VETO, Miklos. De Kant à Schelling: les deux voies de l’idéalisme allemand. Grenoble: J. Millon, 1998.
1. Schelling designa a natureza inorgânica como “uma inteligência não madura (unreif)”. Ela chegará à maturidade na esfera orgânica, sobretudo nos animais e finalmente no homem. A metáfora de ordem orgânica não é fortuita.
Unreif e reif denotam os estágios sucessivos de um cumprimento. É o mesmo princípio que atua nos seres da natureza, uma tendência imanente que, sob os traços do crescimento biológico, marca os momentos de uma progressão, de um aperfeiçoamento metafísicos
o crescimento, por outro lado, não implica apenas uma linha em progressão, mas alimenta tacitamente a esperança de poder medir os diversos estágios da sucessão e, sobretudo, de atribuir aos produtos um lugar, uma posição no todo. Dito de outro modo, de deduzi-los a priori
é preciso compreender a natureza como uma sucessão contínua de modificações a partir de um original, de uma forma primitiva, sendo os momentos particulares dessa sucessão como que seus degraus
2. Vê-se então melhor por que Schelling aprecia a expressão Stufenfolge, escala graduada, para a sucessão das formas da natureza. A escala não é uma simples linha, mas uma construção que tem degraus.
os fenômenos da natureza correspondem aos degraus da passagem da produtividade a produto. As figuras da natureza são degraus do mesmo organismo absoluto, e em cada grau de sua evolução a natureza se limita a uma única figura, a única possível naquele momento
3. É aqui que a Naturphilosophie mais se aproxima de ser uma lógica universal, ou mesmo positiva, mas é também aqui que toca seus limites. Consciente ou inconscientemente, o schellingismo aspira a uma dedução dos momentos particulares da natureza.
essa dedução, porém, não poderá chegar às funções particulares, e menos ainda às formas particulares. “A continuidade das espécies”, que o naturalista afirma, só se elabora e se enuncia segundo traços característicos exteriores
o idealismo não perde a esperança de dar conta em conceito da multiplicidade dos fenômenos que a natureza, estágio inconsciente da inteligência, produzira, mas a série ideal não é aqui construível em sua totalidade, sendo preciso contentar-se em poder deduzir a priori os princípios gerais da produtividade
nem as funções nem as formas naturais particulares são dedutíveis. Pode-se, em contrapartida, admitir a continuidade conceitual das funções orgânicas em geral, e explicar as formas particulares, senão como qualidades, imagens ou essências, ao menos como relações recíprocas de proporções
não se pode fazer surgir a figura individual a partir de uma preformação hipotética, mas pode-se compreendê-la como resultado da interação de certas funções inorgânicas ou orgânicas. Cada figura da natureza é o fenômeno de uma proporção determinada de atos primitivos, a expressão visível de uma relação particular de forças orgânicas
o que se chama qualidades na natureza são determinações particulares da matéria que têm seu princípio nas relações respectivas dos corpos às três funções elementares do magnetismo, da eletricidade e do quimismo. As formas particulares da natureza não são suscetíveis de dedução a priori segundo sua singularidade, segundo o indivíduo, mas podem ser compreendidas como elementos, como momentos da progressão de um todo
4. Não podendo reduzir a imagem a conceito nem o particular a universal, as leis particulares, e a fortiori as funções particulares naturais, não podem ser deduzidas. Constata-se, certamente, “o encadeamento geral” da natureza, que permite sua construção filosófica.
ora, se a Naturphilosophie se quer dedução do particular, se crê poder deduzir a gradação dinâmica da natureza, em suma, se se pode admitir a ideia de uma história a priori da natureza, os momentos particulares da natureza não poderiam constituir uma lógica transcendental
5. Imediatamente antes do advento do sistema da identidade, Schelling designa o magnetismo, a eletricidade, o processo químico como as categorias gerais da física. Ora, é precisamente o abandono de toda veleidade de construir o movimento da natureza como lógica transcendental que marca a virada da especulação.
