à consciência, até então apenas posta fortuitamente como senhora de si, a possibilidade de emergir da pura substancialidade.
Apresentação efetiva da possibilidade de ser-outro à consciência como momento terceiro, caracterizado como ilusório e enganador, a Primeira Tromba (Tromperie Première), correspondente a Áte (Átē) em Hesíodo, filha de Nix (Núx). Exibida essa possibilidade à vontade, inaugura-se o quarto momento, no qual a vontade até então imóvel quer o ser que lhe foi mostrado, abandonando assim o poder-ser límpido que era para erigir-se ao ser contingente e revestido.
Evento primordial (Urereignis) ou fato irrecusável (factum) que marca o início da história e da mitologia, ocorrendo inteiramente na meta-história, além do alcance da lembrança consciente. Tal evento é o Arqui-Acidente (Archi-Hasard), representado na Fortuna Primigênia (Fortuna Primigenia) venerada em Preneste, celebrando o poder ser e não ser como primeiro princípio de todo ser. É uma fatalidade imemorial (unvordenkliches Verhängnis), pois antecede toda capacidade de imaginação ou reminiscência da consciência.
Consequência não intencional do ato primordial, que surpreende a vontade com o não-desejado e inesperado, fixando-se na consciência emergente após o evento. A nova consciência efetiva, radicalmente alterada pelo ato que a gerou, não pode recordar-se do próprio evento, pois perdeu a identidade com sua condição anterior. A abolição dessa identidade, analogamente ao que ocorre com sonâmbulos, extingue a possibilidade de reminiscência.
Vestígios obscuros do evento primordial, que somente serão descobertos na mitologia posterior, especialmente na mitologia grega, entendida como termo de um processo. Figuras como Nêmesis e Perséfone encarnam os momentos iniciais desse processo. Perséfone particularmente reúne em si todos os momentos distinguidos: a potência da consciência originária, a possibilidade de ser-outro ainda não efetivada, e a submissão ao destino mitológico após sua emergência.
Essência originária do homem como mestre de si mesmo (A), contendo em si B como matéria e potência, portanto como possibilidade de ser-outro e de não ser A. A essa potência, entregue ao homem para ser conservada como possibilidade, atribui-se caracterização feminina espontânea, enquanto a vontade que pode atualizá-la é masculina. Tal dualidade não deriva da natureza, mas é princípio inteligível que fundamenta a própria distinção genérica natural.
Arqui-possibilidade como entidade efetiva e inteligível, singular e determinada, não uma categoria abstrata. Na representação mitológica, essa potência da consciência originária é Perséfone em pessoa, não sendo meramente simbolizada por ela. Consciência originária apresenta-se como natureza andrógina, onde o ente (masculino/vontade) e o poder-ser (feminino/possibilidade) ainda estão unidos, em estado de indiferenciação genérica.
Estado de inocência e virgindade de Perséfone, correspondente à consciência originária em sua condição primeira, onde a dualidade genérica não está separada e não há antítese. Nesse estado, a potência permanece em pura essencialidade, livre de toda necessidade e contenda, guardada em uma cidadela inacessível, lugar de alegria e beatitude primordial (kath’ exochēn), analogamente ao jardim do Éden na narrativa bíblica, entendido como espaço fechado e protegido.
Duplicidade de Perséfone, distinguindo entre a que permanece interior (éndon hólē méneusā) e a que sai para fora (proíeisā). Sua emergência (próodos) é um movimento silencioso e inesperado, um pro-serpere (rastejar para frente), associado ao caráter furtivo da serpente. Ao aparecer, torna-se o inopinado, o impensado, identificada como Fatum, Móros e Fortuna Adversa, o primeiro infortúnio de onde derivam todos os demais.
Processo de subjugação de Perséfone, que, ao sair de seu retiro virginal e voltar-se para fora, submete-se a um processo inevitável, tornando-se consciência votada à perdição (dem Untergang geweichte). Desde o início é destinada a ser raptada por Hades, deus do mundo inferior, representando na mitologia efetiva a consciência já assujeitada ao processo mitológico.
Ilusão da consciência de que a possibilidade (B) lhe foi entregue para ser efetivada, quando na verdade deveria apenas conservá-la como potência. O homem, ao erigir essa possibilidade à efetividade, vê-a voltar-se contra si, submetendo-o a um princípio que ultrapassa os limites da consciência humana. Ao pretender, como Deus, colocar em obra o princípio que deveria guardar, o homem perde sua semelhança divina.
Interpretação da passagem bíblica em que Deus diz “eis que o homem se tornou como um de nós”. O sentido correto é que o homem, outrora igual à totalidade da Divindade, tornou-se igual apenas a um dos Elohim (B), separando-se da unidade divina e assim perdendo a semelhança com Deus. O Deus que exclui os outros não é o verdadeiro Deus, que sempre é unidade que inclui as três potências (1+2+3).
Surgimento do politeísmo sucessivo a partir da consciência que, ao fazer de B um Deus exclusivo e falso, nega as potências superiores (A²). Essas potências, não sendo nada absoluto mas também não sendo não-Deus, são postas como deuses que irromperão sucessivamente na consciência. Esboça-se assim um politeísmo no qual as potências divinas intervêm de maneira sucessiva, iniciando um processo de restauração necessária da vida divina frente ao enclausuramento da consciência em B.
Preliminares da mitologia delineados não apenas filosoficamente, mas no interior da própria mitologia, que assim toma consciência de si mesma. O processo mitológico é posto como necessidade inelutável a partir da transição fatal operada pela emergência da potência oculta e sua subsequente dominação pela consciência humana.