7.4 Produtividade e produto

VETÖ, Miklos. De Kant à Schelling: les deux voies de l’idéalisme allemand. Grenoble: J. Millon, 1998.

1. Schelling celebra o cumprimento da natureza no homem, cumprimento há muito preparado pelo processo natural inteiro. A natureza é, sim, o passado do homem, mas esse passado não está separado do presente por divisórias estanques.

2. Conceber a natureza como o passado inconsciente do eu, e o homem como o cumprimento do movimento da natureza, equivale a estabelecer continuidade entre os diversos graus do ser, e a ler em todo o real uma homogeneidade inteligível.

3. Ora, o princípio da homogeneidade não diz respeito apenas ao universo da vida, da existência, mas também da essência: de um único ponto em pulsação a natureza se desenvolve num sistema. As coisas do mundo são os momentos de uma força, mas também de uma forma.

4. A Naturphilosophie — lê-se no Primeiro Esboço — não tem por objetivo a explicação da continuidade da produtividade, mas a de sua interrupção, da fixação de seu movimento, em suma, de seus produtos. A natureza se deixa deduzir a partir da produtividade.

5. Schelling apresenta o mundo como lugar de uma luta incessante. Essa luta tem sua gênese metafísica na cisão primordial que é a própria vida da natureza. Ora, a essência profunda da natureza é a identidade, e a produtividade não é senão o meio por excelência de que ela dispõe para reconquistar a identidade.

6. O idealismo schellingiano ensina a inteligibilidade da natureza. A inteligibilidade é articulação. Isso significa que a identidade-homogeneidade da natureza deve diferenciar-se.

7. A doutrina do compromisso fundador da natureza, a descrição da natureza como uma produtividade a cada instante em trânsito no produto, funda a existência do produto ou, se se quiser, o produto em geral. Ora, a Naturphilosophie ambiciona também a explicação do produto particular, isto é, a dedução dos momentos da natureza.

8. Oposto à fluidez absoluta da produtividade, o produto aparece como o rígido ou o fixo. O rio da natureza é uma corrente poderosa, ou antes um redemoinho onde se fazem e desfazem núcleos fixos. A produtividade gostaria de correr com velocidade infinita, mas os produtos retardam, ou antes atrasam, sua progressão.

9. A dualidade geral da natureza aparece pelo retardamento primitivo da produtividade. A natureza luta contra esse retardamento cujo princípio, porém, está inscrito em seu próprio coração. Para poder existir efetivamente, ela deve admitir pontos de obstáculo.

10. A qualidade é a forma primitiva da produtividade, a primeira formação que se destaca de seu processo. Traduz a impossibilidade em que se encontra a matéria de recair em sua primordialidade, explicitando os momentos do encadeamento que levam uma existência de virtualidade no seio do puro fluxo da produtividade.

11. Tradicionalmente, considera-se a multiplicidade das qualidades como esfera recalcitrante ao conceito, um mundo de realidades sem afinidade mútua, inapto a integrar um encadeamento regular. Schelling, porém, crê entrever nas qualidades graus do desenvolvimento da natureza, momentos dessa história que expõe uma teoria a priori da natureza.

12. Schelling sempre prezou a imagem da escada dos seres, da grande cadeia da vida. Do musgo, em que mal se distinguem traços do organismo, até a figura sublime que se libertou das cadeias da matéria, é sempre a mesma tendência em ação.