como a Wissenschaftslehre, também a Naturphilosophie é o desdobramento de sínteses sucessivas. A natureza é o processo da produtividade, o desenrolar de seu conflito com o produto. É uma dialética em que a ação recíproca dos dois fatores primitivos da produtividade e do produto aparece como uma série de momentos, os graus do processo natural
a natureza é um processo racional, uma progressão metafísica, sendo o sonho do filósofo conhecer a priori seus momentos sucessivos. A ambição do pensamento é apresentar uma história da natureza que seria um sistema da natureza
a dedução que
Kant não pudera sistematizar, que
Fichte só aplicava no domínio ideal, deveria estender-se à natureza. Ora, no exato momento em que
Schelling terá ido o mais longe possível nessa direção, percebe-lhe os limites, e essa constatação marca uma virada em sua reflexão
Schelling compreende que a Naturphilosophie nunca poderia tornar-se uma lógica positiva, mas o aprofundamento de sua reflexão resultará, como que em compensação, numa extensão do alcance metafísico de suas pesquisas
6. A Naturphilosophie é uma lógica da progressão em ação na esfera natural. Ora, Schelling discerne os limites de uma metafísica da sucessão, de uma metafísica descendente, e se volta para uma construção por assim dizer horizontal da totalidade.
no exato momento em que passa a perceber a limitação radical de seu idealismo da natureza, consegue abolir a separação entre natureza e eu. O paralelismo da natureza e da inteligência se transpõe na continuidade de um mundo uno
a natureza e a inteligência devem doravante ser compreendidas a partir de seu fundamento comum, o sujeito-objeto. A Naturphilosophie se torna, imperceptivelmente, uma filosofia completa
o idealismo já não se dedica à leitura do desdobramento das sínteses sucessivas, mas à explicação da homogeneidade sem falha de todo o real. Se a tarefa da especulação era até então a análise do ritmo da sucessão noética, terá agora de desdobrar a estrutura da composição das totalidades harmoniosas
e o deslizamento se realiza no próprio seio do Primeiro Esboço, que é no entanto o monumento essencial da dialética da produtividade
7. A Naturphilosophie estava fortemente inspirada pelo fichteísmo, ele mesmo tributário da dedução transcendental, portanto da Primeira Crítica. Ora, a renovação do schellingismo se realizará a partir da Terceira Crítica, “a obra mais profunda” de Kant.
em Jena,
Schelling completa o teleológico com o estético. Recentraliza a filosofia da natureza em torno da noção de organismo, o que lhe permitirá apresentar a arte como o cume de suas construções. O organismo e a arte, essas duas instâncias supremas da reciprocidade autossuficiente, resultarão no Absoluto como Ideia
8. O organismo é o ponto culminante da natureza, o mais alto objeto da razão teleológica. Ora, Schelling estenderá a noção a toda a natureza: a natureza animada, como a natureza inanimada, é um organismo.
é no e pelo organismo que a sucessão da natureza se fecha sobre si mesma, numa simultaneidade, numa regularidade completas de seus elementos. Ao identificar produtivo e orgânico,
Schelling curva a reta linear da sucessão no círculo do presente eterno
desde os Antigos, o círculo gozava de superioridade em relação à linha reta, e o jovem
Schelling reformula essa superioridade. A transposição da produtividade em organismo interiorizará a sucessão mecânica
já A Alma do Mundo apresenta o essencial da tese: ali onde a natureza detém a corrente da causa-efeito, a flecha se torna círculo e retorno a si mesmo. E é o retorno a si mesmo do circular que se reivindica como sinal de suprema inteligibilidade
de um ponto de vista exterior, o orgânico é uma matéria cuja cada porção reflete e manifesta o todo. Ora, o que importa é que a expressividade perfeita de cada porção do organismo traduz a imanência e a autarquia metafísicas dessa esfera
o orgânico se produz a si mesmo e surge a partir de si mesmo. Seu conceito habita nele, não fora dele, e, por isso, se organiza a si mesmo. A maravilha da reciprocidade que é a vida do organismo abole a má causalidade exterior da eficiência
o organismo é tanto sua própria causa quanto seu próprio efeito, sendo portanto a identidade da causa e do efeito. Segundo sua maior generalidade metafísica, o organismo é sujeito-objeto
9. Schelling representa todo o real como uma planta, mas o essencial são as aproximações que efetua entre o orgânico e as diversas instâncias da perfeição. O organismo perfeito é a figura humana, e o Estado perfeito é um verdadeiro organismo.
e uma importante definição do Sistema do Idealismo Transcendental declara que cada planta é um símbolo da inteligência. A planta pode ser tomada por símbolo da inteligência, na medida em que esta é a instância suprema do retorno a si, da coincidência consigo mesma, no caso da produção e da produção de si
Schelling chama o organismo de imagem ou cópia da razão, ou seu análogo, definindo o racional como o membro orgânico de um todo. Trata-se sempre dessa identidade dos opostos que, como unidade harmoniosa dos princípios supremos, se quer superação da lógica dos graus em favor de uma metafísica das totalidades
e o organismo é o predecessor imediato da totalidade perfeita que é a obra de arte, esse último avatar da especulação a caminho da Ideia.