7.7 Ideias

VETO, Miklos. De Kant à Schelling: les deux voies de l’idéalisme allemand. Grenoble: J. Millon, 1998.

1. A Exposição de meu Sistema da Filosofia é um anúncio estrondoso de ruptura com tudo o que é limitado, tudo o que é mera “reflexão” na posição transcendental, marcando o advento do saber absoluto. O idealismo absoluto, porém, é preparado e acompanhado pela filosofia da arte, e esta, por sua vez, recorre com predileção à mitologia.

2. Os deuses, esses descendentes das Mônadas de Leibniz, são seres naturais eternos. São bem-aventurados, gozam de felicidade além da oposição entre felicidade e virtude. Toda cisão, inclusive a de existência e essência, lhes é estranha.

3. Os deuses constituem um mundo, sendo a mitologia um todo orgânico, fechado. E esse mundo não é apenas um conjunto harmonioso de divindades, uma coexistência ordenada de figuras particulares.

4. Deuses e ideias são noções quase intercambiáveis; a Ideia, porém, logo ultrapassará sua ilustração por excelência, tornando-se conceito-chave do idealismo absoluto em sua primeira formulação.

5. Conhece-se a ideia pela intuição intelectual, que é um saber indiviso, um desdobramento imanente. A intuição intelectual, expressão suprema do retorno a si do eu, essa “apercepção absoluta”, diz respeito à natureza, identidade do produzente e do produto, e à arte, identidade da espontaneidade e da passividade.

6. A noção suprema desse idealismo é o Absoluto, identidade perfeita do Ser (Wesen) e da Forma. Essa identidade não poderia estar presente como tal num ser particular, mas nele pode refletir-se.

7. Trata-se aqui de uma continuação do filosofema do sujeito-objeto, entrevisto já não sob o aspecto do desdobramento sucessivo dos momentos, mas sob o de uma afirmação integral e paralela em cada um dos particulares.

8. As ideias são totalidades, realidades completas, fechadas sobre si mesmas, e é nesse fechamento, nessa autarquia, que são o Todo. Como o Absoluto, cada ideia é tanto unidade quanto totalidade. Cada ideia é a si mesma e o Todo.

9. Prefigurada pelo organismo, pela obra de arte e pela figura mitológica, a ideia se torna aqui instância de inteligibilidade perfeita. Inteligibilidades integrais em si mesmas, as ideias constituem um universo de articulação perfeita.